{"id":64661,"date":"2024-11-14T10:30:00","date_gmt":"2024-11-14T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=64661"},"modified":"2024-11-14T09:56:30","modified_gmt":"2024-11-14T09:56:30","slug":"cronica-de-evelina-gaspar-meu-querido-mes-de-novembro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-de-evelina-gaspar-meu-querido-mes-de-novembro\/","title":{"rendered":"Cr\u00f3nica de Evelina Gaspar: &#8220;Meu querido m\u00eas de Novembro?&#8230;&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">N\u00e3o sei se j\u00e1 se deram conta, mas Novembro \u00e9 o m\u00eas mais melanc\u00f3lico do calend\u00e1rio. \u00c9 o m\u00eas <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>menino da l\u00e1grima<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">, se quiserem. O Outono, que come\u00e7a oficialmente no fim de Setembro, mas que faz ronha durante todo o m\u00eas de Outubro, instala-se agora com for\u00e7a. E a nostalgia po\u00e9tica das \u00e1rvores que perdem a folha convida \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, inculcando at\u00e9 no esp\u00edrito mais superficial pensamentos inspirados. Em Novembro qualquer um de n\u00f3s pode ser poeta. Ainda que seja poeta do desencanto.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Se eu tivesse de escolher o m\u00eas que melhor assenta ao temperamento do nosso pa\u00eds, n\u00e3o teria quaisquer d\u00favidas: Portugal, para mim, \u00e9 Novembro. Os meses austeros do frio ponho de parte, porque n\u00e3o somos nada um povo invernoso, da mesma forma que excluo os meses da Primavera, demasiado florida para traduzir a natureza s\u00f3bria da gente portuguesa. E apesar de o Dia de Portugal, de Cam\u00f5es e das Comunidades Portuguesas se celebrar em Junho, apesar da febre dos santos populares, com as suas marchas, arraiais e bailes, mais o tributo nacional \u00e0 sardinha assada, n\u00e3o sinto que Portugal seja um pa\u00eds de Junho, m\u00eas colorido que anuncia a vinda do calor e que faz pensar numa for\u00e7a geradora que n\u00e3o nos caracteriza. Ent\u00e3o e o <\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>querido m\u00eas de Agosto?<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"> ou\u00e7o-vos perguntar. O m\u00eas das f\u00e9rias na praia e das enchentes que todos os anos fazem o pa\u00eds afundar, a sul e a ocidente, com o peso dos turistas em barda? O m\u00eas das festas de Ver\u00e3o e da folia? Tamb\u00e9m n\u00e3o me parece. Portugal, bem pode ter uma costa que vai de cima a baixo e beneficiar de sol a rodos, mas no fundo a alma portuguesa n\u00e3o \u00e9 solar, nem festiva, nem azul, e muito menos tur\u00edstica. Para mim, a alma portuguesa \u00e9 nublosa e parda, cheia de fumos e nevoeiros. Cinzenta como a pedra dos nossos castelos a perder de vista, das muralhas e dos templos. Pa\u00eds do toque de finados, das brumas da mem\u00f3ria e das gl\u00f3rias p\u00f3stumas. Somos da cor do passado, e o passado \u00e9 frequentemente turvado de n\u00e9voas.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Olhem, \u00e9 como diz Fernando Pessoa, Portugal \u00e9 nevoeiro. O que n\u00e3o podia casar melhor com o fumo dos assadores da castanha quente e boa, com o fumo das primeiras lareiras acesas no aconchego das casas, o fumo das queimadas agr\u00edcolas. Fumos diversos que tingem o horizonte de press\u00e1gios, de quimeras e de sonhos naufragados. E quem diz o nevoeiro portugu\u00eas de Pessoa, diz aquele outro nevoeiro, o tal que anuncia a vinda de um D. Sebasti\u00e3o que nunca chega. O Novembro de todos os santos, das broas, da romaria aos cemit\u00e9rios, do magusto, da chegada da chuva e dos dias ba\u00e7os, a despeito do fugaz Ver\u00e3o de S\u00e3o Martinho. E Novembro, m\u00eas da Feira do Cavalo da Goleg\u00e3, j\u00e1 agora. Talvez por l\u00e1 tenha andado este ano o cavalo branco do Sebasti\u00e3o, o cavalo do mito, inc\u00f3gnito no meio dos outros, a ver se topava com o seu cavaleiro perdido, para fazerem enfim a sua apari\u00e7\u00e3o triunfal, esperada h\u00e1 tantos s\u00e9culos. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Novembro, que me faz recuar no tempo e pensar numa certa noite de nevoeiro, em que eu, ent\u00e3o estudante universit\u00e1ria, regressava a casa de carro para passar o fim-de-semana. Nessa altura, e porque eu j\u00e1 n\u00e3o vou para nova, n\u00e3o existia ainda nem IP6 nem A23, e recordo o terror que senti ao dar por mim a circular num tro\u00e7o da N110 que n\u00e3o tinha no piso as linhas brancas pintadas, as marcas rodovi\u00e1rias que delimitam a circula\u00e7\u00e3o. O nevoeiro apresentava-se nessa noite t\u00e3o denso, que juro que n\u00e3o exagero se afirmar que o meu campo de vis\u00e3o terminava literalmente no meu nariz. N\u00e3o obstante estas condi\u00e7\u00f5es, eu n\u00e3o conseguia encostar o carro, uma vez que n\u00e3o via onde o fazer e n\u00e3o podia simplesmente imobilizar-me no meio de uma nacional, sob risco de levar com outro autom\u00f3vel pela traseira. Portanto fui avan\u00e7ando, numa fuga para a frente sem rem\u00e9dio, gelada de medo, e t\u00e3o lentamente quanto o andor de uma prociss\u00e3o a caminho do fim do mundo, receando a qualquer instante dar com os ossos na valeta ou ir de encontro a outro carro que viesse em sentido inverso, t\u00e3o cego quanto eu. Felizmente, apesar da garra do medo, o acidente n\u00e3o veio, e em vez do desastre na estrada enevoada que eu temia, cheguei afinal em seguran\u00e7a ao meu destino. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Portugal talvez seja esta incerteza no caminho, que sei eu? Uma esp\u00e9cie de cegueira que, no fim de tudo e contra todas as expectativas, chega onde tem de chegar. Ainda assim, como tantos outros compatriotas, eu sonho em Novembro com o regresso dos dias quentes. Ah, o meu pa\u00eds pode ser Novembro, mas quem dera que fosse Junho. <\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-de-evelina-gaspar-meu-querido-mes-de-novembro\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se j\u00e1 se deram conta, mas Novembro \u00e9 o m\u00eas mais melanc\u00f3lico do calend\u00e1rio. \u00c9 o m\u00eas menino da l\u00e1grima, se quiserem. 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