{"id":52818,"date":"2022-07-19T11:42:27","date_gmt":"2022-07-19T10:42:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=52818"},"modified":"2022-07-21T16:27:33","modified_gmt":"2022-07-21T15:27:33","slug":"manuel-fernandes-vicente-o-monsieur-mata-osgas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-o-monsieur-mata-osgas\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | O Monsieur Mata Osgas"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>O Cust\u00f3dio Cardeta \u00e9, sempre foi, um intoxicado pelo poder, passou anos, d\u00e9cadas sucessivas \u00e0 espera de um convite, de uma aprova\u00e7\u00e3o, de uma admiss\u00e3o a um cargo ou de um reconhecimento da sua excel\u00eancia, mudou algumas vezes de partido, de alian\u00e7a ou de coliga\u00e7\u00e3o, outras vezes de ideias, outras ainda de estrat\u00e9gias, agregara-se \u00e0 esquerda e \u00e0 direita e at\u00e9 a novos e desconhecidos comparsas na funda\u00e7\u00e3o de mais alguma organiza\u00e7\u00e3o capaz de alcan\u00e7ar algum mando ou influ\u00eancia, mas foi tudo sempre em v\u00e3o. Tinha ambi\u00e7\u00e3o, <em>les bras longs<\/em>, mas nunca algu\u00e9m lhe dera uma m\u00e3o para chegar aos frutos no alto das \u00e1rvores. Era um ressabiado, s\u00f3 escrevia umas cr\u00f3nicas ressabiadas no seu <em>blog<\/em> que era evidentemente ressabiado, e no caf\u00e9 do Norberto, onde chegava para poiso no fim da tarde, j\u00e1 com o seu ar respeit\u00e1vel entornado e normalmente a cuspir raivas novas e antigas, a roda de amigos \u00e0 volta da mesa na esplanada alargava-se por curiosidade e tamb\u00e9m por preven\u00e7\u00e3o. Tratava-se sobretudo de se porem de preven\u00e7\u00e3o contra as chamas, que o u\u00edsque que j\u00e1 vinha ao seu encontro s\u00f3 iria ser capaz de transformar em labaredas que disparava em todas as dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m, e muito menos a fam\u00edlia e os amigos, entendia o Cust\u00f3dio Cardeta, a quem, quando voltava as costas, era logo o <em>Mata Osgas<\/em>, sabe-se l\u00e1 porqu\u00ea. Nos partidos que frequentara \u00e0 espera que confirmassem os seus talentos e a vis\u00e3o que tinha sobre tantas mat\u00e9rias regionais e at\u00e9 internacionais, conheciam-no apenas por nunca admitir limites para as suas ambi\u00e7\u00f5es, tudo empurrava sem pudor nem vergonha. E n\u00e3o perdoava o nunca ter sido convidado para um cargo, nem que fosse o de assessor adjunto de um chefe de gabinete. E era pena. Perdia muito o munic\u00edpio, que ficava sem a sua original vis\u00e3o estrat\u00e9gica para o turismo, o museu, o convento, a sinagoga, os parques ambientais, o tr\u00e2nsito urbano, a ind\u00fastria, o com\u00e9rcio e at\u00e9 a filosofia inerente aos parques de campismo e de estacionamento e \u00e0s piscinas. E empobrecia tamb\u00e9m o pa\u00eds e at\u00e9 o planeta, que ficavam \u00f3rf\u00e3os volunt\u00e1rios da sua abrang\u00eancia e de todo o lastro hist\u00f3rico do seu conhecimento do mundo, com uma amplitude que ia desde a explora\u00e7\u00e3o e os neg\u00f3cios do volfr\u00e2mio na d\u00e9cada de 1940 (com informa\u00e7\u00e3o privilegiada e at\u00e9 confidencial por via do av\u00f4 beir\u00e3o) at\u00e9 \u00e0 insurg\u00eancia dos pl\u00e1sticos no mar, ao aquecimento global, \u00e0 euforia das redes sociais e dos <em>podcasts, <\/em>e aos decretos do que \u00e9 que se deve comer e beber, que agora passam por ternas sugest\u00f5es, mas, em breve o legislador h\u00e1 de converter em ferozes \u00e9ditos disciplinadores dos maus h\u00e1bitos da plebe habituada ao toucinho e ao queijo amanteigado (j\u00e1 com<em> inputs<\/em> e influ\u00eancia do neto encarni\u00e7ado lisboeta). De boina basca (homenagem aos seus tempos revolucion\u00e1rios, e hoje remedeio para a muita falta de cabelo, e com discurso pern\u00f3stico e incisivo, onde esmerava o uso do <em>Franc\u00eas <\/em>(homenagem pr\u00f3pria aos seus anos de emigrante), que depois decifrava aos impreparados amigos da tert\u00falia, e o abuso de express\u00f5es idiom\u00e1ticas (em <em>Franc\u00eas<\/em>, evidentemente, embora houvesse equivalentes em <em>Portugu\u00eas<\/em>, e at\u00e9 mais enf\u00e1ticas, ou, era a cereja, em <em>Latim<\/em>, aqui por pura erudi\u00e7\u00e3o, para evocar o semestre na Sorbonne e com o prop\u00f3sito de esmagar), o Cec\u00ea (assim assinava, fazendo rococ\u00f3s \u00e0 volta de cada letra) povoava o seu falar com os \u00f3dios que, no seu feitio picuinhas, mais estimava. E eram muitos, e vener\u00e1veis: os presidentes da c\u00e2mara, das juntas, dos gr\u00e9mios de not\u00e1veis, dos clubes e das associa\u00e7\u00f5es de volunt\u00e1rios, todos ex-amigos, as ex-mulheres, todas umas borboletas que se metamorfosearam em vadias, os filhos, uns ingratos, tal como os netos, apenas escapava um deles, radical como ele, e dos antigos correligion\u00e1rios o melhor que pode dizer \u00e9 que nunca passaram de um comit\u00e9 de interesseiros brutos e ignorantes, criaturas sem \u00e9tica nem vergonha, uns <em>cafards<\/em> (e que nunca o apoiaram).<\/p>\n<p><em>Et voil\u00e1<\/em>, s\u00f3 havia uma forma de acalmar tanto azedume, era fazer uma barrela sobre tudo o que sabia (e sabe) dos v\u00e1rios meandros que conhecia, do que se tinha (e tem) passado no munic\u00edpio, e at\u00e9 nos munic\u00edpios vizinhos, quando as estrat\u00e9gias j\u00e1 eram intermunicipais, e fazia-o com agilidade e gra\u00e7a entre um par de cervejas ou de u\u00edsques. E, <em>les jeux sont faits\u2026<\/em>, lan\u00e7ava-se com ousadia na destila\u00e7\u00e3o da raiva que lhe sa\u00eda aos jorros da ves\u00edcula, aqui e ali enfeitada com alguma especula\u00e7\u00e3o e fantasia, e, sem nunca mencionar nomes, tamb\u00e9m fazia quest\u00e3o de que ningu\u00e9m deixasse de perceber quem era o figur\u00e3o ou a matrona que visava, esta normalmente recorrendo a sugest\u00f5es, das pernas ao busto, e a um passado burlesco ou de duvidosa isen\u00e7\u00e3o sexual, uns favores aqui e ali.<\/p>\n<p>E seguia com via verde a esporear pelo muito que sabia e agora a todos confidenciava, com um programa estudado para, com min\u00facia e muita alus\u00e3o, mas nunca chegar \u00e0 intimidade, a todos impressionar num fim de tarde bem passado como atestava o regimento de u\u00edsques, garrafas de cerveja ou de \u00e1gua das pedras (para os que queriam morrer cheios de sa\u00fade) alinhados sobre a mesa. E discorria. O Zagalo, o <em>Poucas Falas<\/em>, o <em>Pi\u00e3o das Nicas<\/em>, o <em>Farol<\/em>, o Cai\u00e7ara, o Varselino, o Albuquerque&#8230;, ouviam sem enfado enquanto lubrificavam as goelas, e as decotadas Genevive, Dandara e Anelise, tr\u00eas diplomadas nas artes da sedu\u00e7\u00e3o e anzol, derramavam alegres sarcasmos e risadas maliciosas a pontuar a orat\u00f3ria do Cec\u00ea. Era a m\u00e1 gest\u00e3o e a pouca vis\u00e3o do museu, que descrevia com um tal detalhe que podia chegar ao degrau da escada ou \u00e0 hist\u00f3ria de um parafuso torto que a locomotiva Am\u00e1lia ostentava no tejadilho, a comprovada incompet\u00eancia de quem dirigia o convento, o pal\u00e1cio, o castelo, o tr\u00e2nsito, os jardins, o hotel, era a polui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua na ribeira (\u201c<em>Je savais bien comment le r\u00e9sudre\u2026<\/em>\u201d, eu sabia bem como resolvia aquilo\u2026), a cultura, o turismo, os comboio ao longo da margem do rio, o campo de golfe (\u201cUma vergonha\u2026\u201d), os acessos, a <em>covid<\/em>, a zona industrial, que j\u00e1 devia ter sido ampliado e captado investimentos internacionais com as facilidades que agora v\u00eam da Europa. Enfim, levara uma vida a receber convites para elaborar graciosamente diagn\u00f3sticos, planos de viabilidade, projetos de financiamento, organigramas, matrizes, grelhas, gui\u00f5es, monitoriza\u00e7\u00f5es, programa\u00e7\u00f5es, simula\u00e7\u00f5es, avalia\u00e7\u00f5es de risco, tudo ao m\u00ednimo detalhe porque ser picuinhas para ele n\u00e3o era s\u00f3 uma alcunha, mas a sua verdadeira arte e maneira de ser. E depois de meses de aplica\u00e7\u00e3o e m\u00e9todo com desvelo, e apesar dos planos estarem eivados de vis\u00e3o e horizontes, nem para uma simples comiss\u00e3o de avalia\u00e7\u00e3o, j\u00e1 com aven\u00e7as douradas e bom pec\u00falio \u00e0 vista se dignaram alguma vez convid\u00e1-lo. Um cavaleiro andante do tempo dos afonsinos que come\u00e7ara por levar pontap\u00e9s do diabo e do semelhante acabara por ficar de mal com Deus e consigo pr\u00f3prio. Era assim a sua vida. Ele sempre porfiava, mas tamb\u00e9m n\u00e3o era de se rebaixar, o seu ego jamais lhe perdoaria\u2026<\/p>\n<p>Um dia o <em>Mata Osgas<\/em> deixou de comparecer \u00e0quela tert\u00falia de crentes em l\u00e9rias da esplanada. O que teria acontecido? Houve rumores sobre a sa\u00fade, algum internamento, a fam\u00edlia, decerto um contratempo maior\u2026 E passaram meses\u2026 \u00c9 claro que as tr\u00eas diplomadas bem animavam a assembleia \u00e0 sombra do grande carvalho, nem sempre com m\u00e9todos muito b\u00edblicos, \u00e9 verdade, mas a aus\u00eancia do<em> franc\u00eas<\/em> era por demasiado not\u00f3ria, faltava aquela <em>verve <\/em>e aquele <em>soi-disant<\/em> de quem tantas est\u00f3rias que encadeava com mestria, e tanto martelava nos que um dia lhe acenaram promessas partid\u00e1rias e lhe entravam na lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>Um dia, j\u00e1 em final de uma tarde outonal, e com a assembleia da esplanada bem composta e atenta aos trinados coloridos de Genevive, Dandara e Anelise, \u00f3culos escuros e barba de tr\u00eas dias impec\u00e1vel, apeia-se de um Lamborghini amarelo descapot\u00e1vel, o protagonista desta hist\u00f3ria, o Cec\u00ea, <em>lui m\u00eame<\/em>. A tert\u00falia, entre a surpresa e o mist\u00e9rio, silenciou-se. \u00c9 claro que a pose, o caminhar e at\u00e9 o timbre eram os mesmos que tinham ali animado tantas tardes de ver\u00e3o. Mas a <em>persona <\/em>era outra, fora convidado para o Parque Tem\u00e1tico, as notas j\u00e1 lhe dan\u00e7avam nos olhos, finalmente era reconhecido. N\u00e3o reconheceu ningu\u00e9m, entrou no caf\u00e9 pr\u00f3ximo com a companhia, puxou da cadeira e recurvou-se servil:<\/p>\n<p>\u0336\u00a0 Fa\u00e7a o favor, senhora Presidente!<\/p>\n<p>Foi um <em>coup de foudre<\/em> por um prato de lentilhas. Mil ressentimentos e outras tantas pros\u00e1pias foram logo ali esquecidos\u2026 <em>Monsieur<\/em> Cec\u00ea era agora tamb\u00e9m o vice-secret\u00e1rio da <em>madame<\/em> do munic\u00edpio.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-o-monsieur-mata-osgas\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Cust\u00f3dio Cardeta \u00e9, sempre foi, um intoxicado pelo poder, passou anos, d\u00e9cadas sucessivas \u00e0 espera de um convite, de uma aprova\u00e7\u00e3o, de uma admiss\u00e3o a um cargo ou de um reconhecimento da sua excel\u00eancia, mudou algumas vezes de partido, de alian\u00e7a ou de coliga\u00e7\u00e3o, outras vezes de ideias, outras ainda de estrat\u00e9gias, agregara-se \u00e0 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-52818","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52818","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52818"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52818\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52818"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52818"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52818"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}