{"id":63468,"date":"2024-06-28T21:53:30","date_gmt":"2024-06-28T20:53:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=63468"},"modified":"2024-06-28T21:53:30","modified_gmt":"2024-06-28T20:53:30","slug":"nova-biografia-de-camoes-e-alguns-lapsos-jose-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/nova-biografia-de-camoes-e-alguns-lapsos-jose-luz\/","title":{"rendered":"Nova biografia de Cam\u00f5es e alguns lapsos&#8230; | Jos\u00e9 Luz"},"content":{"rendered":"<p>Foi lan\u00e7ado h\u00e1 dias o livro biogr\u00e1fico de Cam\u00f5es \u00abFortuna, Caso, Tempo e Sorte\u00bb como sendo \u00aba mais completa e rigorosa abordagem \u00e0 vida do poeta\u00bb. A autora, Isabel Rio Novo, doutorada em Literatura Comparada pela Faculdade de Letras do Porto, \u00e9 tamb\u00e9m professora universit\u00e1ria e escritora finalista dos Pr\u00e9mios Leya e Oceanos. Dedicou cinco anos a esta pesquisa segundo divulgada pela imprensa. H\u00e1 pelo menos seis meses que o Instituto Cam\u00f5es e a imprensa andavam a promover esta edi\u00e7\u00e3o. A expectativa dera enorme ou.. nem por isso\u2026<\/p>\n<p>Numa entrevista que tive a oportunidade de ler recentemente a autora, reportando-se \u00e0 quest\u00e3o de Cam\u00f5es em Const\u00e2ncia, refere-se ao c\u00e9lebre \u00abBanquete das trovas\u00bb de Goa que o poeta ter\u00e1 dirigido a um grupo de amigos ligado \u00e0 antiga Punhete. A autora conclui que esta informa\u00e7\u00e3o estava dispersa e que a coligiu de forma a se poder melhor tirar agora conclus\u00f5es: da forte liga\u00e7\u00e3o a Punhete dos convivas de Cam\u00f5es. Fica a impress\u00e3o de que traz algo de novo e importante. Ser\u00e1?<\/p>\n<p>Bom! Como eu sabia que a informa\u00e7\u00e3o em causa n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o estava dispersa e era caso investigado seriamente pela Associa\u00e7\u00e3o da Casa-Mem\u00f3ria de Cam\u00f5es, fiquei algo desconfiado com estas afirma\u00e7\u00f5es de Isabel Novo. A segunda reserva deve-se ao facto de aparecer a pr\u00f3pria autora a tirar conclus\u00f5es sobre a sua investiga\u00e7\u00e3o, quanto ao m\u00e9rito das conclus\u00f5es. Fui ler o livro e, em particular, os cap\u00edtulos relacionados com Const\u00e2ncia (10 e 23). Rapidamente conclu\u00ed que se apoiou fortemente no trabalho da antiga Conservadora do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, conquanto a cite timidamente e de forma equ\u00edvoca numa notinha remetida para o final do livro. Nessa nota reconhece-lhe o m\u00e9rito de ter compilado informa\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica. E n\u00f3s sabemos que ela fez muito mais do que isso. A Doutora Maria Clara \u00e9 autora, sim, de uma tese in\u00e9dita sobre Cam\u00f5es e Belisa, de uma investiga\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, cr\u00edtica, sobre Cam\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 uma compiladora de circunst\u00e2ncia\u2026<\/p>\n<p>Passo a citar uma passagem de Isabel Novo, a qual a meu ver, n\u00e3o respeita involuntariamente os cr\u00e9ditos devidos \u00e0 Doutora Maria Clara Pereira da Costa e \u00e0 Casa-Mem\u00f3ria de Cam\u00f5es em Const\u00e2ncia. Lapso, erro, falta de aten\u00e7\u00e3o? N\u00e3o vou comentar. L\u00ea-se assim na p\u00e1gina 617 do livro de Isabel Novo agora publicado:<\/p>\n<p>\u00ab(\u2026) mais recentemente M\u00e1rcia Arruda Franco demonstrou que o c\u00e9lebre Banquete das trovas que Cam\u00f5es organizou em Goa teve como convidados um grupo de amigos, todos eles ligados a Punhete, fornecendo mais um argumento a favor da popula\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: \u00abM\u00e1rcia (\u2026) demonstrou que\u00bb.<\/p>\n<p>O que escreveu efectivamente M\u00e1rcia Arruda, a qual j\u00e1 citei numa das minhas cr\u00f3nicas?<\/p>\n<p>\u00abAs trovas-iguarias do banquete indiano de Cam\u00f5es, que remetem \u00e0 fome quotidiana do poeta e de seus amigos, j\u00e1 tiveram os seus destinat\u00e1rios identificados historicamente, por Maria Clara Pereira da Costa (1989):<\/p>\n<p>\u00abD. Vasco de Ata\u00edde, irm\u00e3o do vice-rei D. Lu\u00eds de Ata\u00edde[,]\u00e9 o primeiro convidado para o banquete [&#8230;], sobrinho[,] por [meio do] casamento de sua tia D. Isabel de Ata\u00edde com Sim\u00e3o Gon\u00e7alves da C\u00e2mara [&#8230;], senhores de Punhete[, a que se liga] por afinidade[;] os outros convidados do banquete de Goa s\u00e3o todos netos de D. Guiomar Freire, [&#8230;], filhos segundos da velha nobreza, [&#8230;], como D. Francisco de Melo (Sampaio) [&#8230;], filhos tamb\u00e9m segundos e terceiros, [&#8230;] da nobreza mais recente, [&#8230;], refrescada com sangue de mercadores e crist\u00e3os novos[,] como Jo\u00e3o Lopes Leit\u00e3o e Heitor da Silveira.[Por fim,] D. Francisco de Almeida [&#8230;], sangue dos maiores her\u00f3is guerreiros que o Poeta cantou. (Costa 1989: 359-365).<\/p>\n<p>Os convivas pertencem ou ligam-se \u00e0 regi\u00e3o do pal\u00e1cio de Constan\u00e7a Pires de Cam\u00f5es. Tal circunst\u00e2ncia refor\u00e7a a ideia de o banquete de trovas representar uma sociabilidade masculina de corte, a incluir uma burguesia enobrecida, viajada da Europa at\u00e9 a Goa\u00bb (1)<\/p>\n<p>Quer-se dizer: quem fez a identifica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos amigos de Cam\u00f5es foi o Doutora Maria Clara Costa e n\u00e3o M\u00e1rcia Arruda. E n\u00f3s sabemos que quem provou a forte liga\u00e7\u00e3o desses convivas a Punhete e a Cam\u00f5es, foi a mesma investigadora Maria Clara e n\u00e3o M\u00e1rcia Arruda. Nem Isabel Novo sequer. O autor da presente cr\u00f3nica conhece os argumentos de Maria Clara Costa desde muito cedo. J\u00e1 em 1986, numa edi\u00e7\u00e3o impulsionada pela fundadora da associa\u00e7\u00e3o (a jornalista e escritora, Manuela de Azevedo) a investigadora Maria Clara Costa, conclu\u00eda (2):<\/p>\n<p>\u00abPoderemos ent\u00e3o dizer que a quinta e derradeira trova posta por Cam\u00f5es aos seus convivas no \u00abBanquete das trovas\u00bb, que ofereceu em Goa, \u00e9 dirigida a mais um neto de D. Guiomar, j\u00e1 que D. Francisco de Almeida, Heitor da Silveira, e Jo\u00e3o Lopes Leit\u00e3o eram todo seus netos. De facto Cam\u00f5es vive de perto e foi amigo dos senhores de Punhete\u00bb.<\/p>\n<p>Mas, atente-se, em 1981, a Doutora Maria Clara j\u00e1 teria escrito sobre a mat\u00e9ria, desenvolvendo a investiga\u00e7\u00e3o publicada em 1977:<\/p>\n<p>\u00abBasta lembrar o c\u00e9lebre banquete das trovas que este ofereceu em Goa e para o qual convidou apenas quatro fidalgos, D. Vasco de Ata\u00edde e os referidos netos de D. Guiomar\u00bb (3).<\/p>\n<p>N\u00e3o vou aqui repescar as pe\u00e7as que publiquei na imprensa sobre o banquete das trovas e respectiva investiga\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o. Recordo apenas a representa\u00e7\u00e3o que foi feita do mesmo no refeit\u00f3rio quinhentista de Const\u00e2ncia, para o ent\u00e3o Presidente da Rep\u00fablica, M\u00e1rio Soares, em 21 de Abril de 1990, ocasi\u00e3o em que foi editada uma brochura\/convite com o resumo dessa investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Reparei que Isabel Novo entre v\u00e1rias afirma\u00e7\u00f5es espantosas, se refere a um foral dado a Punhete por Dom Manuel I. A s\u00e9rio? \u00c9 que a nota bibliogr\u00e1fica que cita nada cont\u00e9m<\/p>\n<p>que fundamente essa afirma\u00e7\u00e3o. Antes pelo contr\u00e1rio. E qual ent\u00e3o a origem do foral de Const\u00e2ncia?<\/p>\n<p>Num documento da Chancelaria de D. Jo\u00e3o I tem-se not\u00edcia da aten\u00e7\u00e3o da Dinastia de Avis dispensada a Punhete, ent\u00e3o Lugar. Ver\u00edssimo Serr\u00e3o d\u00e1-nos a conhecer uma carta do monarca, dada a 23 de Agosto de 1390 a Afonso Pires, Juiz em Abrantes: \u00ab\u2026Sabede que os homes boons e poboradores de punhett nos enviaron dizer antigamente que a memoria dos homes non era em contrario per seus privil\u00e9gios e seu foral que lhes foi dado\u2026 pelos rex os que antes nos foram E outrosy per nos atee o tempo dora ouveram seus ju\u00edzes e jurdi\u00e7am no dicto loguo de todollos feitos crimes\u2026\u00bb. Dom Manuel I ???<\/p>\n<p>A carta r\u00e9gia de eleva\u00e7\u00e3o a vila e concelho, dada por Dom Sebasti\u00e3o em 30 de Maio de 1571, tamb\u00e9m nada tem a ver com Dom Manuel I.<\/p>\n<p>O livro de Isabel Novo at\u00e9 agora ainda n\u00e3o conseguiu surpreender-me. Cinco de anos de investiga\u00e7\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 nada. \u00c9 poucochinho. Pe\u00e7o desculpa.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luz (ex-presidente do Conselho Fiscal da Casa-Mem\u00f3ria de Cam\u00f5es.<\/p>\n<p>Bibliografia em geral desta cr\u00f3nica.<\/p>\n<p>(1)Arruda Franco, M\u00e1rcia (2014), \u00ab Convite que fez Cam\u00f5es em Goa a certos Fidalgos\u00bb, elyra, Revista Da Rede Internacional Lyracompoetics, 4, 10\/2014: 21-45\u2013ISSN 2182-8954<\/p>\n<p>(2)\u00abNovas Obras de Arte Quinhentista do Tempo de Cam\u00f5es\u00bb (1986), Associa\u00e7\u00e3o Para a Reconstru\u00e7\u00e3o e Instala\u00e7\u00e3o da Casa-Mem\u00f3ria de Cam\u00f5es em Const\u00e2ncia e C\u00edrculo de Leitores com o Apoio da Direc\u00e7\u00e3o-Geral de Comunica\u00e7\u00e3o Social.<\/p>\n<p>(3)Estudos sobre Cam\u00f5es: p\u00e1ginas do Di\u00e1rio de not\u00edcias dedicadas ao poeta no 4o. centen\u00e1rio da sua morte,Temas portugueses, Impr. Nacional-Casa da Moeda, 1981, ISSN 1647-4813<\/p>\n<p>(4)Costa, Maria Clara Pereira da Costa (1989), \u201cA problem\u00e1tica da inser\u00e7\u00e3o social de Lu\u00eds de Cam\u00f5es. Os Cam\u00f5es na \u00cdndia no s\u00e9culo XVI e alguns amigos do Poeta\u201d,Lisboa, Studia, n.\u00ba 48:353-368.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/nova-biografia-de-camoes-e-alguns-lapsos-jose-luz\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi lan\u00e7ado h\u00e1 dias o livro biogr\u00e1fico de Cam\u00f5es \u00abFortuna, Caso, Tempo e Sorte\u00bb como sendo \u00aba mais completa e rigorosa abordagem \u00e0 vida do poeta\u00bb. 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