{"id":49764,"date":"2022-04-21T07:49:40","date_gmt":"2022-04-21T06:49:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=49764"},"modified":"2022-04-25T20:45:01","modified_gmt":"2022-04-25T19:45:01","slug":"manuel-fernandes-vicente-a-epifania-do-chuto-na-bola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-epifania-do-chuto-na-bola\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | A epifania do chuto na bola"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>H\u00e1 muito tempo que eu j\u00e1 n\u00e3o frequentava as bancadas em torno dos sagrados ret\u00e2ngulos verdes onde uns tipos habitualmente \u00e1geis e bem encorpados correm atr\u00e1s de um objeto esf\u00e9rico na pr\u00e1tica da mais gloriosa aliena\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos tempos modernos, vulgo futebol, na qual tamb\u00e9m me confesso e comungo com adequada inconsci\u00eancia, na vers\u00e3o mais tecnol\u00f3gica em ecr\u00e3 plano, e j\u00e1 n\u00e3o sei se por feitio c\u00ednico, costume incorrig\u00edvel ou pura atra\u00e7\u00e3o para o sofrimento club\u00edstico. Lembro-me de que o \u00faltimo jogo que presenciei ao vivo foi um sofr\u00edvel Acad\u00e9mica-Sporting, ainda jogava o sibilino cairuense Liedson da Silva Muniz, <em>O Levezinho<\/em>, e, para ser franco, nem os dois golos do pr\u00e9lio eu vi, apesar de estar l\u00e1 para isso. Tamb\u00e9m n\u00e3o houve direito a repeti\u00e7\u00e3o dos lances, estranhei, um estranho defeito dos promotores destes jogos, igual ao h\u00e1bito de n\u00e3o oferecerem bin\u00f3culos (ou ao menos lupas). E como perto do lugar onde me sentei decorreram cenas pouco ol\u00edmpicas entre os adeptos, e logo os dos meus dois clubes eleitos, para as quais eu nem paguei para ter que ver, decidi a partir da\u00ed, e pensando fazer bem, resguardar-me destas tristes ocorr\u00eancias, e troc\u00e1-los pelos mais in\u00f3cuos e liofilizados que as televis\u00f5es transmitem.<\/p>\n<p>Isto pensava eu at\u00e9 \u00e0 \u00faltima semana, em plena \u00e9poca pascal, quando, calcorreando a minha senda habitual de p\u00e9 posto por um parque urbano, interrompida por mais umas indecifr\u00e1veis e sempre inoportunas obras de reabilita\u00e7\u00e3o de qualquer coisa, e ao pretender um atalho alternativo, acabei entre as bancadas dum campo da bola. N\u00e3o s\u00f3 este n\u00e3o tinha sa\u00edda \u00f3bvia, como fiquei ref\u00e9m do in\u00edcio de um jogo de juniores entre o Benfica dessa cidade beir\u00e3 (faz-me sempre um pouco de esp\u00e9cie ver uma equipa com um nome t\u00e3o exaltante e emblema t\u00e3o destemido vestir uns equipamentos t\u00e3o pardos e ab\u00falicos que n\u00e3o sei de onde lhes poder\u00e1 vir a inspira\u00e7\u00e3o\u2026) e os visitantes que trajavam com soberba \u00e0 Barcelona.<\/p>\n<p>Com uma claque de mais de uma centena e meia de pais, m\u00e3es, tios, primas e aguerridas namoradas, os adeptos deste Benfica local, recebiam com indiferen\u00e7a (o mais requintado \u00f3dio que se pode oferecer no futebol) o s\u00e9quito visitante, menos numeroso, mas n\u00e3o menos belicoso, que povoou logo toda a zona dos port\u00f5es, impossibilitando a sa\u00edda de quem quer que fosse do est\u00e1dio. Era o meu caso. E, perante os factos, se tudo conspirava para que eu, depois de entrar naquela gaiola, dela j\u00e1 n\u00e3o pudesse sair, fiquei retido, e decidi n\u00e3o contrariar o destino, talvez todas aquelas contrariedades tivessem um significado celestial, um sentido obscuro, algum prop\u00f3sito mais oculto, sentei-me e fiquei\u2026 Quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos, mas valeu a pena. O que eu aprendi!&#8230;<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de muita gente, que do futebol a melhor opini\u00e3o que tem \u00e9 a de que \u00e9 uma extravag\u00e2ncia in\u00fatil, parva e aberrante, eu ainda mantenho a ideia rom\u00e2ntica de que, al\u00e9m disso tudo, \u00e9 uma arte que deixa transparecer muito do que \u00e9 a sociedade, sobretudo se falarmos do que h\u00e1 nela de mais at\u00e1vico, insolente e banal, que me desculpem os pol\u00edticos, valentes e obstinados rivais em todos esses predicados. E um facto interessante e digno de nota \u00e9 que s\u00f3 agora, ao fim destes mais de dez anos de abstin\u00eancia destes circos do chuto na bola, me apercebi de que o pa\u00eds se converteu num estr\u00e9nuo viveiro n\u00e3o s\u00f3 de excelsos praticantes, como de exaltados treinadores de futebol, como tamb\u00e9m de \u00e1rbitros autocertificados, ou pelo menos de finos e perspicazes comentadores das mais leves e subtis falhas de arbitragem. Tendo, tanto os treinadores argutos e j\u00e1 com idade para darem melhores exemplos aos netos que levavam pela m\u00e3o, como os capciosos \u00e1rbitros, a quem felizmente ningu\u00e9m emprestar\u00e1 uma farda negra, esta estranha singularidade comum: todas as falhas dos apitadores prejudicaram sempre os seus estimados emblemas. Ali, todos davam ordens tanto a defesas, como aos m\u00e9dios e aos avan\u00e7ados, e com tantos decib\u00e9is o faziam que os pobres praticantes dificilmente poderiam escutar o que o t\u00e9cnico genu\u00edno, sentado e com carteira profissional tivesse para dizer\u2026<\/p>\n<p>\u0336\u00a0 Limpa a bola, Nhuca!&#8230;<\/p>\n<p>\u0336\u00a0 Vamos l\u00e1, Sim\u00e3o, anda corre sacana\u2026<\/p>\n<p>\u0336\u00a0 Vai, vai, Miguel, olha a\u00ed\u2026<\/p>\n<p>\u0336\u00a0 Disputa-me essa bola, Ruca, caramba, ele n\u00e3o pode andar a jogar sozinho e a fazer puco de ti, d\u00e1-lhe nesse galego, carago\u2026<\/p>\n<p>\u0336\u00a0 Boa, Z\u00e9 Maradona!&#8230;, gritava um tipo com aspeto bastante bastardo, dando ao rapaz um apelido que s\u00f3 poderia ser por ironia ou maldade, pois ele n\u00e3o tinha um p\u00e9 esquerdo, mas dois, tr\u00eas ou quatro, tanta a sua azelhice\u2026, ao ponto de, nas melhores sortidas, at\u00e9 se fintava a si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>\u2212 Juntem as linhas, p\u00e1!, evitem as diagonais deles\u2026 \u2212 bradava uma outra individualidade com barba de tr\u00eas dias e aspeto n\u00e3o s\u00f3 de intelectual como de putativo treinador. Aqui confesso que h\u00e1 j\u00e1 express\u00f5es do futebol\u00eas que me escapam, mas que devem ser profundas. De resto, com uma aus\u00eancia de tantos anos das bancadas do que \u00e9 que eu estava \u00e0 espera? E se o campo tem ret\u00e2ngulos, c\u00edrculos, semic\u00edrculos e at\u00e9 quartos de c\u00edrculo, haver linhas e diagonais faz tudo muito sentido. \u00c9 tudo uma quest\u00e3o de geometria e de enganar os \u00e1rbitros\u2026<\/p>\n<p>Com esta amostra na bancada central, n\u00e3o me espanto que continuemos a exportar treinadores e comecem a chegar j\u00e1 encomendas pedindo \u00e1rbitros. Tamb\u00e9m deu para entender, pelo vern\u00e1culo mais ordin\u00e1rio que irradiava sonoramente desta bancada central, como devem ter diminu\u00eddo a moral e os bons costumes da na\u00e7\u00e3o nestes meus dez anos de aus\u00eancia. Eram improp\u00e9rios bafejando a maioria dos intervenientes na partida, como a autorit\u00e1ria equipa de arbitragem \u2212 e em particular o enfezado auxiliar, que estava mais perto de os ouvir, e o codicioso avan\u00e7ado do <em>team<\/em> junior forasteiro, um tal Chony, a quem, se as alcunhas aleijassem, precisava, logo ali, de um helic\u00f3ptero que o levasse rapidamente \u00e0s urg\u00eancias do hospital distrital. De resto, era mesmo um sonoro coro feminino de donzelas j\u00e1 quarentonas, mas de timbres ainda imaculadamente esgani\u00e7ados e express\u00f5es tamb\u00e9m imaculadamente impublic\u00e1veis (mas que, asseguro, eram capazes de fazer corar de vergonha uma caserna interna de fuzileiros), quem mais animava a bancada, sobretudo quando o jogo se empastelva a meio campo e as bolas subiam mais alto que o foguet\u00f3rio de passagem de ano. De resto, este mavioso grupo coral de falsetes e de timbres agudos, de decotes e saias bem reveladoras da grave crise econ\u00f3mica em que o pa\u00eds continua mergulhado, era t\u00e3o capaz de partir as vidra\u00e7as mais pr\u00f3ximas como alguma bola aliviada para fora por um defesa mais canhestro. E, tanto se mostravam as donzelas aptas para cantar hinos inspiradores ao seu clube, como podiam a seguir arruinar a boa reputa\u00e7\u00e3o de toda a fam\u00edlia de algum esfor\u00e7ado defesa que fizesse cair um tal Nhuca, vedeta da equipa da casa e ator sempre pronto para cair com aparato assim que sentisse um sopro de uma respira\u00e7\u00e3o advers\u00e1ria nas costas, em particular se estivesse de visita \u00e0 grande \u00e1rea contr\u00e1ria. Portanto, por aqui, apercebi-me tamb\u00e9m do que evoluiu a emancipa\u00e7\u00e3o feminina na assist\u00eancia a jogos nestes mais de dez anos de hiato meu, embora, devo confessar, esperava que essa evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisasse de t\u00e3o exuberantes ostenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O jogo valeu tanto pelo espet\u00e1culo em si, com os praticantes a procurarem mimetizar o melhor que sabiam as h\u00e1beis jogadas observadas entre as vedetas dos clubes de <em>top<\/em> (compensando em abnega\u00e7\u00e3o o que escasseava em arte), e, verdade, nunca vi tanta alegria por introduzir uma simples bola nas redes do advers\u00e1rio. Cada golo do Benfica do burgo era uma esp\u00e9cie de epifania \u00e0 custa de umas enormes e comprometedoras ab\u00e9bias da defesa contr\u00e1ria, guarda-redes inclu\u00eddo. Se os jogadores do Benfica entravam em epifania pelo cometimento, na bancada a euforia era total e o rico vern\u00e1culo contrastava agora com a b\u00ean\u00e7\u00e3o dos vencedores. Os jogadores saltavam para as bancadas e voavam por cima das namoradas e companheiras, numa comunh\u00e3o contagiante e quase b\u00edblica. Caramba, afinal n\u00e3o \u00e9 preciso muito, para ficarmos todos t\u00e3o felizes. Vou ter de reanalisar aquela ideia insensata de n\u00e3o voltar a frequentar est\u00e1dios de futebol, aquilo \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as!<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-epifania-do-chuto-na-bola\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito tempo que eu j\u00e1 n\u00e3o frequentava as bancadas em torno dos sagrados ret\u00e2ngulos verdes onde uns tipos habitualmente \u00e1geis e bem encorpados correm atr\u00e1s de um objeto esf\u00e9rico na pr\u00e1tica da mais gloriosa aliena\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos tempos modernos, vulgo futebol, na qual tamb\u00e9m me confesso e comungo com adequada inconsci\u00eancia, na vers\u00e3o mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-49764","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49764","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49764"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49764\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49764"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49764"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49764"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}