{"id":65089,"date":"2024-12-27T12:15:52","date_gmt":"2024-12-27T12:15:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=65089"},"modified":"2024-12-27T11:49:59","modified_gmt":"2024-12-27T11:49:59","slug":"a-cronica-de-evelina-gaspar-sem-abrigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-sem-abrigo\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Evelina Gaspar: &#8220;Sem-abrigo&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O fim do ano costuma ser tempo de balan\u00e7o, mas o \u00fanico balan\u00e7o que conhe\u00e7o \u00e9 o balan\u00e7o suave do corpo, a oscilar para a frente e para tr\u00e1s diante da lareira. O calor acaricia-me a face e eu suspiro de prazer, confortada. Que me interessa o futuro? A mem\u00f3ria do frio que conheci no passado est\u00e1 nos meus ossos como uma pel\u00edcula que cobre todo o esqueleto, de cima a baixo, e que ressurge a cada inverno. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Certa vez ouvi num document\u00e1rio uma sobrevivente de Auschwitz contar que, desse tempo infernal, lhe ficou at\u00e9 hoje a mem\u00f3ria do frio que passou e que ela n\u00e3o consegue superar. Desde ent\u00e3o, e tantos anos decorridos, a cada Inverno ela a sair de casa e a comprar compulsivamente casacos e mais casacos, como se pudesse agasalhar hoje a menina que enregelou no campo de concentra\u00e7\u00e3o. Possui tantos casacos que n\u00e3o os consegue fazer caber dentro dos arm\u00e1rios de sua casa, pelo que os vai doando regularmente para a caridade.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Eu, num certo sentido, igual a essa sobrevivente do Holocausto, porque vive em mim um frio que n\u00e3o desaparece, e que se aquieta apenas diante do fogo. Vivi na rua v\u00e1rios anos. Foi na adolesc\u00eancia ainda, com um namorado que ent\u00e3o tive, que me perdi pelos meandros da m\u00e1 vida. O meu pai dizia nessa altura pelos botequins do bairro, para quem o quisesse ouvir, que preferia que lhe tirassem as duas pernas com uma serra el\u00e9ctrica a ter um uma filha drogada, pelo que acabei institucionalizada. Passei por v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es, e nalgumas, em vez de me protegerem, maltrataram-me de toda a maneira. No fim, achei-me, n\u00e3o reabilitada, mas quebrada, como a ch\u00e1vena de porcelana que a falta de cuidado deixa cair ao ch\u00e3o, resultando no quebrar da asa. Continuava a ser uma ch\u00e1vena, isto \u00e9 uma mulher, mas sem asa por onde pudesse ser agarrada, defeituosa, uma sem-abrigo da vida.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Hoje compreendo que, para me regenerar, seria preciso que surgisse algo que n\u00e3o havia ainda, e que era um bem que n\u00e3o se encontra no mundo com facilidade. Algu\u00e9m capaz de penetrar com os olhos o meu interior, como a Blimunda Sete-Luas do <i>Memorial do convento<\/i> do Saramago, que tinha o dom de ver os corpos por dentro, em estando de est\u00f4mago vazio. Foi preciso um dia, depois de mais de mil noites a dormir numa cama de jornais, que aparecesse um homem que visse para l\u00e1 do sebo que me cobria a pele como uma m\u00e1scara de entrudo. Eu a parecer mulher morena, quando na verdade, debaixo da sujidade, eu de uma brancura de princesa de conto de fadas. A minha m\u00e3e chamava-me mesmo Branca de Neve, \u00e0s vezes de brincadeira. Morreu, tinha eu dez anos, atropelada numa passadeira quando vinha do talho com uma galinha para me fazer uma canja, lutava eu por esses dias com uma gripe apanhada na escola. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Ora esse homem que, por favor divino, apareceu no meu caminho era vendedor ambulante de castanhas. Numa manh\u00e3 de c\u00e9u encoberto, estava eu por acaso sentada nas escadas da igreja, de barriga colada \u00e0s costas, quando o perfume da castanha assada me fez erguer e seguir, um p\u00e9 atr\u00e1s do outro, esse cheiro que me entrava pelo nariz como o fumo de um encantamento. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Em poucos minutos vi-me defronte dele e, habituada que estava a pedir pelas ruas, mendiguei-lhe a gra\u00e7a de uma castanha. S\u00f3 uma, por amor de Deus, roguei. E ele, para meu espanto, ofereceu-me uma m\u00e3o cheia delas, num cone de folha de jornal. Agradeci, e voltei para a escada da igreja, a deliciar-me com aquele alimento que, de t\u00e3o bem que me soube, me pareceu mais santo do que a h\u00f3stia sagrada, porque, tomando essa, o homem apenas come o simbolismo que, sabe-o quem j\u00e1 passou fome, n\u00e3o enche a barriga de nenhum pobre.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Depois desse dia, ele a parar diante da igreja muitas vezes, onde eu dei em estar todas as manh\u00e3s, na esperan\u00e7a de o ver passar. No entanto, sem saber porqu\u00ea, eu de repente envergonhada, e sem me atrever nunca mais pedir-lhe castanha nenhuma, mirando-o s\u00f3 de longe, sem coragem para me aproximar. At\u00e9 que duas semanas mais tarde, ele a dirigir-se \u00e0 escada da igreja, a subir os primeiros degraus, e em chegando mais ou menos a meio, onde eu me encontrava, sentada de joelhos contra o peito para cortar a ferradela do frio, ele a estender-me um cartuxo de castanhas. Eu ent\u00e3o, apesar da vergonha, n\u00e3o me fiz de rogada e agarrei logo mais essa d\u00e1diva que, novamente, me soube como se fora o santo corpo do Senhor.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Depois disso fui-lhe ganhando simpatia, e aceitando a cada vez as castanhas assadas que ele continuava a oferecer-me. Come\u00e7\u00e1mos a conversar, e em pouco tempo partilh\u00e1vamos um com o outro as nossas hist\u00f3rias. Contei-lhe da sopa e do p\u00e3o que me serviam umas pessoas de boa vontade, que chegavam numa carrinha todas as noites, ceia que se juntava no interior do meu est\u00f4mago \u00e0s suas benditas castanhas. Ele falava comigo como se n\u00e3o visse o sarro, e tendo aprendido o meu nome, repetia-o muitas vezes, ora no come\u00e7o das frases, ora no meio, como se fosse, o meu nome, palavra de muito respeito. Esses seus modos, de uma gentileza muito humana, ressoavam fundo no meu cora\u00e7\u00e3o, e a expectativa de trocarmos a cada dia dois dedos de conversa acabou por dar um sentido para o meu vaguear, a parecer uma \u00e2ncora que me salvasse de um desnorte sem fim.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Hoje a vida apresenta-se muito modificada. Eu larguei o v\u00edcio da droga em definitivo e trabalho num caf\u00e9, ele faz entregas numa firma de mudan\u00e7as, e ao fim de cada dia c\u00e1 nos encontramos na nossa casinha, abrigados os dois debaixo do mesmo tecto. No m\u00eas de Novembro vamos juntos ao fim-de-semana para a rua mais o carrinho das castanhas, e se calha toparmos com um mendigo, damos-lhe um cartuxo delas, quentinhas. N\u00e3o fa\u00e7o planos para o futuro, apenas vou vivendo o dia-a-dia, agradecida pela b\u00ean\u00e7\u00e3o que recebi do destino, depois do tanto que sofri. E a cada Inverno, \u00e0 noitinha, quando o frio me acorda nos ossos a recorda\u00e7\u00e3o do passado, eu chego-me mais \u00e0 lareira e murmuro para mim mesma, enquanto me balan\u00e7o diante do fogo, j\u00e1 passou, j\u00e1 passou.<\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-evelina-gaspar-sem-abrigo\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fim do ano costuma ser tempo de balan\u00e7o, mas o \u00fanico balan\u00e7o que conhe\u00e7o \u00e9 o balan\u00e7o suave do corpo, a oscilar para a frente e para tr\u00e1s diante da lareira. 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