{"id":62445,"date":"2024-05-04T19:23:44","date_gmt":"2024-05-04T18:23:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=62445"},"modified":"2024-05-04T19:23:44","modified_gmt":"2024-05-04T18:23:44","slug":"revolucao-portuguesa-com-outros-olhos-jose-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/revolucao-portuguesa-com-outros-olhos-jose-luz\/","title":{"rendered":"Revolu\u00e7\u00e3o portuguesa com outros olhos\u2026| jos\u00e9 Luz"},"content":{"rendered":"<p>Em 18 de Agosto de 1974, uma entrevista com M\u00e1rio Soares (Der Spiegel, 34\/1974), \u00e0 \u00e9poca Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros apresenta, num t\u00edtulo, a disposi\u00e7\u00e3o deste para mandar \u00abdisparar sobre colonos brancos, se necess\u00e1rio\u00bb. A frase da revista alem\u00e3 \u00e9, em rigor, uma pergunta colocada pela jornalista Jutta Fischbeck. Mas M\u00e1rio Soares confirmou a possibilidade. A esta conclus\u00e3o chegou, por exemplo, o jornal \u00abPol\u00edgrafo\u00bb.<\/p>\n<p>Embora Soares n\u00e3o tenha pronunciado a frase concreta do referido t\u00edtulo, Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3, jornalista e investigador, da RTP, tamb\u00e9m ele entende que o socialista confirmou o pressuposto da pergunta em que Jutta Fischbeck usou essas palavras, dizendo: \u00abO Ex\u00e9rcito n\u00e3o hesitar\u00e1 nesse caso, e n\u00e3o pode hesitar. O Ex\u00e9rcito j\u00e1 mostrou que tem m\u00e3o firme e que pretende manter a ordem a qualquer pre\u00e7o\u00bb.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-62446 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Foto_.jpg\" alt=\"\" width=\"479\" height=\"315\" \/><\/p>\n<p>O contexto? A revista come\u00e7ava por questionar Soares sobre se um Governo de Transi\u00e7\u00e3o, empossado por um golpe militar, teria a \u201clegitimidade para tomar uma decis\u00e3o t\u00e3o hist\u00f3rica\u201d como seria a das independ\u00eancias dos territ\u00f3rios ultramarinos. J\u00e1 na recta final da entrevista \u00e9 abordada a quest\u00e3o de poder haver movimentos de \u00abcolonos\u00bb que n\u00e3o quisessem vir para a metr\u00f3pole e ficassem a lutar contra os \u00abmovimentos de liberta\u00e7\u00e3o\u00bb, vulgo, movimentos terroristas, digo. E da\u00ed a pergunta e resposta acima.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de Setembro, Der Spiegel (36\/1974) entrevistar\u00e1 novo actor pol\u00edtico sobre as chamadas \u00abProv\u00edncias Ultramarinas\u00bb desta vez, um dos respons\u00e1veis do poder da metr\u00f3pole, o general Costa Gomes. Glosando o mesmo tema colocado a M\u00e1rio Soares: \u00abIr\u00e3o as For\u00e7as Armadas imp\u00f4-la [a descoloniza\u00e7\u00e3o] mesmo contra a vontade da popula\u00e7\u00e3o branca nas col\u00f3nias?\u00bb.<\/p>\n<p>A resposta do general \u00e9 radicalmente diferente da de M\u00e1rio Soares: \u00ab\u00c9 claro que a descoloniza\u00e7\u00e3o, principalmente em Angola, n\u00e3o pode fazer-se sem a concord\u00e2ncia dos brancos, porque os brancos constituem em Angola o maior grupo de popula\u00e7\u00e3o, por assim dizer, a maior tribo\u00bb.<\/p>\n<p>Jutta Fischbeck, da redac\u00e7\u00e3o do seman\u00e1rio Der Spiegel, segundo Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3, era quem se encontrava em melhores condi\u00e7\u00f5es para acompanhar os acontecimentos em Portugal no 25 de Abril de 1974. Tinha a mesma idade do seu hom\u00f3logo do seman\u00e1rio Die Zeit, Horst Bieber, apesar de uma inclina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica bem diferente.<\/p>\n<p>Em 1982 o seman\u00e1rio dedica-lhe um obitu\u00e1rio, na sua morte prematura, descrevendo-a como \u201cuma esquerdista combativa, com crit\u00e9rios claros de moral pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3, militante trotskista dos anos 70, viveu em Berlim no primeira metade dos anos 90, tendo sido redactor do jornal Gegenwind, \u00f3rg\u00e3o dos conselhos de trabalhadores leste-alem\u00e3es. Produziu para a RTP document\u00e1rios v\u00e1rios sobre a Hist\u00f3ria Portuguesa. Foi membro da Comiss\u00e3o de Trabalhadores daquela esta\u00e7\u00e3o televisiva onde trabalha ainda como jornalista.<\/p>\n<p>Em Fevereiro do corrente ano surgiu a p\u00fablico mais um trabalho seu de investiga\u00e7\u00e3o em que se compilam textos sobre aspectos assumidos como menos not\u00f3rios da chamada revolu\u00e7\u00e3o do 25 de Abril. Intitulado \u00abUma inger\u00eancia discreta &#8211; A Alemanha Federal e a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos\u00bb, o foco dos textos recai sobre a rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, dos governos da Alemanha Ocidental com Portugal, com destaque ainda para as funda\u00e7\u00f5es, caso da social-democrata Funda\u00e7\u00e3o Ebert e, ainda, para os media.<\/p>\n<p>Os textos dispon\u00edveis e tratados por Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3 apontam, por exemplo, para um dos maiores esc\u00e2ndalos pol\u00edticos alem\u00e3es, a seguir \u00e0 Segunda Grande Guerra: o esc\u00e2ndalo dos donativos aos partidos. 50 milh\u00f5es de marcos ter\u00e3o sido transportados em malas para Espanha e Portugal. O SPD alem\u00e3o ter\u00e1 financiado partidos como o PS de M\u00e1rio Soares, durante muito tempo. Uma parte desconhecida desses montantes regressou \u00e0s contas ilegais dos partidos da Alemanha Ocidental. Liga\u00e7\u00f5es com o esc\u00e2ndalo dos donativos da CDU alem\u00e3? Torge Loding, da Funda\u00e7\u00e3o Rosa Luxemburgo em Buenos Aires, prefaciador do livro de Lou\u00e7\u00e3 responde: \u00abO chanceler e presidente da CDU, Helmut Kohl, recusou-se a dar pormenores e Wolfgang Schauble, que morreu no final de Dezembro de 2023, foi outro dos que guardaram sil\u00eancio at\u00e9 ao fim\u00bb. Esclarecidos, pois\u2026<\/p>\n<p>O tema das \u00ablavandarias ib\u00e9ricas\u00bb e o financiamento dos partidos ib\u00e9ricos mereceu de Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3, um cap\u00edtulo. Em 1983, ap\u00f3s tr\u00eas d\u00e9cadas como tesoureiro do SPD, Alfred Nau era guardi\u00e3o de 7,6 mil milh\u00f5es de marcos nas contas partid\u00e1rias, \u00absem dador identificado\u00bb. Sigiloso mecenas. No final do s\u00e9culo XX, a CDU alem\u00e3 viu-se envolvida tamb\u00e9m num caso de financiamento an\u00f3nimo comprometedor. Um financiador, o traficante de armas Karlheinz Schreiber, deixava adivinhar outros ainda hoje ignorados. A imprensa alem\u00e3 renovou o interesse pelos casos de financiamentos da CDU alem\u00e3. Em Fevereiro de 2000 o di\u00e1rio Zeitung e o seman\u00e1rio Der Spiegel, tornavam \u00e0 quest\u00e3o de uma parte de esse financiamento, leia-se, \u00abpoder ter origem em verbas destinadas pelo Governo federal alem\u00e3o a apoiar determinados partidos nos pa\u00edses em transi\u00e7\u00e3o p\u00f3s-ditatorial\u00bb. Apesar dos partidos de Espanha e de Portugal contemplados terem de emitir um recibo, e do escrut\u00ednio do Tribunal Federal de Contas, diz Lou\u00e7\u00e3 \u00abo certo \u00e9 que os recibos nem sempre foram emitidos\u00bb. Este apetite dos partidos ib\u00e9ricos pelos marcos ocidentais j\u00e1 era conhecido em 1990. Segundo o seman\u00e1rio Der Spiegel (22\/1990) \u00abQuem viajasse para Madrid ou Lisboa tinha sempre de levar na bagagem envelopes com dinheiro (\u2026) Willy Brandt, enquanto presidente da Internacional Socialista, era alvo constante dos pedidos de apoio dos partidos ib\u00e9ricos. E a Funda\u00e7\u00e3o Friedrich Ebert entregava regularmente dinheiro vivo ao PS, por interm\u00e9dio do ent\u00e3o respons\u00e1vel da sua delega\u00e7\u00e3o em Lisboa, Peter Hengstenberg\u00bb. Rui Mateus, em \u00abContos Proibidos, Mem\u00f3rias de um PS desconhecido\u00bb contava assim: \u00abTanto quanto sei, a Funda\u00e7\u00e3o Ebert doaria pelo menos meio milh\u00e3o de marcos alem\u00e3es atrav\u00e9s da Funda\u00e7\u00e3o Ant\u00f3nio S\u00e9rgio, primeira das funda\u00e7\u00f5es do PS (\u2026) e como nada era aparentemente contabilizado (\u2026) \u00e9 praticamente imposs\u00edvel saber ao certo os montantes exactos que na totalidade o PS receberia dessa \u00absolidariedade\u00bb internacional\u00bb. Cinco anos sobre a publica\u00e7\u00e3o do livro citado, ou seja, em 1995, Rui Mateus vem mencionar um mecanismo para l\u00e1 da investiga\u00e7\u00e3o da Der Spiegel sobre os \u00abrefluxos financeiros\u00bb. Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3 reproduz: \u00abo mecanismo de empresas alem\u00e3s indicadas pelo SPD terem financiado o PS, mediante o compromisso de o PS encaminhar depois para o SPD uma parte do financiamento. Esta seria uma forma de algumas empresas alem\u00e3s financiarem impunemente o SPD, porque a lei alem\u00e3 pro\u00edbe o pagamento de subornos a partidos alem\u00e3es, mas n\u00e3o a partidos estrangeiros\u00bb.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 fonte desta passagem do livro de Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3 o pr\u00f3prio nos remete para \u00abApontamentos sobre conversa de Rui Mateus com Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3, Lisboa, 12-02-2001\u00bb.<\/p>\n<p>O livro de Lou\u00e7\u00e3 abrange por um lado, a diplomacia alem\u00e3-federal antes e durante a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa e, por outro, a imprensa alem\u00e3 e o PREC. Dois casos de estudo.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou aqui estender-me muito mais. Remeto os leitores para a obra em si, um manancial de informa\u00e7\u00e3o algo explosiva\u2026 ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>No livro aparece uma passagem em que se cita Vasco Louren\u00e7o. O mesmo admite que o PS ter\u00e1 mantido com os spinolistas, nos dias e semanas imediatamente anteriores ao golpe de 11 de Mar\u00e7o de 1975 \u00abmais liga\u00e7\u00f5es do que as que fosse conveniente haver\u00bb. Em \u00abCruzeiro\u00bb, p\u00e1gina 397, de acordo com a conclus\u00e3o do livro recente de Ant\u00f3nio Lou\u00e7\u00e3, Vasco Louren\u00e7o, passo a reproduzir \u00abassume que houve uma decis\u00e3o consciente do MFA no sentido de n\u00e3o investigar as liga\u00e7\u00f5es do PS com os golpistas, tendo em conta a caixa de Pandora que desse modo podia abrir-se a curta dist\u00e2ncia das elei\u00e7\u00f5es\u00bb.<\/p>\n<p>Quem acredita nos pol\u00edticos?<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luz (antigo redactor independente do Jornal \u00abMilitante Socialista\u00bb do POUS),<\/p>\n<p>PS \u2013 N\u00e3o uso o dito AOLP. Legenda da foto: M\u00e1rio Soares e Willy Brandt (este \u00faltimo foi Chanceler, presidente do pol\u00e9mico SPD e da Internacional Socialista).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Lou\u00e7\u00e3, Ant\u00f3nio. \u00abUma inger\u00eancia discreta\u00bb &#8211; A Alemanha Federal e a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos\u00bb. Lisboa, Parsifal, 2024. https:\/\/www.spiegel.de\/politik\/notfalls-auf-weisse-siedler-schiessen-a-1a608dea-0002-0001-0000-000041651528?context=issue&amp;fbclid=IwAR149z0A_gffGsvJ4Z6NEXXgXadTNATraW2bMXpKl8EUWP82OnsJhYFKbxw<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/revolucao-portuguesa-com-outros-olhos-jose-luz\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 18 de Agosto de 1974, uma entrevista com M\u00e1rio Soares (Der Spiegel, 34\/1974), \u00e0 \u00e9poca Ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros apresenta, num t\u00edtulo, a disposi\u00e7\u00e3o deste para mandar \u00abdisparar sobre colonos brancos, se necess\u00e1rio\u00bb. 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