{"id":67743,"date":"2025-05-17T15:31:43","date_gmt":"2025-05-17T14:31:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=67743"},"modified":"2025-05-17T15:31:43","modified_gmt":"2025-05-17T14:31:43","slug":"a-cronica-de-evelina-gaspar-o-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-o-invisivel\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Evelina Gaspar: &#8220;O Inv\u00edsivel&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Tenho de confessar que at\u00e9 me regala ver os pratos que dantes eram meus agora a fazerem bonito nas paredes da casa da minha neta. Sobretudo porque s\u00e3o aqueles que eu tinha mais ao uso \u2013 hoje carcomidos, alguns com cabelos e gatos \u2013 que ela guarda mais junto ao cora\u00e7\u00e3o. Os outros, que ela tem arrecadados num arm\u00e1rio, de uma loi\u00e7a mais fina, est\u00e3o menos rachados e comidos de cor do pouco que serviram, pois s\u00f3 em dias de festa e ajuntamento familiar sucedia eu tir\u00e1-los do abrigo do aparador. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">\u00c9 grande a cegueira que leva muita gente douta a duvidar do papel da f\u00e9 na vida dos homens, j\u00e1 que nem sempre \u00e9 poss\u00edvel encontrar as causas mais enterradas para os efeitos que se d\u00e3o \u00e0 vista dos olhos. Bastas vezes o que vemos n\u00e3o vemos, e devemos crer que assim \u00e9. Mas se algu\u00e9m perguntasse \u00e0 minha neta se ela cria, em Deus ou na imortalidade da alma, logo ela haveria de responder, ligeira, que n\u00e3o senhor, que n\u00e3o cr\u00ea em nada disso. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No meu tempo, se quer\u00edamos amornado o leite do desjejum, n\u00e3o t\u00ednhamos outro rem\u00e9dio se n\u00e3o aquent\u00e1-lo num p\u00facaro deitado ao lume, mas desde que me finei deu-se no mundo uma grande mudan\u00e7a. Ele agora \u00e9 tudo pressas e facilidades, e a minha neta aquece a cada manh\u00e3 a sua ch\u00e1vena de leite numa caixa chamada micro-ondas, onde o lume se n\u00e3o v\u00ea. No fundo a mesma coisa se passa com a f\u00e9, porque, ainda que invis\u00edvel, a chama da alma que sou continua acesa, e eu bem sei que ela me sente de roda dela \u00e0s vezes, que bem a vejo sorrir das gra\u00e7as que lhe digo para tentar desmontar aquele ar sisudo que ela bota na cara todos os dias. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Causa-me muita estranheza ver o meu velho alguidar de barro de amassar o p\u00e3o, agora todo cascado j\u00e1 se sabe, a morar numa casa onde n\u00e3o h\u00e1 sequer um forno a lenha. Nem tanques hoje h\u00e1 para se lavar a roupa, ele \u00e9 tudo maquinaria, electricidade e modernices. Mas em vez de sobejar dentro de uma casa o tempo, parece haver cada vez menos vagar para viver esse tempo que afinal n\u00e3o sobeja. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Diz que n\u00e3o acredita que a vida continue ap\u00f3s a morte dos corpos, mas nalguma parte secreta ela sabe que eu, mesmo estando falecida vai para meio s\u00e9culo, me quedo por aqui \u00e0 sua beira, a aquecer-lhe os dias frios com a minha presen\u00e7a. N\u00e3o cr\u00ea mas sabe, o que n\u00e3o faz mal nenhum, porque ao fim e ao cabo crer e saber s\u00e3o no fundo duas regi\u00f5es que pertencem ambas \u00e0 vasteza do mesmo pa\u00eds que \u00e9 a pessoa humana. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">At\u00e9 porque h\u00e1 na casa dela a modos que uma relembran\u00e7a de vozes passadas que desapercebida n\u00e3o lhe pode passar de nenhum jeito, pois que se manifesta com frequ\u00eancia no pequeno acidente caseiro; a jarra que desaba do m\u00f3vel e se escaqueira no ch\u00e3o, o bule de ch\u00e1 que lhe voa da m\u00e3o e se esmigalha todinho. E a cada desastre, a alma dela, coitada, que \u00e9 muito apegada \u00e0s miudezas sem serventia que guarda em casa, chove pelos olhos enquanto ela, agachada no ladrilho, junta os cacos para os meter de seguida em caixinhas que s\u00e3o, bem vistas as coisas, pequenos t\u00famulos para restos mortais de vidro ou porcelana, aos quais ela depois cola pequenas l\u00e1pides de papel com dizeres f\u00fanebres escritos a lapiseira. Por exemplo: <\/span><span style=\"font-size: medium;\"><i>Candeeiro a petr\u00f3leo da av\u00f3 Angelina<\/i><\/span><span style=\"font-size: medium;\">. Como se tivesse sentido, valha-te Deus cachopa!, o agastamento que tu sentes pela sorte dessas velharias que nem t\u00e3o pouco sabem o que \u00e9 a morte. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">H\u00e1 um jogo de espelhos em que o que aparenta ser reflexo \u00e9 a verdade primeira que reflecte, e assim parece que fui c\u00e1 chamada pelos meus pertences de antes de me ter finado, e que hoje andam espalhados pelos quatro cantos da casa da minha neta, mas est\u00e1 do avesso o retrato tirado, porque eles \u00e9 que foram sendo arrancados da fundura das gavetas e dos ba\u00fas pela luz da minha presen\u00e7a ao p\u00e9 dela. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A colcha de renda com franjas de rabo de porco que eu lhe fiz, era ela menina pequena ainda, e que era usan\u00e7a dantes fazer de presente \u00e0s netas, tirou-a ela agora mesmo da arca. Olhem, agora estende-a por sobre a cama e bota-se a girar pelo quarto, enquanto olha, a cismar se gosta ou se n\u00e3o gosta de ver, homessa, como se gostar ou n\u00e3o fosse uma decis\u00e3o que a gente toma ao depois de funda reflex\u00e3o. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A mim o que me demora junto da minha neta, que conhe\u00e7o de ginjeira, \u00e9 o seu feitio daninho, que tem deriva\u00e7\u00e3o do meu, que nunca fui em vida boa de assoar. Afinal, quem sai aos seus, n\u00e3o degenera, pois n\u00e3o \u00e9 assim? Mas o que \u00e9 certo \u00e9 que nestes muitos anos que se passaram desde que parti aprendi muita coisa. Eu que fui em vida uma pobre analfabeta, sou agora versada em muitas mat\u00e9rias e conhecedora de muitos mist\u00e9rios. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><a name=\"_GoBack\"><\/a> <span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E porque a eternidade de Deus Nosso Senhor pode muito bem esperar por mim mais um poucochinho, vou ficar-me por aqui a ver se ajudo a aliviar do pesado jugo o fado, pois ela, vivendo, teima em olhar para tr\u00e1s, remoendo sucessos passados que tem de aprender a esquecer; mas eu que estou defunta faz tanto ano posso lev\u00e1-la a virar-se para diante, que \u00e9 tudo uma quest\u00e3o de rodar sobre ela mesma, como faz no fim de contas todos os dias a nossa grande m\u00e3e Terra.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Olhem, acaba de resolver que gosta afinal de ver a colcha na cama. Eu c\u00e1 por mim acho que fica bonito, d\u00e1 ao quarto um ar mimoso e que chama, \u00e0 noite, um tranquilo repouso.<\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-o-invisivel\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho de confessar que at\u00e9 me regala ver os pratos que dantes eram meus agora a fazerem bonito nas paredes da casa da minha neta. 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