{"id":65051,"date":"2024-12-23T12:15:18","date_gmt":"2024-12-23T12:15:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=65051"},"modified":"2024-12-23T10:49:58","modified_gmt":"2024-12-23T10:49:58","slug":"a-cronica-de-sandra-may-entre-mudancas-e-conexoes-o-agora-que-nos-escapa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-sandra-may-entre-mudancas-e-conexoes-o-agora-que-nos-escapa\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Sandra May &#8211; Entre Mudan\u00e7as e Conex\u00f5es: &#8220;O agora que nos escapa&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium;\">O comboio seguia num ritmo mon\u00f3tono, embalando os pensamentos de quem ia ali. Do meu lugar, junto \u00e0 janela, como j\u00e1 \u00e9 habitual, observei um casal sentado \u00e0 minha frente. Tornei-me automaticamente espectadora das suas vidas, ainda que eles n\u00e3o se tivessem dado conta. <b>Mas quem repararia? <\/b>Uma escritora a rabiscar tudo o que lhe vem \u00e0 cabe\u00e7a n\u00e3o \u00e9 propriamente a vis\u00e3o mais atrativa. Mas o casal\u2026 o casal era.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium;\">N\u00e3o eram jovens, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pareciam velhos. Transmitiam uma desconex\u00e3o quase palp\u00e1vel entre eles e o mundo. N\u00e3o estavam preocupados com os olhares alheios, como o meu. Viviam o seu instante. Ele segurava um livro, mas os olhos n\u00e3o me pareciam saber acompanhar as linhas. As suas sobrancelhas denunciavam-no sempre que fazia um ponto de interroga\u00e7\u00e3o com a testa. Ela olhava pela janela, serenamente, como se procurasse algo no horizonte que s\u00f3 ela pudesse ver. Como se apenas ela soubesse o que estava a procurar. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium;\">Entre eles, n\u00e3o trocavam palavras, apenas sil\u00eancios. E, ainda assim, era imposs\u00edvel n\u00e3o reparar na dist\u00e2ncia entre ambos, apesar de estarem t\u00e3o pr\u00f3ximos. Ele mexia no livro, inquieto. O som das p\u00e1ginas revelava uma crescente frustra\u00e7\u00e3o. Ela suspirava, perdida nos pensamentos. Imaginei que talvez pudesse estar a ler os meus, porque ultimamente tenho vivido aquela sensa\u00e7\u00e3o. Era como se cada um estivesse preso num lugar onde o outro n\u00e3o conseguia chegar. Como se juntos tivessem deixado de ser inteiros.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium;\">At\u00e9 que, ent\u00e3o, aconteceu. O t\u00e3o esperado movimento. Foi t\u00e3o pequenino que quase passou despercebido. Aos meus olhos, foi o puro \u00eaxtase de um espet\u00e1culo.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium;\">Ela virou-se para ele e, sem dizer nada, pousou a m\u00e3o sobre a dele. O toque. Foi tudo o que bastou. Ele olhou-a, e naquele instante, algo mudou. O comboio deixou de ser mon\u00f3tono e os pensamentos dispersos organizaram-se. N\u00e3o foi uma conversa que come\u00e7ou, nem um sorriso ensaiado. <b>Foi o momento. Um instante que parecia conter tudo. Tudo o que esperamos uma vida para encontrar.<\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium;\">E n\u00e3o pude deixar de me perguntar: <b>Quantas vezes estamos assim, t\u00e3o perto de algu\u00e9m, mas t\u00e3o distantes de n\u00f3s mesmos? Quantas vezes deixamos o agora escorrer pelos dedos, porque estamos demasiado presos ao que j\u00e1 passou ou ao que ainda n\u00e3o chegou?<\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium;\">O presente \u00e9 como aquela m\u00e3o pousada sobre a outra. Um gesto com o poder de nos ancorar. N\u00e3o grita por aten\u00e7\u00e3o, mas oferece tudo. <b>S\u00f3 precisamos de estar l\u00e1 para o aceitar.<\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium;\">Foi ent\u00e3o que decidi dar-lhes privacidade. Desviei o olhar. Olhei pela janela, mas tudo o que sobressa\u00eda era o reflexo deles. Tentei focar-me na paisagem desfocada pela velocidade, mas os meus olhos procuravam-nos. N\u00e3o resisti. Voltei a observ\u00e1-los. <b>Foi quando vi o agora.<\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium;\">Agora, ele tinha pousado o livro, e ela sorria, ainda que de forma discreta e quase t\u00edmida. N\u00e3o sei o que mudou entre eles naquele instante, mas sei o que mudou em mim.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium;\">Quando o comboio parou na esta\u00e7\u00e3o seguinte, eles levantaram-se e sa\u00edram, deixando para tr\u00e1s o eco de um momento que nunca mais voltar\u00e1. E eu fiquei ali, com a certeza de que <b>a vida n\u00e3o espera. Ela acontece. Agora.<\/b><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: medium;\">SANDRA MAY<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>Acompanha o trabalho da autora em:<br \/>\n<\/i><\/span><span style=\"color: #467886;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i><u><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/saandramay\/\">https:\/\/www.instagram.com\/saandramay\/<br \/>\n<\/a><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/saandramay\/\">https:\/\/www.facebook.com\/saandramay\/<\/a><\/u><\/i><\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-sandra-may-entre-mudancas-e-conexoes-o-agora-que-nos-escapa\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O comboio seguia num ritmo mon\u00f3tono, embalando os pensamentos de quem ia ali. 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