{"id":52046,"date":"2022-05-21T11:30:04","date_gmt":"2022-05-21T10:30:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=52046"},"modified":"2022-08-27T16:35:41","modified_gmt":"2022-08-27T15:35:41","slug":"manuel-fernandes-vicente-era-bom-tirar-a-inseguranca-das-sombras-e-dar-lhe-um-pouco-mais-de-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-era-bom-tirar-a-inseguranca-das-sombras-e-dar-lhe-um-pouco-mais-de-luz\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Era bom tirar a inseguran\u00e7a das sombras e dar-lhe um pouco mais de luz"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>A quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica, nos v\u00e1rios m\u00f3dulos que comporta, desde a criminalidade mais acesa, violenta e feroz, aos assaltos junto \u00e0s caixas multibanco e a extors\u00e3o de rua ou junto a supermercados, e at\u00e9 \u00e0 que se sente nas pr\u00f3prias ruas naquele sentimento difuso de mal-estar em determinados locais, \u00e9 j\u00e1 h\u00e1 algum tempo um ponto sens\u00edvel e um caso na vida social do Entroncamento. N\u00e3o \u00e9 de agora. Mas tornou-se mais \u00f3bvia, vis\u00edvel e medi\u00e1tica sobretudo ap\u00f3s a forma dramaticamente gratuita em como a pequena Beatriz foi vitimada no in\u00edcio deste ano, algo que trouxe uma verdadeira como\u00e7\u00e3o e revolta para a comunidade.<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que a inseguran\u00e7a j\u00e1 era um caso patente h\u00e1 algum tempo, e esteve at\u00e9 presente na forma em como o partido Chega, de Andr\u00e9 Ventura, obteve vota\u00e7\u00f5es impressionantes na cidade, e com o seu significado latente, nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es legislativas e aut\u00e1rquicas no Entroncamento, e at\u00e9 muito antes. O caso passou para a agenda pol\u00edtica local, alguns setores da oposi\u00e7\u00e3o t\u00eam focado nela a sua atua\u00e7\u00e3o, fazem comunicados e exercem press\u00e3o, outros assobiam para o lado, mas a verdade \u00e9 que a gravidade progressiva de que d\u00e1 sinais acabou por originar h\u00e1 poucas semanas a convoca\u00e7\u00e3o de uma assembleia municipal para filtrar o caso, que, para al\u00e9m dos representantes municipais, mereceu tamb\u00e9m a presen\u00e7a de respons\u00e1veis das autoridades policiais.<\/p>\n<p>\u00c9 frequente, e at\u00e9 um pouco gratuito, atribuir os motivos desta inseguran\u00e7a a algumas minorias. \u00c9 um preconceito um pouco irrespons\u00e1vel este de tudo universalizar e generalizar, que d\u00e1 origem a respostas f\u00e1ceis, e quase sempre falsas, para o caso bastante mais complexo da criminalidade, que est\u00e1 muito longe da habitual resposta pronta e estereotipada. Ultimamente, e fruto da proximidade do Entroncamento a Lisboa, da evolu\u00e7\u00e3o dos mercados de trabalho e das v\u00e1rias crises econ\u00f3micas, sociais e b\u00e9licas que varreram algumas partes do mundo (mais ainda que Portugal), o Entroncamento tem acolhido, nalguns casos com a\u00e7\u00f5es de verdadeira filantropia, naturais e refugiados de v\u00e1rias partes do planeta. A cidade que, desde as suas origens vincadamente ferrovi\u00e1rias nos meados do s\u00e9culo XIX, sempre foi uma urbe aberta a outras comunidades em Portugal e do estrangeiro, acolheu nos \u00faltimos tempos um consider\u00e1vel n\u00famero de cidad\u00e3os, de uma forma geral jovens e em idades ativas, provenientes em especial do Brasil, de pa\u00edses que foram antigas col\u00f3nias portuguesas (como Angola e Cabo Verde), da Ucr\u00e2nia (bastante refor\u00e7ado este ano com os refugiados da ignominosa invas\u00e3o russa ao pa\u00eds), e tamb\u00e9m da China, da \u00cdndia e do Paquist\u00e3o, entre outras nacionalidades. Tenho amigos franceses que vieram viver para c\u00e1, porque com a sua reforma francesa viveriam mal em Fran\u00e7a, mas c\u00e1, porque o custo de vida \u00e9 mais baixo, vivem \u201c\u00e0 francesa\u201d\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 hoje relativamente comum algu\u00e9m na cidade seguir por uma das ciclovias urbanas, ou sentar-se numa esplanada, num caf\u00e9 ou noutro espa\u00e7o mais ou menos p\u00fablico, e sentir que est\u00e1 numa Torre de Babel de dialetos, sotaques, crioulos, etnias e realidades geoculturais distintas, nalguns casos com falas absolutamente incompreens\u00edveis e impenetr\u00e1veis. H\u00e1 quem coloque esta situa\u00e7\u00e3o a montante de alguma instabilidade social e da inseguran\u00e7a que se sente (ou se tem a perce\u00e7\u00e3o de sentir). Mas isso n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 confundir a nuvem com Juno, como \u00e9 uma abordagem que n\u00e3o conduz a algum tipo de resolu\u00e7\u00e3o dos problemas. Est\u00e1 na natureza do Entroncamento ser assim, \u00e9 uma cidade aberta, e em certo sentido at\u00e9 um local onde predominam as ra\u00edzes advent\u00edcias da maioria de n\u00f3s. Sempre foi assim. E \u00e9 a partir desta matriz essencial que se devem procurar as estrat\u00e9gias e as solu\u00e7\u00f5es para a melhoria do clima social.<\/p>\n<p>A diversidade geogr\u00e1fica das proveni\u00eancias dos cidad\u00e3os que hoje vivem e trabalham na cidade, e onde at\u00e9 j\u00e1 predominam at\u00e9 nalguns setores laborais, podia ser, na teoria, um importante fator de enriquecimento cultural, social e at\u00e9 econ\u00f3mico de todos n\u00f3s no Entroncamento. Sair do pa\u00eds para conhecer outros povos, culturas e formas de ver o mundo, e viv\u00ea-las, \u00e9 sempre um aspeto de enriquecimento cultural para quem fizer essa viagem ou nela se demorar mais. Mas uma cidade cosmopolita, como, \u00e0 sua escala, o Entroncamento sempre tem sido, oferece tamb\u00e9m, pela inversa, uma excelente multiculturalidade aos seus cidad\u00e3os. Quem chega, venha do Sert\u00e3o, de Minas Gerais, de S\u00e3o Nicolau, de Lahore ou fugindo do cora\u00e7\u00e3o da guerra na Ucr\u00e2nia, pode trazer os seus mundos e compartilh\u00e1-los com os entroncamentenses, que tamb\u00e9m ter\u00e3o as suas hist\u00f3rias para contar e os prov\u00e9rbios portugueses para dizer. Este fen\u00f3meno \u00e9 pr\u00f3prio do ser humano, e tem um nome\u00a0 \u0336\u00a0 interculturalidade\u00a0 \u0336 \u00a0com bastantes vantagens para quem \u00e0s suas virtudes se exp\u00f5e, mas n\u00e3o \u00e9 a ela que temos assistido no Entoncamento, onde os diversos grupos \u00e9tnicos, nacionais, lingu\u00edsticos e at\u00e9 sociais, que chegam (ou j\u00e1 c\u00e1 vivem) se fecham sobre si pr\u00f3prios e segregam depois uma carapa\u00e7a de quitina \u00e0 sua volta. E em vez de experi\u00eancias de multiculturalidade, oferece-se uma cidade multiguetos, em que cada grupo nacional ou \u00e9tnico se fecha sobre si mesmo, v\u00ea nos outros amea\u00e7as, e procura nessa blindagem, onde prevalece a homogeneidade interna e o esp\u00edrito tribal, uma j\u00e1 antiga forma de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diz-se, normalmente, que isso \u00e9 pr\u00f3prio do ser humano, j\u00e1 prov\u00eam da mentalidade tribal nas cavernas, a recoletar, e nas ca\u00e7adas aos veados e aos ursos, que somos assim, e procuramos ref\u00fagio nas grutas e junto dos que nos s\u00e3o semelhantes. E h\u00e1 ainda o fator lingu\u00edstico. Em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro reparo, apenas argumento que j\u00e1 estamos no s\u00e9culo XXI e que o neoc\u00f3rtex j\u00e1 cresceu um pouco, tornando as atitudes tribais um pouco anacr\u00f3nicas, e as cavernas um pouco obsoletas para morar, s\u00e3o melhores para os morcegos&#8230; E em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua, pron\u00fancias \u00e0 parte, ela une-nos a muitos dos novos entroncamentenses, e os refugiados da Ucr\u00e2nia j\u00e1 aprendem a l\u00edngua de Cam\u00f5es e Pessoa na cidade, e h\u00e1 ainda o Ingl\u00eas para fazer pontes a quem se queira entender. Quando h\u00e1 uns anos o Entroncamento adotou a divisa de \u201cUma Cidade para as Pessoas\u201d acredito que n\u00e3o se estivesse a p\u00f4r ningu\u00e9m de fora. Mas h\u00e1 um problema. E alguns pequenos sinais\u2026<\/p>\n<p>Muitas vezes, quando h\u00e1 problemas (como os de seguran\u00e7a), a dificuldade n\u00e3o \u00e9 a das pessoas, \u00e9 da cultura e do ambiente em que vivem. E quando algu\u00e9m chega de novo (ou j\u00e1 permanece h\u00e1 algum tempo) a algum lugar (uma escola, uma empresa, um grupo de ioga ou de caminhadas rurais ou uma cidade s\u00e3o bons exemplos) h\u00e1 de gostar de ser reconhecido como pessoa e sentir que faz parte dela, sendo que para esta aproxima\u00e7\u00e3o, tal como no tango, \u00e9 preciso reciprocidade, s\u00e3o precisos dois, no caso que procuro definir, quem chega para trabalhar e a cidade que essa pessoa escolheu. E o que deve, ou deveria, surgir \u00e9 qu\u00edmica, numa mistura equilibrada de endorfina, oxitocina e adrenalalina, algo com as quais o imigrante sentisse que j\u00e1 era perten\u00e7a de algo maior que si pr\u00f3prio, e a cidade dissesse: \u201cS\u00ea bem-vindo, tu e os teus t\u00eam aqui um bom lugar para viver, trabalhar, investir e estudar\u201d.<\/p>\n<p>O ser humano \u00e9 assim, gosta de ver o seu semelhante a tomar conta de si, de pertencer a algo maior que si, e para o qual possa contribuir com o seu melhor. O processo \u00e9 bastante complexo, mas acredito que poderia come\u00e7ar por aqui uma boa parte da resolu\u00e7\u00e3o do problema da seguran\u00e7a local. Se todos nos sentirmos inclu\u00eddos, e ningu\u00e9m exclu\u00eddo, n\u00e3o h\u00e1 o n\u00f3s e os outros, nem choques frontais, nem a mentalidade tribal, que \u00e9 a fonte de tantos conflitos. E para prosseguir esta ideia \u00e9 preciso dar pequenos sinais de que h\u00e1 quem pense em n\u00f3s. Por exemplo, no programa de festas da cidade, que nunca tiveram um crit\u00e9rio que fizessem delas uma marca de qualidade, seria interessante englobar, por exemplo, m\u00fasicos de qualidade brasileiros, da Ucr\u00e2nia, alguma trepidante fanfarra <em>gitana<\/em> ou m\u00fasicos de Cabo Verde e de Angola. Acredito que seria uma emo\u00e7\u00e3o para os emigrantes desses per\u00edmetros no Entroncamento, e decerto para n\u00f3s, que tamb\u00e9m temos um bom naipe de m\u00fasicos de forma a dar-nos a conhecer atrav\u00e9s da nossa m\u00fasica, que \u00e9 sempre um bom princ\u00edpio de conversa.<\/p>\n<p>Em 1927, numa investiga\u00e7\u00e3o que ficou conhecida como a Experi\u00eancia de Hawthorne, coordenada pelo m\u00e9dico e investigador Elton Mayo, a Western Electric Company, uma grande f\u00e1brica de Chicago, numa \u00e9poca em que as empresas se preocupavam com e bem-estar dos seus empregados e dos seus ordenados mensais, quis analisar as rela\u00e7\u00f5es entre a produtividade e a seguran\u00e7a dos oper\u00e1rios e as altera\u00e7\u00f5es nas suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho. E, assim, os investigadores foram mudando algumas das vari\u00e1veis da forma em como as pessoas laboravam, como por exemplo a luminosidade dos espa\u00e7os, os intervalos de descanso, e aspetos como os lanches, as rela\u00e7\u00f5es humanas, a rotatividade laboral e o ambiente emocional no trabalho. Em determinada fase da experi\u00eancia (e n\u00e3o pretendo obviamente descrev\u00ea-la em pleno), aumentava-se a ilumina\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de trabalho e a produtividade aumentava, mas quando os pesquisadores inverteram a situa\u00e7\u00e3o, antecipando que a produtividade diminuiria, assistiram a um novo acr\u00e9scimo na produ\u00e7\u00e3o dos grupos de oper\u00e1rios. E procuraram entender as raz\u00f5es desta inesperada discrep\u00e2ncia, verificando que era sobretudo de natureza psicol\u00f3gica, tendo os oper\u00e1rios admitido que produziam mais porque sentiam que havia algu\u00e9m que se preocupava com eles e com as suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, havia quem lhes desse tempo e aten\u00e7\u00e3o. A pesquisa foi h\u00e1 95 anos, mas, <em>mutatis mutandis<\/em>, a sua verdade permanece. E era interessante dar-lhe, a ela mesmo, algum tempo e aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-era-bom-tirar-a-inseguranca-das-sombras-e-dar-lhe-um-pouco-mais-de-luz\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica, nos v\u00e1rios m\u00f3dulos que comporta, desde a criminalidade mais acesa, violenta e feroz, aos assaltos junto \u00e0s caixas multibanco e a extors\u00e3o de rua ou junto a supermercados, e at\u00e9 \u00e0 que se sente nas pr\u00f3prias ruas naquele sentimento difuso de mal-estar em determinados locais, \u00e9 j\u00e1 h\u00e1 algum tempo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-52046","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52046"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52046\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}