{"id":55766,"date":"2022-12-18T14:48:01","date_gmt":"2022-12-18T14:48:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=55766"},"modified":"2022-12-22T16:15:42","modified_gmt":"2022-12-22T16:15:42","slug":"manuel-fernandes-vicente-a-tentacao-totalitaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-tentacao-totalitaria\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | A tenta\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>O pequeno, j\u00e1 dentro do supermercado dera mostras de que n\u00e3o estava num dos seus melhores dias, cismara num daqueles carros de combate blindados que vira logo ao pequeno-almo\u00e7o num filme da TV (uma baby-sitter barata, mas perigosa) e parecido com um outro de um video game em que o irm\u00e3o mais velho consome horas da sua adolesc\u00eancia, e com que pode, se o quiser, reduzir virtualmente a popula\u00e7\u00e3o de uma cidade para metade. Acontece que a m\u00e3e n\u00e3o s\u00f3 tamb\u00e9m n\u00e3o estava nos seus melhores dias, como n\u00e3o estava muito voltada para gastar ainda uma quantia consider\u00e1vel e n\u00e3o prevista no or\u00e7amento do m\u00eas para satisfazer os caprichos do fedelho. Fez birra, bateu o p\u00e9, cruzou os bra\u00e7os com ares do tipo \u201cvamos ver como \u00e9 que isto vai ficar\u201d, e como n\u00e3o ia ficando inclinado nem para um lado nem para o outro (o padrasto mantinha-se imp\u00e1vido e neutro, como era seu h\u00e1bito), quis subir a parada da impertin\u00eancia. Primeiro, a rebolar-se e a gritar no ch\u00e3o e, por fim, a fugir da catedral pag\u00e3 com berros e um chorrilho de asneiras, a pobre m\u00e3e atr\u00e1s dele, deixando as compras na caixa\u2026<\/p>\n<p>Forjado j\u00e1 aos oito anos na \u00e9tica do consumo voraz, do iPhone e da Play Station, que substitu\u00edram rapidamente a papa maizena e a chupeta (pedagogos ilustres, como Jean Piaget, garantiam que a partir dessa idade o car\u00e1cter do pingente est\u00e1 formado, e j\u00e1 pouco h\u00e1 a fazer para o alterar), o \u201cbarnab\u00e9\u201d veio para a rua e ao atravess\u00e1-la, cego pela irrita\u00e7\u00e3o, obrigou um condutor a uma travagem e a uma guinada abruptas para n\u00e3o o atropelar. A m\u00e3e, desesperada, ainda o p\u00f4de puxar por um bra\u00e7o e, face \u00e0 iminente dose de um par de palmadas, o condutor abriu a porta da viatura e, naquela ret\u00f3rica de simpatia t\u00edpica, ainda falou alto para a m\u00e3e:<\/p>\n<p>\u2212 N\u00e3o lhe d\u00ea palmadas, \u00e9 uma crian\u00e7a, a senhora n\u00e3o pode fazer isso\u2026 Ao que a m\u00e3e, j\u00e1 visivelmente nervosa com o caso, teve resposta pronta e contundente:\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u2212 Aos seus eduque o senhor, se quiser, \u00e9 l\u00e1 consigo, mas este \u00e9 meu, fui eu que o dei \u00e0 luz, ningu\u00e9m lhe quer mais do que eu, e eu \u00e9 que sei como o educo\u2026 A mulher pegou com firmeza pelo bra\u00e7o esquerdo da crian\u00e7a, e n\u00e3o chegou ali a destilar a \u00f3bvia irrita\u00e7\u00e3o, mas l\u00e1 que as palmadas iam prometidas para casa, disso ningu\u00e9m ficou com d\u00favidas no magote de gente curiosa e (depois) opinativa que logo ali se formou e comentou.<\/p>\n<p>O caso da educa\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a nunca h\u00e1 de ser consensual, j\u00e1 suscitou e h\u00e1 de continuar a merecer muitas pol\u00e9micas, e na mesma toada surge a forma como a sociedade e, neste caso, a sociedade portuguesa, v\u00ea o fen\u00f3meno dos castigos corporais dos pais \u00e0s crian\u00e7as, e no que eles ter\u00e3o de persuasivo ou dissuasivo, se s\u00e3o naturais e aceit\u00e1veis ou, pelo contr\u00e1rio, se s\u00e3o umas aberra\u00e7\u00f5es selvagens, heran\u00e7a de eras passadas, e algo verdadeiramente incompat\u00edvel com o conhecimento que se tem da crian\u00e7a em muitas \u00e1reas do saber do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>No passado dia 14 o Instituto de Apoio \u00e0 Crian\u00e7a (IAC) promoveu em Lisboa, na Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian (e online no Facebook do IAC\u2026), um encontro em que o t\u00edtulo era j\u00e1 uma declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u2212 \u201cCastigos Corporais Nunca Mais\u201d \u2013 e o lema, que pertence tamb\u00e9m \u00e0 campanha que o secundava, ia-lhe na pegada \u2013 \u201cNem Mais Uma Palmada\u201d. \u00c9 claro que o encontro contou com insuspeitos especialistas de \u00e1reas como a Psicologia, a Sa\u00fade, o Direito, naturalmente da Educa\u00e7\u00e3o, e, ainda mais naturalmente, da Sociedade. E devo colocar desde j\u00e1 em d\u00favida, por simples princ\u00edpio metodol\u00f3gico, a seriedade ontol\u00f3gica de um encontro (debate?) que ostenta logo na sua apresenta\u00e7\u00e3o tais titula\u00e7\u00f5es panflet\u00e1rias. Acredito \u00e9 que se estejam a criar muros de borracha na educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, suaves operetas de discursos simp\u00e1ticos, \u00e0s vezes hip\u00f3critas e quase sempre fantasistas, criadas por quem defende uma coisa para o pa\u00eds e aplica outra, muito diferente, l\u00e1 em casa\u2026 E caem no extremo oposto ao dos outros que, no Estado Novo, acreditavam que era com castigos corporais e uma viol\u00eancia barata que se resolviam os problemas nas escolas. Vamos mais devagar\u2026<\/p>\n<p>Na origem do hist\u00f3rico problema do Ocidente, o do recurso a meios f\u00edsicos e de coa\u00e7\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o, est\u00e1 a perspetiva pedag\u00f3gica do fil\u00f3sofo iluminista do s\u00e9culo XVIII Jean-Jacques Rousseau. Foi com ele que se passou a olhar para a Inf\u00e2ncia de uma maneira diferente, de certa maneira reinventou-a para a modernidade: &#8220;A natureza quer que as crian\u00e7as sejam crian\u00e7as antes de serem homens\u201d, defendia. \u00c9 na sua filosofia que se baseiam boa parte das novas teorias pedag\u00f3gicas para o mundo moderno. Mas nem todos comungam do credo de Rousseau e dos seus seguidores. H\u00e1 muitas reservas e alguns exageros em certos radicalismos, que podem ser muito mais graves que um ralhete e duas palmadas no rabo. E expor a crian\u00e7a a outros grandes perigos de que n\u00e3o quer tomar consci\u00eancia. O que est\u00e1 em causa \u00e9 o papel do Estado em rela\u00e7\u00e3o aos cidad\u00e3os, dos pais na sua rela\u00e7\u00e3o com os filhos, e os direitos destes. E a verdade \u00e9 que diversos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia recusam-se ainda a assumir a proibi\u00e7\u00e3o completa a castigos corporais. O que est\u00e1 em causa \u00e9 apenas isto: at\u00e9 onde deve ir o Estado na sua pol\u00edtica educativa, e a transfer\u00eancia dos pap\u00e9is parentais para o Estado?<\/p>\n<p>T\u00eam os pais direito a recorrer a castigos f\u00edsicos para garantir o que consideram mais adequado na consolida\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios, de valores e de prop\u00f3sitos dos seus filhos? E tem o Estado o direito de interferir nessa educa\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de um limite decente que \u00e9 social e comummente aceite, de substituir os pais e a fam\u00edlia, intervindo no que j\u00e1 pode ser considerado uma interfer\u00eancia totalit\u00e1ria?<\/p>\n<p>Se \u00e9 absolutamente inquestion\u00e1vel que a crian\u00e7a deve ser protegida na escola, na rua e na cidade, j\u00e1 dentro da esfera \u00edntima da fam\u00edlia o Estado deve ser bastante cauteloso na sua interven\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 l\u00e1 que vive quem mais quer e mais ama a crian\u00e7a, e duas palmadas no rabiosque hoje podem evitar dramas pessoais e grandes danos sociais a m\u00e9dio e a longo prazo. Sendo que tudo deve ser equacionado com bom senso, equil\u00edbrio e um adequado sentido da lei das consequ\u00eancias naturais.<\/p>\n<p>Uma crian\u00e7a crescer com o sentimento de impunidade de tudo o que fa\u00e7a, cresce mal. Na vida \u00e9 preciso ouvir sins e n\u00e3os, porque ela tem dos dois. E \u00e9 quando sentem um ambiente de impunidade que alguns jovens se podem tornar uns verdadeiros d\u00e9spotas l\u00e1 em casa. Ouvir s\u00f3 sins torna as crian\u00e7as mimadas, e ouvindo s\u00f3 n\u00e3os ser\u00e3o sempre frustradas. Criam-se obviamente distor\u00e7\u00f5es no car\u00e1cter, essa educa\u00e7\u00e3o \u00e9 enviesada e imperfeita. E \u00e9 no seio familiar que ela \u00e9 formada, porque \u00e9 l\u00e1 que a crian\u00e7a \u00e9 amada, compreendida como pessoa e acarinhada (mesmo que com um raspanete e duas palmadas sobre as fraldas). O Estado intervir demasiado e com regras cegas nesta delicada bolha vital da crian\u00e7a pode ser o equivalente a um elefante a entrar numa loja de cristais e delicadas porcelanas\u2026 Cuidado, o Estado deve ser como o sal (apenas quanto baste), mas h\u00e1 sempre a tenta\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria\u2026, e uma m\u00e3e verdadeira \u00e9 decerto mais aut\u00eantica em extrair o melhor de uma crian\u00e7a porque vale mais o afeto que a ideologia do politicamente correto (e hip\u00f3crita).<\/p>\n<p>E ultimamente esta tenta\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria anda travestida pelos aliados ativistas das minorias ativas e condicionadores tem\u00edveis da opini\u00e3o p\u00fablica (que t\u00eam no atual presidente-comentador e na sua incontin\u00eancia verbal um poderoso associado), cada vez mais alinhados com as superiores orienta\u00e7\u00f5es do politicamente correto e da prole descendente. Preparar os filhos para a vida \u00e9 muito mais s\u00e9rio que sacrific\u00e1-los a ideologias que pretendem sobrepor o Estado, que quer cidad\u00e3os cumpridores, ao papel do sagrado reduto familiar, que deseja seres humanos inteiros, completos e amados.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-tentacao-totalitaria\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pequeno, j\u00e1 dentro do supermercado dera mostras de que n\u00e3o estava num dos seus melhores dias, cismara num daqueles carros de combate blindados que vira logo ao pequeno-almo\u00e7o num filme da TV (uma baby-sitter barata, mas perigosa) e parecido com um outro de um video game em que o irm\u00e3o mais velho consome horas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-55766","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55766","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55766"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55766\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55766"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55766"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55766"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}