{"id":61189,"date":"2024-03-03T11:56:37","date_gmt":"2024-03-03T11:56:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=61189"},"modified":"2024-03-03T12:01:01","modified_gmt":"2024-03-03T12:01:01","slug":"a-flora-camoniana-em-constancia-jose-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-flora-camoniana-em-constancia-jose-luz\/","title":{"rendered":"A flora camoniana em Const\u00e2ncia | Jos\u00e9 Luz"},"content":{"rendered":"<p>Falar da poesia sem a ler \u00e9 como falar da m\u00fasica sem a ouvir. Mas falar da flora<br \/>\ncamoniana, podendo visitar um museu bot\u00e2nico, ao vivo, evocativo da mesma,<br \/>\npode parecer um privil\u00e9gio n\u00e3o fosse a circunst\u00e2ncia de existir na vila de<br \/>\nConst\u00e2ncia, um caso \u00fanico (?) de um Jardim-Horto que canta a obra do maior<br \/>\npoeta nacional.<br \/>\nO estudo da flora na obra camoniana tem ocupado diversos estudiosos ao longo<br \/>\ndos tempos, sendo de destacar nomes como os de de Faria e Sousa, Conde de<br \/>\nFicalho, professor Balthazar Os\u00f3rio, Silva Dias e, mais recentemente, Manuela de<br \/>\nAzevedo, fundadora da Casa-Mem\u00f3ria de Cam\u00f5es.<br \/>\nEvocativo da flora que habita os versos do poeta \u00e9 o Jardim-Horto que em Const\u00e2ncia<br \/>\ntem instalado o seu museu vivo, gra\u00e7as \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o generosa da Universidade de<br \/>\n\u00c9vora e muito particularmente do seu antigo Professor arquitecto-paisagista Gon\u00e7alo<br \/>\nRibeiro Teles, o autor do projecto, coadjuvado que foi pelo ent\u00e3o jovem arquitecto\u0002paisagista Carlos Correia Dias.<br \/>\nH\u00e1 neste Jardim-Horto um sector dedicado a Macau &#8211; jardim a lembrar a dan\u00e7a do<br \/>\ndrag\u00e3o &#8211; que s\u00f3 foi poss\u00edvel construir-se dada a colabora\u00e7\u00e3o do antigo governador,<br \/>\nalmirante Almeida e Costa. Povoado de peixes e nen\u00fafares, o seu pavilh\u00e3o lacustre<br \/>\npossui t\u00edpicas cer\u00e2mica macaenses. O tra\u00e7ado \u00e9 inspirado nos jardins luso-chineses<br \/>\ndaquele territ\u00f3rio.<br \/>\nPara a devo\u00e7\u00e3o e culto a Cam\u00f5es, atrav\u00e9s da evoca\u00e7\u00e3o da sua flora, contribu\u00edram com<br \/>\nlarga vis\u00e3o dos assuntos culturais &#8211; justi\u00e7a seja feita &#8211; os antigos presidentes da<br \/>\nRep\u00fablica Ramalho Eanes e, de certo jeito, M\u00e1rio Soares. Com a instala\u00e7\u00e3o do Horto,<br \/>\nem 1990, prestava-se uma homenagem \u00fanica no seu g\u00e9nero \u00e0 mem\u00f3ria de um Poeta.<br \/>\nNa mem\u00f3ria descritiva do projecto de constru\u00e7\u00e3o do Jardim-Horto de Cam\u00f5es em<br \/>\nConst\u00e2ncia, da Universidade de \u00c9vora enfatizava-se a singularidade deste monumento<br \/>\nvivo, do Ribatejo e da regi\u00e3o de Const\u00e2ncia, no contexto da vida e obra de Cam\u00f5es:<br \/>\n\u00abuma ineg\u00e1vel import\u00e2ncia est\u00e9tica e sentimental, que muito contribu\u00edram para a<br \/>\nforma\u00e7\u00e3o e projec\u00e7\u00e3o universal do Poeta\u00bb.<br \/>\nNa g\u00e9nese da cria\u00e7\u00e3o do Jardim-Horto residiu uma ideia naturalista, a qual se<br \/>\nencontrara tanto no epis\u00f3dio da \u00abIlha dos amores\u00bb como em a \u00abL\u00edrica\u00bb, pedras<br \/>\nbasilares, alargando-se, desta feita, a vis\u00e3o para a \u00e9poca em que o Cam\u00f5es viveu e os<br \/>\nlugares que percorreu. Al\u00e9m do Jardim de Macau, oferece-se ao visitante no belo<br \/>\naudit\u00f3rio ao era livre, a reprodu\u00e7\u00e3o do Planet\u00e1rio de Ptolomeu que, de acordo com<br \/>\nPedro Mariz inspirou Poeta no canto X de \u00abOs Lus\u00edadas\u00bb. Um painel de azulejos<br \/>\ndescreve o percurso de Cam\u00f5es entre Lisboa e Macau. Reproduz-se ali o perfil dos tr\u00eas<br \/>\ncontinentes percorridos pelo Poeta, entre Lisboa, Goa, Macau e a foz do rio M\u00e9con. Tem<br \/>\neste Jardim-Horto representadas cerca de 52 esp\u00e9cies bot\u00e2nicas referidas em \u00abOs<br \/>\nLus\u00edadas\u00bb e na \u00abL\u00edrica\u00bb. Jardim \u00e0 moda renascentista, implantado numa atmosfera de<br \/>\nrara beleza, oferece ao visitante repuxos e uma cascate murmurante, um po\u00e7o de tra\u00e7a<br \/>\n\u00e1rabe, uma \u00e2ncora do s\u00e9culo XVIII arrancada ao Tejo e classificada pelo Museu da<br \/>\nMarinha. O aproveitamento da nora, do tanque e das caleiras da rega, ainda existentes<br \/>\nno local, permitiu, segundo os projectistas: \u00abreabilitar uma das principais caracter\u00edsticas<br \/>\ndos Jardins Hist\u00f3ricos Portugueses: a capta\u00e7\u00e3o e condu\u00e7\u00e3o das \u00e1guas devidas a<br \/>\nfactores clim\u00e1ticos, aproveitadas como determinantes da estrutura est\u00e9tica\u00bb.<br \/>\nO recreio, enquanto motiva\u00e7\u00e3o de utiliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, fez surgir surgir o \u00abTerreiro\u00bb<br \/>\npara jogos tradicionais como a malha e o chinquilho.<br \/>\nA \u00ablatada\u00bb, o \u00abMiradouro\u00bb e o \u00abTeatro Circular\u00bb, este \u00faltimo limitando uma reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo \u00abSistema Planet\u00e1rio Ptolomaico\u00bb seguido por Cam\u00f5es em \u00abOs Lus\u00edadas\u00bb, segundo<br \/>\no projecto, \u00aba executar em empedrado de seixo do rio, ser\u00e3o elementos que justificar\u00e3o<br \/>\ntais atitudes\u00bb. Os seixos do Largo Heitor da Silveira que d\u00e1 acesso ao Jardim-Horto,<br \/>\nenquadravam-se nesta filosofia de projecto e no aspecto medieval da zona.<br \/>\nLamentavelmente e como \u00e9 p\u00fablico, foram substitu\u00eddos por um piso moderno<br \/>\nrecentemente, o que motivou uma peti\u00e7\u00e3o p\u00fablica levada \u00e0 Assembleia Municipal cujo<br \/>\nprimeiro subscritor foi o autor de presente cr\u00f3nica. A peti\u00e7\u00e3o largamente apoiada pelos<br \/>\npopulares foi rejeitada pelos socialistas que controlam as decis\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os<br \/>\naut\u00e1rquicos.<br \/>\nEm frente do Jardim-Horto, na outra margem do \u00abrio\u00bb ( Z\u00eazere), um pano de fundo, qual<br \/>\ndesdobramento da vegeta\u00e7\u00e3o que o Poeta bem podia ter admirado nas suas<br \/>\npassagens por Punhete? Na vila sempre se tratou o Z\u00eazere por \u00abrio\u00bb para o distinguir<br \/>\ndo Tejo.<br \/>\nUma esfera armilar de cerca de dois metros de di\u00e2metro, oferta da Escola Superior de<br \/>\nBelas Artes de Lisboa, concep\u00e7\u00e3o dos escultores Ant\u00f3nio Trindade e Al\u00edpio Pinto<br \/>\nassinala a passagem dos quinhentos anos dos Descobrimentos Portugueses, ali<br \/>\nmesmo, na conflu\u00eancia dos dois rios cantados pelo Vate (os \u00abrios\u00bb s\u00e3o evocados na<br \/>\nfamosa elegia do desterro). Merc\u00ea da tenacidade da fundadora da associa\u00e7\u00e3o, Manuela<br \/>\nde Azevedo, dos subs\u00eddios da Assembleia da Rep\u00fablica, de algum apoio significativo<br \/>\ncamar\u00e1rio, das ofertas de um grupo de artistas pl\u00e1sticos, da Funda\u00e7\u00e3o Calouste<br \/>\nGulbenkian, das C\u00e2maras de Lisboa, Cascais e \u00c9vora, do Jardim Tropical de Lisboa, o<br \/>\nJardim-Horto nasceu. Enquanto obra de arte e ci\u00eancia deveria continuar a merecer o<br \/>\napoio que j\u00e1 teve do or\u00e7amento da Assembleia da Rep\u00fablica. A este conjunto \u2013 Casa-Mem\u00f3ria de Cam\u00f5es \u2013 ru\u00ednas do castelo de Punhete onde uma outra tradi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m coloca o Poeta \u2013 Jardim-Horto, junta-se o Monumento da est\u00e1tua de Cam\u00f5es, cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo escultor Lagoa Henriques, oferecida \u00e0 associa\u00e7\u00e3o (por proposta minha a assembleia<br \/>\ngeral da Casa-Mem\u00f3ria mandatou a direc\u00e7\u00e3o para registar na Conservat\u00f3ria o<br \/>\nmonumento em nome da associa\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o se cumpriu por motivos que julgo<br \/>\npol\u00edticos a n\u00e3o desprezar\u2026). O monumento foi erguido com subs\u00eddios da Funda\u00e7\u00e3o<br \/>\nCalouste Gulbenkian, da popula\u00e7\u00e3o local e tamb\u00e9m da edilidade. A decis\u00e3o camar\u00e1ria<br \/>\nde se construir umas retretes p\u00fablicas na envolvente do monumento (decis\u00e3o do ent\u00e3o<br \/>\npresidente da c\u00e2mara, casado com a presidente da Casa-Mem\u00f3ria que veio substituir<br \/>\nManuela de Azevedo), diz muito do respeito que ficam a dever ao Poeta, a Const\u00e2ncia<br \/>\ne aos arquitectos paisagistas que quiseram salvaguardar o espa\u00e7o envolvente, quanto<br \/>\n\u00e0 est\u00e9tica, no projecto que consta em acta camar\u00e1ria.<br \/>\nVariadas vezes pude participar ali, no Horto, nos c\u00e9lebres F\u00f3runs camonianos, onde e<br \/>\nparafraseando a ent\u00e3o direc\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o \u00ab\u00e0 maneira da velha Gr\u00e9cia, a sombra<br \/>\ndas vetustas oliveiras e das odor\u00edferas laranjeiras\u00bb acolhiam a palavra dos mestres e,<br \/>\nporque n\u00e3o, da voz de Cam\u00f5es e das aves que ao tempo, no seu viveiro, tamb\u00e9m<br \/>\nevocavam os versos do Poeta \u2013 Manuela de Azevedo dixit.<br \/>\nA vila de Const\u00e2ncia , terra privilegiada, formosa, \u00e9 toda cheia de mem\u00f3rias camonianas.<br \/>\nAnda por aqui o esp\u00edrito do Poeta: o Solar dos \u00abFortes Mascarenhas\u00bb, de Dom<br \/>\nFrancisco de Almeida, as ru\u00ednas do Pal\u00e1cio dos protectores do Poeta, os C\u00e2maras<br \/>\nCoutinho, a que andam ligados os amigos de Cam\u00f5es, o poeta Jo\u00e3o Lopes Leit\u00e3o e<br \/>\nHeitor da Silveira, a Casa quinhentista, as tradi\u00e7\u00f5es que se perdem na bruma dos<br \/>\ntempos, Const\u00e2ncia \u00e9 Cam\u00f5es!<\/p>\n<p>A flora do poema \u00abOs Lus\u00edadas\u00bb segundo Silva Dias<br \/>\nO Poema \u00abOs \u00abLus\u00edadas\u00bb n\u00e3o \u00e9 uma obra de poesia narrativa, apesar da<br \/>\nrelev\u00e2ncia da narra\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos seus Cantos. Silva Dias, autor do \u00abPortugal<br \/>\nde Quinhentos\u00bb parece ter ficado desapontado com o naturalismo que<br \/>\nencontrou em Cam\u00f5es. N\u00e3o que esperasse encontrar no Poema camoniano<br \/>\nalgo aparentado com a p\u00f3etica de Jacques Delille , poeta franc\u00eas tradutor de<br \/>\nVirg\u00edlio, que escapou \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o francesa e esteve exilado. Mais descritivo do<br \/>\nque did\u00e1tico, Delille celebrou a natureza, por exemplo, na suas improvisa\u00e7\u00f5es,<br \/>\nrecomendando o desenvolvimento da propriedade atrav\u00e9s da introdu\u00e7\u00e3o de<br \/>\nesp\u00e9cies estrangeiras e ex\u00f3ticas e da vida no campo como caminho para o<br \/>\nautoaperfei\u00e7oamento. Silva Dias esperava de Cam\u00f5es -assim o afirma \u2013 algo<br \/>\nque se aproximasse do naturalismo de Petrarca. Petrarca, poeta e humanista,<br \/>\ndo s\u00e9culo XIV. O impacto de Petrarca na Renascen\u00e7a foi enorme. A sua obra<br \/>\nmais famosa \u00e9 \u201cCanzoniere\u201d, uma colec\u00e7\u00e3o de sonetos sobre o amor e a<br \/>\nnatureza.<br \/>\nNa opini\u00e3o de Silva Dias a natureza, \u00abcom a sua exuber\u00e2ncia e o seu particular,<br \/>\nda \u00c1frica Equatorial e Austral ou do M\u00e9dio e Extremo Oriente\u00bb, quase n\u00e3o t\u00eam<br \/>\nespa\u00e7o em \u00abOs Lus\u00edadas\u00bb \u2013 exclu\u00eddos, evidentemente, os produtos e as plantas<br \/>\n\u00fateis, conclui.<br \/>\nO cr\u00edtico reconhece em Cam\u00f5es a exist\u00eancia de largas descri\u00e7\u00f5es das<br \/>\nespeciarias e das drogas (IX, 14; X, 133, 137; etc), mas contrap\u00f5e: \u00ab\u00e9 pouco<br \/>\nmenos que indigente sobre as paisagens das novas terras, as suas floras, os<br \/>\nseus frutos, as suas faunas, as suas gentes, os seus costumes\u00bb. Admite que o<br \/>\nPoema de Cam\u00f5es cont\u00e9m de forma dispersa, \u00abrefer\u00eancias gen\u00e9ricas e vagas<br \/>\n\u00e0 natureza, \u00e0s cria\u00e7\u00f5es vegetais, animais ou humanas do complexo afro\u0002asi\u00e1tico\u00bb, logo significando que a natureza, na sua individualidade pr\u00f3pria de paisagem e de seres, de habitat e de \u00abcultura\u00bb\u2026 \u00abest\u00e1 pouco menos que ausente\u00bb.<br \/>\nMais do que uma influ\u00eancia ou reflexo do classicismo da Renascen\u00e7a, para Silva<br \/>\nDias, o que sucede com Cam\u00f5es, sucede com um Ariosto \u2013 \u00abcom a diferen\u00e7a,<br \/>\nentretanto, que o italiano n\u00e3o discorreu por essas terras onde o portugu\u00eas gastou<br \/>\nvinte anos da sua vida\u00bb. Trata-se, por outro lado \u2013 aduz &#8211; de uma quest\u00e3o de<br \/>\nmentalidade (camoniana), \u00abcom caracter\u00edsticas \u00e9pocais\u00bb.<br \/>\nSilva Dias faz refer\u00eancia a uma certa \u00abideia de natureza\u00bb que os nossos<br \/>\nultramarinos levariam na cabe\u00e7a ao percorrerem os \u00abnovos mundos\u00bb. Assunto<br \/>\nque diz ter sido objecto de um outro estudo seu. Essa \u00abideia de natureza\u00bb no<br \/>\nque esta tem de paisagem, de fauna, de flora, de orografia, teria levado os<br \/>\nportugueses, \u00abpor todo o lado por onde andaram\u00bb, a possuir mais olhos, para<br \/>\ndetectar semelhan\u00e7as do que para apreender diferen\u00e7as. Diz ele que \u00ablevaram<br \/>\na Europa consigo, colada \u00e0 pr\u00f3pria mente\u00bb. Exemplo? \u00ab\u00c9 assim, que a flora da<br \/>\nilha dos amores, no canto IX, \u00e9 tipicamente portuguesa, como unanimemente o<br \/>\nreconhecem os historiadores naturalistas\u00bb.<\/p>\n<p>Auto-justificando-se na cr\u00edtica em como h\u00e1 em Cam\u00f5es uma perspectiva<br \/>\neuropeia, quando n\u00e3o, cl\u00e1ssica, na flora, da ilha dos amores, Silva Dias cita tr\u00eas<br \/>\nestrofes sobre as flores e as ervas n\u00e3o utilit\u00e1rias evocadas pelo Vate:<\/p>\n<p>As \u00e1rvores agrestes que os outeiros<br \/>\nT\u00eam com frondente como enobrecidos,<br \/>\n\u00c0lemos s\u00e3o de Alcides, e os loureiros<br \/>\nDo louro Deus amados e queridos,<br \/>\nMirtos de Citereia, co\u2019os pinheiros<br \/>\nDe Cibele, por outro amor vencidos,<br \/>\nEst\u00e1 apontando o agudo Cipariso<br \/>\nPera onde \u00e9 posto o et\u00e9reo Para\u00edso.<\/p>\n<p>Os d\u00f5es que d\u00e1 Pomona, ali Natura<br \/>\nProduze, diferentes nos sabores,<br \/>\nSem ter necessidade de cultura,<br \/>\nQue sem ela se d\u00e3o muito milhores:<br \/>\nAs cerejas purp\u00fareas na pintura;<br \/>\nAs amoras que o nome t\u00eam de amores;<br \/>\nO pomo da p\u00e1tria P\u00e9rsia veiu<br \/>\nMelhor tornado no terreno alheio.<\/p>\n<p>Abre a rom\u00e3, mostrando a rubicunda<br \/>\nCor, com que tu, rubi, teu pre\u00e7o perdes:<br \/>\nEntre os bra\u00e7os do ulmeiro est\u00e1 a jocunda<br \/>\nVide, c\u2019uns cachos roxos e outros verdes;<br \/>\nE v\u00f3s, se na vossa \u00e1rvore fecunda,<br \/>\nP\u00earas piramidais viver quiserdes,<br \/>\nEntregai-vos ao dano que co\u2019os bicos,<br \/>\nEm v\u00f3s fazem os p\u00e1ssaros inicos\u00bb.<\/p>\n<p>(IX, 57-59).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m assim se revela em Silva Dias a cr\u00edtica sobre a perspectiva camoniana<br \/>\nda fruta evocada atr\u00e1s, \u00abportuguesa\u00bb e de \u00abcultura \u00e0 portuguesa\u00bb:<\/p>\n<p>Oi\u00e7amos: \u00abToda a fruta \u00e9, como se acaba de ver, fruta portuguesa e de cultura \u00e0<br \/>\nportuguesa. A vinha de uva branca e a de uva preta, enforcadas nos ulmeiros; as cerejas<br \/>\nvermelhas; os p\u00eassegos, as rom\u00e3s, as peras, as cidras, lim\u00f5es e laranjas (cfr. IX, 56);<br \/>\ntudo se cultivava em Portugal e estava presente na ilha dos Amores em vez das frutas<br \/>\nex\u00f3ticas\u00bb.<\/p>\n<p>J\u00e1 noutra \u00e1rea, a da farmacopeia, isto \u00e9, da dita flora medicinal, Silva Dias admite<br \/>\nem Cam\u00f5es a influ\u00eancia de Garcia da Orta, em alguns t\u00f3picos. Garcia da Orta<br \/>\nera m\u00e9dico, autor pioneiro sobre bot\u00e2nica, farmacologia, medicina tropical e<br \/>\nantropologia.<\/p>\n<p>Existem v\u00e1rios documentos que provam que Garcia da Orta e o nosso Poeta<br \/>\neram amigos e muito pr\u00f3ximos. Cam\u00f5es fora enviado para Goa como exilado.<br \/>\nA amizade de Garcia da Orta estabelecida com Cam\u00f5es, segundo um<br \/>\napontamento da Ordem dos M\u00e9dicos dispon\u00edvel, \u00abd\u00e1 indica\u00e7\u00e3o honrosa do seu<br \/>\ncar\u00e1cter, bem como o facto de no seu Livro se atrever a publicar um poema<br \/>\nescrito pelo condenado Cam\u00f5es, na realidade os seus primeiros versos a serem<br \/>\nimpressos\u00bb.<\/p>\n<p>Regressemos ao racioc\u00ednio de Silva Dias anterior: \u00abPassando em claro as algas<br \/>\nou limos mar\u00edtimos (V, 70), contam-se perto de quarenta fam\u00edlias medicinais (\u2026)<br \/>\nde muitas dessas plantas, sobretudo as tropicais e indianas, indicam-se com<br \/>\nbastante rigor as propriedades medicamentosas. Menciona a import\u00e2ncia do<br \/>\ncoco como ant\u00eddoto contra o envenenamento (I,136), embora o suponha<br \/>\nerroneamente, de origem aqu\u00e1tica. Refere, tamb\u00e9m, o \u00abcravo negro\u00bb (IX, 14),<br \/>\npurificador do h\u00e1lito; a c\u00e2nfora (X,133), anafrodis\u00edaca, e o s\u00e2ndalo anti-s\u00e9ptico<br \/>\n(X, 134); o benjoim arom\u00e1tico (X,135) e os alo\u00e9s (X, 137), purgativo e estimulante<br \/>\ndo apetite, etc\u00bb.<\/p>\n<p>No que ao saber de Cam\u00f5es concerne, na farmacopeia, como na hist\u00f3ria natural,<br \/>\ndiz este seu cr\u00edtico que o Poeta \u00abpermaneceu europeu e cl\u00e1ssico, n\u00e3o se deixou<br \/>\naliciar pela \u00e2nsia de ir al\u00e9m desses limites, que no seu tempo borbulhava na<br \/>\nEuropa, ainda que em luta com o saber oficial\u00bb.<\/p>\n<p>Tal como a flora, em Cam\u00f5es, defende Silva Dias, \u00e9 tamb\u00e9m fundamentalmente<br \/>\ncl\u00e1ssica ou europeia, quando n\u00e3o at\u00e9 s\u00f3 portuguesa, a fauna d\u2019Os Lus\u00edadas.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 esse o objecto directo da presente cr\u00f3nica, ainda que o assunto tenha<br \/>\nestado presente nas pesquisas e tempo que venho dedicando a Cam\u00f5es.<br \/>\nSem diminuir (aparentemente) a genialidade est\u00e9tica da obra de Cam\u00f5es de<br \/>\n\u00abOs Lus\u00edadas\u00bb, Silva Dias declara que o saber do Poeta, anoto, \u00abcombina com<br \/>\noutros elementos que o definem como um intelectual integrado nas domin\u00e2ncias<br \/>\nculturais e pol\u00edticas do Portugal seb\u00e1stico \u2013 um Portugal j\u00e1 com muita for\u00e7a<br \/>\ndesde os meados dos anos quarenta quinhentistas\u00bb.<\/p>\n<p><strong>Um Cam\u00f5es mais naturalista segundo Faria e Sousa\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Em 1988, Manuela de Azevedo, fundadora da Casa-Mem\u00f3ria de Cam\u00f5es,<br \/>\nconseguiu levar a bom termo a publica\u00e7\u00e3o do \u00abVergel de amor\u00bb, Elegia VII de<br \/>\nCam\u00f5es, onde se podem encontrar os coment\u00e1rios do bi\u00f3grafo e estudioso de<br \/>\nCam\u00f5es , Manuel de Faria e Sousa em ainda umas deliciosas nota de Manuela<br \/>\nde Azevedo.<\/p>\n<p>O volume \u00abRimas\u00bb, de Lu\u00eds de Cam\u00f5es, de onde a associa\u00e7\u00e3o extrai a Elegia<br \/>\nVII, aparece com a adjectiva\u00e7\u00e3o de \u00abPr\u00edncipe de los poetas heroycos y lyricos<br \/>\nde Espana comentadas por Manuel de Faria y Sousa cavallero de la Orden de<br \/>\nChristo\u00bb. Sabemos que a obra de Faria e Sousa s\u00f3 seria publicada, o primeiro<br \/>\nvolume, em 1685 e o segundo, de onde se extraiu a dita elegia, em 1698. O<br \/>\nautor morreu em 1645. Mas j\u00e1 em 1598 haviam sido editadas as \u00abRimas\u00bb<br \/>\ncoligidas por Estev\u00e3o Lopes.<\/p>\n<p>Ao longo das suas anota\u00e7\u00f5es \u00e0 curiosa Elegia em que d\u00e1, sobretudo, o<br \/>\nsignificado das plantas citadas por Lu\u00eds de Cam\u00f5es, v\u00e1rias vezes Manuel de<br \/>\nFaria e Sousa alude ao \u00abVergel de amor\u00bb, t\u00edtulo que explica Manuela de<br \/>\nAzevedo, \u00abo Poeta teria utilizado num manuscrito que lhe fora facultado mas<br \/>\nque, infelizmente, n\u00e3o disse como poderia mais algu\u00e9m consultar\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante a exist\u00eancia noutra poesia de refer\u00eancias a outras esp\u00e9cies da<br \/>\nflora portuguesa e oriental, esclarece a direc\u00e7\u00e3o associativa de ent\u00e3o,<br \/>\n\u00abescolhemos o Vergel de amor para esta edi\u00e7\u00e3o, por nos parecer que, s\u00f3 por si,<br \/>\nele justificaria a cria\u00e7\u00e3o de um Jardim-Horto consagrado \u00e0 mem\u00f3ria do Poeta\u00bb.<br \/>\nNesta edi\u00e7\u00e3o de Const\u00e2ncia, \u00e9 real\u00e7ado o humanista Lu\u00eds de Cam\u00f5es, a par da<br \/>\nforte contribui\u00e7\u00e3o de Portugal para o Renascimento, com os descobrimentos, a<br \/>\nrevela\u00e7\u00e3o ao mundo das novas culturas, novos costumes, \u00abnovas faunas e<br \/>\nnovas floras\u00bb. \u00c9 uma vis\u00e3o bem diferente daquela que Silva Dias aventa na<br \/>\n\u00abBiblioteca Breve\u00bb. Ou, pelo menos, uma outra.<\/p>\n<p>Nesta edi\u00e7\u00e3o comentada do \u00abVergel de amor\u00bb, comprova-se mais uma vez, uma<br \/>\nfaceta nacionalista (?) da escritora Manuela de Azevedo: \u00abPode mesmo dizer\u0002se que a experi\u00eancia dos portugueses, desfazendo erros sobre not\u00edcias livrescas<br \/>\ndeformadas, era a grande contribui\u00e7\u00e3o de Portugal para o \u00abvi claramente visto\u00bb,<br \/>\ntestemunho formos\u00edssimo que Lu\u00eds de Cam\u00f5es ia deixar-nos s\u00f3 mais tarde,<br \/>\nquando regressasse do Oriente, com not\u00edcia e testemunhos da sua pr\u00f3pria<br \/>\nexperi\u00eancia acumulada\u00bb.<\/p>\n<p>O texto do \u00abVergel de amor\u00bb desta edi\u00e7\u00e3o que vimos tratando foi extra\u00eddo da<br \/>\nbela edi\u00e7\u00e3o que 1972 acompanhou as celebra\u00e7\u00f5es das primeira edi\u00e7\u00e3o de \u00abOs<br \/>\nLus\u00edadas\u00bb e que inclui um longo e bem estruturado estudo de Jorge de sena.<\/p>\n<p><strong>A flora de \u00abOs Lus\u00edadas\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>Passa-se a transcrever a nota introdut\u00f3ria ao sub-tema, da direc\u00e7\u00e3o da Casa\u0002Mem\u00f3ria de ent\u00e3o:<br \/>\n\u00abSegundo os estudos do conde de Ficalho, Lu\u00eds de Cam\u00f5es fala em \u00abOs<br \/>\nLus\u00edadas\u00bb de cinquenta e oito esp\u00e9cies da flora conhecida no seu tempo. Na<br \/>\nL\u00edrica faz refer\u00eancia a 45 esp\u00e9cies que igualmente se citam num caso e noutro<br \/>\nno conjunto da obra, estando de umas e outras em boa parte do Jardim-Horto<br \/>\nde Cam\u00f5es. \u00ab\u00c9 muito rica, quase completa, esta flora tropical do poema e<br \/>\npoucas s\u00e3o as plantas c\u00e9lebres pelos seus produtos que Cam\u00f5es deixa de<br \/>\nmencionar\u00bb &#8211; comenta o conde de Ficalho. Quase todas s\u00e3o por ele<br \/>\nmencionadas com a sua carga de simbologia ou significado mitol\u00f3gico\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c1rvores citadas nesta edi\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Phoenix dactylifera<br \/>\nQuercus r\u00f3bur<br \/>\nPopulus alba<br \/>\nOlea europea<br \/>\nCitrus aurantium<br \/>\nCitrus medica<br \/>\nCitrus limonum<br \/>\nPrunus avium<br \/>\nPrunus persica<br \/>\nMorus nigra<br \/>\nPyrus communis<br \/>\nUlmus campestris<br \/>\nPinus pinea<br \/>\nCupressus sempervirens<br \/>\nBorassus aethiopum<br \/>\nGossipium spp.<br \/>\nIndigoferas tintctoria<br \/>\nStrophantus petersinaus<br \/>\nAntiarias toxicaria<br \/>\nStrychnos tieut\u00e9<br \/>\nCinnamomum zeylanicum<br \/>\nBoswellia spp.<br \/>\nPiper nigrum<br \/>\nAreca catechu<br \/>\nAquilaria agallocha<br \/>\nCaryophyllus aromaticus<br \/>\nMyrislica fragans<br \/>\nDriobalanops arom\u00e1tica<br \/>\nLaurus camphora<br \/>\nSantalum \u00e1lbum<br \/>\nPterocarpus santallinus<br \/>\nStyrax benzoin<br \/>\nBalsamodendron myrrha<br \/>\nLodoicea seychellarum<br \/>\nAloe socotrina<br \/>\nCoesalpinia spp.<br \/>\nPeltophorum linnaei<\/p>\n<p>Arbustos, herb\u00e1ceas e trepadeiras citados nesta edi\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Delphinium ajacis<br \/>\nGnaphalium sanguineum<br \/>\nRosa centif\u00f3lia<br \/>\nTriticum vulgares<br \/>\nHedera h\u00e9lix<br \/>\nIris subbiflora<br \/>\nVitis vin\u00edfera<br \/>\nNarcissus spp.<br \/>\nAdonis autumnalis<br \/>\nViola odorata<br \/>\nLillium candidum<br \/>\nOriganum majorana<br \/>\nJasminum frutiucaus<br \/>\nA flora da l\u00edrica<\/p>\n<p>Nota da direc\u00e7\u00e3o de ent\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o:<br \/>\n\u00abEmbora outras esp\u00e9cies se pudessem juntar a estas que a seguir se referem,<br \/>\naqui se deixam os nomes daquelas que mais frequentemente s\u00e3o citadas pelo<br \/>\nPoeta, em alguns casos, como atr\u00e1s se disse, tanto em \u00abOs Lus\u00edadas\u00ab como na<br \/>\nobra postumamente editada, ou seja na L\u00edrica, recolhida por Manuel de Faria y<br \/>\nSousa e outros admiradores de Cam\u00f5es, aqui citadas, indiferentemente, pelo<br \/>\nnome do fruto ou da planta, em muitos casos, ali\u00e1s, assim referidas pelo conde<br \/>\nde Ficalho\u00bb.<\/p>\n<p>Arbustos e herb\u00e1ceas citados:<br \/>\nA\u00e7ucena (Cec\u00e9m)<br \/>\nBonina<br \/>\nCardo<br \/>\nCoentro<br \/>\nCravo<br \/>\nEsporas<br \/>\nGoivo<br \/>\nMirto (Murta)<br \/>\nMusqueta (rosa branca singela)<br \/>\nMurtinho<br \/>\nPimenteira<br \/>\nSalva<br \/>\nSegurelha<br \/>\nVioleta<br \/>\nAlgodoeiro<br \/>\nGirassol<br \/>\nHera<br \/>\nHortel\u00e3<br \/>\nJacinto<br \/>\nL\u00edrio<br \/>\nMadressilva<br \/>\nManjeric\u00e3o<br \/>\nMangerona<br \/>\nMaravilha<br \/>\nPapoula<br \/>\nRosa<br \/>\nRosmaninho<br \/>\nSalv\u00ednia<br \/>\nTrevo<br \/>\nSar\u00e7a (salsa parrilha)<br \/>\nParreira (videira, etc)<br \/>\n\u00c1rvores<br \/>\n\u00c1lamo<br \/>\nCaneleira<br \/>\n\u00c1rvore do Cravo da \u00cdndia<br \/>\nLaranjeira<br \/>\nMedronheiro<br \/>\nPalma (Palmeira)<br \/>\nPau-Brasil<br \/>\nRomazeira<br \/>\n\u00c1rvore do S\u00e2ndalo<br \/>\n\u00c1rvore da mirra<br \/>\nDriobanops arom\u00e1tica (Canforeira)<br \/>\nCastanheiro<br \/>\nCipo (Cipreste)<br \/>\nFreixo<br \/>\nLimoeiro<br \/>\nMarmeleiro<br \/>\n\u00c1rvore da Noz-Moscada<br \/>\nPinheiro<br \/>\nSalgueiro<br \/>\nSobreiro<br \/>\nUlmeiro<br \/>\nLoureiro<\/p>\n<p>Faria e Sousa considera o \u00abVergel de amor\u00bb \u00abuma elegia de elevada inspira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMereced\u00edssima de ser lida e apreciada pelas informa\u00e7\u00f5es que encerra\u00bb.<br \/>\nUma elegia que, acompanhando o significado das ervas, flores e plantas, com<br \/>\ntanta riqueza de cita\u00e7\u00f5es, em alguns tercetos, chega a incluir tr\u00eas esp\u00e9cies,<br \/>\nexplica o estudioso.<\/p>\n<p>Da Elegia VII, \u00abVergel de amor\u00bb<\/p>\n<p>(actualiza\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica e tradu\u00e7\u00e3o livre do espanhol do s\u00e9c. XVI):<\/p>\n<p>I.<br \/>\nAo p\u00e9 de uma faia vi sentado,<br \/>\nNum vale deleitoso e florido,<br \/>\nA Almeno Pastor triste e namorado.<br \/>\nOutro no Mundo pode haver nascido<br \/>\nT\u00e3o queixoso de Amor; por\u00e9m, n\u00e3o tanto<br \/>\nComo este Amante, por amar perdido.<br \/>\nJ\u00e1 V\u00e9nus ia recolhendo o manto<br \/>\nEscuro com que a terra se mostrava,<br \/>\nPara ajudar de Almeno o triste pranto.<br \/>\nApolo sobre os montes derramava<br \/>\nSeus dourados cabelos que faziam<br \/>\nAo triste inda mais triste do que estava.<br \/>\nAs flores por o prado se estendiam<br \/>\nE das que finas mais eram as cores<br \/>\nAs brancas roxas Ninfas mais colhiam.<\/p>\n<p>Faria e Sousa chama \u00e0 aten\u00e7\u00e3o, logo no in\u00edcio do coment\u00e1rio a este par\u00e1grafo,<br \/>\npara o modo como o Poeta na Elegia, usa a explica\u00e7\u00e3o das plantas, ervas, flores,<br \/>\ne cores diferentes achadas no \u00abVergel de amor\u00bb. E diz-nos \u00abe chamou assim a<br \/>\neste poema, s\u00f3 para discorrer sobre um assunto a que muito se d\u00e3o os amantes.<\/p>\n<p>XIII<\/p>\n<p>E v\u00f3s, ovelhas minhas, sem piedade<br \/>\nVos apartai de mim, se algum desejo<br \/>\nTendes de ter do pasto mais vontade.<br \/>\nSe muita de me verdes em v\u00f3s vejo,<br \/>\nToda a minha de ver-vos hei perdido.<br \/>\nA for\u00e7a do poder de amor sobejo<br \/>\nLograi do Tejo o pl\u00e1cido ru\u00eddo;<br \/>\nS\u00f3s, lograi estas veigas florescidas,<br \/>\nPois se perde o Pastor vosso querido,<br \/>\nN\u00e3o gosteis de com ele ser perdidas.<\/p>\n<p>Segundo o coment\u00e1rio de Faria e Sousa, \u00abE v\u00f3s, ovelhas minhas, etc\u00bb, trata-se<br \/>\nde um remate que imita Virg\u00edlio na \u00c9gloga I.<br \/>\nFaria e Sousa, portugu\u00eas, historiador e poeta, encontrou nos versos acima de<br \/>\nCam\u00f5es o eco de \u00abidas e vindas\u00bb \u00e0s ribeiras do Tejo, qui\u00e7\u00e1, Punhete<br \/>\n(Const\u00e2ncia)?<\/p>\n<p>\u00abSem n\u00e3o engano, esta poesia e estes pensamentos s\u00e3o do tempo em que o<br \/>\nPoeta andava em idas e vindas, a fim de se ausentar para a \u00cdndia que foi de<br \/>\nalguns quatro anos. Porque no ano de 1549 se decidiu a embarcar e esteve<br \/>\nalistado no de 1550. E suspendendo a decis\u00e3o, s\u00f3 partiria em 1553\u00bb.<br \/>\nOnde alguns v\u00eaem desordem nas refer\u00eancias da flora em Cam\u00f5es, o que \u00e9<br \/>\ndizer-se, falta de profundidade nas quest\u00f5es de tratamento do dito naturalismo,<br \/>\nFaria e Sousa notou o fluir do g\u00e9nio po\u00e9tico (?):<br \/>\n\u00abE podendo bastar que as fosse referindo como fossem ocorrendo, n\u00e3o fez<br \/>\nassim, antes, como muita ordem as vai levando ao seu intento, tal como<br \/>\nacontece com pensamentos amorosos e com o que por sua causa lhe havia<br \/>\nsucedido\u00bb.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luz<\/p>\n<p>(ex-presidente do Conselho Fiscal da Casa-Mem\u00f3ria de Cam\u00f5es e ex-associado)<\/p>\n<p>PS \u2013 n\u00e3o uso o dito AOLP. Breve nota sobre nome \u00abPomonas camonianas\u00bb, feira dita<br \/>\nquinhentista de evoca\u00e7\u00e3o do tempo de Cam\u00f5es. Quando Manuela de Azevedo prop\u00f4s<br \/>\na realiza\u00e7\u00e3o dessa iniciativa, algu\u00e9m na C\u00e2mara Municipal de Const\u00e2ncia avan\u00e7ou com<br \/>\no nome de \u00abPomonas camonianas\u00bb. V\u00e1rias vezes entrevistei Manuela de Azevedo que<br \/>\nme explicou \u00abser um erro\u00bb, pois a palavra \u00abPomona\u00bb n\u00e3o tem plural. Pomona, deusa<br \/>\nda abund\u00e2ncia dos frutos, apaixonou-se por Vertumno, deus dos jardins e dos pomares<br \/>\n(Metamorfoses de Ov\u00eddio). N\u00e3o h\u00e1 na obra de Cam\u00f5es, na mitologia, mais do que uma<br \/>\ndeusa Pomona. Quanto \u00e0 hip\u00f3tese de \u00abPomona\u00bb ser uma \u00abninfa\u00bb e da\u00ed, nada obstar a<br \/>\num eventual plural \u00abPomonas\u00bb? Francamente, n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum autor consagrado<br \/>\nque alguma vez tenha defendido essa teoria. Cam\u00f5es, na Invoca\u00e7\u00e3o de \u00abOs Lus\u00edadas<br \/>\n(Canto I, est\u00e2ncias, 4 e 5), fala das \u00abT\u00e1gides\u00bb como \u00abninfas do Tejo\u00bb. Segundo a<br \/>\ninfop\u00e9dia trata-se de um neologismo, criado anteriormente por Andr\u00e9 de Resende (em<br \/>\n1545, numa anota\u00e7\u00e3o ao seu poema Vincentius) e que o \u00c9pico utiliza para que o ajudem<br \/>\nna organiza\u00e7\u00e3o do poema. Na mitologia grega havia as Hamadr\u00edades (e Dr\u00edades) que<br \/>\ns\u00e3o protectoras das \u00e1rvores. \u00abPomonas\u00bb??? Ainda por cima \u00abcamonianas\u00bb???<br \/>\nCam\u00f5es compara-se a Ov\u00eddio na elegia do desterro. Dizem que foi Ov\u00eddio que criou o<br \/>\nmito de Pomona\u2026 Para mim, salvo argumentos que desconhe\u00e7o, a designa\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00abPomonas camonianas\u00bb \u00e9 um erro de palmat\u00f3ria. Duplamente. Por que n\u00e3o : \u00abPomona<br \/>\ncamoniana\u00bb? A feira \u00abPomona camoniana\u00bb. Feito!<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas desta cr\u00f3nica<br \/>\nAssocia\u00e7\u00e3o Para a Reconstru\u00e7\u00e3o e Instala\u00e7\u00e3o da Casa-Mem\u00f3ria de Cam\u00f5es em<br \/>\nConst\u00e2ncia. (1986). \u00abMem\u00f3rias de Cam\u00f5es em Const\u00e2ncia\u00bb. Funda\u00e7\u00e3o Calouste<br \/>\nGulbenkian. Lisboa.<br \/>\nRepresenta\u00e7\u00e3o digital &#8211; Cr\u00f3nica cient\u00edfica &#8211; Cam\u00f5es naturalista &#8211; Museu da Presid\u00eancia<br \/>\nda Rep\u00fablica &#8211; Archeevo.pdf<br \/>\n\u00abVergel de amor\u00bb. Elegia de Lu\u00eds de Cam\u00f5es, comentada por Manuel de Faria y Sousa.<br \/>\nCo-edi\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Para a Reconstru\u00e7\u00e3o e Instala\u00e7\u00e3o da Casa-Mem\u00f3ria de<br \/>\nCam\u00f5es e Const\u00e2ncia e do Instituto Cultural de Macau. (1988).<br \/>\nSilva Dias J.S.. (1988). \u00abCam\u00f5es no Portugal de Quinhentos\u00bb. Biblioteca Breve \u2013<br \/>\nInstituto de Cultura e L\u00edngua Portuguesa. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Lisboa.<\/p>\n<p>G_DA_ORTA.pdf (ordemdosmedicos.pt)<br \/>\nNinfas (mitologia) &#8211; Infop\u00e9dia (infopedia.pt)<br \/>\nVertumno e Pomona &#8211; Museu Calouste Gulbenkian .<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-flora-camoniana-em-constancia-jose-luz\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falar da poesia sem a ler \u00e9 como falar da m\u00fasica sem a ouvir. Mas falar da flora camoniana, podendo visitar um museu bot\u00e2nico, ao vivo, evocativo da mesma, pode parecer um privil\u00e9gio n\u00e3o fosse a circunst\u00e2ncia de existir na vila de Const\u00e2ncia, um caso \u00fanico (?) de um Jardim-Horto que canta a obra do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":61191,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":{"0":"post-61189","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-correio-dos-leitores"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61189","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61189"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61189\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61191"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}