{"id":68561,"date":"2025-07-02T10:10:16","date_gmt":"2025-07-02T09:10:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=68561"},"modified":"2025-07-02T10:11:20","modified_gmt":"2025-07-02T09:11:20","slug":"a-cronica-de-evelina-gaspar-nao-sao-flores-senhores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-nao-sao-flores-senhores\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Evelina Gaspar: &#8220;N\u00e3o s\u00e3o flores, senhores&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">H\u00e1 quem goste muito de receber flores. Eu, por mim, confesso que as flores n\u00e3o me entusiasmam grande coisa. Gosto de jarros, de tulipas e pouco mais. J\u00e1 de plantas, sim, e quanto mais verdes melhor, talvez porque me remetem para um tempo perdido de luxuriantes florestas virgens, densas e sombrias, a apelar para a nossa imagina\u00e7\u00e3o mais selvagem. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Uma vez, n\u00e3o h\u00e1 muito tempo, emocionei-me num viveiro, onde fui \u00e0 procura j\u00e1 n\u00e3o sei se de uma hera-do-diabo, se de um feto. Ainda hoje n\u00e3o consigo explicar bem o que se passou, mas de repente vi-me sozinha, cercada de um verde muito vivo, e por um breve segundo senti a presen\u00e7a de uma for\u00e7a vegetal t\u00e3o intensa, que n\u00e3o \u00e9 sem vergonha que admito que as l\u00e1grimas me inundaram os olhos.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O ramo de flores tornou-se muito comercial, e frequentemente \u00e9 a escolha f\u00e1cil dos companheiros pouco criativos no dia de S\u00e3o Valentim. Ou ent\u00e3o, quando pisam o risco e querem voltar \u00e0s boas gra\u00e7as, junto das caras-metades. \u00c9 tamb\u00e9m a prenda mais \u00f3bvia em qualquer Dia da M\u00e3e, e pior, no Dia da Mulher, justamente uma data que n\u00e3o tem nada de florido, e que diz respeito a cidadania e a direitos pol\u00edticos. Por favor, homens, compreendam o significado do 8 de Mar\u00e7o, e n\u00e3o ofere\u00e7am neste dia flores a mulher nenhuma. Sobretudo a uma que amem. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">De resto, as flores n\u00e3o se d\u00e3o bem na minha casa, e infelizmente j\u00e1 mandei para as alminhas, por exemplo, v\u00e1rias orqu\u00eddeas requintad\u00edssimas, que s\u00e3o lindas e que d\u00e3o a qualquer ambiente uma refinada nota de bom gosto. J\u00e1 as plantas, por qualquer motivo misterioso, florescem no meu lar, apesar de ter de as defender com unhas e dentes da gataria dom\u00e9stica.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">H\u00e1 muitos anos tive uma depress\u00e3o que matou todas as minhas plantas. N\u00e3o, n\u00e3o me enganei, foi assim mesmo, eu tive a depress\u00e3o e as plantas \u00e9 que morreram. O que se passou \u00e9 que eu desisti simplesmente de as regar, n\u00e3o por maldade, mas porque se tornou, para o meu estado de sa\u00fade, um esfor\u00e7o grande demais levar \u00e1gua a todas as inquilinas vegetais espalhadas pela casa e pelas varandas. O resultado foi um sem n\u00famero de vasos com plantas mortas, o que n\u00e3o contribuiu, como devem calcular, para a melhoria do meu estado de esp\u00edrito. Ver-se uma pessoa deprimida rodeada de plantas mortas, para onde quer que olhe, n\u00e3o \u00e9 terapia que se aconselhe a ningu\u00e9m. Assim, dei por mim a perguntar-me se deveria arrancar as hastes secas das plantas falecidas e deit\u00e1-las no lixo, ou, se seria melhor deitar fora vasos e tudo. Mas se eu n\u00e3o tinha, ent\u00e3o, for\u00e7as para andar, de regador na m\u00e3o, a matar a sede \u00e0s plantas, muito menos para carregar vasos cheios de terra para o contentor. Na altura, nem me passava pela cabe\u00e7a que um dia voltaria a ter a casa povoada de plantas cheias de vi\u00e7o. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Por in\u00e9rcia, acabei por guardar os vasos. E ainda bem, uma vez que, tempos depois, j\u00e1 recuperada, voltei a povoar os ditos de plantas novas, tendo mesmo comprado outros tantos. Apesar de se terem, entretanto, passados muitos anos, ainda hoje, quando ando pela casa de um lado para o outro, a matar a sede \u00e0s minhas muitas plantas, sobretudo nestes dias quentes de Ver\u00e3o, n\u00e3o me consigo impedir de sentir que, no fundo no fundo, \u00e9 a mim mesma que salvo da seca.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><a name=\"_GoBack\"><\/a> <span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Quem sabe, se n\u00e3o foi por isso que me emocionei na estufa, no outro dia. Toda aquela verdura pujante e cheia de vida talvez me tenha feito recordar que eu, tendo sobrevivido \u00e0 depress\u00e3o, sou hoje, n\u00e3o uma flor delicada, mas uma planta saud\u00e1vel e forte.<\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-nao-sao-flores-senhores\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quem goste muito de receber flores. Eu, por mim, confesso que as flores n\u00e3o me entusiasmam grande coisa. 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