{"id":56832,"date":"2023-02-13T08:05:08","date_gmt":"2023-02-13T08:05:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=56832"},"modified":"2023-03-11T08:23:08","modified_gmt":"2023-03-11T08:23:08","slug":"manuel-fernandes-vicente-professores-nao-desistam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-professores-nao-desistam\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Professores, n\u00e3o desistam"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Muito para al\u00e9m da impressionante (e emocionante) manifesta\u00e7\u00e3o nacional que os professores portugueses realizaram ontem para encher o Marqu\u00eas de Pombal, a Avenida da Liberdade e o Terreiro do Pa\u00e7o, em Lisboa, dos Caretos, das vuvuzelas, dos bombos, das bandeiras, dos cartazes, das cores, das faixas negras, dos sindicatos, das palavras de ordem ou at\u00e9 das formas que usaram para, de todo o pa\u00eds, de Caminha a Lamego e Alf\u00e2ndega da F\u00e9, e de Vila do Bispo a Castro Marim e Barrancos, poderem a\u00ed estar presentes, importa dizer com rigor o que mora nela, e muito para al\u00e9m dela. A palavra Respeito, reiterada como leitmotiv em muitos dos cartazes e palavras de ordem, traduzia transversalmente e em modo sint\u00e9tico o que vai na estoica alma dos professores. Mas essa palavra (ou melhor, a sua permanente omiss\u00e3o por parte dos sucessivos governos do pa\u00eds nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas) concentra outras que tamb\u00e9m podiam ser evocadas.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil alguma classe suportar com mais estoicismo, dor e sentido de responsabilidade do que os professores o que tem sofrido. O sentimento que lhes \u00e9 transversal e comum \u00e9 tamb\u00e9m o de outro \u201cerre\u201d, o \u201cerre\u201d com come\u00e7a a palavra Revolta. E h\u00e1 ainda um outro aspeto que se deve conjugar com o seu protesto, que atesta, e que ultrapassa em muito, a m\u00e9trica estritamente corporativa (sal\u00e1rios, progress\u00e3o nos escal\u00f5es, congelamento das carreiras, hor\u00e1rios, custos de desloca\u00e7\u00f5es, habita\u00e7\u00e3o para uma vida de n\u00f3mada\u2026) para configurar uma dimens\u00e3o maior, a Responsabilidade pelo presente e pelo futuro da Educa\u00e7\u00e3o em Portugal, o serem os \u00faltimos guardi\u00f5es de um tesouro, que t\u00e3o maltratado tem sido por quem dele devia cuidar e nele se devia esmerar, pois \u00e9 a\u00ed que est\u00e1 a riqueza da na\u00e7\u00e3o. Os professores, que naturalmente conhecem melhor que ningu\u00e9m a realidade das escolas portuguesas querem salvaguardar a sua dignidade e as suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Tudo desprezado pelos governos do pa\u00eds, sobretudo os das tristes eras de Jos\u00e9 S\u00f3crates, Passos Coelho e Ant\u00f3nio Costa (PS, PSD, CDS e, por via indireta da geringon\u00e7a, o PCP e o Bloco a comungarem dos mesmos dislates), todos com iguais ou proporcionais responsabilidades no caso). Mas o protesto vai muito mais al\u00e9m do que isso. O seu protesto significa tamb\u00e9m um alerta, uma chamada de aten\u00e7\u00e3o urgente aos pais, aos av\u00f3s, \u00e0 sociedade e ao pa\u00eds, e, h\u00e9las, a um Presidente da Rep\u00fablica em deriva.<\/p>\n<p>O que se tem passado na Educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, sempre em ziguezague entre a trag\u00e9dia, a farsa e o faz-de-conta, p\u00f5e \u00e0 vista a falta de uma lideran\u00e7a id\u00f3nea e s\u00e9ria do pa\u00eds. Neste sentido, e porque a sociedade portuguesa tamb\u00e9m come\u00e7ou a prestar mais aten\u00e7\u00e3o a algumas medidas do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (ME) e das suas dist\u00f3picas sucursais cheias de ilus\u00f5es pseudoigualit\u00e1rias, as sucessivas greves e manifesta\u00e7\u00f5es t\u00eam atra\u00eddo uma crescente compreens\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica para a ofensa e a desvaloriza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, profissional e social da classe docente. Mas h\u00e1 outras vertentes em que os Governos t\u00eam maltratado os professores, como a da Desconsidera\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Pedag\u00f3gica e at\u00e9, indiretamente, por via de uma burocracia doentia, de uma certa Desconfian\u00e7a Pessoal, j\u00e1 que muitos procedimentos (sempre registados em pap\u00e9is ou abundantes plataformas tecnol\u00f3gicas) resultam simplesmente de uma falta de confian\u00e7a que o sistema criou injustamente em seu redor. A desconfian\u00e7a tornou-se institucional, e a escola impessoal. Valoriza-se o mantra da irrelev\u00e2ncia, da ret\u00f3rica e do facilitismo (incluindo a tentativa de abolir os exames nacionais, seguida de novo ziguezague), e esquecem-se valores como o trabalho, a disciplina, a criatividade, a inova\u00e7\u00e3o, o conhecimento, a autossupera\u00e7\u00e3o ou a capacidade cr\u00edtica.<\/p>\n<p>\u00c9 da dignidade da profiss\u00e3o que se trata, e do futuro do pa\u00eds, e os professores n\u00e3o querem ser c\u00famplices de tanta irresponsabilidade dos titulares da pasta da Educa\u00e7\u00e3o, e de quem mais diretamente os serve, verdadeiros papas do \u201ceduqu\u00eas\u201d e da sua ideologia dist\u00f3pica. Os professores est\u00e3o solid\u00e1rios com o pa\u00eds, e a sociedade deve-lhes essa coragem e solidariedade.<\/p>\n<p>Por isso, os sucessivos Governos conseguiram transformar a que j\u00e1 foi a \u201cmelhor profiss\u00e3o do mundo\u201d (n\u00e3o pelas retribui\u00e7\u00f5es financeiras, mas pelo sentido de miss\u00e3o vivido pela maioria dos docentes, e pela realiza\u00e7\u00e3o profissional e at\u00e9 pessoal que possibilita) num inferno burocr\u00e1tico, que n\u00e3o tem outra finalidade sen\u00e3o criar um imp\u00e9rio de mediocridade, mesquinhez, mentiras (entre as quais as das estat\u00edsticas), e de desconfian\u00e7as que levaram \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um monstro burocr\u00e1tico e alucinado nas escolas. Algo que bloqueia a empatia, muitos valores nobres e valiosos, tudo o que de melhor a escola tem para oferecer.<\/p>\n<p>N\u00e3o sendo professor ou educador, \u00e9 muito dif\u00edcil ao leitor aperceber-se sequer aproximadamente, do conjunto de medidas e procedimentos que asfixiam os professores e quase impedem as escolas da sua miss\u00e3o de ensinar, desenvolver e formar jovens e preparar cidad\u00e3os que garantam a nobreza e o reconhecimento do nosso pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel enumerar a lista desse generoso rol de barbaridades pomposas e in\u00fateis com que os inspiradores do \u201ceduqu\u00eas\u201d eivaram as escolas p\u00fablicas do pa\u00eds, uma apocrisia legislativa absurda e intrag\u00e1vel iniciada a s\u00e9rio em 2005, no mandarinato infeliz de S\u00f3crates, e que nunca mais parou de se autorreplicar. Tem duas caracter\u00edsticas inapag\u00e1veis: a flexibilidade do ziguezague e a incapacidade de ver mais longe do que o amanh\u00e3 e os resultados que j\u00e1 nada significam.<\/p>\n<p>Os professores esgotaram-se a escrever em pap\u00e9is e a preencher plataformas r\u00edgidas (para todos os gostos e irrita\u00e7\u00f5es), documentos e minud\u00eancias estat\u00edsticas que v\u00e3o do inconsequente ao pat\u00e9tico e em nada beneficiam os alunos. S\u00e3o, a prop\u00f3sito de tudo e de nada, planos, PAA, PCT, PEI, programas e projetos, PIEF, relat\u00f3rios, tabela e matrizes, RTP, REPA, RGHR, fichas diversas, adapta\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas, atas, s\u00ednteses, avalia\u00e7\u00f5es e autoavalia\u00e7\u00f5es, acomoda\u00e7\u00f5es, reflex\u00f5es, supervis\u00f5es, DAC, PCA (n\u00e3o se preocupe o leitor se n\u00e3o entender muitas das siglas \u2013 s\u00e3o absolutamente in\u00f3cuas e sem qualquer utilidade, na p\u00e1gina da Internet do ME poder\u00e1 encontrar eventualmente ainda muitas outras). Ser diretor de turma tornou-se no equivalente moderno a uma condena\u00e7\u00e3o \u00e0s gal\u00e9s no s\u00e9culo XVI, s\u00f3 que sem crime, nem condena\u00e7\u00e3o. Os professores t\u00eam um hor\u00e1rio legal de 35 horas por semana, mas h\u00e1 estudos que indicam que, em m\u00e9dia, trabalham 46, muitas delas em casa. E perderam o otimismo que j\u00e1 tiveram, pois o tempo que deviam dedicar aos alunos na sala de aula, a conversar com eles, a efetuar experi\u00eancias e a descobrir os seus talentos, \u00e9 incinerado na mis\u00e9ria dos pap\u00e9is\u2026<\/p>\n<p>Nesta altura o leitor poder\u00e1 perguntar por que raz\u00e3o, apesar destas penosas considera\u00e7\u00f5es, Portugal ainda tem resultados internacionais regulares que os colocam bem acima da mediana dos pa\u00edses mais desenvolvidos do mundo, como s\u00e3o os casos das avalia\u00e7\u00f5es do PISA (Programme for International Student Assessment) ou do TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Study). S\u00e3o um facto. Mas nesta altura j\u00e1 dever\u00e1 estar a refletir de onde vem o vento a favor e o que sopra contraprofici\u00eancia dos alunos portugueses\u2026<\/p>\n<p>Passo a fazer refer\u00eancia ao estudo Porque Melhoraram os Resultados PISA em Portugal, editado pela Funda\u00e7\u00e3o Francisco Manuel dos Santos em 2017: \u201cNo que respeita ao apoio que recebem dos professores, em 2015, os alunos portugueses foram os que avaliaram melhor os professores nesta quest\u00e3o, seguidos dos alunos finlandeses; ali\u00e1s, Portugal \u00e9 o pa\u00eds onde consistentemente os alunos mais reconhecem o trabalho e disponibilidade dos professores. Desde 2003 que Portugal tem sempre n\u00edveis muito acima da m\u00e9dia da OCDE\u201d.<\/p>\n<p>Os malef\u00edcios causados pela irresponsabilidade do \u201ceduqu\u00eas\u201d ao pa\u00eds s\u00e3o grandes e v\u00e3o ser mais \u00f3bvios dentro de alguns anos, mas \u00e1 poss\u00edvel antecipar j\u00e1 (mesmo sem bola de cristal) um dos danos: uma magn\u00edfica gera\u00e7\u00e3o de inaptos, impreparados e incapazes de lidarem com o esfor\u00e7o, a exig\u00eancia, a disciplina, a coopera\u00e7\u00e3o, o sentido de grupo, e muito menos de chegar \u00e0 autossupera\u00e7\u00e3o e \u00e0 excel\u00eancia. E no \u201ceduqu\u00eas\u201d se esgota a imagina\u00e7\u00e3o destes titulares vision\u00e1rios, sob a b\u00ean\u00e7\u00e3o distante do Primeiro-Ministro e a complac\u00eancia qu\u00e2ntica do Presidente da Rep\u00fablica que, tendo sempre uma opini\u00e3o, uma selfie e um coment\u00e1rio a prop\u00f3sito de tudo e mais um par de botas, neles esgotou a sua coragem, limitando-se depois a vaticinar (leu nas m\u00e3os?) que os professores (condi\u00e7\u00e3o de que comunga em t\u00edtulo, mas j\u00e1 n\u00e3o pratica) correm o risco de perderem a simpatia da opini\u00e3o p\u00fablica. E quando \u00e9 que a iriam reganhar? Quando desistissem?<\/p>\n<p>N\u00e3o desistam, professores. O pa\u00eds saber\u00e1 agradecer<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-professores-nao-desistam\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito para al\u00e9m da impressionante (e emocionante) manifesta\u00e7\u00e3o nacional que os professores portugueses realizaram ontem para encher o Marqu\u00eas de Pombal, a Avenida da Liberdade e o Terreiro do Pa\u00e7o, em Lisboa, dos Caretos, das vuvuzelas, dos bombos, das bandeiras, dos cartazes, das cores, das faixas negras, dos sindicatos, das palavras de ordem ou at\u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-56832","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56832","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56832"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56832\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56832"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56832"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56832"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}