{"id":57530,"date":"2023-03-13T07:28:00","date_gmt":"2023-03-13T07:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=57530"},"modified":"2023-04-03T19:18:00","modified_gmt":"2023-04-03T18:18:00","slug":"manuel-fernandes-vicente-a-praca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-praca\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | A pra\u00e7a"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>O mundo mudou, o pa\u00eds mudou e o Entroncamento tamb\u00e9m, e muito. E de onde eu vejo com mais nitidez todas estas mudan\u00e7as, as que vejo e sinto na nossa cidade, as que capto nas minhas itiner\u00e2ncias pelo pa\u00eds e pelo que reparo no mundo, percebo-as da pra\u00e7a, o bel\u00edssimo logradouro que na cidade honra o nome do grande capit\u00e3o Salgueiro Maia. Por aqui passa o nov\u00edssimo Entroncamento, que parece t\u00e3o diferente, mas que talvez n\u00e3o seja mais do que o Entroncamento de sempre, mas num plano e a um n\u00edvel e uma escala diferentes.<\/p>\n<p>Em caminhada, e antes de chegar \u00e0 pra\u00e7a, para os lados de ande antes havia a Quinta da Capela e um vasto laranjal, hoje restaurado em art\u00e9rias, rotundas e amplos passeios, percebo que uma boa vintena de novos concidad\u00e3os se empenha numa estranha competi\u00e7\u00e3o que, pelos adere\u00e7os utilizados, me parece ser cricket de rua, em vers\u00e3o informal, mas que est\u00e1 longe de anestesiar o entusiasmo dos batedores e rebatedores com os seus bast\u00f5es. Percebo tamb\u00e9m que h\u00e1 uma evidente uniformidade \u00e9tnica nos seus praticantes, homens, ainda jovens, de altura mediana, uma l\u00edngua estranha que acompanha as corridas e sublinha a excita\u00e7\u00e3o das jogadas, e sobretudo uma fisionomia que sugere, sem grandes d\u00favidas, a sua origem no Indust\u00e3o, o sub-continente no sul da \u00c1sia, ali\u00e1s s\u00e3o da \u00cdndia alguns dos mais ex\u00edmios praticantes da modalidade, o que ajuda a entender a sua devo\u00e7\u00e3o pela modalidade que a\u00ed \u00e9 bastante popular. Pelo caminho, num espa\u00e7o aberto, eis alguns pequenos \u00b4, brasileiros, o que se torna evidente tanto pelo pelo sotaque regional como pelo estilo exibido de futebol de rua, \u201cbrinca na areia\u201d, apesar de o fazerem sobre uma dura plataforma urbana de cimento e lajes baratas.<\/p>\n<p>Na pra\u00e7a \u00e9 f\u00e9rtil a diversidade de personagens, situa\u00e7\u00f5es e epis\u00f3dios que ilustram o que \u00e9 a cidade de hoje, e que podia bem satisfazer a curiosidade e a ci\u00eancia de algum soci\u00f3logo menos ortodoxo. Dois homens, j\u00e1 com certa idade, conversam longamente entre si, com a curiosidade de se terem sentado nas extremidades de um banco de jardim e de costas voltadas um para o outro, estranho caso de estudo para algum antrop\u00f3logo ou de pr\u00f3xima clientela para o psiquiatra. Um de bon\u00e9 e o outro equipado de capacete, duas molas da roupa nas cal\u00e7as, j\u00e1 junto aos calcanhares, e uma bicicleta que afaga como se fosse uma mulher, a quem oferece uma pausa depois de, como ciclista singular e contumaz, muito pedalar pelas art\u00e9rias centrais do burgo.<\/p>\n<p>Quatro mulheres j\u00e1 de muito cabelo branco a emoldurar-lhes uns rostos envelhecidos pela vida e sentadas bem pr\u00f3ximas noutro banco conversam bem alto entre si, com a particularidade de as quatro falarem todas ao mesmo tempo, enquanto batem com as bengalas na cal\u00e7ada que t\u00eam aos p\u00e9s, talvez para sublinhar a convic\u00e7\u00e3o daquilo que dizem, mas nenhuma das outras parece manifestar qualquer interesse em ouvir o que as outras t\u00eam para dizer, apesar de pertencerem \u00e0 mesma gera\u00e7\u00e3o, o que em nada desabona na import\u00e2ncia que aqueles momentos \u00fanicos t\u00eam para todas elas, talvez momentos de pura evas\u00e3o, em que falam e limpam o que lhes vai na alma, e isso j\u00e1 \u00e9 muito.<\/p>\n<p>Um jovem chin\u00eas, com quem j\u00e1 me cruzei algumas vezes, atravessa agora a pra\u00e7a cruzando-a em diagonal, mas n\u00e3o despegando o olhar do telem\u00f3vel que leva numa m\u00e3o e que absorve como se disso dependesse a sua vida, mas se n\u00e3o fosse o c\u00e3o que leva pela trela possivelmente entraria e sairia do lago da pra\u00e7a sem dar por isso. \u00c9 certamente um n\u00f3mada digital, para quem o mundo cabe dentro do per\u00edmetro do ecr\u00e3 que define tudo o que lhe interessa, exce\u00e7\u00e3o talvez ao fiel canino, que talvez o salve agora do poste que tem a dois simples passos de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A uma mesa da esplanada, um grupo de mulheres ucranianas, com as dores da guerra ainda a dominar por certo a conversa\u00e7\u00e3o, pois oi\u00e7o regularmente a invoca\u00e7\u00e3o \u00e1cida de \u201cPut\u00edn\u201d naquele sotaque de tom triste da l\u00edngua da sua p\u00e1tria do Leste. Mais longe, num recanto com a reputa\u00e7\u00e3o de ser ponto de encontro das minorias \u00e9tnicas da cidade, um grupo de afrodescendentes (come\u00e7o a render-me \u00e0 ditadura do linguisticamente correto\u2026) ouve as batidas de um estranho e acusat\u00f3rio rapper com uma cad\u00eancia que, ornamentada de improp\u00e9rios na l\u00edngua da globaliza\u00e7\u00e3o, impera com ecos austeros e secos por toda a pra\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 um laborat\u00f3rio humano que, sentados em bancos, a caminhar, montados em velozes trotinetes luminosas ou de bicicletas, a pra\u00e7a volta a exibir nas tardes deste renovo de primavera que j\u00e1 se anuncia. Em todos os grupos observados neste dia revejo um denaminador comum: os indianos jogam com indianos, as velhas senhoras conversam entre si, e os rappers idem, aspas. Impera portanto a l\u00f3gica da homogeneidade social, e da tend\u00eancia dos diversos tipos atra\u00edrem os iguais, excluindo implicitamente quem n\u00e3o for formatado no mesmo molde. Iguais atraem iguais. Apenas de um grupo, ali\u00e1s insuspeito, retiro a observa\u00e7\u00e3o que contraria a tirania desta regra e me consola e faz renascer ainda algumas esperan\u00e7as. No parque infantil da pra\u00e7a, entre os baloi\u00e7os, os jogos e as divers\u00f5es e desassossegos nas casinhas ali alojadas, as crian\u00e7as caucasianas (sim, l\u00e1 est\u00e1, eu disse que j\u00e1 estava pr\u00f3ximo da rendi\u00e7\u00e3o\u2026), afrodescendentes, brasileiras, e at\u00e9 uma menina que alvitro talvez nepalesa, brincam calorosamente umas com as outras, promovendo entre si, por gestos ou alguma forma subtil de comunica\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as talvez \u00edndigo ou equipar\u00e1veis, alguns jogos. J\u00e1 se diz que anunciam uma \u201cnova era\u201d. N\u00e3o sei se ser\u00e1 assim, mas entre estes mi\u00fados n\u00e3o vejo fronteiras, nem cores, nem l\u00ednguas, nem etnias, mas divertem-se em sintonia e organizando brincadeiras que talvez eles pr\u00f3prios ali as tenham inventado. E, na verdade, na oportunidade multicultural que este processo de globaliza\u00e7\u00e3o preparou, s\u00e3o eles que melhor a interpretam e aproveitam.<\/p>\n<p>A multiculturalidade, nas suas diversas dimens\u00f5es, \u00e9 uma oportunidade de enriquecimento pessoal e social espantoso, mas n\u00e3o s\u00e3o os adultos que dela retiram proveito, limitando-se a criar uma cidade de multiguetos, em que cada comunidade s\u00f3 vive para dentro de si, fechando-se sombriamente ao exterior, \u00e0s influ\u00eancias de fora e a outras perspetivas. Com as crian\u00e7as n\u00e3o, e aceito que esteja nelas a esperan\u00e7a de uma reden\u00e7\u00e3o do ser humano. \u00c9 essa a li\u00e7\u00e3o da agita\u00e7\u00e3o no parque infantil da pra\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 uma mera alegoria.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-praca\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo mudou, o pa\u00eds mudou e o Entroncamento tamb\u00e9m, e muito. 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