{"id":65434,"date":"2025-01-20T12:25:36","date_gmt":"2025-01-20T12:25:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=65434"},"modified":"2025-01-20T11:43:03","modified_gmt":"2025-01-20T11:43:03","slug":"a-cronica-de-telmo-mendes-bicho-de-um-cabrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-telmo-mendes-bicho-de-um-cabrao\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Telmo Mendes: &#8220;Bicho de um Cabr\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Lembro-me daquela vez em que a minha av\u00f3 Maria me telefonou, rente \u00e0 noite, a perguntar quando \u00e9 que me dava jeito passar l\u00e1 por casa. Notei-lhe uma certa inquieta\u00e7\u00e3o, a voz esbaforida, como se metade do peito lhe sa\u00edsse pela boca. Entre palavras atabalhoadas e muita hesita\u00e7\u00e3o, a av\u00f3 l\u00e1 foi teimando para que eu fosse o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, que ela e o meu av\u00f4 Jo\u00e3o estavam ainda assarapantados e por causa disso n\u00e3o se conseguia explicar muito bem, mas nos entremeios l\u00e1 me adiantou que o meu av\u00f4 Jo\u00e3o tinha morto um bicho de um cabr\u00e3o!<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>&#8211; Como assim, um bicho de um cabr\u00e3o?<\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>&#8211; Ai filho! nunca vimos um bicho a rabiar como aquele!<\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>&#8211; Mas o av\u00f4 matou-o?!<\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>&#8211; Sim! teve de lhe espetar com a forquilha nos cornos!<\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Partindo do princ\u00edpio que a minha av\u00f3 Maria, pessoa devota e que nem sempre distingue os poderes divinos da realidade, dizer que o meu av\u00f4 tinha morto um bicho com uma forquilha\u2026 considerei imediatamente que a forquilha fosse coisa para ser levada em absoluta considera\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o bicho de um cabr\u00e3o, quase certamente, seria coisa do deslumbre e imagin\u00e1rio crist\u00e3o da velhota.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No caminho, ocorreu-me que talvez alguma cobra de tamanho exagerado tivesse surgido do meio das couves ou ent\u00e3o algum bode chifrudo, daquele danados para a cornada, vindo de outros pastos e que, doido da moina, havia galgado para dentro dos muros da horta, sei l\u00e1. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Quando cheguei a casa dos meus av\u00f3s, na Praia do Ribatejo, j\u00e1 estavam ambos \u00e0 minha espera, junto do port\u00e3o. O meu av\u00f4 com o mesmo sorriso de sempre e que nunca perdeu durante a vida, fosse qual fosse a situa\u00e7\u00e3o, enquanto a minha av\u00f3 Maria, deserta para se chegar \u00e0 frente e contar toda a hist\u00f3ria \u00e0 sua maneira, cheia de voc\u00e1bulos, gestos e coisas do diabo. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Ora, com isto, eu tinha de ver o bicho antes de qualquer considera\u00e7\u00e3o e l\u00e1 fui andando at\u00e9 ao lugar onde dito-cujo se encontrava, pendurado pelas patas, numa gloriosa exibi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O que se passou, segundo o que consegui apurar e ap\u00f3s eliminar coisas sobre a exist\u00eancia de Deus e outras for\u00e7as divinas, foi o seguinte:<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Ainda o sino da igreja n\u00e3o tinha batido as seis, quando o meu av\u00f4 desceu \u00e0 horta para realizar o habitual regadio do fim da tarde. Como sempre, ligou o furo, esticou as mangueiras e foi ajeitando a terra com a sachola, para preparar a passagem da \u00e1gua at\u00e9 os talh\u00f5es das couves, das alfaces, pepinos e afins. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Enquanto a \u00e1gua ia avan\u00e7ando sem pressa, o meu av\u00f4 sempre aproveitava para trincar umas ameixas, sumarentas, colhidas logo ali, como se fossem diamantes vermelhos de comer. H\u00e1 demasiadas coisas bonitas nas rotinas mais simples da vida. Aqueles eram momentos em que o av\u00f4 se alinhava com a vida, parecendo que o sol, no lugar de cair, desaguava dentro dele. Talvez fosse esse o seu segredo para ser feliz e receber todas as pessoas com um sorriso maior do que ele. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E foi no meio desta sua paz que, naquele dia, aconteceu uma estranheza. Consta que, inicialmente, um zumbido an\u00f3malo come\u00e7ou a rondar pela horta. O meu av\u00f4 decidiu manter-se quieto, est\u00e1tua, com os olhos a perscrutarem tudo ao seu redor. Ouvira falar de trag\u00e9dias causadas por uma tal de Vespa Asi\u00e1tica, no Caf\u00e9 do Chico algu\u00e9m havia dito serem quase do tamanho dos pardais e terem um ferr\u00e3o da grossura do dedo mindinho (vai l\u00e1 vai!!). Vai nisto, o bicho mostrou-se finalmente e aproximou-se o suficiente para que o meu av\u00f4 lhe visse os olhos vermelhos e para a\u00ed umas seis patas! Coisa assustadora, animal sem qualquer pelagem nem penugem, com a pele completamente negra, como s\u00e3o todos os bichos do diabo, naturalmente.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O meu av\u00f4 apercebeu-se que tinha uma forquilha encostada a uma das oliveiras, a poucos metros de onde se encontrava. O bicho come\u00e7ou a abeirar-se cada vez mais, ao mesmo tempo que ele, como quem n\u00e3o quer a coisa, foi dando passos na dire\u00e7\u00e3o da ferramenta. O bicho cada vez mais perto, cada vez mais perto, e o meu av\u00f4 com o cora\u00e7\u00e3o a bater no corpo todo, <i>pum-pum, pum-pum, pum-pum,<\/i> ah! bicho de um cabr\u00e3o!<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">S\u00f3 havia uma coisa a fazer: Assim que alcan\u00e7ou a forquilha, qual Deus <i>Poseidon<\/i> ou <i>Aquaman<\/i> das lez\u00edrias, o meu av\u00f4 Jo\u00e3o arremessou-a na dire\u00e7\u00e3o do bicho, arrancando-lhe imediatamente uma pata. Aquilo, estonteado, tombou no ch\u00e3o, saltando, corrupiando, fazendo grunhidos esquisitos. Nesse instante o meu av\u00f4 n\u00e3o foi de modas e, antes que o bicho arribasse, espetou-lhe a forquilha no dorso, uma e outra vez. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Perplexo e sem reconhecer p\u00e1ssaro ou besta com aquele corpo e fisionomia, o meu av\u00f4 n\u00e3o hesitou e levou-o espetado nos dentes da forquilha, ainda a estrebuchar, at\u00e9 \u00e0 entrada da horta, onde havia um bidon cheio de \u00e1gua. Mergulhou-o at\u00e9 que o bicho se aquietou definitivamente e os olhos vermelhos, pr\u00f3prios das coisas do diabo, se extinguiram.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: medium; font-family: Arial, sans-serif;\">Enquanto a minha av\u00f3 me contava todos estes detalhes, e mais outros tantos, sobre tamanha fa\u00e7anha. Eu ia olhando o cad\u00e1ver do bicho, cheio de remorsos por v\u00ea-lo ali derrotado, sem qualquer compaix\u00e3o, com o corpo todo perfurado, desmembrado e, ainda por cima, submetido a afogamento para que n\u00e3o restassem d\u00favidas sobre a sua morte.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O bicho de um cabr\u00e3o n\u00e3o era cobra nem bode chifrudo, nem p\u00e1ssaro algum que sofrera uma muta\u00e7\u00e3o devido a excesso de exposi\u00e7\u00e3o ao enxofre das chamin\u00e9s do Caima, nada disso, meus amigos! O bicho era afinal\u2026 um drone! \u2013 Um drone manobrado por algu\u00e9m que, armado aos cucos, quis fazer uma gracinha e foi meter-se na vida de um velhote de cepa rija, que apenas aproveitava para regar a sua hortazita e trincar umas ameixas, sumarentas, colhidas logo ali, como se fossem diamantes vermelhos de comer.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Toma e embrulha\u2026 bicho de um cabr\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Telmo Mendes<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Siga o trabalho do escritor em:<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #0563c1;\"><u><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pelopeitoadentro\/\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>https:\/\/www.facebook.com\/pelopeitoadentro\/<\/i><\/span><\/span><\/a><\/u><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #0563c1;\"><u><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/telmo.mendes.writer\/\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>https:\/\/www.instagram.com\/telmo.mendes.writer\/<\/i><\/span><\/span><\/a><\/u><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-telmo-mendes-bicho-de-um-cabrao\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro-me daquela vez em que a minha av\u00f3 Maria me telefonou, rente \u00e0 noite, a perguntar quando \u00e9 que me dava jeito passar l\u00e1 por casa. 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