{"id":58781,"date":"2023-05-12T10:03:08","date_gmt":"2023-05-12T09:03:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=58781"},"modified":"2023-05-21T11:36:49","modified_gmt":"2023-05-21T10:36:49","slug":"manuel-fernandes-vicente-peregrinos-do-alentejo-rumo-a-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-peregrinos-do-alentejo-rumo-a-fatima\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Peregrinos, do Alentejo rumo a F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Seguem de coletes coloridos estrada fora, metade pela berma, a outra metade ao lado, a pisar com temor e timidez o asfalto negro. V\u00e3o em bandos, como revoadas de estorninhos, desfrutam da liberdade de um compromisso que livremente assumiram, e que agora, nestes dias de maio se empenham em cumprir e honrar. Vindos, com mais adequa\u00e7\u00e3o eu devia dizer vindas, do Alto Alentejo, quase sempre agregados e em confraterniza\u00e7\u00e3o coletiva, atravessam Const\u00e2ncia, passam por Vila Nova da Barquinha e, pela nossa cidade, rumam \u00e0 estrada do Alvor\u00e3o, \u00e0 serra e a F\u00e1tima, a Cidade da Paz. Perguntam quanto falta, sete l\u00e9guas mais ou menos, sabem disso pelo GPS, mas parece que a informa\u00e7\u00e3o tem outro valor e \u00e9 mais aut\u00eantica se dita por algu\u00e9m que noutras alturas tamb\u00e9m j\u00e1 as poder\u00e1 ter percorrido e sofrido.<\/p>\n<p>Nestes \u00faltimos dias os peregrinos seguem os caminhos com que puseram entre par\u00eantesis a sua rotina di\u00e1ria e calcorreiam as dist\u00e2ncias que os separam do altar mariano de F\u00e1tima, quase sempre, quando o grupo \u00e9 maior, atr\u00e1s de um homem ou de uma mulher que empunha de pulsos erguidos uma bela cruz de madeira, por vezes enfeitada por fitas de muitas cores e ornatos, e algum malmequer, pampilho ou rosmaninho apanhados da berma da estrada. Por vezes agremiados e apoiados pela par\u00f3quia ou diocese, outras pelas juntas de freguesia ou pelas c\u00e2maras, os bombeiros tamb\u00e9m ajudam na organiza\u00e7\u00e3o e a valer a quem precisa. Empreendem por um pedido ou pelo cumprimento de uma promessa em cortejos que este ano engrossaram muito, talvez porque se acumularam os pedidos e as promessas que n\u00e3o se puderam honrar em tempos da pandemia. V\u00eam, coletes cor de laranja ou amarelos fluorescentes em destaque, do Crato, Sousel, Avis, Estremoz, Marv\u00e3o, Monforte, Fronteira, e at\u00e9 de mais longe, de Redondo e de Moura, v\u00eam conduzidos pela f\u00e9, e com ela chegar\u00e3o a F\u00e1tima, longe de chegarem com ela na reserva porque a f\u00e9 usa-se, mas n\u00e3o se consome. Agora v\u00e3o-se juntando sentados em bancos ou no ch\u00e3o \u00e0 sombra de uns pl\u00e1tanos ou de choupos \u00e0 espera que os \u00faltimos do grupo, de bord\u00e3o com fitas e santinhos a arrastar pelo percurso, cheguem.<\/p>\n<p>Chegou a hora do almo\u00e7o, e o restaurante j\u00e1 estava preparado para os acolher, juntando as mesas para reunir uns 50 caminheiros, conto sete homens ao todo, incluindo dois bombeiros, mas a maior parte faz o percurso integrado na log\u00edstica, conduz as carrinhas de apoio, s\u00e3o aguadeiros, fazem massagens, um deles, no fim do pelot\u00e3o, \u00e9 o peregrino-vassoura, as peregrina\u00e7\u00f5es adotarem tamb\u00e9m agora, e adequadamente, a nomenclatura dos pelot\u00f5es do ciclismo. Em cada dia na estrada, um deles ser\u00e1 o peregrino-vassoura. Os caminhantes est\u00e3o finalmente completos, e os tachos e panelas a fumegar come\u00e7am a circular sobre as suas cabe\u00e7as antes de aterrar nas mesas. Ensopado de borrego e sopa \u00e0 lavrador com coentros! Foi esta a ementa escolhida, \u00e9 a maneira de, mesmo em peregrina\u00e7\u00e3o para longe, continuarem a sentir-se no seu sagrado Alentejo. O repasto h\u00e1 de demorar quase duas horas, o alentejano \u00e9 slow food, e h\u00e1 ainda tempo para umas cantilenas e cantes pelo meio. Coro misto, claro, j\u00e1 l\u00e1 vai o tempo em que os corais eram reservados a homens, mancebos, e as mulheres se abstinham, com sorte ficavam a ouvir. E s\u00e3o elas as mais aud\u00edveis nos seus agudos estr\u00e9pitos, algum tenor, se se destacar, \u00e9 s\u00f3 porque vem desafinado, fora do tom geral ou acossado pelo tinto palhete da Vidigueira, que, pelo sim pelo n\u00e3o, tamb\u00e9m faz parte da log\u00edstica como produto n\u00e3o s\u00f3 nobre como indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Uma alentejana, com mais alguma idade, mas n\u00e3o menos franzina que as demais, aproveita a pausa para ir at\u00e9 uma loja de conveni\u00eancia junto ao restaurante, e enquanto os outros cantam ela assobia uma moda de que ainda se recorda de quando se curvava com uma foice nas searas daquele bendito Alentejo, e raspa de moeda em riste, uma raspadinha, que a f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mat\u00e9ria de religi\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma atitude para a vida e vontade de tentar a sorte. E o almo\u00e7o tamb\u00e9m h\u00e1 de mostrar que se \u00e9 verdade que a f\u00e9 n\u00e3o se gasta, o mesmo n\u00e3o se pode dizer do corpo, que a caminhada consome, e muito, sendo necess\u00e1rio repor as energias e o protoplasma para que o peregrino volte de novo \u00e0 estrada.<\/p>\n<p>Noto j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, e cada vez isso me parece mais not\u00f3rio, n\u00e3o s\u00f3 a crescente presen\u00e7a feminina nestas peregrina\u00e7\u00f5es, ao ponto que j\u00e1 s\u00e3o amplamente dominantes nos cortejos que se formam, como na progressiva laiciza\u00e7\u00e3o destas caminhadas, hoje menos apegadas \u00e0 religi\u00e3o, \u00e0s velas, aos crucifixos e \u00e0s rezas em grupo, e mais pr\u00f3ximas do desfrute hol\u00edstico de uma experi\u00eancia pessoal ou da procura de algo espiritual, mas n\u00e3o confinado aos limites e aos rituais desejados pela Igreja. \u00c9 verdade que entre os grupos de peregrinos ainda se encontram adere\u00e7os religiosos, e h\u00e1 quem reze, mas essa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 hoje a t\u00f3nica dominante, os adere\u00e7os mudaram, a religiosidade mudou. Cada um, mesmo com camaradas ao lado, sente a peregrina\u00e7\u00e3o como algo pessoal e a consagra\u00e7\u00e3o, ou at\u00e9 fus\u00e3o, de uma rela\u00e7\u00e3o direta com a espiritualidade, sabendo que a gl\u00f3ria de uma experi\u00eancia inspiradora tamb\u00e9m vem da dor, e isso pode permitir uma verdadeira aventura de transforma\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a feminina \u00e9 tamb\u00e9m um significativo sinal dos tempos, e da forma como a mulher conquistou o seu territ\u00f3rio e ganhou liberdade numa sociedade que h\u00e1 apenas cinco d\u00e9cadas n\u00e3o era mais que um tacanho patriarcado.<\/p>\n<p>Algures, numa das estradas que pela serra conduzem at\u00e9 ao planalto de F\u00e1tima, \u00e0 sombra de uma improvisada tenda de lona branca de prote\u00e7\u00e3o, descansam os devotos j\u00e1 cansados do caminho, e agradecem a pausa refrescante e os prop\u00f3sitos samaritanos dos empreendedores. Mas j\u00e1 n\u00e3o podem fazer o mesmo em rela\u00e7\u00e3o aos pre\u00e7os praticados, uma exorbit\u00e2ncia pouco cat\u00f3lica a pagar por qualquer bagatela que se pudesse comer ou beber antes de prosseguir. Puro oportunismo de med\u00edocre comerciante, que nada tem de crist\u00e3o, mas a atestar que, nesta modalidade, muitos continuam a n\u00e3o olhar a meios para chegar a estes tristes fins. Assisto a este desatino, com a alma assada, e coloco-o nos ant\u00edpodas de uma peregrina, de entre os 30 e 35 anos, que h\u00e1 uns anos encontrei por esta altura do ano tamb\u00e9m j\u00e1 pr\u00f3ximo de F\u00e1tima. Provinha de Vila de Rei e caminhava s\u00f3 e de salto alto, sim, a promessa feita era muito s\u00e9ria (um caso de uma doen\u00e7a grave, contou-me), impunha esse requisito, e nada podia quebrar a sua determina\u00e7\u00e3o para a pagar. O problema nem sequer era esse, o caso \u00e9 que a jovem tamb\u00e9m ia gr\u00e1vida, e j\u00e1 muito adiantada na gesta\u00e7\u00e3o. Como se sentiu algo indisposta, uma enfermeira volunt\u00e1ria de apoio aos peregrinos e ao servi\u00e7o da Ordem de Malta, n\u00e3o hesitou em pedir logo uma ambul\u00e2ncia para a socorrer. A m\u00e3e, obstinada, protestou, mas a enfermeira, que entendeu tudo muito depressa, teimou ainda mais. Aben\u00e7oada! A m\u00e3e e o filho, nascido a caminho do hospital de Torres Novas, h\u00e3o de ter ficado gratos para o resto das suas vidas\u2026<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-peregrinos-do-alentejo-rumo-a-fatima\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seguem de coletes coloridos estrada fora, metade pela berma, a outra metade ao lado, a pisar com temor e timidez o asfalto negro. 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