{"id":68932,"date":"2025-07-31T11:02:52","date_gmt":"2025-07-31T10:02:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=68932"},"modified":"2025-07-31T11:02:52","modified_gmt":"2025-07-31T10:02:52","slug":"a-cronica-de-manuel-vicente-antonio-miguel-silva-1957-2025-o-revolucionario-tranquilo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-manuel-vicente-antonio-miguel-silva-1957-2025-o-revolucionario-tranquilo\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Manuel Vicente: &#8220;Ant\u00f3nio Miguel Silva (1957-2025) &#8211; O revolucion\u00e1rio tranquilo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-PT\">Comecei por conhecer o Ant\u00f3nio Miguel na turbul\u00eancia dos anos que se sucederam \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o do 25 de Abril, com muitas pol\u00e9micas, casos e equ\u00edvocos mais ou menos de natureza pol\u00edtica e com as tonalidades exacerbadas que atingiriam o pin\u00e1culo do \u00eaxtase revolucion\u00e1rio no ver\u00e3o de 1975, h\u00e1 portanto cinco d\u00e9cadas, mas que se prolongariam ainda durante uns anos, at\u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o e as ilus\u00f5es que ela criou, como todas, sucumbir em cinzas, e se volatilizar no \u00e9ter das utopias e pousar na normalidade. Havia nessa altura uma tert\u00falia incans\u00e1vel no Caf\u00e9 Monumental, um caf\u00e9 cl\u00e1ssico, \u00e0 antiga, com a sua majestade e os seus clientes habituais, uns para jogar bilhar num piso ligeiramente inferior, outros para as damas numas mesas aos cantos, a nossa era mais ou menos a meio da sala, ia engrossando depois do almo\u00e7o para o debate permanente das grandes ideologias da \u00e9poca e das pequenas tricas do dia ou de v\u00e9speras, que ainda ressoassem. Todos n\u00f3s t\u00ednhamos convertido o Monumental num <\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>habitat<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\"> comum e inevit\u00e1vel. O Miguel, com pouco mais de 17 ou 18 anos, era ent\u00e3o um militante fervoroso das ideias maoistas e das que fossem capazes de p\u00f4r radicalmente o mundo ao avesso e dissipar do mapa a sociedade salazarenta com que t\u00ednhamos sido brindados desde que nos lembr\u00e1vamos de ser gente. E se era preciso mudar a sociedade, ent\u00e3o havia que a mudar para um mundo que valesse a pena, <\/span>um mundo realmente livre, igualit\u00e1rio e fraterno, um mundo sem<i> sobas<\/i> nem escravos, um mundo que podia ser ut\u00f3pico mas que, na espuma daquele tempo de idealismos e com a leveza da idade, que nos permitia levantar voos, pois havia pouco lastro na carlinga, \u00e9ramos capazes das ideias mais exorbitantes sem que isso nos pudesse envergonhar, antes pelo contr\u00e1rio. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A ideia social que t\u00ednhamos era praticamente igual, mas quanto aos caminhos para l\u00e1 chegarmos, isso j\u00e1 eram coisas muito diferentes. Claro que \u00e9ramos todos de esquerda, e quanto mais radicalmente \u00e0 esquerda mais prestigiado seria o estatuto e respeitado o respetivo militante. E havia tamb\u00e9m aquele curioso narcisismo da pequena diferen\u00e7a, que hoje distingue as seitas por \u00ednfimos detalhes, tornando-as inimigas, e na altura originava acesas discuss\u00f5es todas em defesa e em prol da classe oper\u00e1ria<span lang=\"pt-PT\">, apesar de nenhum de n\u00f3s ser membro dela, nem fazer grande ideia das suas amarguras. Uns eram socialistas, a maioria era adepta dos partidos chamados maoistas, marxistas, leninistas, trotskistas, cada ismo \u00e0 sua vez, outros com o talento de seguir e soletrar todos os catecismos ao mesmo templo, havia tamb\u00e9m os do PCP (habitualmente alvos de algum desd\u00e9m dos ultras), um ou outro anarquista sem grande relev\u00e2ncia, outros ainda que oscilavam como cata-ventos de acordo com as mar\u00e9s do pa\u00eds e os argumentos esgrimidos na arena do lend\u00e1rio Caf\u00e9 Monumental. Os mais aguerridos de todos n\u00f3s eram, n\u00e3o tenho d\u00favidas, os tipos do MRPP, cidad\u00e3os inflex\u00edveis, de verbo fino e cheios de \u00e9tica e pose aristocrata, eram os seguidores de Arnaldo de Matos, o guru \u201cgrande educador da classe oper\u00e1ria\u201d, eram a elite da revolu\u00e7\u00e3o, e o Miguel era um deles, um dos principais. Era preciso chegar a este ponto e ao ambiente pol\u00edtico e social no pa\u00eds de h\u00e1 50 anos para eu ter agora uma base sustent\u00e1vel e poder falar com mais fundamento do Miguel.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-PT\">Alguns anos depois, j\u00e1 poucos destes gladiadores de argumentos imbat\u00edveis nas discuss\u00f5es em torno de Karl Marx, Mao Zedong, Pierre-Joseph Proudhon, Bakunine, Karl Popper ou Rosa Luxemburgo, permaneciam no mesmo ponto cardeal, uns haviam mudado (e muito), outros j\u00e1 haviam desertado das arenas e refugiado atr\u00e1s de algum <\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>callej\u00f3n<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\"> para n\u00e3o levar umas marradas. Aqui, a postura do Ant\u00f3nio Miguel fez-me sempre admir\u00e1-lo, n\u00e3o tanto pela natureza da ideologia que perfilhava, e manteve at\u00e9 ao fim, mesmo quando a sa\u00fade o abandonou. Permaneceu leal ao seu movimento, e quanto menos eleitores o MRPP tinha nas urnas, maior a cren\u00e7a que lhe devotava, e isto sem nunca procurar lugares, cargos, chefias e, muit\u00edssimo menos, prebendas ou alguma mordomia. Tamb\u00e9m nunca foi proselitista para esta sua sua causa ou para causa alguma. De resto, tamb\u00e9m a sua paix\u00e3o ao glorioso Benfica seria a outra das marcas do seu car\u00e1cter arreigado, a que emprestava um humor proporcional \u00e0s circunst\u00e2ncias e sem nunca se aproximar de qualquer exagero destemperado. De resto, os nossos clubes, que eram diferentes, serviram com frequ\u00eancia para princ\u00edpios de conversa, onde aproveit\u00e1vamos para trocar alguns galhardetes e rir a bom rir no fim&#8230;Nunca nada em excesso, sabia relativizar, era um <\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>gentleman<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\"> tranquilo, quase sempre otimista, mesmo nos males que o come\u00e7avam a afetar, at\u00e9 o atirarem para uma cadeira de rodas nos \u00faltimos anos. Por vezes, estas duas paix\u00f5es eram mesmo um protextos para uma s\u00e3 convivialidade com os amigos em torno d<\/span><span lang=\"pt-PT\">e uma ou duas cervejas (nada em excesso) \u23bc que eram outra devo\u00e7\u00e3o \u23bc com os amigos numa mesa do caf\u00e9 ou de uma esplanada de ver\u00e3o.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-PT\">A fam\u00edlia \u23bc a Professora Gabriela e os filhos, o Pedro e a Patr\u00edcia, brilhantes alunos, e mais recentemente, a Sofia, a nora que ele adorava \u23bc era o mais nobre dos seus nortes, tivera tamb\u00e9m a sua profiss\u00e3o de banc\u00e1rio, competente, din\u00e2mico e respeitado, com algumas iniciativas empresariais, mas o que completaria o trip\u00e9 b\u00e1sico da sua raz\u00e3o de ser foi mesmo o jornalismo, miss\u00e3o a que se dedicou com denod<\/span><span lang=\"pt-PT\">o e ter\u00e1 sido decerto aquela em que melhor se soube revelar o que de melhor tinha como um grande ser humano com valores e preocupa\u00e7\u00f5es com os outros: generosidade, estoicismo, voluntarismo e uma incr\u00edvel vontade de ajudar, tudo alicer\u00e7ado numa energia e numa capacidade de iniciativa insuper\u00e1veis. Ao seu esp\u00edrito fundador se devem sucessivamente, e sem qualquer favor, a <\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>Revista Nova<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\"> (uma aventura breve no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980), o <\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>Not\u00edcias do Entroncamento<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\"> (<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>NE<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\">, 1984-2017) e, surgido j\u00e1 no in\u00edcio deste mil\u00e9nio, pressentindo que o futuro dos jornais em papel j\u00e1 claudicava, e apostando numa vers\u00e3o eletr\u00f3nica, surpreende com o <\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>Entroncamentoonline<\/i><\/span><span lang=\"pt-PT\"> (EOL), que conduziria at\u00e9 ao ano passado, quando j\u00e1 n\u00e3o podia mais e as for\u00e7as n\u00e3o chegavam para domar os males que o afetavam. Em todos estes \u00f3rg\u00e3os colaborei com o Miguel, na revista e no NE, colidimos fartas vezes, tanto fruto das idades irrequietas, como dos conceitos e da liberdade que imperava, e isso deixa-me \u00e0 vontade para dizer hoje o que dele sempre pensei, e porque a parte da amizade nunca foi ensombrada: era um homem inteligente, leal, sem ressentimentos, com um jovial esp\u00edrito de ironia sempre pronto, e respeitador mesmo de pontos de vista opostos ao seu, era um democrata em pleno que amava o Entroncamento para onde veio aos 12 anos, e um jornalista no sentido mais generoso do termo. Se acreditarmos que h\u00e1 algo mais naquele pa\u00eds estranho que nos acolhe como cidad\u00e3os depois da morte, n\u00e3o tenho d\u00favidas de que ele j\u00e1 l\u00e1 est\u00e1 a arquitetar neste momento um novo meio de comunica\u00e7\u00e3o, com os outros amigos daqui que j\u00e1 l\u00e1 tem e com outros, bons, que vier a conhecer&#8230;<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-PT\">O nosso amigo Ant\u00f3nio Miguel Silva nasceu em Vila Franca de Xira em 1957, faria no pr\u00f3ximo dia 1 de agosto 68 anos. Estudou primeiro no Liceu Gil Vicente, em Lisboa, e depois no Liceu de Tomar, ap\u00f3s o pai vir para o nov\u00edssimo Centro de Forma\u00e7\u00e3o da CP no Entroncamento. Sendo banc\u00e1rio, ainda arranjava tempo e energia para outras iniciativas que se deveram ao seu impulso, e que a esposa lhe recordava h\u00e1 pouco tempo para o confortar: \u201cMiguel, <\/span><span lang=\"pt-PT\">est\u00e1s triste, mas n\u00e3o estejas&#8230; Tu fizeste tanto!\u201d E a Gabriela enumera agora algumas das suas iniciativas: \u201cFoi a Revista Nova, o Not\u00edcias do Entroncamento, o EOL \u23bc \u2018EOL\u2019 foi uma das \u00faltimas palavras que pronunciou, j\u00e1 um pouco mal articulada por causa da doen\u00e7a \u23bc, mas tamb\u00e9m as suas iniciativas com a Discoteca Gal\u00e1xia, o restaurante Anabar, o Anabembombar, os concursos de dan\u00e7a&#8230; No fundo, ele era um empreendedor, gostava de come\u00e7ar algo de novo\u201d. E tamb\u00e9m era um <\/span><span lang=\"pt-PT\">otimista, raramente se lastimava, ia \u00e0 fisioterapia nestes \u00faltimos dois anos e brincava com alguns ditos com as fisioterapeutas, que tamb\u00e9m retribu\u00edam, a par de o terem tamb\u00e9m recuperado at\u00e9 onde podiam. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-PT\">Ultimamente, j\u00e1 hospitalizado, a Gabriela perguntava-lhe: \u201cMiguel, est\u00e1s bem?!\u201d. O Miguel sorria-lhe, tranquilo, como sempre: \u201cEstou, estou, Gabriela, vou para Bel\u00e9m!&#8230;\u201d<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span lang=\"pt-PT\">Descansa em paz, amigo Miguel!<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-manuel-vicente-antonio-miguel-silva-1957-2025-o-revolucionario-tranquilo\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comecei por conhecer o Ant\u00f3nio Miguel na turbul\u00eancia dos anos que se sucederam \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o do 25 de Abril, com muitas pol\u00e9micas, casos e equ\u00edvocos mais ou menos de natureza pol\u00edtica e com as tonalidades exacerbadas que atingiriam o pin\u00e1culo do \u00eaxtase revolucion\u00e1rio no ver\u00e3o de 1975, h\u00e1 portanto cinco d\u00e9cadas, mas que se prolongariam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":68933,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,139,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-68932","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cronica","8":"category-cronica-eol","9":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68932","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68932"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68932\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/68933"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68932"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68932"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68932"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}