{"id":65293,"date":"2025-01-11T11:09:09","date_gmt":"2025-01-11T11:09:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=65293"},"modified":"2025-01-11T11:09:09","modified_gmt":"2025-01-11T11:09:09","slug":"a-cronica-de-telmo-mendes-adelaide-no-res-do-chao-do-mar-tambem-ha-flores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-telmo-mendes-adelaide-no-res-do-chao-do-mar-tambem-ha-flores\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Telmo Mendes: \u201cAdelaide \u2013 no r\u00e9s-do ch\u00e3o do mar tamb\u00e9m h\u00e1 flores\u201d"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">\u00c9 frequente sentar-me com o intuito de escrever sobre um determinado tema e n\u00e3o conseguir. S\u00e3o momentos complexos, em que todas as palavras descem at\u00e9 ao tecido da p\u00e1gina desarticuladas e frouxas, como se fossem coisas solteiras e sem temperatura. Isto adv\u00e9m do facto de eu escrever maioritariamente por inquieta\u00e7\u00e3o. Sou um tipo de escritor que necessita da ferramenta da apoquenta\u00e7\u00e3o para que as palavras digam o que lhes pertence. Sem esse elixir escrevo em esfor\u00e7o, como se rasurasse apenas.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Inicialmente, pretendia que esta cr\u00f3nica abordasse a rela\u00e7\u00e3o, natureza e origem do natal, bem como a forma como a igreja agrilhoou Jesus Cristo ao 25 de dezembro e, posteriormente, \u00e0 conta de medo, morte, criatividade e muitos devaneios, l\u00e1 conseguiu fabricar a maior hist\u00f3ria de todos os tempos. Era uma cr\u00f3nica provocadora e que poderia ferir a suscetibilidade das pessoas mais conservadoras. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Enquanto escritor, tenho-me pautado por um certo recato na abordagem de determinados temas. Reconhe\u00e7o que n\u00e3o perdi nada com isso e o melhor de tudo \u00e9 que tamb\u00e9m n\u00e3o ganhei inimigos. O mundo das religi\u00f5es (n\u00e3o o de Deus, entenda-se), dos galhardetes corrosivos da pol\u00edtica ou da identidade de g\u00e9nero, nunca me suscitaram lugares de fertilidade liter\u00e1ria. Talvez porque sempre escrevi com o intuito de congregar e acolher e nunca de dividir. Admito que, por v\u00e1rias vezes, estive perto de ceder ao impulso de me submeter \u00e0 vulgaridade do confronto de convic\u00e7\u00f5es, e foram muitas as ocasi\u00f5es em que fiz um esfor\u00e7o herc\u00faleo para me manter longe desse p\u00e2ntano. Enfim\u2026<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Esta cr\u00f3nica j\u00e1 foi outra coisa. Acontece que, nos primeiros dias de dezembro, fui submetido \u00e0 maravilhosa experi\u00eancia de contrair Gripe A. Uma bicheza de cepa rija com quem mantive uma rela\u00e7\u00e3o estreita durante v\u00e1rios dias. Assumo que, das mulheres que amei ao longo da vida, nunca alguma me fez gratinar por dentro como ela.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No dia em que dei entrada no hospital, completamente amestrado por dores e febre, depois de feitas an\u00e1lises e de levar com broncodilatadores e outras merdas, meteram-me sozinho numa sala, longe do caos, como se me tivessem prescrito uma descida ao sil\u00eancio para come\u00e7ar a cura. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E foi a\u00ed que esta cr\u00f3nica mudou para aquilo que vai ser.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"> N\u00e3o sei h\u00e1 quanto tempo eu ali estava. Sei que adormeci e, \u00e0s p\u00e1ginas tantas, acordei com algu\u00e9m a apertar-me a m\u00e3o E a perguntar-me se eu estava bem. Estremunhado, com olhos a meia-haste, na minha frente uma senhora de esfregona na m\u00e3o, cuja placa identificativa no bolso do uniforme azul revelava chamar-se Adelaide. N\u00e3o me recordo bem o que lhe respondi, talvez um grunhido qualquer. Acontece que, pouco tempo depois, ela ressurgiu com uma trouxa de onde tirou um pacote de sumo (deu-se at\u00e9 \u00e0 gentileza de lhe enfiar a palhinha) e umas bolachas de aveia.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">&#8211; <i>N\u00e3o sou m\u00e9dica, mas est\u00e1 com a cor a fugir da cara e precisa de comer! <\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E eu, meio taranta das ideias, a pensar no que seria ter a cor a fugir da cara, acedi \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de Adelaide e fui comendo as bolachas. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Depois de me vigiar durante alguns segundos, l\u00e1 principiou a passar o ch\u00e3o com a esfregona. Adelaide era uma mulher bonita e todos os seus movimentos muito suaves, parecia ter m\u00e3os de maestrina a orientar uma orquestra. Come\u00e7ava todas as frases com <i>\u00absabes\u2026\u00bb, <\/i>como um pequeno sublinhado de quem se prepara para dizer coisa valiosa. E falou, falou\u2026 <i>\u00absabes\u2026\u00bb<\/i> \u2026 e eu fui ouvindo.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A vida de Adelaide foi repleta de esperan\u00e7a, lugares e pessoas. Houve um tempo em que correu atr\u00e1s de sonhos que nunca concretizou. Passou pela acidez da guerra, pelas tormentas de um pai violento e ainda de dois homens que lhe fizeram tr\u00eas filhos e devem ter morrido (depreende ela, porque os fulanos nunca mais apareceram). A determinada altura, os seus olhos solidificaram-se no vazio quando me confidenciou que, l\u00e1 longe, na expetativa de chegar \u00e0 outra margem do mar, fez coisas com o corpo para adquirir assento num barco enorme, embarca\u00e7\u00e3o que depois veio a adornar no meio da viagem por meter mais \u00e1gua do que gente. Estava gr\u00e1vida do terceiro filho nessa altura. Aguentou-se agarrada a um bocado de esferovite e acabou resgatada pela Guarda Civil espanhola. Foi para Algeciras e depois repatriada.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Adelaide chorou e teve medos maiores (curiosamente nunca de morrer) por\u00e9m, dentro de si, no penhasco mais alto da sua f\u00e9, nunca desistiu de dar uma vida melhor e mais condigna aos seus meninos. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Numa inoc\u00eancia que me comoveu, Adelaide segredou que, de Marrocos para Portugal, existiam t\u00faneis gigantes, muito sofisticados, constru\u00eddos no r\u00e9s-do-ch\u00e3o do mar, por onde as pessoas com dinheiro (s\u00f3 com muito dinheiro), efetuavam a travessia sem serem notadas. Garantiu-me at\u00e9, imagine-se, que, nesses t\u00faneis, era poss\u00edvel espreitar atrav\u00e9s de janelas redondas e muito bonitas, a felicidade dos golfinhos a nadar por entre as entranhas dos barcos afundados.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Depois de sucessivos enganos, foi na noite de 24 de dezembro de 2020 que, escondidos no fundo falso de um contentor atafulhado com tapetes e artigos de pele, ela e os seus meninos deixaram finalmente o continente africano. Ap\u00f3s tantas tentativas fracassadas, aquela era apenas mais uma viagem sem certezas, da qual se recorda principalmente do escuro, do sussurrar do mar\u2026 e das l\u00e1grimas de fome dos seus meninos.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Come\u00e7ou por limpar o ch\u00e3o nos meus arredores e depois foi-se afastando, saindo aos poucos daquela sala, enquanto falava do que lhe apetecia. Eu apenas observava como quem desfruta de um lugar raro! Aquela mulher, imperatriz de esfregona, era uma li\u00e7\u00e3o de ir sem conhecer caminho, de continuar para al\u00e9m de toda a adversidade. Mulher que tinha tudo para ser precip\u00edcio e, afinal, ainda me assinalou que era muito feliz e que os seus meninos j\u00e1 estavam na escola, que tinham roupa, amigos e dormiam de est\u00f4mago aconchegado. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Com um sorriso, Adelaide exp\u00f4s que ningu\u00e9m lhe ligava muito! Como se o of\u00edcio de limpar e manter o brilho na vida dos outros lhe atribu\u00edsse a condi\u00e7\u00e3o de ser uma mulher invis\u00edvel. Deixa l\u00e1, Adelaide, n\u00e3o faz mal! &#8211; N\u00e3o lhes d\u00eas import\u00e2ncia.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Ao terminar a sua tarefa, espremeu a esfregona e, antes de se afastar, rebentou-me por dentro: <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>&#8211; Sabes\u2026 no r\u00e9s-do-ch\u00e3o do mar tamb\u00e9m h\u00e1 flores!&#8230; S\u00e3o tantos os meninos que l\u00e1 ficam a tentar chegar aqui.<\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E foi-se embora!<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Depois de me darem alta, procurei por ela para lhe agradecer o sumo e as bolachas. Dirigi-me ao guich\u00e9 e perguntei se sabiam onde estava uma senhora da limpeza chamada Adelaide. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Disseram-me que n\u00e3o trabalhava ali nenhuma Adelaide.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Deixa l\u00e1, Adelaide, n\u00e3o faz mal! &#8211; N\u00e3o lhes d\u00eas import\u00e2ncia.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Telmo Mendes<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Siga o trabalho do escritor em:<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"color: #0563c1;\"><u><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pelopeitoadentro\/\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>https:\/\/www.facebook.com\/pelopeitoadentro\/<\/i><\/span><\/span><\/a><\/u><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"color: #0563c1;\"><u><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/telmo.mendes.writer\/\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>https:\/\/www.instagram.com\/telmo.mendes.writer\/<\/i><\/span><\/span><\/a><\/u><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-telmo-mendes-adelaide-no-res-do-chao-do-mar-tambem-ha-flores\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 frequente sentar-me com o intuito de escrever sobre um determinado tema e n\u00e3o conseguir. 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