{"id":59572,"date":"2023-11-12T17:30:19","date_gmt":"2023-11-12T17:30:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=59572"},"modified":"2023-11-12T18:24:01","modified_gmt":"2023-11-12T18:24:01","slug":"manuel-fernandes-vicente-antigamente-e-que-era","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-antigamente-e-que-era\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Antigamente \u00e9 que era\u2026"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Numa destas tardes mais frescas, em passeio sem agenda com um daqueles amigos que j\u00e1 me v\u00eam de uma adolesc\u00eancia precoce e irreverente, que incluiu no seu curr\u00edculo algumas incurs\u00f5es estivais de bicicleta at\u00e9 \u00e0 Quinta da Cardiga para uns refrescantes mergulhos no Tejo, jogos de malha nas tardes de s\u00e1bado e enresinadas disputas de futebol de rua todos os dias que tivessem as f\u00e9rias no chamado campo do padre, dizia-me o C\u00e9sar que \u201cantigamente \u00e9 que era\u201d. Ou logo depois, e sem eu perceber se era em formato para n\u00e3o receber nenhum \u201cmas\u201d, para n\u00e3o receber nenhuma adversativa, e ainda de forma eloquente: \u201cTivemos uma grande juventude, aquilo \u00e9 que era!&#8230;, agora s\u00e3o uns franganotes de avi\u00e1rio, uns dependentes de \u00e9crans, nutridos a maizenas maradas e que, com os olhos nos telem\u00f3veis, nem sequer os levantam para admirar uma bela rapariga na rua e agradecer a deus a vis\u00e3o\u201d. \u00c9 uma bela nostalgia, capaz de compensar algumas perdas mais ou menos evidentes, ajuda a ilus\u00e3o de se ter vivido a melhor juventude do mundo, na verdade, como diria Monsieur Jacques de La Palisse, isto vale o que vale\u2026<\/p>\n<p>Com outro amigo da escola, que j\u00e1 n\u00e3o via h\u00e1 alguns anos, e que desfruta hoje dos privil\u00e9gios de uma reforma de ouro devido aos anos de emigra\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica, num encontro fortuito pr\u00f3ximo da pra\u00e7a de t\u00e1xis da cidade, apontou o bra\u00e7o em frente, e com o indicador com mira certeira disse-me mais ou menos isto:<\/p>\n<p>\u0336\u00a0 Repara, Vicente, naquele lado da rua, e isto vai tudo a eito\u2026 Lembro-me de por ali se alinharem quatro restaurantes e <em>snack-bars<\/em>, duas barbearias, duas ou tr\u00eas pens\u00f5es, salas de jogos, bilhares, matraquilhos, uma ourivesaria, o gabinete de um advogado, e do outro lado, um caf\u00e9, duas tabernas, uma padaria, uma mercearia, uma papelaria, uma sapataria, uma loja de bebidas, e at\u00e9 uma travessa que desapareceu por inteiro. Isto \u00e9 que era vida, sempre muita gente. Aqui, mesmo \u00e0s quatro da manh\u00e3, em pleno inverno, havia sempre pessoas na rua a conversar. Havia muita vida, hoje, os estabelecimentos fecharam, e mal anoitece, tudo morre\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 umas semanas, num hotel de Coimbra, num dos algo bissextos encontros dos antigos estudantes (e amigos) da minha venerada rep\u00fablica da Alta, o almo\u00e7o efetuado, de que dificilmente algum dia me lembrarei da ementa digerida ao longo da tarde, foi, como sempre, uma emo\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o dizer pior. Num instante, todos rejuvenesceram pelo menos 40 anos, recordaram-se picarescos epis\u00f3dios, pequenas baz\u00f3fias e grandes pros\u00e1pias, umas coisas bastante caricatas, a que o tempo deu agora o perfume dos bons velhos tempos, outras verdadeiramente \u00e9picas, a que tamb\u00e9m sabemos dar novas perspetivas. Fal\u00e1mos das incurs\u00f5es furtivas de caloiros nas noites fren\u00e9ticas com raparigas generosas, bonitas e bem afreguesadas na Rua Direita, nas noites de estudo quanto bastasse, do jogo do <em>King<\/em> at\u00e9 ao clar\u00e3o da manh\u00e3, de discuss\u00f5es sobre ontologia, existencialismo, derri\u00e7os de quinze dias e os muitos primores da anatomia feminina. Foram os bons velhos tempos. Foram, e agora evocam-se envernizados pelos anos, e ornados pela capacidade de depura\u00e7\u00e3o da nossa mem\u00f3ria seletiva. H\u00e1 um entusiasmo um pouco posti\u00e7o, somos sempre capazes de o dissimular. Foram realmente jornadas de camaradagem \u00edmpar e uma amizade que n\u00e3o se pode repetir, filtradas pela mem\u00f3ria tornaram-se \u00e9picas e sem m\u00e1culas.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se isto \u00e9 geracional ou sempre foi assim. Se todas as gera\u00e7\u00f5es de sempre igualmente sempre quiseram compensar o seu envelhecimento e perdas confrontando o seu tempo de juventude com os posteriores em benef\u00edcio do seu pr\u00f3prio. Ou se este fen\u00f3meno, um pouco delirante e irrealista, \u00e9 recente, e uma ousadia desta modernidade do mil\u00e9nio. O caso chega ao ponto insano de fazer arder incenso em torno de Salazar, o velho d\u00e9spota do Estado Novo e de quase metade do s\u00e9culo XX portugu\u00eas. Muitos ainda clamam a vontade de o ressuscitar para resolver todos os problemas que apoquentam este Portugal moderno e europeu, desde a seguran\u00e7a \u00e0 justi\u00e7a, do Imp\u00e9rio Mar\u00edtimo extinto \u00e0s quest\u00f5es da dec\u00eancia, da moral e da autoridade. S\u00f3 por ignor\u00e2ncia, hipocrisia ou por nunca os ter vivido, a esses tempos de despotismo, corrup\u00e7\u00e3o velada e a absoluta aus\u00eancia de liberdades c\u00edvicas, se pode continuar a dizer que eram aben\u00e7oados. Tempos aberrantes de muita mis\u00e9ria, desigualdade e condena\u00e7\u00e3o social a n\u00e3o se poder nunca evoluir.<\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o que se coloca \u00e9 esta: por que motivo, apesar de tantas evid\u00eancias em contr\u00e1rio, h\u00e1 tantos de n\u00f3s a continuar com o mantra de que \u201cantigamente \u00e9 que era\u201d, dos \u201cbons velhos tempos\u201d e da cren\u00e7a de que, com um m\u00e1gico, como era Salazar, se resolveriam todos os problemas do pa\u00eds e mais um par de botas?<\/p>\n<p>Sendo Portugal, quase cinco d\u00e9cadas ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de 1974, e quatro ap\u00f3s a aben\u00e7oada ades\u00e3o \u00e0 Europa, um pa\u00eds incomparavelmente mais desenvolvido e culto, mais equilibrado socialmente e mais justo, com um sistema de Sa\u00fade e de Educa\u00e7\u00e3o bastante melhores que nos tempos da ditadura, por que raz\u00e3o \u00e9 que ainda tantos invocam como seus favoritos esses tempos sombrios, de mis\u00e9rias e de injusti\u00e7as? E a sustentar que \u201cantigamente \u00e9 que era\u2026\u201d Como \u00e9 poss\u00edvel? \u00c9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 nem a fauna dos confins oce\u00e2nicos, nem a proveni\u00eancia ontol\u00f3gica do Esp\u00edrito Santo, escapam ao sagrado escrut\u00ednio da ci\u00eancia e da experi\u00eancia, tamb\u00e9m recentemente houve algu\u00e9m que se questionou sobre a natureza e o lastro psicol\u00f3gico desta coisa estranha e que nunca enfada de acreditarmos que \u201cantigamente \u00e9 que era\u2026\u201d, que as pessoas dantes eram menos ego\u00edstas, mais generosas, mais altru\u00edstas e menos corruptas\u2026, que o que \u00e9 bom est\u00e1 a evaporar-se, a moral entrou em decl\u00ednio, e \u00e9 o diabo que est\u00e1 a tomar os seus lugares\u2026<\/p>\n<p>Segundo Adam Mastroianni, psic\u00f3logo e investigador entrevistado recentemente pelo jornalista Tiago Ramalho para o jornal <em>P\u00fablico<\/em>, essa ideia n\u00e3o passa de um romantismo, uma ilus\u00e3o do nosso c\u00e9rebro que n\u00e3o resiste ao confronto com a realidade. Para ele, o decl\u00ednio moral \u00e9 uma pura ilus\u00e3o, e um conceito resultante do modo de funcionar da nossa mente, tal como a ideia de que, por qualquer raz\u00e3o, h\u00e1 menos bondade, menos honestidade, mente-se mais, mata-se mais, desvia-se mais dinheiro e h\u00e1 menos respeito na sociedade \u2013 e apresenta resultados experimentais para assegurar a sua asser\u00e7\u00e3o. Procurando sintetizar as pesquisas e o pensamento do psic\u00f3logo experimental da Universidade de Columbia, a ideia \u00e9 a de que a nossa mem\u00f3ria tem uma forma curiosa de lidar com o passado: procuramos ficar com o melhor que ele teve, e tendemos a eliminar da mente as piores recorda\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma esp\u00e9cie de filtro, que coa o bem, enquanto as m\u00e1s evoca\u00e7\u00f5es v\u00e3o pelo cano. As melhores mem\u00f3rias s\u00e3o as da nossa inf\u00e2ncia, sent\u00edamo-nos protegidos pelos pais, av\u00f3s, vizinhos, familiares, todos nos acariciavam, faziam festas e dirigiam palavras doces e ternas. Foi a idade de ouro do nosso pequeno mundo. Depois disso, subitamente, o mundo come\u00e7ou a piorar, e entrou em colapso quando cheg\u00e1mos a adultos\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 outro aspeto para esta cren\u00e7a de que \u201cantigamente \u00e9 que era\u2026\u201d E tem o nome de vi\u00e9s da informa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o social, que se acrescenta ao vi\u00e9s da mem\u00f3ria. S\u00f3 o mal e o p\u00e9ssimo (cujos pseud\u00f3nimos podam ser abusos sexuais, pedofilia, viol\u00eancia na fam\u00edlia, assass\u00ednios, chantagens, \u00f3dios\u2026) t\u00eam o direito a ser noticiados. A sociedade \u00e9 um pouco macabra\u2026 Se o leitor for um benfeitor, um altru\u00edsta e um filantropo toda a sua vida, corre o risco de n\u00e3o ter direito a uma linha escrita a seu respeito em lugar algum dos <em>media<\/em>. Com a prolifera\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, incluindo os mais recentes <em>blogs<\/em>, p\u00e1ginas pessoais, e plataformas e redes sociais, as coisas descambaram ainda um pouco mais, e o <em>bug<\/em> do c\u00e9rebro aumentou, dando origem \u00e0 ideia de um mundo inseguro, cruel, despersonalizado, onde s\u00f3 o \u00f3dio e as frivolidades prosperam, e que tudo o resto piorou.<\/p>\n<p>Claro que isto tem consequ\u00eancias naturais, as pessoas procuram as suas conchas, os seus ref\u00fagios, mesmo que sejam nas suas mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia. E a resposta natural, leitor, \u00e9 que, apesar de toda a ret\u00f3rica, a sociedade est\u00e1 decr\u00e9pita e as pessoas tornaram-se c\u00e9ticas. \u201cAntigamente \u00e9 que era\u2026\u201d<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-antigamente-e-que-era\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa destas tardes mais frescas, em passeio sem agenda com um daqueles amigos que j\u00e1 me v\u00eam de uma adolesc\u00eancia precoce e irreverente, que incluiu no seu curr\u00edculo algumas incurs\u00f5es estivais de bicicleta at\u00e9 \u00e0 Quinta da Cardiga para uns refrescantes mergulhos no Tejo, jogos de malha nas tardes de s\u00e1bado e enresinadas disputas de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-59572","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59572","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59572"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59572\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59572"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59572"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59572"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}