{"id":68722,"date":"2025-07-12T18:26:07","date_gmt":"2025-07-12T17:26:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=68722"},"modified":"2025-07-12T13:34:53","modified_gmt":"2025-07-12T12:34:53","slug":"a-cronica-de-evelina-gaspar-chega-de-infamia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-chega-de-infamia\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Evelina Gaspar: &#8220;Chega de inf\u00e2mia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A inf\u00e2mia de se fazer uso do nome de crian\u00e7as para prop\u00f3sitos de guerrilha xen\u00f3foba, como fez o grupo de malfeitores que d\u00e1 pelo nome de partido Chega, recorda-me o tempo em que eu pr\u00f3pria fui uma crian\u00e7a com um nome diferente. E se na Fran\u00e7a, onde nasci, cheguei a ser discriminada por ser portuguesa, apesar do nome franc\u00eas com que fui baptizada, a verdade \u00e9 que quando cheguei a Portugal, embora tivesse <i>sangue portugu\u00eas<\/i>, fui apontada por ser francesa.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Os meus pais, que julgavam que n\u00e3o regressariam a Portugal, chamaram-me Evelyne, mas como a vida se ri frequentemente dos planos que fazemos, acabaram mesmo por voltar, e cedo descobriram que me tinham escolhido um nome pelos vistos inaceit\u00e1vel por c\u00e1 naquela \u00e9poca, pois as autoridades portuguesas decidiram que eu me passaria a chamar Adelina, que foi o que lhes ocorreu de mais parecido. E assim, nos primeiros tempos em Portugal, onde cheguei aos seis anos, fui oficialmente Adelina, para meu desgosto. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Passado o penoso primeiro ano, em que entrei para a escola sem falar portugu\u00eas, ap\u00f3s muitas voltas burocr\u00e1ticas, de Adelina passei a Evelina, nome que rejeitei tamb\u00e9m durante muito tempo. Durante anos, nas primeiras aulas apresentava-me como Eveline, concedendo perder o y mas sem abdicar do e<i> <\/i>no fim, o que causava confus\u00e3o aos professores, que me respondiam que o nome na pauta era Evelina, com a, o que me levava sempre a desfiar a hist\u00f3ria evolutiva do meu nome, que, repetida tantas vezes, fazia sorrir os meus colegas.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">H\u00e1 meses reli, e com grande prazer, &#8220;Os Maias&#8221;, de que ali\u00e1s me lembro de ter gostado, logo na escola, quando conheci o romance, apesar de aos dezasseis anos me ter escapado muita coisa, nomeadamente do erotismo entre Carlos e Maria Eduarda. Fui dar com a edi\u00e7\u00e3o que guardo desse tempo com <i>Eveline<\/i> escrito por todo o lado, com a primeira p\u00e1gina, a de rosto, absolutamente toda preenchida, numa caligrafia grande a redonda, com <i>EvelineEvelineEveline<\/i> a esferogr\u00e1fica cor-de-rosa, de cima a baixo. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O facto de escrever tantas vezes o nome levara j\u00e1 antes a professora de portugu\u00eas do 8.\u00ba ano a sugerir que procurasse ajuda profissional, para perceber o motivo por tr\u00e1s dessa atitude. Conselho a que n\u00e3o dei nenhuma aten\u00e7\u00e3o, por saber que insistia em afirmar o meu nome por este me ter sido negado. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Tem gra\u00e7a como \u00e0s vezes, sobretudo quando somos muito novos, se \u00e9 combativo sem uma causa que realmente o justifique. Tempos depois, j\u00e1 no 10.\u00ba ano, outra professora de portugu\u00eas anunciou certa vez que a composi\u00e7\u00e3o que eu fizera deveria ser afixada no \u00e1trio da escola, para ser lida por todos, professores e alunos. Tratava-se de um texto feminista em que se apelava de maneira infantil \u00e0 uni\u00e3o das mulheres de todo o mundo contra os desmandos masculinos. Essa minha professora de portugu\u00eas calhava ser casada com um professor de filosofia que mandava frequentemente as alunas sa\u00edrem da sala de aula, por cinco ou dez minutos, para contar aos rapazes anedotas picantes e fazer coment\u00e1rios aos an\u00fancios televisivos do gel duche da marca &#8220;Fa&#8221;, em que surgia uma mulher despida a tomar banho numa ilha tropical, que apelava para o seu imagin\u00e1rio sensual. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">N\u00e3o sei ao certo que idade teria quando aceitei finalmente ser Evelina, talvez andasse j\u00e1 pelos dezoito. Era uma causa que afinal n\u00e3o merecia tanto combate. J\u00e1 o feminismo, merecia ent\u00e3o e merece hoje, muito especialmente agora em que se verifica uma forte puls\u00e3o para o retrocesso.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Mas se h\u00e1 causa que deve mesmo convocar-nos para a luta, \u00e9 a defesa intransigente da dignidade das crian\u00e7as, que, goste-se ou n\u00e3o do nome delas, ou dos pais que seja, n\u00e3o podem ver-se arrastadas para o lodo que sai da boca de certos deputados da na\u00e7\u00e3o, que clamam defender os portugueses, mas que se limitam, muito ruidosamente, a propalar mentiras, sem apresentarem nenhumas solu\u00e7\u00f5es para os problemas reais que os portugueses enfrentam. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Afinal o que interessa o nome de cada um? Mais interessa o que se faz com o nome que se tem. E o que fazem, Rita Matias e Andr\u00e9 Ventura, com muita gritaria e gesticular \u00e0 mistura, \u00e9 encarnarem o papel de vil\u00f5es infames.<\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-chega-de-infamia\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A inf\u00e2mia de se fazer uso do nome de crian\u00e7as para prop\u00f3sitos de guerrilha xen\u00f3foba, como fez o grupo de malfeitores que d\u00e1 pelo nome de partido Chega, recorda-me o tempo em que eu pr\u00f3pria fui uma crian\u00e7a com um nome diferente. 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