{"id":56386,"date":"2023-01-20T18:00:20","date_gmt":"2023-01-20T18:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=56386"},"modified":"2023-01-23T16:39:13","modified_gmt":"2023-01-23T16:39:13","slug":"manuel-fernandes-vicente-o-grito-dos-professores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-o-grito-dos-professores\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | O grito dos professores"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Mariam (um nome fict\u00edcio que protagoniza uma hist\u00f3ria real) tem cerca de 40 anos, reside numa aldeia cerca de 30 quil\u00f3metros a sul de Coimbra, n\u00e3o muito longe da esta\u00e7\u00e3o de caminhos de ferro que habitualmente utiliza. Conversei com ela algum tempo h\u00e1 umas semanas durante numa viagem at\u00e9 Lisboa. E, apesar de conhecer muitas outras hist\u00f3rias, fiquei impressionado. \u00c9 professora. Todos os dias vai de autom\u00f3vel da casa na aldeia at\u00e9 essa esta\u00e7\u00e3o, onde toma o comboio que a levar\u00e1 \u00e0 esta\u00e7\u00e3o do Oriente, e da\u00ed, em transporte p\u00fablico ou no autom\u00f3vel de uma colega da sua escola (\u00e0s vezes de t\u00e1xi) vai at\u00e9 \u00e0 sua escola no Montijo, j\u00e1 margem sul do Tejo. Cada dia na sua escola era igual ao anterior e havia de ser id\u00eantico ao seguinte, reuni\u00f5es, relat\u00f3rios, atas, mais reuni\u00f5es, o preenchimento at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o e ao desespero de absurdas plataformas eletr\u00f3nicas, e no final do dia, regresso pela via rec\u00edproca, autom\u00f3vel da amiga (ou autocarro), comboio e o carro pr\u00f3prio da esta\u00e7\u00e3o de chegada at\u00e9 casa. Quatro dias por semana assim, todas as semanas, h\u00e1 dois anos. E tudo porque, divorciada e com dois filhos ainda muito pequenos em casa ao encargo da m\u00e3e, n\u00e3o estava preparada mentalmente para estar um dia sequer sem ver e falar com os pequeninos, que corriam para ela felizes para a abra\u00e7ar logo que metia a chave na porta de casa. Era o momento <em>zen<\/em> de cada um deles, esse momento compensava todos os esfor\u00e7os e sacrif\u00edcios de Mariam ao longo do dia, e dava tamb\u00e9m alento para o seguinte. E tamb\u00e9m me disse que, nessa altura, os custos mensais que suportava ultrapassavam as entradas na bolsa, com um vencimento insuficiente, tudo em nome de um tempo de servi\u00e7o para que amanh\u00e3 n\u00e3o perca os direitos a continuar esta vida, a que s\u00f3 o brilho de dois pares de olhos ao final do dia davam f\u00f4lego e \u00e2nimo. Desses, e tamb\u00e9m os dos seus alunos no Montijo, onde alimentava tamb\u00e9m a sua paix\u00e3o de ensinar, assumindo que essa era a sua miss\u00e3o. N\u00e3o sei para quantos mais anos ir\u00e1 dar o pavio do estoicismo desta hero\u00edna do quotidiano, para quem o sonho de, como me disse, estar na \u201cmelhor profiss\u00e3o do mundo\u201d, e a materializa\u00e7\u00e3o dos seus seus de adolesc\u00eancia, se converteram num inferno em combust\u00e3o lenta, demorada e extenuante que, no caso da classe docente, tem causado casos em massa de <em>burnout<\/em>, depress\u00f5es, esgotamentos f\u00edsicos e mentais, e muita desilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta hist\u00f3ria no singular poder\u00e1 parecer um caso pessoal extremo, mas h\u00e1 in\u00fameras outras situa\u00e7\u00f5es de muitos professores e professoras em que a aspira\u00e7\u00e3o de chegar \u00e0 \u201cmelhor profiss\u00e3o do mundo\u201d, que muitos julgaram ter alcan\u00e7ado e abra\u00e7ado no in\u00edcio da sua carreira, se transformou numa atividade semiprolet\u00e1ria, semiburocr\u00e1tica, semitudo.\u00a0 E muito mal paga. Em vez da empatia e da qu\u00edmica que cada um procurava criar com cada turma para a nobre miss\u00e3o do desenvolvimento pessoal dos seus alunos, o professor foi destitu\u00eddo pelos sucessivos Governos, pelo menos desde o funesto m\u00eas de mar\u00e7o de 2005 (e com a anu\u00eancia por omiss\u00e3o ou consentimento t\u00e1cito dos sindicatos), da sua autoridade pedag\u00f3gica, natural e cient\u00edfica e dos prop\u00f3sitos por que trabalha para dar origem a um servil burocrata, encarregue de ser cada vez menos exigente e mais permissivo, e que no final deve apresentar \u00edndices de sucesso grandiosos, pouco importando se eles t\u00eam alguma rela\u00e7\u00e3o l\u00f3gica com a realidade. S\u00e3o normas muito legais e pouco \u00e9ticas que sucessivamente caem sobre os seus ombros, e \u00e0s quais lhes resta prestar vassalagem, caso contr\u00e1rio pode complicar a s\u00e9rio a sua vida profissional. Normas, leis, decretos, regulamentos e circulares, uma incontin\u00eancia legislativa, tudo numa espiral de disparates criados numa torre de iluminados, que tiveram uma vis\u00e3o desligada de qualquer sentido da realidade, e tudo sem lhes pedir a mais leve opini\u00e3o sobre o m\u00ednimo assunto. Um servilismo p\u00fablico que se desempenha sem alma nem emo\u00e7\u00e3o para cumprir um hor\u00e1rio de expediente e executar fun\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os que j\u00e1 pouco se relacionam com os alunos, a sua forma\u00e7\u00e3o e as suas aprendizagens. Um mundo frio e calculado em que tudo vive para contemplar e ser engolido pela estat\u00edstica e por uma burocracia voraz e insaci\u00e1vel, exorbitante e sugadora das melhores energias, que procura dizer que \u00e9 o que realmente n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma hist\u00f3ria que se conta de um sapo que um dia foi lan\u00e7ado, sabe-se l\u00e1 porqu\u00ea, para dentro de um panel\u00e3o de ferro com a \u00e1gua a transbordar e \u00e0 temperatura ambiente, e quis o autor e aprendiz de feiticeiro colocar o recipiente sobre uma fogueira branda para ver o que aconteceria. E foi ficando com uma aten\u00e7\u00e3o maquiav\u00e9lica ao comportamento reativo que doravante o sapo teria. E o que, para surpresa sua, viu foi que o sapo nunca saltaria para fora do panel\u00e3o, foi-se adaptando, ajustando e conformando com a gradual eleva\u00e7\u00e3o de temperatura. Foi sempre ficando, e sempre adiando o salto para fora da sua lenta cozedura. At\u00e9 que a temperatura ficou j\u00e1 muito elevada, e o sapo, mesmo querendo dar esse pulo dali para fora, mas j\u00e1 desfalecido pelo calor, n\u00e3o teve energia para o fazer. Pouco depois, com a \u00e1gua perto do ponto de fervura, e totalmente exangue, morreu.<\/p>\n<p><em>Mutatis mutandis<\/em>, esta par\u00e1bola um pouco triste (apesar da m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o do anf\u00edbio), mas muito pedag\u00f3gica em rela\u00e7\u00e3o a muitas vicissitudes p\u00fablicas e de alcova, \u00e9 poss\u00edvel de ser aplicada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o profissional, psicol\u00f3gica, \u00e9tica e social dos docentes portugueses. E o caso nem \u00e9 desde dezembro do ano passado, mas vem de h\u00e1 muitos anos e surge uns ministros e chefes do Governo depois, pelo menos desde o fat\u00eddico m\u00eas de mar\u00e7o de 2005, altura em que outros aprendizes de feiticeiros (e de feiticeiras, esclare\u00e7a-se) encetaram a longa odisseia de colocar os professores, os alunos e todo o sistema educativo \u00e0 prova de experi\u00eancias parecidas com as do panel\u00e3o, e foram observando o que aconteceria, sem nunca se esquecer de ir lan\u00e7ando mais umas lenhas e umas cavacas para o fogo. Agora uma norma e um preceito jur\u00eddico, para a semana um despacho e dois decretos regulamentares, logo depois uma nova circular, uma portaria e dois ou tr\u00eas decretos-leis, no m\u00eas seguinte mais uma pan\u00f3plia legislativa promulgada para revogar metade dos diplomas anteriores e acrescentar outros tantos num ziguezague persistente e contumaz. Tudo isto resultou numa tenebrosa e asfixiante burocracia criada para que a inten\u00e7\u00e3o do sucesso por decreto sufocasse a verdade, e impondo-se um sistema de avalia\u00e7\u00e3o perverso (em que a coopera\u00e7\u00e3o entre professores foi trocada pela competi\u00e7\u00e3o em torno de quem chegaria aos eleitos das quotas e dos diretores) que tornou a atmosfera nas escolas fria, despersonalizada e quase irrespir\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os professores contestam e manifestam hoje um descontentamento que j\u00e1 vem de h\u00e1 muito tempo, a que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 alheio a penaliza\u00e7\u00e3o nas carreiras e a despropor\u00e7\u00e3o entre o que investiram na sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica e o que lhes \u00e9 retribu\u00eddo no final de cada m\u00eas. T\u00eam raz\u00e3o, n\u00e3o se sentem recompensados nem reconhecidos e muito menos acarinhados, e tenho a convic\u00e7\u00e3o que cada um deles lamenta muito mais do que toda a equipa ministerial da Educa\u00e7\u00e3o (por junto) o preju\u00edzo que causam naturalmente aos seus alunos, \u00e0s fam\u00edlias e at\u00e9 ao pa\u00eds. Os sucessivos Governos foram apostando em ir deitando mais achas, lenhas, toras e cavacas para a fogueira, jogando assim na lenta cozedura da classe que, inane, j\u00e1 n\u00e3o teria energia para sair do panel\u00e3o. Enganaram-se, e isto acontece muito aos aprendizes de feiticeiro. E as greves, as manifesta\u00e7\u00f5es de rua, a contesta\u00e7\u00e3o geral e o grito de revolta da classe a\u00ed est\u00e3o para dizer \u201cbasta\u201d a tanta falta de considera\u00e7\u00e3o, desautoriza\u00e7\u00e3o e falta de sensibilidade dos Govenos para com uma classe que tantas Mariam tem.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-o-grito-dos-professores\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mariam (um nome fict\u00edcio que protagoniza uma hist\u00f3ria real) tem cerca de 40 anos, reside numa aldeia cerca de 30 quil\u00f3metros a sul de Coimbra, n\u00e3o muito longe da esta\u00e7\u00e3o de caminhos de ferro que habitualmente utiliza. 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