{"id":65755,"date":"2025-02-07T15:30:34","date_gmt":"2025-02-07T15:30:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=65755"},"modified":"2025-02-16T12:34:13","modified_gmt":"2025-02-16T12:34:13","slug":"a-cronica-da-escritora-evelina-gaspar-viva-o-touro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-da-escritora-evelina-gaspar-viva-o-touro\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica da escritora Evelina Gaspar: \u201cViva o touro!\u201d"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Teria talvez quinze anos quando a minha professora de portugu\u00eas decidiu organizar na sala de aula uma s\u00e9rie de debates entre os alunos. A ideia era praticar a argumenta\u00e7\u00e3o e a oralidade. A mim coube-me debater a tourada, e a professora indicou-me para a defender. Levantei-me logo da cadeira para protestar. <i>A professora desculpe, mas eu sou contra a tourada!<\/i> Ela limitou-se a encolher os ombros, dizendo <i>paci\u00eancia!<\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Dois dias depois, digerida a contrariedade, resignei-me a abra\u00e7ar, para efeitos de discuss\u00e3o acad\u00e9mica, a causa da tauromaquia. E ainda bem, porque descobri de imediato que era bem simples defender essa \u201cgrande tradi\u00e7\u00e3o portuguesa\u201d. Bastou-me para tal esgrimir, com uma convic\u00e7\u00e3o bem fingida, os argumentos tradicionais do \u201cpatrim\u00f3nio cultural\u201d e da \u201cliberdade de gosto\u201d, que s\u00e3o os que continuam ainda hoje a ser usados para advogar a causa da festa brava. Embora actualmente se invoque tamb\u00e9m, e com muita gra\u00e7a, o argumento de que a tourada previne a extin\u00e7\u00e3o do touro bravo e de que, no fim de contas, as ganadarias o que fazem \u00e9 prestar um servi\u00e7o em termos de conserva\u00e7\u00e3o e protec\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. Francamente, eu, se tivesse escolha, parece-me que preferiria <i>extinguir-me<\/i> a viver para ser torturada.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O meu pai gostava muito de corridas de touros e eu cheguei a assistir a v\u00e1rias, em fam\u00edlia. N\u00e3o estranho, pois, que muitas fam\u00edlias portuguesas o fa\u00e7am. Mas julgo que existem outras actividades em fam\u00edlia mais recomend\u00e1veis, e que n\u00e3o passam pelo supl\u00edcio de nenhum animal. N\u00e3o sei ao certo que idade teria, mas uma noite acordei aos gritos na cama, porque sonhei que fora colhida por um touro, que corria pela arena comigo entre os cornos, enquanto eu me esva\u00eda em sangue perante um p\u00fablico que aplaudia. Foi justamente o meu pai que acorreu ao meu quarto para me acordar do pesadelo, deixando a luz acesa ao regressar para a sua cama, depois de eu me acalmar. J\u00e1 houve um tempo em que em Portugal as fam\u00edlias assistiam ludicamente aos autos de f\u00e9. As coisas mudam. E ainda bem.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Enquanto em pa\u00edses como no M\u00e9xico e na Col\u00f4mbia est\u00e3o em marcha delibera\u00e7\u00f5es para a suspens\u00e3o das touradas, por c\u00e1, apesar de o n\u00famero de touradas realizadas no nosso pa\u00eds continuar a descer de ano para ano, o governo promove a sua continua\u00e7\u00e3o, decidindo pela descida do IVA nos bilhetes de entrada nas pra\u00e7as de touros.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Na cidade do M\u00e9xico, que conta com a maior pra\u00e7a de touros do mundo, com capacidade para mais de 41.000 pessoas, e onde a tourada \u00e9 particularmente violenta, as corridas podem estar para acabar, com o apoio de Paul McCartney, que tem dado a cara numa campanha contra as touradas. Declarou o ex-Beatle: <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">\u201c<span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Nas touradas, agressores a cavalo fincam lan\u00e7as nas costas e pesco\u00e7o do touro, antes de outros espetarem bandarilhas nas suas costas. Quando o touro perde sangue e fica fraco, um matador tenta mat\u00e1-lo cravando uma espada nos seus pulm\u00f5es. Uma faca \u00e9 usada para cortar sua medula espinhal. O touro pode ficar paralisado mas ainda consciente enquanto as suas orelhas ou a sua cauda s\u00e3o cortadas e apresentadas ao matador como um trof\u00e9u. O seu corpo \u00e9 arrastado para fora da arena.\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Pelo que me lembro, venci na escola o debate sobre a tourada, o que n\u00e3o foi uma surpresa, pois naquele tempo defender os direitos dos animais era talvez ser moderninho demais. J\u00e1 hoje, penso que seria mais dif\u00edcil para um aluno defender a causa da tauromaquia num debate escolar, uma vez que nos dias que correm j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 considerado vanguardismo defender o fim da tortura animal para fins recreativos. Mas para o nosso governo, pelos vistos \u00e9 coisa de incentivar. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">H\u00e1 uns meses passei, ao volante do meu autom\u00f3vel, por uma cidade aqui do Ribatejo em noite de tourada. Ao deter-me num sem\u00e1foro, observei as pessoas no passeio dirigindo-se, festivas, para a pra\u00e7a de touros. A dado momento um aficionado gritou <i>viva o toureiro!<\/i> O seu entusiasmo foi logo secundado por muitos outros que seguiam pela rua com o mesmo destino, <i>viva! viva!<\/i> E eu, com a rua congestionada de entusiastas da tourada, numa cidade conhecida pela sua tradi\u00e7\u00e3o taurom\u00e1quica, cedi a um impulso rid\u00edculo de t\u00e3o infantil, e, pondo a cabe\u00e7a fora da janela do carro, gritei a plenos pulm\u00f5es <i>viva o touro! abaixo o toureiro!<\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Felizmente, nesse instante, e antes que as pessoas pudessem reagir, o sem\u00e1foro ficou verde e eu raspei-me dali, carregando fundo no acelerador.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Evelina Gaspar<\/em><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-da-escritora-evelina-gaspar-viva-o-touro\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teria talvez quinze anos quando a minha professora de portugu\u00eas decidiu organizar na sala de aula uma s\u00e9rie de debates entre os alunos. A ideia era praticar a argumenta\u00e7\u00e3o e a oralidade. A mim coube-me debater a tourada, e a professora indicou-me para a defender. Levantei-me logo da cadeira para protestar. A professora desculpe, mas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":48,"featured_media":65756,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,206],"tags":[],"class_list":{"0":"post-65755","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cronica","8":"category-evelina-gaspar"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/48"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65755"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65755\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/65756"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}