{"id":58160,"date":"2023-04-08T13:28:40","date_gmt":"2023-04-08T12:28:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=58160"},"modified":"2023-04-12T17:52:47","modified_gmt":"2023-04-12T16:52:47","slug":"manuel-fernandes-vicente-um-entroncamento-diferente-mas-a-cidade-de-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-um-entroncamento-diferente-mas-a-cidade-de-sempre\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Um Entroncamento diferente, mas a cidade de sempre\u2026"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Durante muitos anos, por raz\u00f5es profissionais e pessoais, bem conheci o Bairro Coferpor, o bairro da minha escola, de amigos pr\u00f3ximos e de pessoas a quem me ligavam (e ligam) rela\u00e7\u00f5es de simpatia e cordialidade ou de simples cumprimentos de cortesia urbana. O bairro respirava, na rua, nos bancos de jardim a\u00ed instalados, nos caf\u00e9s ou dentro das casas onde eu entrava, uma verdadeira atmosfera da cultura alentejana e de todas as suas idiossincrasias. Havia (e ainda h\u00e1, mas muita gente j\u00e1 retornou ao seu Alentejo ou partiu para o inevit\u00e1vel pa\u00eds desconhecido) um ambiente verdadeiramente alentejano, n\u00e3o na horizontal, em casas t\u00e9rreas, caiadas e de barras azuis, ocres ou amarelas, mas verticalmente, em pr\u00e9dios de v\u00e1rios andares, frentes, esquerdos e direitos, numa acomoda\u00e7\u00e3o em que se procurava aglutinar a alma da prov\u00edncia de onde vinha a sua cria\u00e7\u00e3o com as exig\u00eancias da industrializa\u00e7\u00e3o, dos turnos nas oficinas e no movimento dos comboios e de uma sociedade suburbana e de massas. Habituei-me, por v\u00e1rias raz\u00f5es e incid\u00eancias, a ver no bairro um verdadeiro enclave do Alentejo, uma alma alentejana transferida para longe das suas ra\u00edzes, mas sem lhe perder a seiva. E n\u00e3o era s\u00f3 no seu falar, no seu sotaque, de onde ele est\u00e1 mora um alentejano.<\/p>\n<p>\u00c9 uma entoa\u00e7\u00e3o t\u00e3o t\u00edpica e identit\u00e1ria, que, d\u00e9cadas depois de viverem no Entroncamento, ainda a preservavam quase imaculada, e de certa maneira revelador de que, se tinham mudado por fora, por dentro mantinham o seu car\u00e1cter na \u00edntegra e a sua natureza original de transtagano. Sa\u00edram do seu Alentejo \u00e0 procura de uma vida menos m\u00e1, numa cidade nova, onde seriam pobres ou remediados, mas j\u00e1 n\u00e3o teriam de suportar as agruras das ceifas nas searas, das idas penosas para o monte, para as herdades e para os montados, da vida agr\u00edcola, de \u00e1gua por um odre e de \u201cuma sardinha para dois\u201d. O Alentejo, e no caso do Entroncamento devemos falar mais do que fica mais a norte, tem a sua cultura pr\u00f3pria, a do ato greg\u00e1rio a cantar no largo ou junto ao caf\u00e9 ou \u00e0 taberna, o jogar cartas na rua e a revolta contra os exploradores nos campos. Era esta a alma que vivia neste enclave do Alentejo, foram, ali\u00e1s, os silvos das velhas locomotivas a vapor que os foram despertar e arrancar \u00e0 sua terra transtagana, o que n\u00e3o deixa de ser curioso, porque foram dessas terras e das freguesias rurais que o caminho de ferro foi bordejar ou passar por perto que vieram mais fam\u00edlias quando a comboio expandia e a CP recrutava para o movimento, para as linhas ou para as oficinas. E da\u00ed surgiam os ranchos, provenientes sobretudo do Alto Alentejo, Torre das Vargens, Aldeia da Mata, Castelo de Vide, Marv\u00e3o, Beir\u00e3, Vale do Peso, Crato, Portalegre, Assumar, Santa Eul\u00e1lia, Elvas\u2026 Muitos deles manteriam aos fins de semana os elos afetivos e f\u00edsicos ligados com as suas origens. \u201cFomos \u00e0 terra\u2026\u201d, diziam, e regressavam ao domingo. Os filhos tamb\u00e9m diziam logo no in\u00edcio da aula segunda-feira: \u201cProfessor, fomos \u00e0 terra\u2026\u201d E eu j\u00e1 sabia que isso equivalia a dizerem-me que n\u00e3o tinham feito o sagrado trabalho de casa\u2026<\/p>\n<p>Hoje, por motivos diferentes, por for\u00e7a das tamb\u00e9m sagradas caminhadas, continuo a passar com frequ\u00eancia pelo Bairro Coferpor, o produto da cooperativa onde pontificava com esmero e denodo o saudoso amigo Jo\u00e3o Lopes Caldeira. Mas a grande urbaniza\u00e7\u00e3o, iniciada na d\u00e9cada de 1970, com algumas centenas de fogos gerados pela Cooperativa da Habita\u00e7\u00e3o Econ\u00f3mica Ferrovi\u00e1rios de Portugal, com o apoio do Fundo de Fomento de Habita\u00e7\u00e3o, est\u00e1 hoje muito diferente do que foi h\u00e1 alguns anos. E damos conta dessa mudan\u00e7a abrupta logo que pelo ciclopedovia nos aproximamos daquele mundo come\u00e7ado a edificar h\u00e1 cerca de cinco d\u00e9cadas, e em que ent\u00e3o os blocos habitacionais irrompiam do ch\u00e3o como cogumelos em torno da velha Escola Preparat\u00f3ria do Entroncamento, atualmente a E\/B 2,3 Dr. Ruy d\u2019Andrade. Hoje, a ciclovia, as esplanadas, os estabelecimentos comerciais e os espa\u00e7os p\u00fablicos do Bairro Coferpor continuam fi\u00e9is ao idioma de Cam\u00f5es, Pessoa e Saramago, mas o sotaque j\u00e1 n\u00e3o vem do outro lado do Tejo, mas do outro lado do Atl\u00e2ntico, o bairro rejuvenesceu, os seus velhos habitantes prolet\u00e1rios, morenos, de bigode ou patilhas, camisa aos quadrados, samarra ou capote pelos ombros, convic\u00e7\u00f5es arreigadas na mente e um pouco solit\u00e1rios, regressaram ao seu Alentejo, ou recolheram-se a um recato e j\u00e1 pouco vem \u00e0 rua. E agora a alma que por ali se renova tem um novo sotaque, outras tonalidades e timbres, cumprimenta com <em>\u201c\u00d4i cara!&#8230;\u201d<\/em>, e viveu intensamente, incluindo com bandeiras nas varandas e nas janelas, a recente disputa eleitoral entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro, embora me tenha parecido que bastante mais inclinada para o lado de Lula.<\/p>\n<p>Como nos mais hist\u00f3ricos bairros de Lisboa, das janelas dos apartamentos saem risos de homens, mulheres, adolescentes e crian\u00e7as, ouve-se samba (aos fins de semana) e altos acordes do <em>rap<\/em> indignado de S\u00e3o Paulo antes deles, admiramos o futebol de rua, o mesmo onde cresceram Pel\u00e9, Garrincha e Amarildo, e at\u00e9 d\u00e1 para sentir os aromas mais coloridos e t\u00edpicos da sua culin\u00e1ria. Aqui, a feijoada com feij\u00e3o preto (aos s\u00e1bados), a moqueca, o frango com quiabo e a galinhada, parecem estar a substituir as velhas a\u00e7ordas alentejanas, os ensopados de borrego, o p\u00e3o com presunto e um tinto da Vidigueira, ou o borrego assado no forno e uma sopa de toucinho, que bem nutriam o corpo pachorrento depois das oficinas e consolavam as almas no enclave, onde as vizinhas tamb\u00e9m trocavam raminhos de salsa, de coentros ou de hortel\u00e3s cultivados nas varandas, como quem queria mostrar assim a sua solidadriedade. J\u00e1 n\u00e3o se grita pelo Benfica e Sporting, mas h\u00e1 torcedores entusiastas (pelo menos) do Flamengo e do Palmeiras, com jogos que tamb\u00e9m passam pelos canais de televis\u00e3o. E tamb\u00e9m o l\u00e9xico, as g\u00edrias e as alcunhas t\u00eam o seu reverso. Aqui no bairro \u201cOl\u00e1\u201d agora \u00e9 <em>\u00d4i<\/em>, \u201ctelem\u00f3vel\u201d \u00e9 <em>celular<\/em>, e \u201ctalho\u201d \u00e9 <em>a\u00e7ougue <\/em>\u00a0\u0336 \u00a0de pouco parece ter valido o Acordo Ortogr\u00e1fico de 1990, ainda hoje pomo de n\u00e3o poucas disc\u00f3rdias. N\u00e3o sei ao certo se \u00e9 um processo de gentrifica\u00e7\u00e3o o que ali est\u00e1 a decorrer\u00a0 \u0336\u00a0 n\u00e3o tenho a certeza se quem chega \u00e9 muito mais abastado do que quem l\u00e1 vivia antes, como acontece na gentrifica\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 poss\u00edvel que n\u00e3o. Mas \u00e9 um processo de grandes mudan\u00e7as culturais e sociais que ali, como um pouco pela cidade, est\u00e1 a decorrer.<\/p>\n<p>Poder\u00e1 o leitor agora pensar que o Bairro Coferpor e, por extens\u00e3o, o Entroncamento, est\u00e3o a passar por um curioso e profundo processo demogr\u00e1fico (que certamente merecer\u00e1 a aten\u00e7\u00e3o e estrat\u00e9gias adequadas de integra\u00e7\u00e3o social por parte das autarquias)\u00a0 \u0336\u00a0 e est\u00e3o diferentes. E, em certa medida, isso \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 \u00f3bvio como verdadeiro. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m que sublinhar que, a uma escala diferente, o Entroncamento continua igual a si mesmo e ao que sempre foi. Assim mesmo.<\/p>\n<p>O processo demogr\u00e1fico atualmente em curso na nossa cidade, com a vinda de imigrantes, sobretudo do Brasil, mas tamb\u00e9m de outros pa\u00edses lus\u00f3fonos, europeus e da \u00c1sia, \u00e9, numa escala distinta, um <em>d\u00e9j\u00e0 vu<\/em> do que ela sempre foi.<\/p>\n<p>Cidade fundacional, sem castelo nem foral antes, o Entroncamento \u00e9 um fruto direto da saga dos caminhos de ferro em Portugal na segunda metade do s\u00e9culo XIX. E desde ent\u00e3o tem sido terra de acolhimento da maioria de n\u00f3s. Pequenos ou adultos, a maioria da popula\u00e7\u00e3o veio de outras paragens. Uns vieram do Alentejo, sim, mas somos tamb\u00e9m, e muito, beir\u00f5es, estremenhos, do Norte e de outros burgos do Ribatejo. Todos vieram para c\u00e1 trabalhar, na CP, nos quart\u00e9is da regi\u00e3o, no com\u00e9rcio ou nos servi\u00e7os e ind\u00fastrias, deixando as aldeias e \u00e0 procura de uma vida um pouco melhor. Exatamente o mesmo que estes novos concidad\u00e3os. Nada de novo, portanto. \u00c9 verdade que dantes a imigra\u00e7\u00e3o era interna, e agora v\u00eam pessoas de todos os meridianos, latitudes, l\u00ednguas e etnias. As dist\u00e2ncias aumentaram muito, e est\u00e3o agora \u00e0 dimens\u00e3o que a globaliza\u00e7\u00e3o permitiu. Mas, no essencial, o que se est\u00e1 a passar \u00e9 igual ao que no Entroncamento sempre se passou.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-um-entroncamento-diferente-mas-a-cidade-de-sempre\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante muitos anos, por raz\u00f5es profissionais e pessoais, bem conheci o Bairro Coferpor, o bairro da minha escola, de amigos pr\u00f3ximos e de pessoas a quem me ligavam (e ligam) rela\u00e7\u00f5es de simpatia e cordialidade ou de simples cumprimentos de cortesia urbana. 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