{"id":64772,"date":"2024-11-25T21:57:08","date_gmt":"2024-11-25T21:57:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=64772"},"modified":"2024-11-25T22:32:22","modified_gmt":"2024-11-25T22:32:22","slug":"cronica-de-henrique-leal-o-25-de-novembro-nao-existiu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-de-henrique-leal-o-25-de-novembro-nao-existiu\/","title":{"rendered":"Cr\u00f3nica de Henrique Leal: &#8220;O 25 de Novembro n\u00e3o existiu&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">H\u00e1 datas assim. Desprendem-se do calend\u00e1rio e querem medrar, andar por a\u00ed, serem maiores que o sonho se \u00e9 que alguma vez sonharam, enfim, ir al\u00e9m da chinela como dizem os sapateiros.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Entrei para a For\u00e7a A\u00e9rea Portuguesa com dezoito anos e por l\u00e1 me aguentei durante seis anos. Seis anos cruciais na minha hist\u00f3ria de vida, por sinal.<br \/>\nDepois de realizar o curso de oficiais milicianos na Base A\u00e9rea 2 na Ota, fui colocado na Base A\u00e9rea 3 em Tancos e por l\u00e1 estive cinco anos. Estava l\u00e1 quando retomei os estudos na universidade como trabalhador-estudante, estava l\u00e1 quando ocorreu o 25 de Abril de 1974, estava l\u00e1 quando ocorreu o 11 de Mar\u00e7o de 1975, estava l\u00e1 quando correu no calend\u00e1rio o 25 de Novembro de 1975, estava l\u00e1 quando me casei, estava l\u00e1 quando nasceu o meu filho mais velho.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Da data gloriosa de abril de 1974 recordo a generosidade simples e desprendida de alguns militares de abril que conheci pessoalmente, recordo a celebra\u00e7\u00e3o do meu 1\u00ba de maio em liberdade, com uma grande manifesta\u00e7\u00e3o em Torres Novas em 1974, recordo a alegria de sermos livres e a enorme esperan\u00e7a num futuro de paz e desenvolvimento. Tamb\u00e9m recordo a mudan\u00e7a na atitude dos nossos instruendos (estive cinco anos ligado \u00e0 instru\u00e7\u00e3o militar) que, depois de abril, andavam com a garimpa mais alevantada e j\u00e1 n\u00e3o tinham medo de fazer perguntas.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Do 11 de mar\u00e7o de 75 recordo a chegada do general Sp\u00ednola na v\u00e9spera \u00e0 noite, recordo um s\u00e9quito de militares estranhos e estranhamente fardados e armados at\u00e9 aos dentes que se pavoneavam por aqueles dias nas imedia\u00e7\u00f5es da torre de comando e iam jantar \u00e0 messe de oficiais. Tamb\u00e9m recordo que no dia 11 levantaram voo na base uns T6, uns ca\u00e7as muito r\u00e1pidos que, soubemos depois, foram largar umas bombas algures por Lisboa. Pelas 11 horas da manh\u00e3 os recrutas, com o r\u00e1dio colado ao ouvido a ouvir as not\u00edcias acerca do que se ia passando, queriam respostas porque na r\u00e1dio diziam que os avi\u00f5es iam da nossa base bombardear o Ralis e eles tinham a m\u00e3e, a namorada ou j\u00e1 mulher e filhos a morar nos Olivais ou na Encarna\u00e7\u00e3o ou em Sacav\u00e9m e queriam saber o que \u00e9 que se estava a passar. E n\u00f3s, instrutores sab\u00edamos tanto como eles, ningu\u00e9m nos tinha contado nada e os nossos superiores tamb\u00e9m n\u00e3o tinham respostas.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Tamb\u00e9m recordo que \u00e0s duas da tarde n\u00e3o conseguimos segurar a parada. De repente o dique cedeu e seiscentos mancebos de fato de macaco azul destro\u00e7aram desordenadamente e correram para a torre de comando, empunhando a mauser da instru\u00e7\u00e3o, numa grande algazarra, pasme-se, uma grande manifesta\u00e7\u00e3o mesmo no cora\u00e7\u00e3o da BA3. Come\u00e7aram a arrombar as viaturas topo de gama por ali estacionadas e come\u00e7ou a surgir muito armamento, pequenas metralhadoras, dezenas de pistolas e muitas, muitas muni\u00e7\u00f5es. Juntamente com dois furri\u00e9is que me assessoravam na instru\u00e7\u00e3o, corri atr\u00e1s deles at\u00e9 \u00e0 torre de comando e face a tais descobertas conseguimos estender uma lona no ch\u00e3o, qual panal da azeitona, e l\u00e1 se foram amontoando aqueles achados inusitados. N\u00e3o houve um \u00fanico tiro. Nem poderia ter havido. A espingarda mauser da instru\u00e7\u00e3o estava naturalmente sem muni\u00e7\u00f5es. Aquela parafern\u00e1lia de muni\u00e7\u00f5es dos capangas do general Sp\u00ednola que logr\u00e1mos amontoar no tal panal podia ter originado uma carnificina. Nos varandins da torre estavam uns sujeitos de camuflados a dar para o negro e outros todos vestidos de preto, armados at\u00e9 aos dentes, a controlar os movimentos da turba c\u00e1 em baixo. Se tivesse ocorrido um tiro que fosse\u2026 Mas n\u00e3o, n\u00e3o houve qualquer tiro.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">O que houve a partir das tr\u00eas da tarde foi ordem de pris\u00e3o para o comandante da base e para mais uma d\u00fazia de militares envolvidos na tentativa de golpe. A um camarada de armas foi ordenado que juntasse uma patrulha e se deslocasse ao hangar dos Noratlas para dar ordem de pris\u00e3o ao general Sp\u00ednola e aos outros militares que estavam com ele. Quando l\u00e1 chegou j\u00e1 ia a levantar voo um helic\u00f3ptero com aqueles conspiradores em fuga e, por raz\u00f5es \u00f3bvias, considerou o meu camarada prudente n\u00e3o disparar qualquer tiro. Tamb\u00e9m recebi ordem para prender um alto graduado da base. E \u00e0 noite, foi-me ordenado levar o jantar e colch\u00f5es e mantas para alguns daqueles detidos.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">Em novembro tirei uns dias para a azeitona. Estava de regresso \u00e0 base na manh\u00e3 do dia 25 quando me intercetam no caminho a perguntar o que vou l\u00e1 fazer. Respondo que me vou apresentar depois das f\u00e9rias da azeitona. Volta para tr\u00e1s, se entras na base \u00e9s preso. Preso, mas porqu\u00ea? Volta para tr\u00e1s. Voltei para tr\u00e1s, voltei para a azeitona. Apresentei-me na outra semana e fui falar com os meus superiores e com o oficial da seguran\u00e7a. N\u00e3o, que estava tudo bem, podia voltar ao meu posto de trabalho.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">O 25 de Novembro n\u00e3o existiu. Foi apenas uma data, um equ\u00edvoco que se soltou do calend\u00e1rio. Os militares envolvidos no 11 de mar\u00e7o, foram presos, estiveram uns meses afastados, mas foram todos reintegrados, receberam todos os sal\u00e1rios e foram promovidos. No regresso \u00e0s unidades muitos foram colocados em lugares de chefia. Aguardavam uma oportunidade para se vingarem daquela rapaziada que os tinha apoucado, que os tinha travado na tentativa de golpe contrarrevolucion\u00e1rio. Aquela meia d\u00fazia de paraquedistas que em novembro ocupou o quartel de Monsanto, a troco de uma qualquer reivindica\u00e7\u00e3o corporativa, serviu-lhes de bandeja o pretexto. O cerco da assembleia da rep\u00fablica, uns dias antes, j\u00e1 n\u00e3o sei bem por quem nem porqu\u00ea, deu-lhes o enquadramento pol\u00edtico, isto \u00e9, sentiam as costas quentes.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-size: large;\">A rapaziada conotada com a esquerda militar foi corrida a varapau, alguns foram detidos ainda hoje n\u00e3o sabem porqu\u00ea e no fim foram todos saneados. Os do 11 de mar\u00e7o, golpistas, foram todos reintegrados e promovidos. Em novembro foram todos saneados. Dizia o coronel Vasco Louren\u00e7o, numa entrevista h\u00e1 poucos dias, que a direita militar com alguns setores da direita pol\u00edtica \u00e0 boleia, queria continuar em novembro o que n\u00e3o tinha conseguido em mar\u00e7o. \u00c9 esse o 25 de novembro que a direita e a extrema-direita com alguns papalvos \u00e0 mistura est\u00e3o a comemorar agora. Se pudessem apagavam o 25 de Abril do mapa das nossas mais belas recorda\u00e7\u00f5es. Tenham vergonha na cara.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><em>Henrique Leal<\/em><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-de-henrique-leal-o-25-de-novembro-nao-existiu\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 datas assim. Desprendem-se do calend\u00e1rio e querem medrar, andar por a\u00ed, serem maiores que o sonho se \u00e9 que alguma vez sonharam, enfim, ir al\u00e9m da chinela como dizem os sapateiros. 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