{"id":68268,"date":"2025-06-14T19:56:10","date_gmt":"2025-06-14T18:56:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=68268"},"modified":"2025-06-14T19:56:10","modified_gmt":"2025-06-14T18:56:10","slug":"a-cronica-de-evelina-gaspar-a-minha-vida-com-os-gatos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-a-minha-vida-com-os-gatos\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Evelina Gaspar: \u201cA minha vida com os gatos\u201d"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">H\u00e1 dias morreu, com doze anos, o meu gato. Pelo que agora me sinto meio perdida em casa, sempre a olhar para os cantos, \u00e0 espera de o ver aparecer. Ganhei entretanto a mania rid\u00edcula de imaginar que abro os bra\u00e7os, feito um cristo, e que ele surge de algum lado a correr e me salta para o colo, cheio de saudades. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Noto que passei a contar o meu tempo de vida pelos gatos que vou tendo. Estou agora no meu terceiro, e talvez a vida tenha para me oferecer ainda mais dois ou tr\u00eas amigos peludos. O Isaac chegou ap\u00f3s a morte do \u00d3scar. Nessa altura eu chorava todos os dias, logo na cama, antes mesmo de abrir os olhos. Uma semana disto, e no trabalho uma colega sentenciou: olha, o que tu precisas \u00e9 de outro gato. Respondi que n\u00e3o, que n\u00e3o queria nada outro gato, ela que tivesse ju\u00edzo. Ora acontece que outra colega tinha justamente, nessa altura, em casa uma gata que tinha parido tr\u00eas gatitos e, tendo j\u00e1 dono para dois, procurava quem acolhesse o terceiro. Calculo que os meus olhos inchados a tenham feito pensar que eu seria uma boa candidata, assim sens\u00edvel e dolorida. No entanto eu n\u00e3o estava interessada noutro gato, queria era o \u00d3scar de volta. A colega, ent\u00e3o, persistente, passou a mostrar-me fotografias do gato que tinha para dar, todos os dias, a ver se me fazia a cabe\u00e7a. E eu, muito torta, dizia-lhe que o gato era feio (n\u00e3o era!) e que n\u00e3o o queria. Mas \u00e1gua mole em pedra dura. Um dia, cansada de chorar, capitulei: bolas, traz l\u00e1 o raio gato!<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E assim chegou o Isaac, com um m\u00eas de vida, para secar as minhas l\u00e1grimas. Um gato sinalizado como \u201cagressivo\u201d, logo quando o levei para as primeiras vacinas e constatou-se serem necess\u00e1rias tr\u00eas pessoas para segurar um gatinho do tamanho de uma m\u00e3o. Fiquei estarrecida, e, levando as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a, perguntei-me que esp\u00e9cie de animal selvagem tinha eu posto em casa. E com crian\u00e7as pequenas, veja-se bem o perigo. Chamei v\u00e1rios nomes feios \u00e0 colega, que decerto sentiu, apesar da dist\u00e2ncia, o ardor do meu rancor a dar-lhe nessa hora irada com for\u00e7a nas orelhas. Enquanto se esfor\u00e7avam para imobilizar o Isaac, com luvas de couro metidas at\u00e9 \u00e0s axilas, eu, da porta do consult\u00f3rio, um p\u00e9 dentro e outro fora, ponderei raspar-me e abandonar ali a pequena fera. Eles que lhe arranjassem outro dono!<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Acabei por n\u00e3o o fazer, e ainda bem. Fera, s\u00f3 no veterin\u00e1rio, onde passou a ir s\u00f3 depois de eu lhe fazer engolir um calmante e de funil posto no pesco\u00e7o, para n\u00e3o ferrar a dentu\u00e7a em ningu\u00e9m, embora o pessoal da cl\u00ednica, com o tempo, tenha aprendido a conhec\u00ea-lo de ginjeira. Ainda assim, um circo a cada consulta, com os seus uivos amea\u00e7adores a fazerem-se ouvir no meio da rua. Em casa, pelo contr\u00e1rio, era um doce. Ensinei-o a fazer chichi no bid\u00e9 (n\u00e3o sei porqu\u00ea!), e para fazer o resto ele pedia, muito civilizado, para ir \u00e0 varanda, onde estava a caixa de areia. Eu, nesses anos, andava a criar os meus filhos, e acabei por sujeitar o gato ao mesmo \u00edmpeto educativo. Descobri que ele era muit\u00edssimo inteligente, eu ensinava e ele aprendia. Aos seis anos descobriu-se que sofria de tr\u00edade felina, o que o tornou mais esquivo e rabugento. Nos \u00faltimos anos fui sua enfermeira, dando-lhe a medica\u00e7\u00e3o e limpando vomitado todos os dias. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><a name=\"_GoBack\"><\/a> <span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">H\u00e1 dois anos trouxe para casa o Matias, e como j\u00e1 tenho os filhos criados e j\u00e1 n\u00e3o estou para disciplinar ningu\u00e9m, n\u00e3o lhe ensinei rigorosamente nada. Mentira. Ensino-lhe todos os dias que gosto dele \u00e0s m\u00e3os cheias e que ele \u00e9 uma criatura imensamente querida e que o universo quer-lhe muito bem. \u00c9 que aprendi com os anos que o sentido da vida, no fim de contas, s\u00e3o os afagos e os abra\u00e7os, que valem na contabilidade dos dias bem mais do que qualquer educa\u00e7\u00e3o ou filosofia. \u00c9, portanto, uma escandaleira de gato, mal-educado, sem maneiras nenhumas, que s\u00f3 quer saber de estar em cima e mim a lamber-me os bra\u00e7os e o pesco\u00e7o. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Com a chegada do Matias, o Isaac come\u00e7ou a fazer o que precisava \u00e0 hora que lhe apetecia, na caixa de areia que passou a estar sempre \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. Ainda assim, ele gostava de ir pingar ao bid\u00e9 de vez em quando, porque assim foi habituado e somos todos, homens e gatos, animais de h\u00e1bitos. Mas desconfio que ele tamb\u00e9m gostava de se exibir diante do Matias, porque afinal, homens ou gatos, somos todos uns gabarolas.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Ainda bem que eu acredito que voltaremos um dia a encontrar todos os amados que perdemos. Homens e gatos. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Ainda bem.<\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-a-minha-vida-com-os-gatos\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias morreu, com doze anos, o meu gato. Pelo que agora me sinto meio perdida em casa, sempre a olhar para os cantos, \u00e0 espera de o ver aparecer. 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