{"id":62367,"date":"2024-04-30T10:52:54","date_gmt":"2024-04-30T09:52:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=62367"},"modified":"2024-04-30T12:48:26","modified_gmt":"2024-04-30T11:48:26","slug":"o-cantar-das-fontes-as-nascentes-maria-da-guia-asseiceiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/o-cantar-das-fontes-as-nascentes-maria-da-guia-asseiceiro\/","title":{"rendered":"O Cantar das Fontes | As Nascentes | Maria da Guia Asseiceiro"},"content":{"rendered":"<p>Nem sempre a \u00e1gua correu ao simples toque do abrir uma torneira. Houve tempo, em que a \u00e1gua era t\u00e3o livre como os passarinhos do campo. Brotava das profundezas da terra, corria abrindo sulcos no seu caminho, dando origem aos regatos que ligeiros enchiam as ribeiras.<a href=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fonte_do_Castelhano_pos_25_abril1-2.tif\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-62386\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Fonte_do_Castelhano_pos_25_abril1-2.tif\" alt=\"\" \/><\/a> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-62387\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Familia-Pedro-junto-ao-Teatro-Cine-Parque.JPG-1.tif\" alt=\"\" width=\"1\" height=\"1\" \/><\/p>\n<p>As nascentes rebentavam espont\u00e2neas, nem sempre em locais acess\u00edveis, contudo, as suas \u00e1guas t\u00e3o frescas e t\u00e3o leves levavam as popula\u00e7\u00f5es a procur\u00e1-las.<\/p>\n<p>Da terra ensopada sa\u00eda um pequeno repuxo e logo, m\u00e3os habilidosas ajeitavam uma bica rudimentar: um caco, uma telha \u2026 e toda a gente bebia e a levava para casa.<\/p>\n<p>Porque a \u00e1gua sempre foi um bem escasso e limitado, teve o homem de utilizar a sua intelig\u00eancia para a tornar mais acess\u00edvel a todos, construindo aquedutos, fontes e abrindo po\u00e7os. Esta era a forma natural de obter esse bem precioso.<\/p>\n<p>Antes do homem inventar uma forma de tornar a \u00e1gua prisioneira, apertada nuns tubos e a encaminhar conforme o seu desejo, teve a \u00e1gua liberdades e desejos\u2026<\/p>\n<p>Num local rodeado de verdes moitas havia uma nascente em terreno baldio.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Familia-Pedro-junto-ao-Teatro-Cine-Parque.JPG.tif\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-62377\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Familia-Pedro-junto-ao-Teatro-Cine-Parque.JPG.tif\" alt=\"\" \/><\/a>Naquele tempo, quando algu\u00e9m descobria uma nascente, era como descobrisse um tesouro. Logo se limpava a vegeta\u00e7\u00e3o em redor e se abria caminho. A pr\u00f3pria nascente se transformava em fonte, embora rudimentar. A fonte era ponto de encontro, era a alegria dos jovens, era um bem de utilidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Por ter sido descoberta debaixo dum emaranhado de moitas, passou a ficar conhecida por <strong>\u2018Fonte da Moita\u2019<\/strong>. O lugarejo disperso depressa se transformou num povoado de gente trabalhadora em terreno f\u00e9rtil. A \u00e1gua corria livremente como era seu desejo. Livremente regava as hortas\u2026e a nascente corria sem nunca parar, alargando os regatos, abrindo valas, enchendo ribeiras. Nelas, as mulheres mergulhavam as pernas at\u00e9 aos joelhos, procuravam uma pedra grande e sarrabulhenta\u2026 e assim a roupa era bem esfregada, bem batida, bem lavada!<\/p>\n<p>Depressa esta fonte se tornou famosa e rent\u00e1vel. O \u201dFilipe da \u00e1gua\u201d, colocou na sua carro\u00e7a um estrado com doze buracos redondos, neles colocou doze c\u00e2ntaros de barro e foi ench\u00ea-los \u00e0 generosa fonte.<\/p>\n<p>Com voz forte apregoava: &#8211; \u00c1gua fresca da Moita!\u2026 Depois, metia \u00e0 boca uma corneta de metal amarelo donde sa\u00eda um som agudo que alertava a sua passagem. Trocava o c\u00e2ntaro cheio da \u00e1gua fresquinha por outro vazio que a freguesa lhe dava juntamente com as moedas para pagamento do precioso l\u00edquido. As popula\u00e7\u00f5es das terras em redor eram assim abastecidas.<\/p>\n<p>As nascentes come\u00e7aram a ser procuradas. A do <strong>\u201cCastelhano\u201d<\/strong> e a do <strong>\u201cBonito\u201d<\/strong> rivalizavam entre si n\u00e3o s\u00f3 pela pureza das suas \u00e1guas ou pela beleza envolvente\u2026mas pelas suas hist\u00f3rias e pelas suas lendas.<\/p>\n<p>A mistura da Hist\u00f3ria com outras hist\u00f3rias trouxe \u00e0quelas duas nascentes um misterioso encanto, que remonta ao princ\u00edpio da nacionalidade.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3ria e Lenda<\/strong><\/p>\n<p>A Henrique, Duque de Borgonha, foi oferecido por valiosos servi\u00e7os prestados ao Rei de Le\u00e3o e Castela, o condado Portucalense, desde a Cant\u00e1bria at\u00e9 \u00e0 foz do Tejo. Todo esse territ\u00f3rio estava ocupado por quatro Reis Mouros e uma vasta popula\u00e7\u00e3o mourisca.<\/p>\n<p>Na ampla e riqu\u00edssima \u201cTenda Mourisca\u201d, erguida em local resguardado, viviam e conviviam as mouras e os filhos e filhas dos Reis Mouros, protegidos e guardados pelos mais fortes e leais guerreiros. Contudo, a mais bela de todas as mouras quebrava muitas vezes as regras de prote\u00e7\u00e3o a que estava sujeita. Os seus longos cabelos negros, caiam soltos pelas costas, o que a distinguia das demais companheiras. Nunca as m\u00e3os habilidosas das escravas tocaram no seu cabelo, s\u00f3 ela sabia verdadeiramente os cuidados que lhe devia dar: a \u00e1gua o banhava, o sol lhe dava brilho e o vento nos seus cabelos ondulantes, naturalmente o secavam. Sempre fora assim!<\/p>\n<p>As conquistas iam desalojando e empurrando os moiros de Norte para Sul.<\/p>\n<p>A sede de poder, a ambi\u00e7\u00e3o e o calor das batalhas deixavam a nu o melhor e o pior do ser humano. A soldadesca infiltrava-se nos lugarejos e povoados\u2026 e massacrava de todas as formas a popula\u00e7\u00e3o mourisca. Por isso, a liberdade da bela moura ficou limitada.<\/p>\n<p>-Nenhuma mulher moura pode sair da tenda real. Ordem do Rei! Por\u00e9m, a regra era demasiadamente dura para a moura de cabelos ca\u00eddos. J\u00e1 lhe faltavam os habituais cuidados. O seu cabelo emaranhado e ba\u00e7o j\u00e1 era motivo de tro\u00e7a, mas continuava a rejeitar ajuda.<\/p>\n<p>Os artif\u00edcios engenhosos de p\u00e9rolas e pentes de marfim eram um deslumbramento para as demais mouras\u2026para ela uma ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Olhava tristemente para o enorme espelho de \u00e1gua que o Tejo refletia, queria agarrar o vento que sacudia a tenda e apanhar os raios de sol que por uma nesga se infiltravam.<\/p>\n<p>O mais jovem dos quatro Reis Mouros, estava-lhe destinado desde o seu nascimento.<\/p>\n<p>Ao seu bem amado foi atribu\u00edda a defesa da Tenda Real, assim, um pedido de liberdade seria rejeitado, tinha a certeza.<\/p>\n<p>Passava o tempo\u2026 e o seu longo cabelo j\u00e1 n\u00e3o tinha jeito. O que fora belo, passou a ser um novelo emaranhado.<\/p>\n<p>Certo dia, ao romper da aurora, enquanto quase todos dormiam, ela p\u00e9 ante p\u00e9, se escapou. Diariamente repetia a fa\u00e7anha. Entrava e sa\u00eda por uma porta secreta da tenda, que por acaso descobrira.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria exatamente uma porta, mas uma abertura rasgada e sobreposta na base. Era de tal forma perfeita que dificilmente algu\u00e9m de fora ou de dentro a desvendaria.<\/p>\n<p>Dentro da tenda mourisca existiam v\u00e1rias escadas de corda pendentes das vigias disfar\u00e7adas da mesma forma. A diferen\u00e7a era que a abertura era sobreposta do teto at\u00e9 \u00e0 escada.<\/p>\n<p>Muitas vezes essas escadas de corda, al\u00e9m da permanente observa\u00e7\u00e3o para o exterior como medida de defesa, as crian\u00e7as mouras as utilizavam como baloi\u00e7os.<\/p>\n<p>A moura, agora de cabelos emaranhados, angustiada e triste, muitas vezes subia at\u00e9 \u00e0s vigias. Olhava o Tejo e as suas margens. \u00c0 verdura banhada pelas \u00e1guas se juntavam v\u00e1rias \u00e1rvores de grande porte.<\/p>\n<p>Na margem esquerda do rio, al\u00e9m das habituais \u00e1rvores e arbustos ribeirinhos, destacava-se um centen\u00e1rio eucalipto com um enorme ninho de cegonhas. Em baixo, entrela\u00e7ados nos arbustos viviam um ninho de gaivotas do Tejo, com a m\u00e3e em agonia.<\/p>\n<p>A moura passava horas na vigia a observar essa maravilha da natureza e o correr das \u00e1guas para o mar. Sempre \u00e0 mesma hora uma enorme cegonha voava atravessando o Tejo e planava depois rente \u00e0s \u00e1guas trazendo no bico algo que ela n\u00e3o conseguia perceber. Desceu as escadas e ouviu o piar das gaivotas e o bater das enormes asas da cegonha. Ela trazia uma a uma as gaivotas pequeninas, e juntava-as \u00e0 ninhada das gaivotas da margem direita que se enrolavam na abertura sobreposta da tenda. Foi por a\u00ed que a bela moura descobriu a sa\u00edda.<\/p>\n<p>Os seus belos cabelos j\u00e1 ca\u00edam longos e soltos. A \u00e1gua, o sol e o vento fizeram o seu trabalho.<\/p>\n<p>J\u00e1 murmuravam as invejosas mouras\u2026j\u00e1 o velho e caduco aio do Rei a seguia.<\/p>\n<p>Por detr\u00e1s dos salgueiros ramalhudos e dos altos freixos, um Castelhano predador se escondia. Todos os movimentos da bela moura eram observados e o castelhano s\u00f3 esperava a melhor oportunidade para a raptar.<\/p>\n<p>O velho caduco correu ao encontro do Rei para o avisar.<\/p>\n<p>O Castelhano correu ao encontro do seu cavalo, para roubar a Bela Moura.<\/p>\n<p>Entre a correria desenfreada do cavalo e a nuvem de p\u00f3 que se levantava ia a moura de cabelos ao vento, levada pelo Castelhano ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>O velho caduco nunca vira, nem desconfiara de ningu\u00e9m, por isso se sentia culpado. Rapidamente utilizou as suas artes de magia para proteger a Moura e derrotar o castelhano.<\/p>\n<p>O jovem Rei dep\u00f4s as armas, para os seguir.<\/p>\n<p>&#8211; Foi por aqui, Senhor, que ela desapareceu! \u2013 Apontava o caminho.<\/p>\n<p>Embrenharam-se ambos num bosque densamente arborizado e fresco que at\u00e9 o sol tinha de pedir licen\u00e7a para entrar.<\/p>\n<p>O constante esvoa\u00e7ar dos p\u00e1ssaros, o murm\u00fario sereno das \u00e1guas que ca\u00edam deixavam adivinhar que estaria por ali uma bela nascente\u2026<\/p>\n<p>O jovem Rei Mouro, vivia debaixo duma velha ponte romana, lavava-se nas \u00e1guas que corriam sem parar e alimentava-se de frutos silvestres. Tinha por companhia o velho mouro caduco, que passava o dia a fazer cestos de junco.<\/p>\n<p>Todos os dias ao cair da noite, revestido com folhas do bosque para passar<\/p>\n<p>sem ser visto, atravessava o ribeiro, subia e descia pequenos montes e desaparecia. Procurava um sinal, uma pista, algo que lhe desse esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Chegava ainda de noite, pouco antes do sol nascer.<\/p>\n<p>Com as m\u00e3os tapava o rosto. O des\u00e2nimo era evidente.<\/p>\n<p>Quando a sede apertava, sentava-se junto \u00e0 nascente de \u00e1gua fresca; bebia e descansava. A poucos metros desta fonte havia uma gruta toda constru\u00edda em pedra maci\u00e7a, pequena e apertada, teto em c\u00fapula\u2026 s\u00f3 a frente estava a descoberto. A traseira estava enterrada no monte. Na fachada uma abertura quadrada por onde s\u00f3 uma pessoa podia passar, direito a um fosso profundo. Tudo isto dava muito que pensar ao desalentado Rei Mouro!<\/p>\n<p>Da nascente corria um fraquinho fio de \u00e1gua, duma pureza infinita. Acumulava ali uma larga po\u00e7a de \u00e1gua cristalina e a que sobejava escapava-se pela vala que passava junto a gruta a quem toda gente chamava de \u201ccastelhano\u201d.<\/p>\n<p>Grande confus\u00e3o se instalou na sua cabe\u00e7a\u2026 S\u00f3 o nome da nascente lhe inspirava sentimentos de raiva e vingan\u00e7a. Um misto de \u00f3dio e de esperan\u00e7a. Uma t\u00e9nue e vaga pista \u2026 Parecia que a terra os tinha engolido!<\/p>\n<p>O que o Mouro caduco lhe contou fazia agora todo o sentido.<\/p>\n<p>Dissera-lhe ele um dia, num momento de lucidez:<\/p>\n<p>&#8211; Meu Senhor! Foi por este s\u00edtios que o malvado Castelhano escondeu a Vossa Moura Encantada.<\/p>\n<p>&#8211; Encantada!&#8230; Perguntou o Rei.<\/p>\n<p>&#8211; Existe por aqui uma nascente e uma gruta com o nome desse ladr\u00e3o! Foi a resposta do velho Mouro.<\/p>\n<p>Deixa as lutas, Senhor! Vamos no rastro dela. Eu acompanho-te.<\/p>\n<p>Foram as palavras do velho caduco que me trouxeram para aqui! (comentava de si para si o jovem atormentado) e pensava:<\/p>\n<p>No bosque abri uma clareira, transformei a nascente numa bela fonte, cuidei e protegi frutos silvestres: amoras, framboesas e medronhos. Plantei ac\u00e1cias, violetas, jasmins e amores-perfeitos.<\/p>\n<p>Vou desencant\u00e1-la onde quer que ela esteja!&#8230; Foi para ela que criei tudo isto! As duas nascentes dever\u00e3o estar ligadas pelo mesmo encanto\u2026 \u00c9 essa a minha esperan\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; Senhor! Vem depressa! Vem ouvir o cantar da Fonte! Gritou Silas o velho Mouro.<\/p>\n<p>Conforme ia parando o murm\u00fario das \u00e1guas, ia crescendo dentro uma melodia de rara beleza a seguinte mensagem:<\/p>\n<p>A Moura ser\u00e1 tua<\/p>\n<p>Disse a fada certo dia,<\/p>\n<p>Ela nasceu da luz da Lua<\/p>\n<p>E da chuva que ca\u00eda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O castelhano que t\u2019a roubou<\/p>\n<p>Nunca lhe p\u00f4de tocar<\/p>\n<p>Porque ela o afogou<\/p>\n<p>Em l\u00e1grimas, pr\u00f3 matar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Olha a noite j\u00e1 calada!<\/p>\n<p>Repara na luz da Lua,<\/p>\n<p>Sou a Moira Encantada,<\/p>\n<p>Que nasceu pra ser s\u00f3 tua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A surpresa e o fant\u00e1stico daquela revela\u00e7\u00e3o deixaram-no mudo de espanto. Depois, saltou como uma cor\u00e7a, gritou como um guerreiro:<\/p>\n<p>-Silas! Silas!\u2026Vou desencant\u00e1-la.<\/p>\n<p>A correr, pegou no seu manto debruado a ouro, esquecendo o seu disfarce com as folhas do bosque.<\/p>\n<p>Pelos mesmos caminhos onde antes levava a d\u00favida, leva agora uma enorme esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Com uma serenidade que nunca imaginou ter, sentou-se junto da nascente do <strong>\u201cCastelhano\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>No sil\u00eancio da noite, o gargalhar das \u00e1guas foi dando lugar \u00e0 melodia que ele na outra nascente j\u00e1 tinha ouvido e dela uma voz firme e profunda que cantava:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Castelhano se afogou<\/p>\n<p>Nas l\u00e1grimas do meu olhar<\/p>\n<p>Sou a Moura que chorou,<\/p>\n<p>Para agora poder cantar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesta noite de luar<\/p>\n<p>Pra quebrar o meu encanto<\/p>\n<p>Comigo te ir\u00e1s banhar<\/p>\n<p>E cobrir-me com teu manto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nasci da chuva e da Lua<\/p>\n<p>Fui fadada pr\u00f3 amor,<\/p>\n<p>Pra sempre vou ser tua<\/p>\n<p>Meu Rei e meu Senhor!\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Emocionado, apurou os sentidos e olhou em redor. A partir de agora, tudo era poss\u00edvel. Instintivamente, correu para a gruta \u2026Em frente, a bela Moura sorria dentro da grande po\u00e7a de \u00e1gua que lhe servia de balne\u00e1rio. O jovem rei lan\u00e7ou-se \u00e0 \u00e1gua e envolveu-a no seu manto real. Tomou-a nos bra\u00e7os, mudos e encantados sa\u00edram da \u00e1gua. Antes que o rei mouro tivesse oportunidade de se refazer do encanto que estava a viver, ouviu o relinchar do seu cavalo alaz\u00e3o, companheiro fiel nos campos de batalha. Olhou em redor e l\u00e1 estava ele arreado a rigor pronto a ser montado.<\/p>\n<p>Olharam-se como sempre tivessem vivido juntos, as palavras sa\u00edam naturais conforme as circunst\u00e2ncias:<\/p>\n<p>&#8211; Montemos, senhor!- convidou a bela Moura.<\/p>\n<p>Ainda nos bra\u00e7os fortes do Mouro guerreiro correram para o cavalo e em trote lento, naturalmente conversavam.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 senhora que o meu bosque vos agrada? Perguntou.<\/p>\n<p>&#8211; Veremos!-disse com um ar t\u00e3o divertido que o mouro teve de rir.<\/p>\n<p>A vegeta\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava \u00e0 vista. Desmontaram. De m\u00e3os dadas e o cavalo \u00e0 trela, entraram na clareira do bosque.<\/p>\n<p>Ambos, ao mesmo tempo, surpreendidos exclamaram: Bonito! Muito bonito!\u2026<\/p>\n<p>Silas, o velho mouro, aproveitou a aus\u00eancia do seu amo e colocou em redor da clareira todos os cestos de junco que tinha. Neles colocou frutos e flores. Todas aves do bosque vieram, sobrevoavam em c\u00edrculo e davam lugar \u00e0s outras esp\u00e9cies. Uma confort\u00e1vel tenda mourisca dava uma nova beleza ao que sempre fora bonito.<\/p>\n<p>A nascente refrescava e o gargalhar das \u00e1guas juntava a sua alegria \u00e0 completa felicidade do casal mouro.<\/p>\n<p>O velho caduco era um feiticeiro da corte dos quatro Reis Mouros e aio do jovem rei. A sua magia n\u00e3o deixou que a Moura fosse molestada pelo Castelhano que a roubou. O feiticeiro encantou as duas fontes e a moura, para assegurar a derrota total do ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>A <strong>\u201cFonte do Castelhano\u201d<\/strong> deu abrigo \u00e0 Moura Encantada, a Moura num verdadeiro encanto deu o nome \u00e0 <strong>\u201cFonte do Bonito\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>E durante longos anos, por magia, se ouviu o \u201cCantar das Fontes\u201d!<\/p>\n<p><strong>Ep\u00edlogo<\/strong><\/p>\n<p>Num cruzamento de linha f\u00e9rreas e no ponto de encontro come\u00e7ou o encontra-mento. Com a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e o seu desenvolvimento, entre os finais do s\u00e9culo XIX e o princ\u00edpio do s\u00e9culo XX, esse ponto onde as linhas se cruzavam passou definitivamente a chamar-se Entroncamento. Era um lugarejo sem gra\u00e7a e disperso.<\/p>\n<p>A \u00e1gua que abastecia este lugar era efetivamente as nascentes que o nosso singelo conto descreve: A fonte da Moita e as nascentes do \u201cCastelhano\u201d a sul e a do Bonito a norte.<\/p>\n<p>Na segunda metade do s\u00e9culo XX ainda estas nascentes rivalizavam com a \u00e1gua canalizada.<\/p>\n<p>A vegeta\u00e7\u00e3o que em redor crescia, o murm\u00fario das \u00e1guas, a alegria de adultos e crian\u00e7as com c\u00e2ntaros de barro \u00e0 cabe\u00e7a ou bilha de barro na m\u00e3o, eram um conv\u00edvio natural e sadio.<\/p>\n<p>Apanhavam-se amoras silvestres quando se ia \u00e0 nascente de madrugada. Corria-se atr\u00e1s das borboletas e apanhavam-se os pirilampos que nos alumiavam o carreiro \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Aproveitando as ribeiras que corriam o ano inteiro, as ind\u00fastrias da zona desenvolveram a cria\u00e7\u00e3o de su\u00ednos. A \u00e1gua da fonte do Castelhano foi desviada para a ind\u00fastria e a pouca \u00e1gua da nascente ficou impr\u00f3pria para consumo.<\/p>\n<p>A norte, a lev\u00edssima \u00e1gua da nascente do Bonito come\u00e7ou a ficar inquinada, porque foi feita uma planta\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de eucaliptos. A \u00e1gua corria abundante mas sem qualidade.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara Municipal resolveu aproveitar a \u00e1gua e fazer uma albufeira.<\/p>\n<p>Presentemente, \u00e9 um polo de lazer bem estruturado, tem parque de merendas, de manuten\u00e7\u00e3o f\u00edsica, piscinas, gimnodesportivo e tudo o que o Parque do Bonito tem direito.<\/p>\n<p>Na realidade as duas nascentes existiam. Sobre elas a imagina\u00e7\u00e3o trabalhou! Assim se apresenta, <strong>O Cantar das Fontes.<\/strong><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/o-cantar-das-fontes-as-nascentes-maria-da-guia-asseiceiro\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem sempre a \u00e1gua correu ao simples toque do abrir uma torneira. Houve tempo, em que a \u00e1gua era t\u00e3o livre como os passarinhos do campo. 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