{"id":65299,"date":"2025-01-11T12:30:41","date_gmt":"2025-01-11T12:30:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=65299"},"modified":"2025-01-11T11:18:45","modified_gmt":"2025-01-11T11:18:45","slug":"a-cronica-de-evelina-gaspar-a-grande-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-a-grande-mae\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Evelina Gaspar: \u201cA grande m\u00e3e\u201d"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><a name=\"_GoBack\"><\/a> <span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Agora que j\u00e1 n\u00e3o tenho crian\u00e7as, e que os meus filhos s\u00e3o homens, dou por mim muitas vezes a rever o di\u00e1rio que fiz desses anos, e francamente surpreende-me que tenha sobrevivido. Para os que neste momento abanam a cabe\u00e7a diante de tamanho dramatismo \u2013 afinal todos os dias as mulheres t\u00eam filhos, o que tem isso de especial? \u2013 deixem que vos diga que a maternidade para mim foi uma experi\u00eancia radical.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">N\u00e3o se passou um dia s\u00f3 em que eu n\u00e3o pensasse que estava a fazer tudo mal. Ao fim e ao cabo, o que \u00e9 uma boa m\u00e3e? Convenhamos que os elogios v\u00e3o muito mais facilmente para o pai \u2013 que o mais das vezes s\u00f3 por comparecer se v\u00ea logo coroado com o pr\u00e9mio de <i>grande pai \u2013<\/i> do que para aquela que normalmente suporta a maior parte da carga. Uma grande m\u00e3e, para a maioria, tem de ser um exemplo de abnega\u00e7\u00e3o e de ren\u00fancia, sobretudo se tivermos em conta que em Portugal a maternidade resulta bastante sacrificial. A m\u00e3e por c\u00e1 \u00e9 a educadora, a disciplinadora, a tutora, a administrativa, a contabilista, a governanta, a cozinheira, a mulher-a-dias, a patroa e a criada. Ufa! N\u00e3o \u00e9 de admirar, pois, que as mulheres de hoje n\u00e3o se sintam muito tentadas a p\u00f4r filhos no mundo, para mais se tivermos em conta a diminui\u00e7\u00e3o da qualidade de vida e o estado do SNS.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No entanto, se alguma jovem me perguntasse se acho boa ideia ter um filho, eu diria que sim, absolutamente sim. Mas esque\u00e7am a tradi\u00e7\u00e3o da exemplar m\u00e3ezinha supermulher, suprassumo da do\u00e7ura e da for\u00e7a ao mesmo tempo, que tem nos filhos a raz\u00e3o da sua exist\u00eancia e o motivo para respirar, que isso n\u00e3o passa de uma quimera que coloca a fasquia de tal maneira alta, que mulher nenhuma a pode jamais alcan\u00e7ar. E digo mais, n\u00e3o pode, nem deve. A m\u00e3e \u00e9 um indiv\u00edduo, algu\u00e9m que j\u00e1 existia antes de mandar vir os filhos, e que continuar\u00e1 a existir ap\u00f3s estes abandonarem o ninho. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A m\u00e3e perfeita \u00e9 como o unic\u00f3rnio, palavra que nos \u00faltimos anos tem sido muito usada no contexto do empreendedorismo e das startups, mas que diz respeito a uma criatura mitol\u00f3gica que simboliza e for\u00e7a e a pureza e que bem gostar\u00edamos que existisse, mas que s\u00f3 vive nos filmes de anima\u00e7\u00e3o e no mundo da fantasia. No mundo real o mais parecido que temos s\u00e3o os cavalos, de que gostamos ali\u00e1s muit\u00edssimo, especialmente no Ribatejo, e que no fundo s\u00e3o os unic\u00f3rnios poss\u00edveis, embora sem o bendito corno na testa. Os cavalos de resto t\u00eam sobre os unic\u00f3rnios, para l\u00e1 da vantagem evidente de existirem mesmo, aquela outra que d\u00e1 tamb\u00e9m muito jeito que \u00e9 deixarem-se montar.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Lembro-me a prop\u00f3sito de um livro que os meus filhos gostavam muito que eu lhes lesse, do Jos\u00e9 Jorge Letria, com ilustra\u00e7\u00f5es de Andr\u00e9 Letria, que se chamava <i>Animais fant\u00e1sticos<\/i>, que depois de passar em verso pelo Ciclope, pela Esfinge, pela F\u00e9nix, pelo P\u00e9gaso e por v\u00e1rias outras maravilhosas criaturas, termina justamente com o Unic\u00f3rnio, cujo poema finda assim: \u00abNa cerrada floresta \/ \u00e9 que gosto de viver, \/ entre p\u00e9talas e estrelas \/ \u00e0 luz do alvorecer.\u00bb<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">S\u00f3 vendo a coisa muito poeticamente se pode julgar que a maternidade \u00e9 flores e estrelas e brilhos do alvorecer, e alturas h\u00e1 em que se faz mesmo noite escura. Creio que a m\u00e3e que fui para as crian\u00e7as que tive est\u00e1 bem representada na cena que descrevo a seguir, e que gostaria de dizer que teve lugar sob circunst\u00e2ncias excepcionais, mas que na verdade se passou num dia quase banal. Certa noite em que eu estava muito cansada, fiz para o jantar uma salada fria de batata, com ovo cozido, atum, pimentos, milho, etc. A cozinha da nossa casa n\u00e3o era grande, mas do caminho da bancada, onde acabei de picar a salsa para a salada, at\u00e9 \u00e0 mesa, onde os meus filhos aguardavam de talheres em riste, teriam eles talvez cinco e sete anos, algo de muito estranho aconteceu. A salada de batata estava numa grande ta\u00e7a de lou\u00e7a branca, e quando eu segurei a ta\u00e7a e me virei para eles, no segundo antes de encetar os tr\u00eas ou quatro passos que me separavam da mesa, ocorreu-me que poderia muito bem atirar a ta\u00e7a ao ar, com salada e tudo, e simplesmente desaparecer. Claro que comecei por resistir a ideia t\u00e3o desvairada, mas \u00e0s vezes na vida tr\u00eas ou quatro passos podem parecer uma maratona, e acontece que ao segundo passo, infelizmente, a ideia ganhou uma for\u00e7a tal que eu, de facto, ergui os bra\u00e7os para o alto e atirei o jantar das minhas crias ares fora. O resultado, claro, foi a ta\u00e7a feita em mil peda\u00e7os no ladrilho e comida espalhada por todo o lado. Mas n\u00e3o desapareci. E como pensam que os meus filhos reagiram? Levantaram-se imediatamente das cadeiras e juntaram-se a mim no ch\u00e3o, os tr\u00eas de c\u00f3caras a apanhar os cacos. As l\u00e1grimas corriam-me pelo rosto, mal podendo acreditar no que acabara de fazer, mas eles, muito serenos, a passarem as m\u00e3os pelos meus cabelos e a repetirem, mam\u00e3, n\u00e3o chores, n\u00f3s ajudamos.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E assim foi, eles foram ajudando atrav\u00e9s dos anos, e, entre mortos e feridos, como se costuma dizer, as minhas crian\u00e7as deixaram de o ser. Voca\u00e7\u00e3o para a maternidade? N\u00e3o sei, possivelmente n\u00e3o tenho nenhuma. Mas o amor \u00e9 um grande professor.<\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-a-grande-mae\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora que j\u00e1 n\u00e3o tenho crian\u00e7as, e que os meus filhos s\u00e3o homens, dou por mim muitas vezes a rever o di\u00e1rio que fiz desses anos, e francamente surpreende-me que tenha sobrevivido. 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