{"id":56725,"date":"2023-02-07T05:25:39","date_gmt":"2023-02-07T05:25:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=56725"},"modified":"2023-02-07T05:25:39","modified_gmt":"2023-02-07T05:25:39","slug":"manuel-fernandes-vicente-a-primeira-andorinha-do-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-primeira-andorinha-do-ano\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | A primeira andorinha do ano"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Com o tempo, o epis\u00f3dio, singular nas suas circunst\u00e2ncias, tornou-se simb\u00f3lico pelo que representava, e um estado de alma que s\u00f3 n\u00e3o era fugaz porque, na sua fr\u00e1gil inoc\u00eancia, lhe atribu\u00edamos o significado de uma transcend\u00eancia po\u00e9tica, t\u00e3o bela como todas aquelas de que s\u00f3 a natureza era capaz. Era a chegada \u00e0 nossa cidade ou muito perto dela da primeira andorinha do ano.<\/p>\n<p>A partir de meados ou finais de janeiro, pouco depois de se terem calado os cantos dos Reis e arrumado os pres\u00e9pios com as buc\u00f3licas e coloridas figurinhas de barro, e o frio mais severo parecia come\u00e7ar a dar espa\u00e7o aos primeiros raios de um sol mais caloroso, a\u00ed est\u00e1vamos n\u00f3s ao final das tardes, depois da escola prim\u00e1ria, e rumo a casa, a escrutinar o c\u00e9u para ver quem seria o primeiro a avistar a aben\u00e7oada ave, de regresso ap\u00f3s a sua expedi\u00e7\u00e3o de sobreviv\u00eancia at\u00e9 ao norte de \u00c1frica ou a outros abrigos mais temperados da Europa. Quem descortinasse a primeira andorinha do ano merecia, pela acuidade ou pela pertin\u00e1cia revelada, uma esp\u00e9cie de galard\u00e3o e melhor estatuto entre a tribo dos fedelhos do bairro. H\u00e1bitos, t\u00e3o singulares, adquiridos na inf\u00e2ncia, e inspirados pelos nossos av\u00f3s, a maioria deles atados ao mundo rural, o mundo da sua sobreviv\u00eancia e de que conheciam muitos dos seus segredos antes da era dos agroqu\u00edmicos, da Monsanto e de \u00e1guas maradas, raramente se perdem, e ainda agora n\u00e3o lhes perdi o jeito\u2026<\/p>\n<p>Hoje, seis de fevereiro, \u00e9, neste ano de 2023, a data a registar nos meus canhenhos do avistamento da primeira andorinha do ano, em pleno palco que lhe foi oferecido pelo Parque Almourol, junto ao Tejo, em Vila Nova da Barquinha. Ali\u00e1s, da primeira, da segunda, da terceira e de mais uma meia d\u00fazia de companheiras hirundin\u00eddeas, inconfund\u00edveis. Admir\u00e1veias aves! Voam quase sem fazer esfor\u00e7o, sem entropia nem trepida\u00e7\u00e3o, muito longe do voo dos estorninhos ou dos corvos, deslizam como uma sinfonia. Altivas, dorso negro em contraste com a alvura do ventre e uma cauda bem bifurcada, num voo subtil, um <em>opus<\/em> mozartiano m\u00e1gico e incapaz de deixar um risco no c\u00e9u, umas verdadeiras <em>Spitfires<\/em> ziguezagueantes \u00e0 procura do combust\u00edvel do c\u00e9u, que encontrar\u00e1 nos milhares de insetos voadores intercetados e engolidos todos os dias em pleno voo. \u00c9 uma esp\u00e9cie de pr\u00e9-primavera que se anuncia. Na andorinha h\u00e1 o seu <em>quid<\/em> de psican\u00e1lise, ali\u00e1s, ela \u00e9 sobretudo a nossa pr\u00f3pria vontade de regenerar a vida que ela promete.<\/p>\n<p>Chegaram cedo? Chegaram tarde? As andorinhas t\u00eam, como os rel\u00f3gios \u00d3mega, este espantoso predicado: nunca se adiantam ou atrasam, chegam quando t\u00eam de chegar, sempre na altura certa, aquela que a sua intui\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica dita para o rein\u00edcio da \u00e9poca da procria\u00e7\u00e3o, e de perceber quando vai haver o sustento adequado para a prole que vai encher o ninho\u2026<\/p>\n<p>Vestidas de penas de forma bem distinta da outra passarada mais comum, \u00e9 tamb\u00e9m distinto o modo como constroem os seus ninhos, da forma mais urbana, aproximando-se das habita\u00e7\u00f5es e ficarem perto das pessoas que, por vezes, confundem esta familiaridade com inc\u00f3modo, e lhes destroem (ainda hoje) por pura crueldade ou ignor\u00e2ncia a \u201cassoalhada\u201d, \u00e0s vezes j\u00e1 com novos inquilinos debaixo dos beirais das suas habita\u00e7\u00f5es. Laboriosa e cuidadosamente esculpidos com barro, lama, e por vezes at\u00e9 palhas e penas, tanto pela f\u00eamea como pelo macho (habitualmente a esp\u00e9cie \u00e9 monog\u00e2mica), em locais que procuram n\u00e3o ser de f\u00e1cil acesso aos predadores, os ninhos da maioria das andorinhas s\u00e3o pura poesia que rima com a primavera que apregoam.<\/p>\n<p>Aprendi, em crian\u00e7a, eu e os meus amigos, que era uma ave sagrada a andorinha, uma ave protegida por Deus (tal como as cegonhas que tamb\u00e9m migravam, e depois poisavam imperialmente no campan\u00e1rio da igreja da minha aldeia beir\u00e3). E longe de n\u00f3s devia ficar qualquer pensamento \u00edmpio, e muito menos alguma atividade com aquelas fisgas em formato de <em>Y<\/em>, press\u00f5es de ar, do tipo <em>Flaubert<\/em>, ou gateiras com ag\u00fadias agitadas no ch\u00e3o que pudessem conspurcar a sa\u00fade e, menos ainda, pudesse p\u00f4r em causa a sua sobreviv\u00eancia. Alguns, j\u00e1 rapazotes, eram verdadeiros passarinheiros, atividade hoje praticamente desprez\u00edvel, mas n\u00e3o h\u00e1 meio s\u00e9culo. Fritos, os p\u00e1ssaros eram na taberna bom conduto para o petisco e a rodada de vinho, e, nas hortas, searas e vinhas bastante mal-amados, tais os danos causados aos agricultores.<\/p>\n<p>Recordo-me ainda hoje das aulas de Ci\u00eancias na minha escola quando, pela meada de janeiro, eu interpelava os meus alunos sobre o que eles sabiam das andorinhas, e percebia logo que era muito, reflexo do que tinham visto nos programas da <em>National Geographic<\/em>, do <em>Odisseia<\/em> e noutros canais, em document\u00e1rios e s\u00e9ries dedicados \u00e0 vida selvagem e \u00e0s sempre eletrizantes harmonias cantadas pela natureza. Sabiam muito e perguntavam tamb\u00e9m muito. Porque quanto mais se sabe mais se percebe o que ainda falta conhecer, e tamb\u00e9m especul\u00e1vamos, n\u00e3o t\u00e3o filisoficamente como S\u00f3crates, o s\u00e1bio ateniense, mas indagando sobre os seus h\u00e1bitos e mist\u00e9rios (que depois se alargavam a outras esp\u00e9cies), porque eram migrat\u00f3rias, e porque regressavam nesta \u00e9poca e n\u00e3o noutras igualmente poss\u00edveis. Nestas alturas a aten\u00e7\u00e3o redobrava, e certamente triplicava quando eu lan\u00e7ava um repto:<\/p>\n<p>\u2212 Vamos ver quem entre todos v\u00f3s \u00e9, este ano, o primeiro a descobrir a primeira andorinha que chegar ao Entroncamento. O desafio estimulava-lhes o entusiasmo de procurar no azul do c\u00e9u as belas aves sagradas, mas tamb\u00e9m queriam saber bastante mais. E fiquei quase certo de que muitos aderiram \u00e0 causa das andorinhas (alguns deles chegaram a fazer ninhos artificiais com um sucesso validado pela sua posterior ocupa\u00e7\u00e3o por casais) e tamb\u00e9m de outras esp\u00e9cies. Aquilo emocionava-os seriamente, mesmo os que pareciam indiferentes a tudo o que acontecia \u00e0 sua volta, pareciam tamb\u00e9m viver os epis\u00f3dios contados da vida das andorinhas. Um dia, num t\u00edpico dia de primavera, logo ao primeiro tempo da manh\u00e3, um aluno chegou \u00e0 aula visivelmente perturbado e rodeado por dois ou tr\u00eas colegas que procuravam dar-lhe \u00e2nimo. Rapidamente me apercebi do que sucedera e, depois do sum\u00e1rio, e com as hostes j\u00e1 mais serenas, pedi-lhe para contar calmamente o que acontecera\u2026<\/p>\n<p>Contou ent\u00e3o que, pelo caminho, encontrara uma dezena de ninhos de andorinha destru\u00eddos no passeio, algu\u00e9m decidira que aquelas aves n\u00e3o fariam ali o ninho, mas, e fora isso que mais magoara o meu aluno, em dois deles eram vis\u00edveis duas ninhadas inteiras, com a penugem tingida pelosangue, inertes, e naturalmente mortas. A como\u00e7\u00e3o do rapaz propagou-se \u00e0 turma, e percebi que a sensibilidade ambiental dos mais jovens perante casos reais e vividos era muito maior do que alguma vez eu pudera imaginar. A gera\u00e7\u00e3o das consolas, dos <em>v\u00eddeo games<\/em> e das redes sociais ainda era recuper\u00e1vel, bastava dar-lhe uma oportunidade para isso. Falaram sobre se as leis protegiam os animais, de como se devia alterar a consci\u00eancia dos mais velhos pelas andorinhas e muitos outros animais e at\u00e9 pela natureza. Falaram dos lobos, dos linces, das osgas, dos golfinhos, falaram\u2026 Acredito que naquela e noutras aulas tenha havido sementes para o crescimento da sensibilidade ambiental, que tenha nascido ali algum ecologista, mas espero que nenhum se tenha tornado num radical da classe, daqueles que pouco favorecem as nobres causas do ambiente.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-primeira-andorinha-do-ano\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o tempo, o epis\u00f3dio, singular nas suas circunst\u00e2ncias, tornou-se simb\u00f3lico pelo que representava, e um estado de alma que s\u00f3 n\u00e3o era fugaz porque, na sua fr\u00e1gil inoc\u00eancia, lhe atribu\u00edamos o significado de uma transcend\u00eancia po\u00e9tica, t\u00e3o bela como todas aquelas de que s\u00f3 a natureza era capaz. 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