{"id":64699,"date":"2024-11-19T12:10:27","date_gmt":"2024-11-19T12:10:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=64699"},"modified":"2024-11-19T11:14:38","modified_gmt":"2024-11-19T11:14:38","slug":"cronica-quinzenal-e-tematica-o-eco-do-nao-dito-por-sandra-may","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-quinzenal-e-tematica-o-eco-do-nao-dito-por-sandra-may\/","title":{"rendered":"Cr\u00f3nica Quinzenal e Tem\u00e1tica: &#8220;O Eco do N\u00e3o-Dito&#8221; por Sandra May"},"content":{"rendered":"<p>Sempre me venderam a ideia de que \u201cmais vale arrependermo-nos do que fizemos do que aquilo que nunca fizemos\u201d, como se tiv\u00e9ssemos uma carta branca invis\u00edvel, que todos parecem ver. Como se valesse a pena arriscar tudo, mesmo que o resultado seja o vazio, e ainda assim, agradecermos por essa sensa\u00e7\u00e3o de nada. O mesmo parece aplicar-se \u00e0s palavras que dizemos. Por\u00e9m, pergunto-me: de que vale falar, se o que dizemos n\u00e3o pode ser concretizado em a\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>H\u00e1 um espa\u00e7o entre o que dizemos e o que deixamos por dizer. N\u00e3o por receio, mas exatamente por n\u00e3o querermos perder o controlo da situa\u00e7\u00e3o. Nunca te aconteceu desabafar quase por instinto, numa tentativa de liberta\u00e7\u00e3o? Sentias e tinhas a certeza de que isso te traria al\u00edvio moment\u00e2neo, mas o peso que viria depois seria muito maior do que simplesmente guardar tudo para ti. Bem dentro de ti. Sabes como se chama isso? Um espa\u00e7o vazio, mas vibrante e poderoso, que ecoa mais do que qualquer palavra pronunciada. \u00c9 nesse sil\u00eancio, quase como um segredo, que reside a verdadeira ess\u00eancia de quem somos. O eco do n\u00e3o-dito ressoa, n\u00e3o como um sussurro, mas como um trov\u00e3o, mesmo nos dias mais soalheiros. \u00c9 a\u00ed que a mudan\u00e7a come\u00e7a: n\u00e3o na voz que se ergue, mas no sil\u00eancio que nos obriga a escutar. Escutar o que vai dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Vivemos numa era em que o ru\u00eddo \u00e9 constante, em que cada um de n\u00f3s carrega uma esp\u00e9cie de megafone, ainda que ilus\u00f3rio, onde a conex\u00e3o parece ser medida pela exposi\u00e7\u00e3o apenas das partes boas da vida, mesmo que encenadas. E quando damos por n\u00f3s, envolvidos numa rede estranha e perversa, o poder real j\u00e1 n\u00e3o acontece na partilha, mas sim na pausa. \u00c9 a\u00ed que o n\u00e3o-dito se torna o mais eloquente dos discursos.<\/p>\n<p>Lembra-te da \u00faltima vez que estiveste com algu\u00e9m em sil\u00eancio, sem pressa para preencher o vazio. Talvez tenha sido com um amigo pr\u00f3ximo, uma paix\u00e3o antiga numa noite de ver\u00e3o, ou at\u00e9 com algu\u00e9m que acabaste de conhecer numa cidade que mal visitas. A pausa inicial \u00e9 desconfort\u00e1vel. N\u00e3o sabes como engolir a saliva, as m\u00e3os ficam inquietas, e a tua mente grita: <i>\u201cDiz qualquer coisa para quebrar este constrangimento!\u201d<\/i>. No entanto, nesse intervalo entre sons, \u00e9 onde encontramos o que realmente importa. As palavras n\u00e3o ditas ganham vida e transformam-se em significado. Tornam-se o nosso espelho p\u00fablico, refletindo quem ainda vamos ser.<\/p>\n<p>Ainda duvidas que isto seja verdade? Pensa em algu\u00e9m que te marcou profundamente. Recorda como essa pessoa te fez sentir. O que te tocou n\u00e3o foi apenas o que disse, mas o que ficou impl\u00edcito no sil\u00eancio entre os olhares trocados. Aquelas palavras que quase sa\u00edram, mas que voltaram para dentro. Porque, por vezes, o discurso mais poderoso \u00e9 o que nunca chega a ser dito. E isso \u00e9 algo que n\u00e3o se ensina.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que reside a beleza da mudan\u00e7a. Quando deixamos espa\u00e7o para o sil\u00eancio, abrimos a porta \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o. Quando escolhemos n\u00e3o preencher o vazio, permitimos que outros o fa\u00e7am. O que nos resta \u00e9 uma profunda introspe\u00e7\u00e3o, um autoquestionamento que muitas vezes nos rouba o sono. \u00c9 aquilo a que gosto de chamar \u201co verdadeiro encontro de almas\u201d. A mudan\u00e7a acontece nas pausas, nas respira\u00e7\u00f5es profundas que tomamos antes de responder, nos olhares que dizem mais do que qualquer frase.<\/p>\n<p>Talvez, no fim, o eco do n\u00e3o-dito seja o que mais nos transforma. Mesmo que nos custe a admitir.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-quinzenal-e-tematica-o-eco-do-nao-dito-por-sandra-may\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre me venderam a ideia de que \u201cmais vale arrependermo-nos do que fizemos do que aquilo que nunca fizemos\u201d, como se tiv\u00e9ssemos uma carta branca invis\u00edvel, que todos parecem ver. 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