{"id":67379,"date":"2025-05-01T16:50:52","date_gmt":"2025-05-01T15:50:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=67379"},"modified":"2025-05-01T10:56:01","modified_gmt":"2025-05-01T09:56:01","slug":"a-cronica-semanal-de-evelina-gaspar-edgar-allan-poe-e-as-janelas-da-alma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-semanal-de-evelina-gaspar-edgar-allan-poe-e-as-janelas-da-alma\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Evelina Gaspar: &#8220;Edgar Allan Poe e as janelas da alma&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Ouvimos com frequ\u00eancia dizer, muito poeticamente, que os olhos s\u00e3o as janelas da alma. Pretende-se com isso afirmar que, ao contr\u00e1rio dos cerca de vinte m\u00fasculos que uma pessoa tem na face, os olhos n\u00e3o conseguem dissimular quem se \u00e9 de verdade. O que ali\u00e1s bate certo com o prov\u00e9rbio popular, \u201cquem v\u00ea caras, n\u00e3o v\u00ea cora\u00e7\u00f5es\u201d. E tamb\u00e9m com aquela m\u00e1xima que avisa que<b> <\/b>\u201cas apar\u00eancias iludem\u201d.<i> <\/i>E ainda com a outra que nos alerta a \u201cn\u00e3o julgar um livro pela capa\u201d. Claro que quem diz os olhos no fundo o que quer dizer \u00e9 o olhar. O olhar, ao contr\u00e1rio dos olhos, n\u00e3o \u00e9 f\u00edsico. Dos olhos diz-se que s\u00e3o castanhos, verdes ou azuis, grandes ou pequenos, arredondados, amendoados ou orientais. Mas o olhar, bem diferentemente, reporta-se a algo transcendental, ao mist\u00e9rio da identidade. \u00c9 talvez sinal dessa secreta alma imortal que habita o corpo mortal de cada um.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Alguns atribuem a origem desta ideia dos olhos como janelas ao escritor americano do s\u00e9culo dezanove Edgar Allan Poe e ao seu conto g\u00f3tico <i>A Queda da Casa de Usher<\/i>, em que o protagonista, ap\u00f3s chegar de visita \u00e0 soturna mans\u00e3o do seu amigo de inf\u00e2ncia, Roderick Usher, se refere \u00e0s janelas da dita mans\u00e3o fazendo uso da express\u00e3o \u201c<i>eye-like windows\u201d<\/i>, ou seja, \u201cjanelas como olhos\u201d. Curioso que ele menciona janelas como olhos e n\u00e3o olhos como janelas, mas o que se popularizou foi precisamente esta \u00faltima ideia. Ora a mans\u00e3o dos Usher \u00e9 t\u00e3o l\u00fagubre e desoladora que Allan Poe usa mesmo a express\u00e3o \u201c<i>vacant eye-like windows\u201d<\/i>, ou seja, \u201cjanelas como olhos vazios\u201d. E como \u00e9 sabido, aquele que exibe um olhar vazio n\u00e3o se encontra bem, est\u00e1 ausente de si mesmo, alucinado, em estado de choque ou, possivelmente, sob o efeito de alguma subst\u00e2ncia.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">As apar\u00eancias podem iludir, j\u00e1 o dissemos, e decerto iludem muitas vezes, mas neste conto isso n\u00e3o sucede. Pois o que o protagonista, que partilha com o leitor as impress\u00f5es funestas da sua visita ao amigo, vai encontrar no interior da mans\u00e3o combina realmente com o sombrio semblante da casa, que por sua vez combina na perfei\u00e7\u00e3o com o cen\u00e1rio em que esta se insere, a fazer lembrar uma paisagem de pesadelo em que pontuam maus press\u00e1gios, \u00e1rvores t\u00e9tricas e um lago fantasmag\u00f3rico.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><a name=\"_Hlk196906511\"><\/a><a name=\"_GoBack\"><\/a> <span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">At\u00e9 que ponto a obra combina com o autor, n\u00e3o podemos dizer, mas o que \u00e9 facto \u00e9 que o escritor do mist\u00e9rio e do fant\u00e1stico, autor do famoso poema nocturno <i>O Corvo<\/i>, que Fernando Pessoa traduziu, teve um fim de vida prematuro e dram\u00e1tico que permanece ainda hoje por explicar. O que deu azo, ao longo dos anos, \u00e0s mais variadas teorias. Morreu em 1849, aos quarenta anos, internado no Washington College Hospital, para onde foi levado pelo amigo Joseph Evans Snodgrass, depois de ter sido encontrado quatro dias antes numa sarjeta, desfigurado e delirante, vestindo umas roupas andrajosas que n\u00e3o seriam as suas. Do nascimento \u00e0 morte, Poe conheceu uma exist\u00eancia conturbada, repleta de adversidades e sofrimentos, come\u00e7ando logo com o abandono da fam\u00edlia pelo pai quando ele tinha um ano e pela morte da m\u00e3e cerca de um ano depois. Mais tarde passou por outros lutos, por dificuldades financeiras, pelo alcoolismo e pela depress\u00e3o, sendo que o seu fim, tal como a vida, foi digno de pertencer a um dos seus contos de terror. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #202122;\">A Biblioteca e Museu Morgan, em Nova Iorque, promoveu em 2013 uma mostra de objectos pessoais, como manuscritos e cartas, daquele que foi o primeiro americano a sobreviver da escrita. A exposi\u00e7\u00e3o intitulou-se <\/span><span style=\"color: #202122;\"><i>Terror of the soul. Terror da alma<\/i><\/span><span style=\"color: #202122;\">.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Snodgrass ter\u00e1 dito mais tarde que, quando o encontrou, o autor do conto <i>O Gato Preto<\/i> apresentava o rosto transfigurado, e que o seu antes \u201c<i>soulful eye\u201d<\/i>, literalmente \u201colhar com alma\u201d, a querer significar \u201cexpressivo\u201d, apresentava-se agora \u201c<i>lusterless and vacant\u201d<\/i>, ou seja, sem \u201cbrilho e vazio\u201d. O tal olhar vazio de que fal\u00e1vamos mais atr\u00e1s, a prop\u00f3sito de <i>A Queda da Casa de Usher<\/i> e das janelas da alma. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Conta-se que as suas \u00faltimas palavras ter\u00e3o sido \u201c<span style=\"color: #202122;\"><i>Lord, please, help my poor soul\u201d<\/i><\/span><span style=\"color: #202122;\">, em portugu\u00eas, \u201cSenhor, por favor, ajude a minha pobre alma\u201d. Ser\u00e1 que o Senhor ajudou, como pedido, a alma de Poe? E por onde andar\u00e1 ela agora, quase dois s\u00e9culos depois, essa alma t\u00e3o criativa? A escrever hist\u00f3rias assustadoras por outras paragens? Esperemos que sim. E paz \u00e0 sua alma.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-semanal-de-evelina-gaspar-edgar-allan-poe-e-as-janelas-da-alma\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ouvimos com frequ\u00eancia dizer, muito poeticamente, que os olhos s\u00e3o as janelas da alma. 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