{"id":55920,"date":"2022-12-25T09:49:25","date_gmt":"2022-12-25T09:49:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=55920"},"modified":"2022-12-27T16:19:59","modified_gmt":"2022-12-27T16:19:59","slug":"manuel-fernandes-vicente-a-manha-magica-do-meu-cavalinho-de-pau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-manha-magica-do-meu-cavalinho-de-pau\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | A manh\u00e3 m\u00e1gica do meu cavalinho de pau"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Para mim o Dia de Natal h\u00e1 de ser sempre o dia do meu inesquec\u00edvel cavalinho de pau e de cart\u00e3o grosso que uma vez, h\u00e1 muito tempo, o Menino Jesus me ofereceu, adivinhando um desejo que eu uns dias antes tinha manifestado quando, perguntado pela minha m\u00e3e, o revelei.<\/p>\n<p>E assim, o Menino Jesus ter\u00e1 escutado a nossa conversa, ou ent\u00e3o, dada a sua condi\u00e7\u00e3o divina, omnipresente e bondosa, mesmo sendo t\u00e3o pequenito, ter\u00e1 pressentido este meu anelo. Tudo natural para mim e para esse tempo, que contava tamb\u00e9m com a cumplicidade silenciosa da minha m\u00e3e. E, naquela fria e h\u00famida madrugada de dezembro, em Alenquer (que ganharia mais tarde o ep\u00edteto de Vila Pres\u00e9pio), teve artes de fazer descer silenciosamente o cavalinho pela chamin\u00e9 envolto num papel de lustro azul com muitas estrelas douradas, que lhe redobravam a magia. Foi esse cavalito castanho que andava sobre umas rodas o meu melhor amigo aos tr\u00eas ou quatro anos, companheiro insepar\u00e1vel, at\u00e9 na cama. Estes eram tempos de magia, uma magia intensa e impregnada tamb\u00e9m num esp\u00edrito de caridade crist\u00e3, de um mist\u00e9rio que permanecia por revelar, e em que at\u00e9 as pessoas na rua, atingidas por este esp\u00edrito, eram alcan\u00e7adas por uma esp\u00e9cie de alquimia social que tinha a capacidade de transformar a pobreza ab\u00falica, o cansa\u00e7o e a tristeza do dia a dia em sorrisos e afabilidade. E agora h\u00e1 sempre aquela voz pequenina que acorda dentro de mim neste dia 25 que fala comigo, e eu a ponho a falar.<\/p>\n<p>Para mim, o Dia de Natal era tamb\u00e9m o dia de uma cr\u00f3nica e inef\u00e1vel constipa\u00e7\u00e3o, aben\u00e7oada!&#8230; Eram tantas as vezes que eu de noite me levantava e, nas pontas dos p\u00e9s descal\u00e7os nas lajes (a expectativa n\u00e3o me dava tempo para cal\u00e7ar umas pantufitas debaixo da cama), ia furtivamente at\u00e9 \u00e0 lareira e \u00e0 chamin\u00e9 onde uns pequenos sapatos descansavam ao lado de um pres\u00e9pio de musgo e umas figurinhas de barro pitorescamente pintadas \u00e0 espera dos presentes pedidos, que eu mais devia parecer um pequeno gnomo transformado num p\u00eandulo noturno. Sabia que o Menino, com as prendas, s\u00f3 as deixaria quando sentisse um sil\u00eancio absoluto na casa e, por isso, ia logo deitar-me e fingir que dormia, pois n\u00e3o queria perder o pacote de prendas, onde as majestosas tabletes de chocolate e umas miniaturas de autom\u00f3veis de corda para brincar no ch\u00e3o eram tamb\u00e9m pe\u00e7as preciosas, mais que o pijama novo ou o par de luvas de l\u00e3 que ele deixava, e eu pensava que era mais para aliviar o carregamento que devia transportar. N\u00e3o havia de ser por inc\u00faria minha que o Menino Jesus chegasse e partisse sem cumprir a sua miss\u00e3o e o meu contentamento.<\/p>\n<p>Os tempos mudaram em todos estes anos e, gradualmente, o Menino nascido numas palhas de um pobre est\u00e1bulo mediterr\u00e2nico muito antigo deu lugar ao Pai Natal, com um tren\u00f3 bem fornecido. E tamb\u00e9m o pres\u00e9pio de musgo e com figuras em barro (muito melhor do que as composi\u00e7\u00f5es com legos), com S\u00e3o Jos\u00e9, a Virgem Maria, uma manjedoura, o burrinho, a vaquinha, pastores e um rebanho, a que se acrescentava muitas vezes os Reis Magos (que ofereceram ouro, incenso e mirra) e a estrela de Bel\u00e9m, para os guiar pelo caminho, foi substitu\u00eddo por uma pr\u00f3spera \u00e1rvore de natal n\u00f3rdica ornamentada com os mais incr\u00edveis adere\u00e7os e decora\u00e7\u00f5es hodiernas, renas e tren\u00f3s a deslizar na neve, quando em Bel\u00e9m raramente ter\u00e1 nevado. De resto, o pres\u00e9pio tradicional portugu\u00eas faz quest\u00e3o de enriquecer o n\u00facleo duro e b\u00edblico pos primeiros pres\u00e9pios em argila, acrescentando-lhe algo de extraordin\u00e1rio, mas que mostra bem a nossa ades\u00e3o \u00e0 causa da Cristandade, com personagens como a lavadeira e a mulher de c\u00e2ntaro \u00e0 cabe\u00e7a, grupos institucionais, como as bandas filarm\u00f3nicas e os ranchos folcl\u00f3ricos, e paisagens como o curral, moinhos, ribeiros e azenhas e castelos quase sempre sustentadas em pe\u00e7as de barro produzidas \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que esta mudan\u00e7a de simbolismos n\u00e3o foi ing\u00e9nua, nem inconsequente, nem v\u00e3. Foi mais que isso, quis representar tamb\u00e9m uma altera\u00e7\u00e3o no paradigma social, econ\u00f3mico, cultural e at\u00e9 religioso, substituindo o ideal da humildade, do desapego e do despojamento, como virtudes que purificavam e engrandeciam, pela epifania do consumo, <em>h\u00e9las<\/em>, a pose do poder e da ostenta\u00e7\u00e3o. E aproveitou a disponibilidade afetiva das pessoas para a converter em disponibilidade gastar e consumir bens e luxos adquiridos nas bas\u00edlicas do disp\u00eandio.<\/p>\n<p>Tudo isto correspondeu a uma lenta laiciza\u00e7\u00e3o da sociedade (eu diria, at\u00e9 da pr\u00f3pria Igreja de Jesus Cristo de Nazar\u00e9), em que a devo\u00e7\u00e3o e a doutrina primitiva, com o seu <em>quid<\/em> de genu\u00edno altru\u00edsmo, solidariedade e at\u00e9 comunitarismo (h\u00e1 mesmo quem veja nestes aspetos de ajuda m\u00fatua e vida frugal e solid\u00e1ria uma das raz\u00f5es e dos segredos do seu sucesso como movimento religioso) foram substitu\u00eddos por coisas bem menos humanit\u00e1rias e bem mais tang\u00edveis, em que passaram a pontificar a publicidade, o <em>marketing<\/em>, a troca de presentes, o esp\u00edrito de concorr\u00eancia e de vencedor do capitalismo liberal e as <em>play-stations<\/em>. E depois, h\u00e1 o lado das penumbras que toda esta <em>f\u00e9erie <\/em>provoca. Est\u00e1 o lado de quem dela j\u00e1 n\u00e3o comunga por a um canto da mesa j\u00e1 n\u00e3o ver sentado quem nele, com um rosto enrugado mas ainda capaz de um sorriso, neste dia de Consoada sempre se sentava. Ou o dos exclu\u00eddos que n\u00e3o gastam por n\u00e3o ter com que gastar. Ou n\u00e3o gastam, por n\u00e3o ter a quem oferecer, nem que seja uma suave bland\u00edcia. Para estes, o Natal, longe de ser uma epifania, tornou-se num lugar de ansiedade e at\u00e9 de exclus\u00e3o, como se fossem leprosos impedidos de ultrapassar a ombreira da porta.<\/p>\n<p>Conta-se que um dia, num pa\u00eds long\u00ednquo e montanhoso, mas aonde a Cristandade chegara j\u00e1 atrav\u00e9s de abnegados mission\u00e1rios portugueses, celebrava-se a Consoada \u00e0 mesa de uma abastada fam\u00edlia da capital quando o velho e respeit\u00e1vel patriarca da fam\u00edlia, homem virtuoso e de longas barbas brancas, avistou n\u00e3o muito longe de casa, sentada a repousar sobre uma laje, uma pobre m\u00e3e que mal podia dar agasalho ao filho que trazia ao colo e procurava aconchegar. Aproximou-se dela, e rapidamente tamb\u00e9m se apercebeu da magreza de ambos, ela vi\u00fava e sem teto nem trabalho, e o menino padecendo pela infelicidade da m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2212 N\u00e3o temos nem uma c\u00f4dea de p\u00e3o para a nossa Consoada, senhor, e o meu menino treme j\u00e1 com o frio que come\u00e7a a cair\u2026 \u2212 disse a mulher, mal conseguindo que a voz conseguisse chegar ao fim da frase.<\/p>\n<p>\u2212 Quem d\u00e1 aos pobres, empresta a Deus \u2013 repetiu o aforismo para dentro de si o respeit\u00e1vel patriarca. Pediu ent\u00e3o \u00e0 mulher para o acompanhar e em casa, na mesa onde todos j\u00e1 consoavam, destinou um lugar para os dois se sentarem e consoarem com a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>No final, foi ao pres\u00e9pio familiar feito junto \u00e0 lareira e retirou todas as figuras de prata que nele se encontravam, meteu-as num saco e entregou este \u00e0 mulher:<\/p>\n<p>\u2212 Leva este saco contigo, n\u00e3o levas p\u00e3o, mas levas algo com que o poder\u00e1s comprar para ti e para o teu menino. A mulher agradeceu e partiu. Consoada terminada, e todos foram deitar e descansar.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, ao levantar-se para ir buscar as prendas de Natal junto \u00e0 lareira, o mais pequeno da fam\u00edlia ficou maravilhado com o que estava perante si e foi a correr para chamar o av\u00f4 patriarca:<\/p>\n<p>\u2212Av\u00f4, vem ver, o nosso pres\u00e9pio est\u00e1 cheio de figuras de ouro\u2026<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-manha-magica-do-meu-cavalinho-de-pau\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para mim o Dia de Natal h\u00e1 de ser sempre o dia do meu inesquec\u00edvel cavalinho de pau e de cart\u00e3o grosso que uma vez, h\u00e1 muito tempo, o Menino Jesus me ofereceu, adivinhando um desejo que eu uns dias antes tinha manifestado quando, perguntado pela minha m\u00e3e, o revelei. 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