{"id":49782,"date":"2021-07-08T09:19:07","date_gmt":"2021-07-08T08:19:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=49782"},"modified":"2022-04-21T09:30:25","modified_gmt":"2022-04-21T08:30:25","slug":"manuel-fernandes-vicente-bom-dia-edgar-morin-nos-100-anos-do-filosofo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-bom-dia-edgar-morin-nos-100-anos-do-filosofo-2\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | \u201cBom dia, Edgar Morin!\u201d, nos 100 anos do fil\u00f3sofo"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>H\u00e1 j\u00e1 bastantes anos, tantos que eu passava ainda pela fase tardia da minha adolesc\u00eancia, que foi, confesso-o com franqueza, um pouco mais prolongada do que o habitual, que a leitura de um livro me impressionou de tal modo que, desde a\u00ed, sempre soube onde estava, e ao qual habitualmente regressei e reli, como se da minha b\u00edblia se tratasse. Esse livro, O Paradigma Perdido: a Natureza Humana, pressenti-o logo, teria uma forte influ\u00eancia na minha forma de ver o mundo, e hoje, quase meio s\u00e9culo passado, retenho essa perce\u00e7\u00e3o, embora agora vendo muito j\u00e1 pelo retrovisor da vida. Todos n\u00f3s precisamos de refer\u00eancias, de rochedos, no mar ou em terra, que nos sirvam de norte, e que sejam uma companhia e um rumo neste mundo onde a muita solid\u00e3o e a falta de rota s\u00e3o cada vez mais patentes. Sem eles, andaremos perdidos, porque n\u00e3o h\u00e1 vento favor\u00e1vel para quem n\u00e3o sabe para onde vai.<\/p>\n<p>O autor deste Paradigma Perdido foi, e \u00e9, Edgar Morin, o fil\u00f3sofo da complexidade e um dos meus rochedos, algu\u00e9m que ao ler, o que diz tem o sabor da \u00e1gua fresca bebida numa nascente a brotar da terra. Faz hoje, 8 de julho do ano 21 do s\u00e9culo XXI, 100 anos. A sua esposa, Sabah Abouessalam, 38 anos mais nova, disse h\u00e1 poucos dias: \u201cEdgar n\u00e3o tem idade, e estou a falar seriamente\u201d. E as entrevistas e publica\u00e7\u00f5es nos anos mais recentes, comprovam-no. \u201cEu vou espantar-vos, mas digo-vos que ap\u00f3s 11 horas de voo, por vezes, ele \u00e9 capaz de dar uma entrevista depois do avi\u00e3o aterrar, e outra no hotel, com uma Caipirinha na m\u00e3o, Edgar sente-se em casa em todo o lado, e por mais long\u00ednquo que seja o pa\u00eds onde se encontre\u201d, disse ainda h\u00e1 poucas semanas Sabah \u00e0 revista francesa La Revue pour l\u2019intelligence du monde. Em Fran\u00e7a h\u00e1 justamente uma avalanche de cerim\u00f3nias para comemorar este seu centen\u00e1rio, mas a sua dimens\u00e3o de exemplo de defesa do ser humano e de humaniza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia \u00e9 de uma escala incomparavelmente maior.<\/p>\n<p>Esta cr\u00f3nica n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m mais do que a minha humilde homenagem a um homem e um combatente da liberdade que ainda hoje se enobrece com uma vida f\u00edsica e intelectual ativa, para n\u00e3o dizer irrequieta, e mant\u00e9m um exemplo que \u00e9 transversal \u00e0 sua vida: um livre esp\u00edrito que sempre permaneceu \u00e0 margem das conveni\u00eancias, do poder e, sobretudo, das hipocrisias e da barb\u00e1rie do pensamento dominante. Foram diversas as vezes, e com diversos prop\u00f3sitos, em que Edgar Morin esteve no nosso pa\u00eds, que adora e admira, e onde j\u00e1 admitiu em certa altura poder ser o seu destino para viver, talvez pela beleza das nossas paisagens e da nossa cultura de tantas diversidades, ele que tanto as procura defender\u00a0 \u0336\u00a0 ou tamb\u00e9m talvez pelas suas origens de judeu sefardita, os judeus de ritos e tradi\u00e7\u00f5es distintas das do centro e do leste da Europa, cuja g\u00e9nese hist\u00f3rica tem as suas ra\u00edzes em Portugal e Espanha. \u201cEstou a pensar seriamente em instalar-me e viver em Portugal\u201d, disse o fil\u00f3sofo h\u00e1 apenas quatro anos \u00e0 ag\u00eancia Lusa, numa altura em que tamb\u00e9m elogiou o nosso pa\u00eds na \u201cdefesa dos valores da Europa do Sul. Portugal \u00e9 o maior defensor da cultura do sul e do seu prazer pela vida, que o norte da Europa \u2018j\u00e1 esqueceu\u2019\u201d, referiu ent\u00e3o Edgar Morin.<\/p>\n<p>Por duas dessas vezes, ambas em Lisboa, pude testemunhar (ou quase comungar) a sua vis\u00e3o, a sua ontologia, e a forma emp\u00e1tica e quase carism\u00e1tica de comunicar em confer\u00eancias, e de dizer de forma tremendamente simples coisas que, propriamente, est\u00e3o muito longe de o ser. Uma perspetiva que n\u00e3o \u00e9 a de um profeta que teve uma vis\u00e3o ou a de um discurso inflamado sobre \u00e9tica de algum pastor americano p\u00f3s-moderno, mas a de algu\u00e9m que reflete sobre o mundo sem catecismos na m\u00e3o nem interesses na carteira. E que p\u00f5e mesmo em causa, o novo deus moderno, que d\u00e1 pelo nome de Ci\u00eancia, n\u00e3o devendo n\u00f3s esquecermo-nos de que esta \u00e9 tamb\u00e9m, e sobretudo, uma cria\u00e7\u00e3o humana, com todas as imprecis\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>Nascido em Paris h\u00e1 precisamemte 100 anos, e dotado de uma vis\u00e3o renascentista do mundo, Edgar Morin tornou-se num estudioso do paradigma da complexidade e da liberdade, e um combatente na defesa da Humanidade e do humanismo. E, para isso, usou o conhecimento, mas um conhecimento que n\u00e3o deve ser mutilado nem fragmentado, mas o proveniente da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade resultante de uma abordagem a partir da ideia da complexidade natural da maioria das coisas e da incerteza das restantes. Soci\u00f3logo, antrop\u00f3logo, fil\u00f3sofo, epistem\u00f3logo, ecologista, bi\u00f3logo, cin\u00e9filo, curioso avan\u00e7ado pela civiliza\u00e7\u00e3o, pela cultura, e pela hominiza\u00e7\u00e3o e pelo Homo sapiens sapiens, doutor honoris causa por 17 universidades, inspirador e ativista na Revolu\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica do Maio de 1968 em Paris, Edgar Morin at\u00e9 viu nestes acontecimento o brotar de algo novo e politicamente genu\u00edno, mas a verdade \u00e9 que sempre recusou solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis e vis\u00f5es a uma s\u00f3 dimens\u00e3o.<\/p>\n<p>Na sua pesquisa apaixonada sobre a natureza humana, Edgar Morin investiga com denodo desde a mol\u00e9cula \u00e0 Via L\u00e1ctea, do pag\u00e3o ao sagrado, da ordem do caos \u00e0 desordem da ordem, da biologia \u00e0 cibern\u00e9tica ou do c\u00e9rebro \u00e0 sociedade, dos s\u00edmios aos ecossistemas e da Hist\u00f3ria \u00e0 Ci\u00eancia. E para religar o que \u00e9 poss\u00edvel, e estabelecer as pontes pertinentes para criar uma compreens\u00e3o maior da nossa condi\u00e7\u00e3o e da nossa heran\u00e7a antropol\u00f3gica, o soci\u00f3logo n\u00e3o teme em socorrer-se de ferramentas, de m\u00e9todos e de conce\u00e7\u00f5es heter\u00f3clitas, ele que nunca foi um ortodoxo de coisa alguma. E quis tamb\u00e9m criar outros, que o n\u00e3o s\u00e3o menos, para chegar ao homem, esse \u201canimal dotado de desprop\u00f3sito\u201d. E assim fala da antropossociog\u00e9nese, da autorganiza\u00e7\u00e3o, de educa\u00e7\u00e3o, da consci\u00eancia antag\u00f3nica, da complexifica\u00e7\u00e3o multidimensional e da paleolinguagem, tudo conceitos que Morin sabe cruzar em poliniza\u00e7\u00e3oes estimulantes e f\u00e9rteis, numa escrita devastadora, um romance perturbador e de leitura sublime. O cientista elogia ainda o erro, \u201c\u00e9 ele que nos faz crescer\u201d, nota que o conhecimento n\u00e3o \u00e9 um caminho reto, \u201cest\u00e1 cheio de ciladas, hesita\u00e7\u00f5es e corre\u00e7\u00f5es\u201d, e nas escolas o professor deve fomentar o \u201cesp\u00edrito cr\u00edtico\u201d, enquanto, garante, \u201ca separa\u00e7\u00e3o das disciplinas j\u00e1 n\u00e3o faz hoje sentido\u201d.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-bom-dia-edgar-morin-nos-100-anos-do-filosofo-2\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 j\u00e1 bastantes anos, tantos que eu passava ainda pela fase tardia da minha adolesc\u00eancia, que foi, confesso-o com franqueza, um pouco mais prolongada do que o habitual, que a leitura de um livro me impressionou de tal modo que, desde a\u00ed, sempre soube onde estava, e ao qual habitualmente regressei e reli, como se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-49782","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49782","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49782"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49782\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49782"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49782"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49782"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}