{"id":66782,"date":"2025-04-01T12:38:29","date_gmt":"2025-04-01T11:38:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=66782"},"modified":"2025-04-01T11:18:12","modified_gmt":"2025-04-01T10:18:12","slug":"a-cronica-de-sandra-may-entre-mudancas-e-conexoes-a-mulher-que-plantava-silencios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-sandra-may-entre-mudancas-e-conexoes-a-mulher-que-plantava-silencios\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Sandra May: Entre Mudan\u00e7as e Conex\u00f5es &#8211; \u201cA mulher que plantava sil\u00eancios\u201d"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">Na aldeia onde todos se conheciam, havia uma mulher que nunca dizia nada. Nascera sem voz, e o seu nome mudava a cada esta\u00e7\u00e3o do ano, o chamado &#8220;batismo do povo&#8221;.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">Desde pequena, aprendera a comunicar de outras formas: com os olhos, as m\u00e3os, os gestos suaves. Mas havia coisas que nunca conseguira expressar. O amor que sentia pela m\u00e3e antes de a perder. O pedido de desculpa que queria fazer \u00e0 irm\u00e3, com quem deixara de brincar. O <i>ol\u00e1 <\/i>ao vizinho por quem nutria uma paix\u00e3o desde mi\u00fada. A raiva que lhe queimava o peito quando a tratavam como se fosse invis\u00edvel.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">Sempre imaginei que Helena fosse um nome que combinava com as suas fei\u00e7\u00f5es. E, para mim, Helena falava. Falava no seu jeito particular.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">Conta-se que, todas as manh\u00e3s, sa\u00eda de casa com uma pequena caixa de madeira e ia at\u00e9 aos campos mais afastados da aldeia. Sentava-se num monte de terra que j\u00e1 parecia pertencer-lhe e, sobre os joelhos, escrevia aquilo que por natureza n\u00e3o conseguia dizer. Dobrava os pap\u00e9is com cuidado, como se os colasse, e enterrava-os na terra, como se plantasse sementes de verdade.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">A aldeia n\u00e3o a compreendia. Diziam que era uma carta fora do baralho, que n\u00e3o pertencia ali. Havia quem se risse dela, quem murmurasse que era louca, que se Deus n\u00e3o lhe dera voz, era por castigo. Mas Helena nunca tentou explicar-se, de nenhuma maneira. Continuava a sua vida com um sil\u00eancio que fazia mais barulho do que as coisas que lhe diziam.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">At\u00e9 que, um dia, algo de muito estranho e extraordin\u00e1rio aconteceu.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">O campo onde ela enterrava os seus sil\u00eancios encheu-se de flores. Flores de cores imposs\u00edveis de ilustrar, que exalavam um perfume capaz de apertar o est\u00f4mago e embargar a voz de quem por ali passasse.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">Cada p\u00e9tala parecia ter pequenas marcas, como se nelas houvesse vest\u00edgios de palavras. Como se a terra tivesse lido os segredos de Helena e os devolvesse \u00e0 aldeia sob a forma de mensagens.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">Naquele mesmo ano, as pessoas que h\u00e1 muito estavam separadas reencontraram-se. Pais escreveram cartas aos filhos. Vizinhos come\u00e7aram a falar entre si com mais ternura. E aqueles que, como Helena, tinham palavras presas dentro de si, come\u00e7aram a libert\u00e1-las: em cartas, em olhares, em toques demorados.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">Helena nunca chegou a saber o impacto que teve. Mas, naquela primavera, pela primeira vez, sentiu que tinha sido ouvida.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">E, no campo onde o sil\u00eancio foi plantado, quem por ali passasse ficava com o cora\u00e7\u00e3o na boca e gritava o que j\u00e1 n\u00e3o conseguia guardar dentro de si.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">SANDRA MAY<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\"><i>Acompanha o trabalho da autora em:<br \/>\n<\/i><\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/saandramay\/\"><span style=\"color: #467886;\"><span style=\"font-size: xx-small;\"><i><u>https:\/\/www.instagram.com\/saandramay\/<\/u><\/i><\/span><\/span><\/a><span style=\"font-size: xx-small;\"><i><br \/>\n<\/i><\/span><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/saandramay\/\"><span style=\"color: #467886;\"><span style=\"font-size: xx-small;\"><i><u>https:\/\/www.facebook.com\/saandramay\/<\/u><\/i><\/span><\/span><\/a><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-sandra-may-entre-mudancas-e-conexoes-a-mulher-que-plantava-silencios\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na aldeia onde todos se conheciam, havia uma mulher que nunca dizia nada. 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