{"id":65530,"date":"2025-01-24T15:30:19","date_gmt":"2025-01-24T15:30:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=65530"},"modified":"2025-01-24T10:52:45","modified_gmt":"2025-01-24T10:52:45","slug":"a-cronica-de-evelina-gaspar-caras-de-bacalhau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-caras-de-bacalhau\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Evelina Gaspar: &#8220;Caras de Bacalhau&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Diamantina trabalhou em casa a vida toda. Criou dois filhos, um vive em Lisboa, o outro na B\u00e9lgica. <i>Est\u00e3o bem, gra\u00e7as a Deus<\/i>, costuma responder num sorriso de orelha a orelha se algu\u00e9m pergunta por eles. E se a seguir quiserem saber dos netos, ent\u00e3o \u00e9 v\u00ea-la cruzar as m\u00e3os \u00e0 frente do peito e erguer os olhos para o c\u00e9u. <i>Est\u00e3o grandes,<\/i> <i>a mais nova vai agora para a escola. Veja l\u00e1 enquanto se passa o tempo!<\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">H\u00e1 muitos anos que \u00e9 s\u00f3 ela e Fortunato, com quem est\u00e1 casada h\u00e1 cinquenta e quatro anos. Ap\u00f3s a reforma, ele a instalar-se na sala como se fosse um monumento hist\u00f3rico, a parecer que todos os caminhos dom\u00e9sticos conduzem \u00e0 impon\u00eancia da sua pessoa. O marido gran\u00edtico, quase imposs\u00edvel de mover, no meio da sala, a faz\u00ea-la circundar sempre o sof\u00e1, de forma a n\u00e3o cruzar a linha invis\u00edvel que liga o olhar de Fortunato \u00e0 televis\u00e3o. No entanto, apesar dos olhos presos ao ecr\u00e3, ele atento ao cirandar da mulher pela casa, e a perguntar, ao senti-la passar atr\u00e1s de si e a abrir a porta da varanda, <i>\u00f3 Tina mas o que vais fazer para a\u00ed com o frio que est\u00e1? Fecha mas \u00e9 isso, anda! Vou lavar os vidros, ent\u00e3o n\u00e3o viste que choveu ontem? Mas nesta altura \u00e9 normal chover, ser\u00e1 preciso andar sempre a lavar os vidros? Que paran\u00f3ia, a tua, mulher! Parece mal, filho, os vidros assim todos manchados.<\/i> Ele suspira, resignado.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Mais tarde, grita Diamantina da cozinha para a sala, <i>\u00f3 homem, queres caras de bacalhau ou morcela para o jantar?<\/i> Ele escolhe as caras de bacalhau e ela revira os olhos, enquanto ata o avental atr\u00e1s das costas, dizendo entre dentes, <i>que nojo!<\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No dia seguinte, Fortunato leva Diamantina ao mercado. Ela preferia ir sozinha, mas ele diz que a mulher \u00e9 um perigo na estrada, por isso vai tamb\u00e9m. Espera-a no carro enquanto ela faz os avios, l\u00ea o jornal desportivo, aberto sobre o volante. Ela regressa duas ou tr\u00eas vezes para largar sacos na bagageira. Vai \u00e0 fruta, \u00e0 hortali\u00e7a, aos enchidos e aos queijos. Sem esquecer o p\u00e3o de centeio e a broa de milho. Ele n\u00e3o se oferece para a acompanhar e Diamantina at\u00e9 agradece, para n\u00e3o ter de o ouvir maldizer dos pre\u00e7os em todas as bancas. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">H\u00e1 muitos anos que n\u00e3o dormem enla\u00e7ados, n\u00e3o est\u00e3o para essas coisas que a mocidade j\u00e1 l\u00e1 vai. Para mais ela range os dentes durante o sono, por isso o marido diz-lhe que durma virada para o outro lado da cama, a encarar a parede, para ver se n\u00e3o ouve as castanholas que ela tem dentro da boca a tocar toda a noite. Ela n\u00e3o se importa, ali\u00e1s deixa \u00e0 noite meio metro entre o seu corpo e o dele. At\u00e9 porque ele solta gazes a dormir. O que ela queria era uma daquelas camas de casal duplas, como viu num an\u00fancio de uma revista que desfolhou na cabeleireira quando foi pintar as ra\u00edzes, enquanto esperava de cabe\u00e7a enfiada no secador. Uma cama de casal mas com dois colch\u00f5es, para que durmam lado a lado mas sem se estorvarem. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Uma manh\u00e3 Fortunato n\u00e3o acorda. Durante o sono a morte vem em surdina e Diamantina n\u00e3o d\u00e1 conta. Desperta sempre mais cedo que ele, porque a sua bexiga n\u00e3o a deixa molengar. Levantou-se de fininho, como de costume, para o deixar dormir mais um peda\u00e7o. J\u00e1 tinha bebido o caf\u00e9 com leite e comido a torrada com doce, e deitava uma pinga de \u00e1gua nas flores do terra\u00e7o quando deu conta que ele j\u00e1 se devia ter levantado. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Agora Diamantina n\u00e3o lava os vidros h\u00e1 muitos meses. Tem a sala desimpedida, pode passar para frente e para tr\u00e1s diante da televis\u00e3o as vezes que quiser, sem risco de admoesta\u00e7\u00f5es, todavia acha-a t\u00e3o vazia e silenciosa, sem o seu monumento plantado no meio, que o cora\u00e7\u00e3o aperta-se-lhe no peito ao encarar o sof\u00e1 deserto. Os dias tornam-se compridos, as horas extravasam, longas e mon\u00f3tonas, e ela pergunta-se porque foi que os dias passaram a ter tantas horas. Embora agora possa escolher o que lhe apetece comer, nunca tem apetite. E apesar de dormir no meio da cama, \u00e0 vontade e sem os peidos do marido, acorda sempre triste. O aspirador vegeta sobre a carpete da sala h\u00e1 tr\u00eas dias. A meio da limpeza, deu-se conta que j\u00e1 n\u00e3o valia a pena limpar. O p\u00f3 que se acumule sobre os m\u00f3veis e o cot\u00e3o pelo ch\u00e3o. N\u00e3o quer saber. Desistira h\u00e1 meses de lavar os vidros e deixara mesmo de regar as flores do terra\u00e7o, que acabaram por morrer de sede. N\u00e3o tem raz\u00f5es para viver. N\u00e3o sabe se \u00e9 saudade ou que coisa seja. O diabo do homem, que s\u00f3 sabia arreli\u00e1-la, faz-lhe tanta falta.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Um dia entra na biblioteca. <i>Olhe l\u00e1, menina, arranje-me alguma coisa para ler. Que tipo de livro gosta? N\u00e3o sei, nunca fui muito de leituras, mas preciso ocupar as ideias.<\/i> Acaba por sair da biblioteca com um livro de mem\u00f3rias de um capit\u00e3o de Abril. Sabe, o meu marido esteve em Angola, lembro-me de o ouvir falar muito desses anos. Volta dias depois. Em casa, o aspirador continua abandonado no ch\u00e3o da sala. Leva dessa vez uma biografia. Na semana que se segue sai da biblioteca com \u201cO primo Bas\u00edlio\u201d debaixo do bra\u00e7o. Depois escolhe uma hist\u00f3ria breve da R\u00fassia. O<i>u\u00e7a c\u00e1, menina, ouvi falar do Dosto\u2026 Dostov&#8230; Refere-se ao Dostoi\u00e9vski? \u00c9 isso, \u00e9, mostre-me o que tem dele. <\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><a name=\"_GoBack\"><\/a> <span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Pensa \u00e0s vezes Diamantina que \u00e9 o prazer que torna os dias viv\u00edveis, esteja ele na companhia de uma pessoa, no interior de um livro ou noutro lado qualquer. Em sua casa, o aspirador est\u00e1 agora arrumado. Sai da dispensa \u00e0 sexta-feira, d\u00e1 a volta \u00e0 casa e volta logo depois para o mesmo s\u00edtio. Os vidros das janelas s\u00e3o lavados uma vez por semana quando chove, ou uma vez a cada quinze dias no Ver\u00e3o. Comprou flores novas para os vasos no terra\u00e7o, a que nunca falta com \u00e1gua. Uma vez por outra faz para o almo\u00e7o caras de bacalhau, de que continua a n\u00e3o gostar, s\u00f3 para recordar o mau gosto alimentar do marido. Fica-se a olhar para as caras no prato como se estivesse a olhar para a cara de Fortunato, a recordar este ou aquele epis\u00f3dio, com o cheiro a empestar a cozinha. A seguir levanta-se, suspirando, deita as caras de bacalhau no balde do lixo, debaixo da pia, e vai apanhar a roupa que deixou na corda, que pelas suas contas j\u00e1 deve estar seca.<\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-caras-de-bacalhau\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diamantina trabalhou em casa a vida toda. Criou dois filhos, um vive em Lisboa, o outro na B\u00e9lgica. 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