{"id":64901,"date":"2024-12-09T12:20:47","date_gmt":"2024-12-09T12:20:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=64901"},"modified":"2024-12-09T10:44:45","modified_gmt":"2024-12-09T10:44:45","slug":"a-cronica-de-telmo-mendes-qualquer-brilho-pequenino-e-melhor-do-que-este-escuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-telmo-mendes-qualquer-brilho-pequenino-e-melhor-do-que-este-escuro\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Telmo Mendes: &#8220;Qualquer brilho pequenino \u00e9 melhor do que este escuro&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">Houve tempos em que gostava de ir at\u00e9 ao parque da cidade, principalmente aos domingos, dia em que as pessoas vestem roupas menos gastas e experimentam outros sorrisos.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">Almo\u00e7ava um iogurte com bolachas, colocava um adesivo no dedo grande do p\u00e9 (por causa da unha encravada), umas gotinhas de perfume, uns quantos rebu\u00e7ados do <\/span><span style=\"color: #222222;\"><i>Dr. Bayard<\/i><\/span><span style=\"color: #222222;\"> no bolsito do casaco, e depois l\u00e1 seguia pela borda do passeio at\u00e9 ao parque.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">Talvez o fizesse para fugir da casa demasiado silenciosa, da quietude dos retratos, dos ponteiros parados no rel\u00f3gio da cozinha, dos programas de televis\u00e3o aborrecid\u00edssimos. Talvez por causa da tortura da torneira mal vedada da casa de banho, sempre <\/span><span style=\"color: #222222;\"><i>ping ping ping, <\/i><\/span><span style=\"color: #222222;\">do desconforto da poltrona, do telefonema da minha irm\u00e3, a meio da tarde, para saber como estou, sempre aos berros: <\/span><span style=\"color: #222222;\"><i>&#8211; N\u00e3o abuses dos fritos!<\/i><\/span><span style=\"color: #222222;\"> Talvez para evitar ver-me nos espelhos do corredor, onde j\u00e1 n\u00e3o bem eu, antes um velho parecido comigo, talvez para fugir da vizinha do andar de cima, constantemente a tossir em altos decib\u00e9is, uma coisa que me despoleta espasmos id\u00eanticos a choques el\u00e9tricos.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">No parque da cidade eu era livre durante algumas horas. Parava na esplanada para beber um <\/span><span style=\"color: #222222;\"><i>Trinaranjus, <\/i><\/span><span style=\"color: #222222;\">ver os patitos pequenos atr\u00e1s das m\u00e3es, contemplar o c\u00e9u entre as \u00e1rvores com as nuvens a passar, uma a uma. De quando em quando, ia at\u00e9 ao pont\u00e3o dar umas migalhas aos peixes. Certa vez, distra\u00eddo, atirei-lhes os comprimidos da tens\u00e3o e as carpas ficaram a nadar de costas, um bocado enviesadas. Coitadas. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">Pelo fim da tarde, cruzava-me sempre com a Lurdes, uma mo\u00e7a da minha gera\u00e7\u00e3o, que ia ao parque passear o caniche. Tamb\u00e9m ela com a juventude j\u00e1 toda amolgada, dioptrias e dedos curvos das artroses, os peitos enormes, as madeixas roxas amparadas por quilos de laca e l\u00e1bios besuntados de batom. Falava-me da viuvez <\/span><span style=\"color: #222222;\"><i>bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1,<\/i><\/span><span style=\"color: #222222;\"> do tamanho das noites, da solid\u00e3o e dos p\u00e9s frios <\/span><span style=\"color: #222222;\"><i>bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1, <\/i><\/span><span style=\"color: #222222;\">l\u00e1 pelo meio a convidar-me para um ch\u00e1 de camomila e eu a dizer que sim, claro que sim, um dia destes, quando na verdade\u2026 Deus me livre!!<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">Agora os tempos s\u00e3o outros.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">Aos domingos, uma funcion\u00e1ria do lar chamada Maria Adelaide, que tem os dedos cheios de an\u00e9is e usa brincos que mais parecem pires de caf\u00e9, empurra-me a cadeira de rodas at\u00e9 ao jardim, nas traseiras do asilo, e deixa-me para l\u00e1, com uma manta de cachemira sobre as pernas, voltado para um muro cheio de musgo, onde uma vez por outra passa um cortejo de formigas e mem\u00f3rias de guerra que n\u00e3o me fazem falta nenhuma. Verdade seja dita: pelo menos n\u00e3o estou l\u00e1 dentro, junto dos outros, que cheiram a velhice, bufas e rem\u00e9dios, com fiozinhos de baba a escorrerem pelos cantos da boca.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">A cadeira de rodas \u00e9 um disfarce. Um truque de ilusionismo a que recorro, assim como fazem as perdizes que se fingem mancas para dissuadir os predadores. A cadeira de rodas \u00e9 uma esp\u00e9cie de naperon de crochet sobre um m\u00f3vel, cuja verdadeira miss\u00e3o serve somente para esconder a camada de p\u00f3! As auxiliares do lar sentam-me aqui e julgam.me muito aconchegado e arrumadinho, sempre preocupadas em que eu n\u00e3o tremelique quando abrem uma porta. Palermas! Mal sabem elas que ando h\u00e1 v\u00e1rios dias a tirar o azimute ao muro e at\u00e9 j\u00e1 testei o bater das asas. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">Amanh\u00e3 \u00e9 domingo. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">Hei-de barbear-me cedo e depois do banho vou dar um toque de graxa na franja e nas patilhas. Coloco um adesivo no dedo grande do p\u00e9 (ainda a unha encravada) e claro, n\u00e3o podem faltar umas gotinhas de perfume. Ao almo\u00e7o, acabarei por desviar umas c\u00f4deas de p\u00e3o, para o caso de ir at\u00e9 ao pont\u00e3o, e depois \u00e9 s\u00f3 esperar pelo momento em que a Maria Adelaide me vai encaminhar para a frente do muro e aconchegar a manta de cachemira sobre as pernas. Devolverei com um sorriso enternecido e de muito apre\u00e7o. Quando me voltar as costas\u2026 adeus menina que se faz tarde! Piro-me daqui qual <\/span><span style=\"color: #222222;\"><i>Sandokan, <\/i><\/span><span style=\"color: #222222;\">tigre da Mal\u00e1sia! Talvez at\u00e9 deixe \u00e0 Maria Adelaide um bilhete na cadeira a agradecer e que n\u00e3o se preocupe, que me fui embora juntamente com o cortejo das formigas. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">Voltarei ao parque para beber um <\/span><span style=\"color: #222222;\"><i>Trinaranjus<\/i><\/span><span style=\"color: #222222;\"> na esplanada e tornar a ver os patitos pequenos atr\u00e1s das m\u00e3es e o c\u00e9u entre as \u00e1rvores, com as nuvens a passar, uma a uma. Um bocadinho de sorte, e talvez ainda a Lurdes ao fim da tarde, a convidar-me para um ch\u00e1 de camomila e eu a dizer que sim, claro que sim, um dia destes, quando na verdade\u2026 Deus me livre!!<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">Qualquer brilho pequenino \u00e9 melhor do que este escuro.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">Telmo Mendes<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>Siga o trabalho do escritor em:<\/i><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"color: #0563c1;\"><u><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pelopeitoadentro\/\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">https:\/\/www.facebook.com\/pelopeitoadentro\/<\/span><\/span><\/a><\/u><\/span><\/p>\n<p align=\"right\"><span style=\"color: #0563c1;\"><u><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/telmo.mendes.writer\/\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">https:\/\/www.instagram.com\/telmo.mendes.writer\/<\/span><\/span><\/a><\/u><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-telmo-mendes-qualquer-brilho-pequenino-e-melhor-do-que-este-escuro\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve tempos em que gostava de ir at\u00e9 ao parque da cidade, principalmente aos domingos, dia em que as pessoas vestem roupas menos gastas e experimentam outros sorrisos. 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