{"id":56543,"date":"2023-01-29T14:11:52","date_gmt":"2023-01-29T14:11:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=56543"},"modified":"2023-01-29T14:44:19","modified_gmt":"2023-01-29T14:44:19","slug":"manuel-fernandes-vicente-herois-dos-brocolos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-herois-dos-brocolos\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Her\u00f3is dos br\u00f3colos"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<em style=\"color: #222222; font-size: 15px;\">\u00a0<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O <em>rapper<\/em>, cantor, compositor e ativista luso-cabo-verdiano Dino D\u2019Santiago, nascido h\u00e1 41 anos na Quarteira e filho de pais imigrantes oriundos de Cabo Verde, lan\u00e7ou h\u00e1 umas semanas, numa confer\u00eancia de um seman\u00e1rio portugu\u00eas, o repto da cria\u00e7\u00e3o do um novo hino nacional para Portugal. Sustentando que o atual hino, composto j\u00e1 no final do s\u00e9culo XIX, era um pouco b\u00e9lico, e que as novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o se reviam nele nem necessitavam de um hino assim, o <em>rapper<\/em> notou que era necess\u00e1rio algo \u201cmenos b\u00e9lico, que incentive menos \u00e0s guerras\u201d. Dino D\u2019Santiago, reconhecido como uma das mais interessantes e multipremiadas vozes do <em>rap<\/em> nacional e da <em>world music<\/em>, e que em 2021 merece mesmo a distin\u00e7\u00e3o de integrar a lista global das cem personalidades afrodescendentes mais influentes do mundo, acrescentou ainda: \u201cN\u00e3o gritemos mais \u2018\u00e0s armas, \u00e0s armas\u2019 e n\u00e3o marchemos mais \u2018contra os canh\u00f5es\u2019\u201d. Em suma: \u201cOs nossos filhos n\u00e3o precisam disso e a nova emancipa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser territorial. Que seja mental, espiritual, com amor\u201d. A opini\u00e3o do cantor \u00e9 respeit\u00e1vel, os hinos n\u00e3o s\u00e3o eternos, <em>A Portuguesa<\/em> tamb\u00e9m n\u00e3o, todavia discordo dele, embora entenda as raz\u00f5es por que a sugere.<\/p>\n<p>Em 1884 Portugal, como pot\u00eancia europeia e colonial, apresentou no Congresso de Berlim a pretens\u00e3o de unir em \u00c1frica os territ\u00f3rios de Angola e Mo\u00e7ambique acrescentando-lhes uma faixa interm\u00e9dia no chamado Mapa Cor-de-Rosa, cuja posse reclamava para si. Era um projeto que ligava o Atl\u00e2ntico ao \u00cdndico, algo ambicioso, mas que acabou por se tornar humilhante. A Gr\u00e3-Bretanha, com algo de maior e magn\u00e2nimo nos seus prop\u00f3sitos (ligar sob a sua coroa as cidades do Cairo, no Egito, e do Cabo, na \u00c1frica do Sul) discordou, porque haveria um conflito \u00f3bvio na interse\u00e7\u00e3o dos dois projetos, n\u00e3o gostou e o conflito culminou com o Ultimato Brit\u00e2nico, em 1890. A ced\u00eancia de Portugal \u00e0s exig\u00eancias nele impostas foi considerada como uma humilha\u00e7\u00e3o \u00e0 p\u00e1tria lusa. Foi este o contexto hist\u00f3rico, social e pol\u00edtico que inspirou a letra (que \u00e9 o que est\u00e1 em causa) do hino nacional, escrito como um descontentamento, uma indigna\u00e7\u00e3o e uma revolta contra as infames obriga\u00e7\u00f5es impostas pela Gr\u00e3-Bretanha ao nosso pa\u00eds. \u00c9 neste Portugal com a asa ferida que deve ser lida a letra <em>de A Portuguesa<\/em>, um s\u00edmbolo nacional de rea\u00e7\u00e3o e de exalta\u00e7\u00e3o, e uma can\u00e7\u00e3o de marcada fei\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica num contexto de um ultimato desferido por um aliado hist\u00f3rico do pa\u00eds. \u00c9 verdade que, ainda comungando desse estado de \u00e2nimo bem patente em duas estrofes singelas (<em>Levantai hoje de novo\/O esplendor de Portugal<\/em>), a can\u00e7\u00e3o composta com a m\u00fasica de Alfredo Keil e letra do poeta Henrique Lopes de Mendon\u00e7a enaltece os <em>Her\u00f3is do Mar<\/em>, e o <em>nobre povo<\/em>, exorta a luta pela P\u00e1tria, exalta o patriotismo e o orgulho nacional magoado, recorda os egr\u00e9gios av\u00f3s, e, falando de canh\u00f5es, \u00e9 para marchar contra eles que apela e a que se prop\u00f5e. Falar de agress\u00f5es n\u00e3o \u00e9 apelar \u00e0 viol\u00eancia, e no poema parece bem claro que o essencial \u00e9 (ou foi) resistir-lhes, fazer-lhes frente. Dino n\u00e3o se emociona muito com o hino nacional, paci\u00eancia, est\u00e1 no seu direito, eu tamb\u00e9m n\u00e3o me comovo quando ou\u00e7o os seus <em>raps<\/em> ou a cantar can\u00e7onetas, estou no meu direito. Entretanto, espero que na futura revis\u00e3o de depura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do hino n\u00e3o escolham para o produzir nenhuma comiss\u00e3o interministerial, inter\u00e9tnica e multirreligiosa de representa\u00e7\u00e3o proporcional com comiss\u00e1rios-poetas-pol\u00edticos muito bem pagos \u00e0 pe\u00e7a para produzir um ensopado insonso e higi\u00e9nico de br\u00f3colos, soja, virtudes crioulas e sambistas, e muitas verduras.<\/p>\n<p>Com tudo o que carrega no seu simbolismo rom\u00e2ntico da \u00faltima d\u00e9cada de novecentos, o hino de Mendon\u00e7a e Keil tem algo de circunst\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m algo de essencial. H\u00e1 algo que se sente como uma fragr\u00e2ncia que se evaporou, mas tamb\u00e9m mant\u00e9m um perfume que persiste na mem\u00f3ria e penetra na alma. Quando o oi\u00e7o ou canto h\u00e1 comigo (e geralmente mais uma pequenina multid\u00e3o de portugueses que a entoam em un\u00edssono) algo que me estremece, sensibiliza e emociona. E estou longe de ser o \u00fanico, sinto isso na esmagadora maioria, para quem s\u00e3o irrelevantes os pequenos detalhes ou alguma subtileza lexical em que alguma picuinhice esbarre, descortinando nela algum pecado mortal. O hino \u00e9 algo que, com o seu simbolismo, e para al\u00e9m das estrofes e das rimas, nos emociona, motiva moralmente e mobiliza para uma causa. Evoca uma mem\u00f3ria de grandezas, resist\u00eancias que nos individualizaram e tornaram \u00fanicos, uma ideia que nos identifica e une como na\u00e7\u00e3o. Interpret\u00e1-lo \u00e0 letra \u00e9 porventura amput\u00e1-lo das suas asas, com que se eleva e nos eleva com ele.<\/p>\n<p>Quis o mais puro acaso que, alguns dias ap\u00f3s o <em>rapper<\/em> ter lan\u00e7ado o desafio para uma revis\u00e3o do hino (o que s\u00f3 por si, e conhecendo o totalitarismo do linguisticamente correto que corveja por a\u00ed, me faz recear o pior), ter dado corda ao carro e \u00e0s botas e visitar pela primeira vez o estimulante Museu Hist\u00f3rico Militar de Almeida, inaugurado em 2009 em pleno cora\u00e7\u00e3o da hist\u00f3rica vila raiana e beir\u00e3. O espa\u00e7o, todo ele subterr\u00e2neo, para se resguardar de ataques, bombardeios, e servir de ref\u00fagio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 particularmente interessante, e recorda os m\u00faltiplos acontecimentos e crueldades a que a comunidade local foi sujeita ao longo de s\u00e9culos, foi um baluarte da defesa da nacionalidade. Com seriedade e crit\u00e9rio a\u00ed se evocam epis\u00f3dios em que Almeida se ergueu para ser a primeira resist\u00eancia \u00e0s amea\u00e7as \u00e0 soberania de Portugal. Vale a pena ver, e a\u00ed, na evoca\u00e7\u00e3o m\u00e1rtir da vila de baluartes, revelins e fortalezas, na resist\u00eancia na Guerra da Restaura\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia, no Combate do C\u00f4a ou na resist\u00eancia aos invasores do General Massena, na explos\u00e3o de pai\u00f3is, entre outros epis\u00f3dios, se entende a estatura da vila e a pequenez da birra sem\u00e2ntica contra o hino. Al\u00e9m de uma imers\u00e3o na Hist\u00f3ria de Portugal, a visita \u00e9 tamb\u00e9m um mergulho na mem\u00f3ria das dores que a independ\u00eancia do pa\u00eds sempre causou. Sa\u00ed de l\u00e1 com a ideia de gratid\u00e3o que o pa\u00eds deve a Almeida e \u00e0 sua hist\u00f3ria de hero\u00edsmo e abnega\u00e7\u00e3o na defesa da fronteira.<\/p>\n<p>Acredito que Dino D\u2019Santiago ter\u00e1 feito a sua proposta na mais pura boa-f\u00e9. Nenhum hino \u00e9 intoc\u00e1vel, mesmo <em>A Portuguesa<\/em>, mesmo para al\u00e9m de todo o seu simbolismo. No fundo, Portugal mudou muito desde o tempo do Ultimato. A Monarquia deu, com alguma crispa\u00e7\u00e3o, lugar \u00e0 1\u00aa Rep\u00fablica, e o Estado Novo de Salazar tamb\u00e9m entrou em esclerose e decad\u00eancia, o Imp\u00e9rio tombou substitu\u00eddo pelos cravos da Democracia e da Liberdade e por um regime alinhado pela Europa. Portugal mudou muito, e o hino, que n\u00e3o \u00e9 tabu, poderia trazer consigo conspurca\u00e7\u00f5es latentes de que seria necess\u00e1rio depurar-se. E os Portugueses s\u00e3o hoje um povo bastante diferente do que seria nos finais do s\u00e9culo XIX, torn\u00e1mo-nos numa comunidade multicultural e multi\u00e9tnica, a vis\u00e3o paroquial deu lugar a uma cosmovis\u00e3o. E Dino D\u00b4Santiago, que \u00e9 uma express\u00e3o bem tang\u00edvel desta nova realidade proporcionada pela Globaliza\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 a sua perspetiva pr\u00f3pria. Uma Globaliza\u00e7\u00e3o de que, curiosamente, os <em>Her\u00f3is do Mar<\/em> e o <em>nobre povo<\/em>, com as suas grandezas e desvarios, foram pioneiros. Tamb\u00e9m n\u00f3s partimos para todas as latitudes que o mundo tem, e em muitas delas por l\u00e1 fic\u00e1mos, melhor faria o cantor que se preocupasse com a paz, o p\u00e3o, a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o, a vida dos idosos, a pobreza e o sal\u00e1rio m\u00e9dio do pa\u00eds. A can\u00e7\u00e3o de Mendon\u00e7a e Keil ter\u00e1 as suas rugosidades, tem data sim, mas poupem-na a nova higieniza\u00e7\u00e3o. Vale muito mais que o caldinho de br\u00f3colos insonso que prepararem\u2026<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-herois-dos-brocolos\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rapper, cantor, compositor e ativista luso-cabo-verdiano Dino D\u2019Santiago, nascido h\u00e1 41 anos na Quarteira e filho de pais imigrantes oriundos de Cabo Verde, lan\u00e7ou h\u00e1 umas semanas, numa confer\u00eancia de um seman\u00e1rio portugu\u00eas, o repto da cria\u00e7\u00e3o do um novo hino nacional para Portugal. 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