{"id":54774,"date":"2022-10-30T21:04:09","date_gmt":"2022-10-30T21:04:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=54774"},"modified":"2022-10-30T21:05:45","modified_gmt":"2022-10-30T21:05:45","slug":"entroncamento-museu-nacional-ferroviario-recebe-lancamento-da-revista-nervo-16-o-silvo-do-comboio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/entroncamento-museu-nacional-ferroviario-recebe-lancamento-da-revista-nervo-16-o-silvo-do-comboio\/","title":{"rendered":"Entroncamento | Museu Nacional Ferrovi\u00e1rio recebe lan\u00e7amento da revista NERVO 16 | O silvo do comboio"},"content":{"rendered":"<p>Este s\u00e1bado, 29 de outubro pelas 16h00, foi lan\u00e7ado um novo volume da revista Nervo, consagrado ao tema \u201cO comboio e as viagens\u201d.\u00a0 A apresenta\u00e7\u00e3o contou com Maria F\u00e1tima Rold\u00e3o, respons\u00e1vel editorial, Manuel Cabral, Presidente do Museu Nacional Ferrovi\u00e1rio, e ainda com dois convidados, leitores ass\u00edduos da revista.<\/p>\n<p>O universo ferrovi\u00e1rio atravessa as mais diversas cria\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, pelo que esta obra, editada em boa hora, \u00e9 um claro exemplo dessa concep\u00e7\u00e3o, gra\u00e7as \u00e0 conjuga\u00e7\u00e3o de poemas com desenhos, pinturas e fotografias.<\/p>\n<p>Os textos prov\u00eam de autores lus\u00f3fonos e estrangeiros, com distintas forma\u00e7\u00f5es e mundivid\u00eancias, entre os quais se contam, entre muitos outros nomes reputados, A.M. Pires Cabral, Pedro Mexia, In\u00eas Louren\u00e7o, Lu\u00eds Maffei ou Lu\u00eds Quintais. A revista inclui ainda um texto, no \u00e2mbito da designada literatura de viagens, do trajecto de Gon\u00e7alo Cadilhe no antigo Expresso de Brazzaville. De entre os artistas pl\u00e1sticos representados, destacam-se: \u00c1lvaro Siza Vieira (!), o respons\u00e1vel da capa, Cristina Troufa, Gil Maia, Helena Rocio Janeiro, Mariana Mizarela, entre outros.<\/p>\n<p>O comboio \u2013 e o que com ele se relaciona \u2013 surge nos mais diversos sentidos, segundo a cosmovis\u00e3o dos poetas. Liga-se, desde logo, \u00e0 pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, com se l\u00ea em \u201cde um verso em desalinho \/ como a do comboio, \/ na cita\u00e7\u00e3o incerta e acelerada \/ a sustentar o poema\u201d (Rita Taborda Duarte p. 74). A reflex\u00e3o interior do \u201ceu\u201d, quando sintetiza \u201cO comboio \u00e9, ao mesmo tempo, \/ viagem, viajante e lugar viajado\u201d (A.M. Pires Cabral, p. 31), sugere uma viv\u00eancia, que se alicer\u00e7a na mem\u00f3ria, \u201clugar viajado\u201d, e exprime um percurso existencial, similar a uma viagem. Outro sentimento, o da saudade, ecoa de modo expl\u00edcito nestes versos: \u201cE dos comboios que partiram \/ resta apenas a cauda de barulho qua se esvazia\u201d (Ant\u00f3nio Amaral Tavares p. 35). Eduarda Chiote denuncia, com nota\u00e7\u00f5es amargas, um per\u00edodo sombrio da hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX: \u201cV\u00edtimas do seu mau uso, os comboios \/ reflectem a dor dilacerante \/ dos atirados aos magotes e ainda muito jovens \/ para um campo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d (p. 41). A passagem inexor\u00e1vel do tempo l\u00ea-se no incipit do poema \u201cHermes, ferrovi\u00e1rio\u201d: \u201cO comboio nocturno \u00e0 medida que avan\u00e7a, \/ Enra\u00edza a escurid\u00e3o \/ \u00c0 altura dos olhos\u201d (Jos\u00e9 Em\u00edlio-Nelson p. 57). Ainda neste prisma, a compara\u00e7\u00e3o haurida na simbologia do TGV demonstra a consci\u00eancia da efemeridade da condi\u00e7\u00e3o humana: \u201cCom tanta paragem tanta espera, tanto tempo para \/ sentir a vida passar como um TGV\u201d (Marco Mackaaij, p. 61). Por outro lado, o comboio associa-se ainda ao t\u00f3pico da nostalgia, evocativo de um passado que n\u00e3o regressa: \u201cEra o tempo em que o comboio parava em todas \/ as esta\u00e7\u00f5es: o comboio correio, a caminho de lisboa, \/ levando fam\u00edlias da prov\u00edncia para passar o ano \/ com os parentes de lisboa\u201d (Nuno J\u00fadice, p. 66). O deslumbramento imag\u00e9tico decorrente da janela do comboio, est\u00e1 patente em \u201cPrimeiro os cimos, as casas, \/ os verdes, as vezes \/ que aqui pass\u00e1mos \/ tamb\u00e9m elas paisagem\u201d (Pedro Mexia p. 68). Tamb\u00e9m a gare ferrovi\u00e1ria, met\u00e1fora recorrente de encontros, partidas e chegadas, exprime o vazio existencial entrela\u00e7ado com uma certa nostalgia de inf\u00e2ncia: \u201cesta\u00e7\u00f5es de comboio chefiadas por andorinhas, \/ fantasmas de crian\u00e7as que atravessam, \/ de mochila \u00e0s costas, as f\u00e9rreas linhas\u201d (Rui Lage, p. 77). Nesse referente emblem\u00e1tico n\u00e3o falta a agita\u00e7\u00e3o pitoresca do anseio suscitado pelo momento da chegada: \u201c\u00c0s segundas e sextas-feiras \/ era dia de comboio em Vila da Ponte, \/ a caminho de Menongue. \/ Com o comboio, \/ chegava o peixe fresco de Mo\u00e7\u00e2medes, \/ chegava o marisco ainda vivo\u201d (Zetho Cunha Gon\u00e7alves, p. 98).<\/p>\n<p>Assim, o imagin\u00e1rio fundado no caminho de ferro, indissoci\u00e1vel da inspira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, permite as mais diversas express\u00f5es l\u00edricas, testemunhadas com ineg\u00e1vel expressividade nos versos da colect\u00e2nea.<\/p>\n<p>Num tempo de plataformas digitais, o volume publicado, j\u00e1 no n\u00famero 16, configura, por assim dizer, um verdadeiro fen\u00f3meno do Entroncamento, devido ao empenho e sensibilidade de F\u00e1tima Rold\u00e3o, respons\u00e1vel editorial desde o primeiro n\u00famero desta publica\u00e7\u00e3o quadrienal.<\/p>\n<p>Aguarda-se com agrado o pr\u00f3ximo n\u00famero da revista, a merecer, sem d\u00favida, um estudo que tenha em conta a riqueza do patrim\u00f3nio po\u00e9tico, comprovado nas sucessivas edi\u00e7\u00f5es, e a sua pertin\u00eancia no contexto das letras nacionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Manuel Ventura<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/entroncamento-museu-nacional-ferroviario-recebe-lancamento-da-revista-nervo-16-o-silvo-do-comboio\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este s\u00e1bado, 29 de outubro pelas 16h00, foi lan\u00e7ado um novo volume da revista Nervo, consagrado ao tema \u201cO comboio e as viagens\u201d.\u00a0 A apresenta\u00e7\u00e3o contou com Maria F\u00e1tima Rold\u00e3o, respons\u00e1vel editorial, Manuel Cabral, Presidente do Museu Nacional Ferrovi\u00e1rio, e ainda com dois convidados, leitores ass\u00edduos da revista. 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