{"id":68045,"date":"2025-05-31T15:14:58","date_gmt":"2025-05-31T14:14:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=68045"},"modified":"2025-05-31T11:20:13","modified_gmt":"2025-05-31T10:20:13","slug":"a-cronica-de-evelina-gaspar-quantos-homens-em-furia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-quantos-homens-em-furia\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Evelina Gaspar: &#8220;Quantos Homens em F\u00faria?&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Revi na RTP recentemente o celeb\u00e9rrimo \u201c12 Homens em F\u00faria\u201d, realizado por Sidney Lumet e protagonizado por Henry Fonda. J\u00e1 tudo foi dito sobre este filme que conta a hist\u00f3ria dos doze elementos do j\u00fari que, ap\u00f3s o julgamento de um jovem de dezoito anos acusado de ter assassinado o pai, se recolhem a uma sala para tomar a decis\u00e3o quanto ao veredicto; sabendo-se, que a ser considerado culpado, o que aguarda o rapaz \u00e9 a pena de morte. Sendo um filme de 1957, impressiona a eco de sentidos que podemos trazer para a realidade de hoje.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Os jurados entram na sala animados, convencidos de que estar\u00e3o despachados antes do jantar. O que vem mesmo a calhar, um deles at\u00e9 tem bilhetes para um jogo de basebol. Trata-se de um filme s\u00f3 com homens. As mulheres s\u00f3 se tornam juradas em igualdade de circunst\u00e2ncias muito mais tarde, o mesmo sucedendo com as pessoas n\u00e3o brancas. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A boa disposi\u00e7\u00e3o no entanto n\u00e3o dura muito tempo, porque quando, pouco depois de entrarem na sala, se disp\u00f5em a confirmar que pensam todos o mesmo, ou seja que o rapaz \u00e9 culpado de ter morto o pai, ali\u00e1s culpad\u00edssimo, surpreendem-se ao constatar que s\u00e3o onze os bra\u00e7os erguidos no ar, e n\u00e3o doze, como seriam precisos para a obten\u00e7\u00e3o do veredicto de culpado. O que significa que h\u00e1 entre o grupo uma ovelha negra. Perd\u00e3o, uma ovelha branca, afinal s\u00e3o todos senhores brancos. Melhor dito: h\u00e1 onze ovelhas brancas e um que n\u00e3o \u00e9 ovelha, o que desgosta os outros jurados, que se insurgem perante as d\u00favidas que este arquitecto confessa possuir quanto \u00e0 culpabilidade do acusado, em face dos factos apresentados em tribunal. D\u00favidas que contrastam com as certezas dos restantes.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O que logo salta \u00e0 vista \u00e9 que as supostas certezas dos onze lhes v\u00eam, quase a todos, n\u00e3o do ajuizamento das provas apresentadas ou das declara\u00e7\u00f5es prestadas pelas testemunhas de acusa\u00e7\u00e3o, mas da avalia\u00e7\u00e3o preconceituosa que fazem do perfil espec\u00edfico do acusado, que n\u00e3o \u00e9 nenhum senhor. O que esperar de um imigrante sem m\u00e3e que cresceu num bairro de lata? Inoc\u00eancia? Essa agora. Se fosse em Portugal, diriam alguns que o acusado n\u00e3o era nenhum \u201cportugu\u00eas de bem\u201d, para merecer o benef\u00edcio da d\u00favida. Para mais, o pr\u00f3prio advogado do jovem, designado pelo Estado, faz um mau trabalho de defesa, desinteressado do destino de um porto-riquenho indigente.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O ambiente \u00e9 tenso, o dia est\u00e1 muito quente, e na sala, abafada e sem ventila\u00e7\u00e3o, o abrir das janelas n\u00e3o traz nenhum al\u00edvio aos homens, quase todos de camisas coladas \u00e0 pele e testas reluzentes de suor. As provas s\u00e3o examinadas, inclusive o punhal que matou a v\u00edtima, analisando-se em detalhe os testemunhos. \u00c0 volta da mesa, onde todos se sentam, esgrimem-se argumentos, e h\u00e1 medida que se v\u00e3o sucedendo as recontagens, o bra\u00e7o erguido do arquitecto vai ganhando cada vez mais companhia. At\u00e9 que resta um \u00fanico homem obstinado na culpabilidade do acusado, por raz\u00f5es que se vem a perceber serem do foro pessoal e que se prendem com uma zanga que teve com o filho, o que o leva a dirigir o seu ressentimento aos rapazes em geral. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No fim, ap\u00f3s muita tens\u00e3o dram\u00e1tica, acaba por se concluir que \u00e9 poss\u00edvel que o acusado seja inocente, sim senhor, e s\u00e3o doze os bra\u00e7os no ar, como se pensava de in\u00edcio que seriam, no entanto esta unanimidade verifica-se no sentido contr\u00e1rio, traduzindo a vit\u00f3ria da d\u00favida sobre a certeza. E na d\u00favida, n\u00e3o se condena. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Seja numa americana sala de jurados ou numa outra sala qualquer, seria bom que n\u00e3o se tivesse nunca pressa em condenar algu\u00e9m s\u00f3 por n\u00e3o corresponder aos nossos padr\u00f5es socioecon\u00f3micos ou culturais, ou porque temos os nossos pr\u00f3prios problemas e projectamos no outro os nossos rancores. Quantos homens em f\u00faria cheios de certezas temos na abafada sala, cada vez mais aquecida pelo preconceito, que se tornou hoje Portugal? Temos o preconceito contra o imigrante, o cigano, o morador do bairro social, o negro, o castanho, o cor-de-rosa, o judeu, o \u00e1rabe, o homossexual, o trans, a mulher\u2026<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E depois, ainda h\u00e1 quem anseie por reinstituir no nosso pa\u00eds a pena de morte e a pris\u00e3o perp\u00e9tua. N\u00e3o sei se est\u00e3o a ver o filme, mas com tanta f\u00faria e preconceito, por este andar o que Portugal precisa \u00e9 de uma grande sala de p\u00e2nico, para abrigar os alvos de tanta f\u00faria. <\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-quantos-homens-em-furia\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revi na RTP recentemente o celeb\u00e9rrimo \u201c12 Homens em F\u00faria\u201d, realizado por Sidney Lumet e protagonizado por Henry Fonda. 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