{"id":51267,"date":"2022-05-30T07:00:36","date_gmt":"2022-05-30T06:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=51267"},"modified":"2022-06-14T17:55:18","modified_gmt":"2022-06-14T16:55:18","slug":"manuel-fernandes-vicente-os-algoritmos-que-nos-tornaram-cretinos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-os-algoritmos-que-nos-tornaram-cretinos-2\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Os algoritmos que nos tornaram cretinos"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um dos v\u00e1rios debates importantes mas que, nem por serem importantes e at\u00e9 urgentes e pol\u00e9micos, nunca ser\u00e3o alvo de grande aten\u00e7\u00e3o nos nossos <em>mass media<\/em> ligam-se ao caso profundo das escolas p\u00fablicas e das do ensino privado, umas e outras com as suas vantagens competitivas, sendo que, naturalmente, se levarmos essa competi\u00e7\u00e3o para uma pista de atletismo, o ensino privado correr\u00e1 na pista 1 com pavimento de <em>tartan<\/em>, enquanto as escolas p\u00fablicas circulam na pista 8, e possivelmente em piso de cinza. Mas, indiferentes a duas realidades socioeducativas t\u00e3o distintas, como s\u00e3o as que constituem o universo democr\u00e1tico e popular da escola p\u00fablica e o palco elitista (sobretudo do ponto de vista da disponibilidade financeira), aristocrata e urbano dos col\u00e9gios, n\u00e3o faltar\u00e1 quem, entre a comunica\u00e7\u00e3o social, e j\u00e1 no final iminente deste ano letivo, volte a estabelecer <em>rankings<\/em> absurdos, dilatar t\u00edtulos grotescos, e a criar textos de opini\u00e3o que mais sugerem que s\u00e3o encomendados do que resultantes de uma reflex\u00e3o s\u00e9ria de algu\u00e9m ponderado e minimamente conhecedor das realidades escolares.<\/p>\n<p>Na verdade, comparar estabelecimentos de ensino frequentado por comunidades estruturalmente pobres e marginais ou automarginalizadas, que os frequentam n\u00e3o por voca\u00e7\u00e3o ou motiva\u00e7\u00e3o social, mas apenas porque o ensino \u00e9 obrigat\u00f3rio, at\u00e9 uma escolaridade para si excessivamente prolongada, n\u00e3o \u00e9 exatamente o mesmo que as condi\u00e7\u00f5es oferecidas em estabelecimentos frequentados por jovens de fam\u00edlias abastadas, que at\u00e9 imp\u00f5em notas de acesso exorbitantemente altas (e a rivalizar com as mensalidades das respetivas propinas), e que s\u00e3o transportados por um motorista fardado e afetado at\u00e9 ao port\u00e3o de entrada. E tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o mesmo comparar as escolas de comunidades rurais, interiores, humildes, deprimidas, e em que a maioria dos pais tem uma baixa escolaridade, com outras exatamente no lado oposto do espetro social, geogr\u00e1fico, cultural ou dos rendimentos familiares m\u00e9dios. Faz\u00ea-lo n\u00e3o \u00e9 s\u00e9rio, e no melhor dos casos s\u00f3 pode revelar ou laxismo ou mau feitio.<\/p>\n<p>H\u00e1 poucos dias, fruto de um feliz acaso, como s\u00e3o todos aqueles em que encontramos uma pessoa amiga que j\u00e1 n\u00e3o vemos h\u00e1 muito, esta, vivendo e trabalhando na regi\u00e3o de Lisboa, confessou-me que tendo matriculado em anos sucessivos o filho adolescente num col\u00e9gio de elite e pr\u00f3ximo de casa, foi-se deparando com uma progressiva intoler\u00e2ncia do filho \u00e0 contrariedade, \u00e0s opini\u00f5es diferentes e a, pasme-se, pensar que aos 17 anos o mundo j\u00e1 pouco ou nada tinha para lhe dizer. Bem pensado\u2026 A m\u00e3e tamb\u00e9m foi pensando, gradual e relutantemente, que o \u201cpr\u00edncipe cheio de convencimentos\u201d (palavras da pr\u00f3pria) se tinha acrisolado numa forma pr\u00f3pria de ver o mundo, obviamente pura e perfeita, e que, fora desse casulo de seda, o que havia do lado de fora ou estava mal, ou era mal frequentado, ou era preciso destruir por ser impr\u00f3prio ou antiquado&#8230; A m\u00e3e fez-me uma observa\u00e7\u00e3o pertinente, mais ou menos assim: meti-o numa gaiola de pav\u00f5es e fais\u00f5es, com vista s\u00f3 para dentro da gaiola, e o que est\u00e1 de fora ou \u00e9 para ignorar acerrimamente ou, se n\u00e3o podem evitar a sua exist\u00eancia, \u00e9 para combater com o fervor de um godo. \u201cTornou-se, portanto, um fundamentalista da virtude, para ele j\u00e1 nem eu conto, embora lhe pague pontualmente as mensalidades, s\u00f3 quem pensa, age e at\u00e9 veste e cal\u00e7a como ele, a tribo dos amiguinhos do col\u00e9gio, \u00e9 que conta\u2026\u201d Ao inscrev\u00ea-lo no col\u00e9gio, admite, contribuiu, sem absolutamente o desejar, para lhe limitar, deste modo, os horizontes: o mundo ficou na escala dos seus amigos caucasianos (como agora \u00e9 linguisticamente correto dizer), ricos, com uma rede social praticamente fechada, e inevitavelmente neoliberais e servos de preconceitos rascas. E retirou da paleta do pintor todas as outras cores do pa\u00eds, da sociedade e do mundo. E condena-se por lhe ter subtra\u00eddo o mundo tal como ele \u00e9, com as suas etnias e ra\u00e7as, condi\u00e7\u00f5es sociais e culturais, contrastes, armadilhas e motiva\u00e7\u00f5es diferentes e at\u00e9 opostas, com ru\u00eddos e uma entropia natural, que ajudam a procurar mais cen\u00e1rios e a obter mais solu\u00e7\u00f5es, ser mais tolerante e entender a complexidade. \u201cAo fim e ao cabo, o que eu tive na minha escola secund\u00e1ria, e sempre senti que assim me enriquecia\u2026\u201d, comenta, j\u00e1 em final da conversa.<\/p>\n<p>Sou, como decerto a esmagadora maioria dos meus leitores, um utilizador e frequentador habitual dos recursos tecnol\u00f3gicos e inform\u00e1ticos e das vantagens que hoje nos tornam dispon\u00edveis benef\u00edcios amplos e m\u00faltiplos, procurando evitar os al\u00e7ap\u00f5es e os contos de fadas que l\u00e1 se encontram. Tenho, portanto, deste novo mundo difundido sobretudo a partir do in\u00edcio do novo mil\u00e9nio uma perspetiva de otimismo moderado e algum controlo cr\u00edtico. As Tecnologias da Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o (TIC) conduziram diretamente o ser humano para a cria\u00e7\u00e3o de uma nova era civilizacional e depois, de forma inviesada e quase impercept\u00edvel, para outra. Mas, neste estrito \u00e2mbito das TIC e dos mundos que ela destapou, facilitou ou simplificou, como a capacidade de comunicar com efici\u00eancia e rapidez e o acesso com baixos custo a uma vasta informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, <em>chats <\/em>e capacidade de conhecer o que se passava globalmente quase em direto, h\u00e1 duas fases que conv\u00e9m atentar. E a fronteira que as separa, localizada no tempo por volta de 2010\/2011, deve-se \u00e0 descoberta pelas gigantes tecnol\u00f3gicas e por a\u00e7\u00e3o sobretudo da Intelig\u00eancia Artificial, de uns certos algoritmos, igualmente inteligentes, talvez at\u00e9 demasiado e abusativamente inteligentes. Com esses m\u00e9todos algor\u00edtmicos, os neg\u00f3cios desses \u201cmega\u201d tecnol\u00f3gicos, passaram a prosperar de uma forma quase exponencial, pois adquiriram a ins\u00f3lita capacidade de entrar nas nossas mentes e de, por via eletr\u00f3nica e de <em>softwares<\/em> de c\u00f3digos abertos e fechados, inferir dos nossos gostos e humores, os produtos que preferimos, o nosso clube favorito, e as \u00e1reas de conhecimento ou do lazer a que devotamos mais aten\u00e7\u00e3o, tempo e interesse. At\u00e9 talvez tenham um melhor retrato da nossa personalidade que o que dela fazemos n\u00f3s pr\u00f3prios. \u00c9 claro que n\u00f3s n\u00e3o somos ingratos, e agradecemos. Mas, por amor \u00e0 verdade, n\u00e3o era bem essa a inten\u00e7\u00e3o das empresas geradoras destes algoritmos. O conhecimento que elas adquiriram de n\u00f3s pr\u00f3prios foi mais ou menos um fil\u00e3o para o enriquecimento dos propriet\u00e1rios das minas. Com eles \u2212 \u00a0os algoritmos e os dados \u2212 foram capazes de atrair muitos anunciantes que sabiam agora que iam pagar, mas que o seu an\u00fancio ia direto para os consumidores de todo o mundo que lhes interessava, os que tinham interesse nos seus produtos, e iam receber agora os an\u00fancios de produtos ou servi\u00e7os que procuravam <em>online<\/em>.<\/p>\n<p>Se o leitor anda \u00e0 procura na Internet de uma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica, vai ser torpedeado, com sedu\u00e7\u00e3o, apego e muito <em>marketing<\/em> profissional pelas marcas e empresas do setor. Se \u00e9 de um telem\u00f3vel ou de uma torradeiraou de um fixador para o cabelo de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o ou pretende criar um evento formal ou informal e procura um parceiro (ou parceira), ou at\u00e9 viajar para o Polo Norte enquanto \u00e9 tempo, n\u00e3o lhe faltar\u00e3o ass\u00e9dios, nem propostas, nem sugest\u00f5es. As \u201cmegas\u201d tecnol\u00f3gicas beneficiaram com os seus algoritmos, e os anunciantes procuraram-nos como abelhas, em detrimento dos an\u00fancios nos jornais, nas revistas ou na TV generalistas. Os \u201cmegas\u201d tornaram-se, assim, ainda mais felizes, mas n\u00e3o 99,9 por cento dos seus colaboradores, escravos tamb\u00e9m da produtividade acelerada que outros algoritmos atentos criaram e imp\u00f5em para serem sugados at\u00e9 ao tutano, que aqui n\u00e3o se trabalha por menos, espantando-me que isto n\u00e3o incomode os respetivos governos, que nem se incomodam nem regulamentam.<\/p>\n<p>E tudo isto teve um efeito de perversa fragmenta\u00e7\u00e3o social e a cria\u00e7\u00e3o de tribos, que as redes sociais exploram sibilinamente para felicidade pr\u00f3pria e deixando o mundo e a sociedade ainda um pouco piores, perguntando-me eu se isso ainda \u00e9 preciso \u2212 e se, como esp\u00e9cie, n\u00e3o caminhamos para o cl\u00edmax da nossa cretinice. E \u00e9 aqui que se incubam, geram e desenvolvem os mais perigosos fanatismos. Nessas redes sociais, com o isco lan\u00e7ado aos anunciantes, e onde a m\u00e1-l\u00edngua se digitaliza, os antitaurinos s\u00f3 encontram antitaurinos, e cada um procura ser mais radical nesse pergaminho; os puritanos encontram-se com puritanos, verdes-alfaces com verdes-alfaces, os neoliberais com os correligion\u00e1rios, e assim sucessivamente. N\u00e3o escutam mais ningu\u00e9m nem leem outras opini\u00f5es. Nem precisam, porque eles descobriram as f\u00f3rmulas e as chaves das virtudes. Desligaram-se do mundo, e tornam-se monocrom\u00e1ticos e, sobretudo, intolerantes, ai de quem pensar fora dos seus dogmas\u2026<\/p>\n<p>O que esta pan\u00f3plia de redes sociais cria \u00e9 a segmenta\u00e7\u00e3o do mundo em fra\u00e7\u00f5es cada vez mais \u00ednfimas e de interesses restritos, restrit\u00edssimos, em que se aglutinam apenas com pessoas com que se identificam plenamente quer nos interesses, quer nos pontos de vista, criando uma mentalidade de tribo que depois se desenvolve no radicalismo das suas op\u00e7\u00f5es. Quem n\u00e3o pertence \u00e0 tribo \u00e9 acanalhado, e tornado um p\u00e1ria aos seus olhos. Recusam a ver, analisar ou refletir sobre o que n\u00e3o dominam ou lhes parece hostil, e a tend\u00eancia \u00e9 radicalizarem mais os seus discursos, endurecer a coura\u00e7a e preparar-se para a pr\u00f3xima guerra mundial, aquela que Einstein n\u00e3o sabia como seria, sabendo todavia como seria a quarta (\u00e0 pedrada e do cima das \u00e1rvores).<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que, proclamando cada vez mais, na teoria, as virtudes e os valores das diversidades, da conviv\u00eancia e da integra\u00e7\u00e3o nas suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es (sociais, culturais, \u00e9tnicas, nacionais, religiosas, biol\u00f3gicas\u2026), o mundo ruma cada vez mais no sentido oposto, e n\u00e3o \u00e9 apenas nalguns sistemas educativos, nas redes sociais e nos populismos que se v\u00e3o segregando\u2026<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-os-algoritmos-que-nos-tornaram-cretinos-2\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos v\u00e1rios debates importantes mas que, nem por serem importantes e at\u00e9 urgentes e pol\u00e9micos, nunca ser\u00e3o alvo de grande aten\u00e7\u00e3o nos nossos mass media ligam-se ao caso profundo das escolas p\u00fablicas e das do ensino privado, umas e outras com as suas vantagens competitivas, sendo que, naturalmente, se levarmos essa competi\u00e7\u00e3o para uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-51267","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51267","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51267"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51267\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}