{"id":43542,"date":"2021-11-28T07:57:32","date_gmt":"2021-11-28T07:57:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=43542"},"modified":"2021-11-28T07:57:32","modified_gmt":"2021-11-28T07:57:32","slug":"caca-as-bruxas-numa-vila-ribatejana-ha-setenta-anos-atras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/caca-as-bruxas-numa-vila-ribatejana-ha-setenta-anos-atras\/","title":{"rendered":"&#8220;Ca\u00e7a \u00e0s bruxas&#8221; numa Vila ribatejana&#8230; h\u00e1 setenta anos atr\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p>Era uma vez, h\u00e1 73 anos. Duas crian\u00e7as eram assassinadas de forma macabra, com um machado. \u00c9 o chamado &#8220;Crime das Bicas&#8221;, no concelho vizinho duma conhecida vila ribatejana&#8230;<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia da investiga\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia judici\u00e1ria, aconteceu tamb\u00e9m nessa altura nessa dita vila ribatejana, uma verdadeira &#8220;Ca\u00e7a \u00e0s bruxas&#8221; que levou \u00e0 pris\u00e3o de duas cartomantes e fuga de uma terceira.<\/p>\n<p>Duas cartomantes foram\u00a0 ent\u00e3o presas durante sete meses, tendo sobrevivido numa cela onde estavam oito mulheres. Em condi\u00e7\u00f5es verdadeiramente sub-humanas. Quem as visitava conta que todas faziam as &#8220;necessidades&#8221; para um balde.<\/p>\n<p>Uma terceira\u00a0 &#8220;bruxa&#8221;, dita cartomante, escapou de facto,\u00a0 por pouco, da persegui\u00e7\u00e3o judici\u00e1ria da antiga pol\u00edcia de investiga\u00e7\u00e3o criminal (PIC), doravante designada Pol\u00edcia Judici\u00e1ria (PJ), como a seguir veremos.<\/p>\n<p>Um erro terr\u00edvel, da investiga\u00e7\u00e3o dos dois crimes de sangue que est\u00e3o na origem desta hist\u00f3ria, imputava ao pai do beb\u00e9 esquartejado e tio da menina que guardava o beb\u00e9,\u00a0 o &#8220;moleiro das Bicas&#8221;, a autoria dos hediondos crimes sanguin\u00e1rios. O caso era assim.<\/p>\n<p>Mais adiante perceber-se-\u00e1 a conex\u00e3o das duas hist\u00f3rias aqui em relevo&#8230;<\/p>\n<p>O moleiro n\u00e3o conseguia ter um filho com a mulher e andava em consultas num famoso m\u00e9dico da cidade sobejamente conhecido. Ap\u00f3s muitas tentativas, l\u00e1 conseguiram trazer ao mundo um rapazinho. Certo dia, indo o moleiro mais a mulher \u00e0s suas lides, deixaram o rec\u00e9m-nascido ao cuidado duma sobrinha de nove anos.\u00a0 E foi nesse dia que tudo tragicamente aconteceu. Os dois infantes sucumbiram e foram pois alvo de um crime atroz. Posta a Pol\u00edcia Judici\u00e1ria em campo conta-se que o pai dos infelizes, o moleiro, foi objecto das mais vis torturas, na cabe\u00e7a, com direito ainda a &#8220;tortura do sono&#8221;.\u00a0 O caso moveu e apaixonou multid\u00f5es\u00a0 pela cidade, tendo o ilustre m\u00e9dico sido ele pr\u00f3prio testemunha do pobre e malfadado pai. O m\u00e9dico era testemunha forte do amor com que tinha sido trazido ao mundo aquele beb\u00e9. A fam\u00edlia do moleiro n\u00e3o se conteve com a decis\u00e3o judicial e foi \u00e0 lide. Este, chorava tanto que impressionava quem o via naquele pranto. Dava d\u00f3 assistir a tanta agonia. A justi\u00e7a existe e o desgra\u00e7ado haveria de ver a verdade vir ao de cimo, criam. Feitas dilig\u00eancias apareceu ent\u00e3o por acaso e por sorte, escondido numa arrecada\u00e7\u00e3o, um machado com sangue, pronto que estava para ser queimado com outros haveres&#8230;\u00a0 Tinha sido usado como arma do crime pelo irm\u00e3o do desafortunado e pobre moleiro . N\u00e3o h\u00e1 crimes perfeitos e aqui tamb\u00e9m n\u00e3o houve. Foi assim. Um dia, tendo o moleiro sa\u00eddo para o trabalho mais a mulher, o seu irm\u00e3o infiltrou-se na sua casa com o intento malvado de lhe\u00a0 furtar o dinheiro que aqueloutro amealhara e\u00a0 escondera por falso forr\u00f3, junto \u00e0s telhas. Dando com as testemunhas, o invasor, possu\u00eddo pelo dem\u00f3nio e seus seguidores, logo as liquidou com v\u00e1rios golpes. Ao beb\u00e9, come\u00e7ou por lhe cortar uma perna mas resolveu friamente acabar com o resto, n\u00e3o lhe poupando a vida. Quanto \u00e0 rapariga de nove anos, atirou-lhe de pronto com o machado e, de um s\u00f3 golpe, assassinou-a ali mesmo, sem qualquer ponta de piedade. Ouvido nos autos tentou justificar-se dizendo que n\u00e3o pretendia matar o beb\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>No que concerne ao\u00a0 investigador da PJ, personalidade que veio a casar para uma aldeia num monte, outrora dito alvo, era conhecido pela\u00a0 suposta crueldade dos seus m\u00e9todos de inquiri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 sido numa dessas sess\u00f5es intermin\u00e1veis que descobriu ter o moleiro consultado na charneca da j\u00e1 referida vila, no caso, uma cartomante, a qual, deitando as cartas, apontou como autor dos dois macabros crimes, &#8220;algu\u00e9m da fam\u00edlia&#8221;, leia-se, do pr\u00f3prio moleiro.<\/p>\n<p>Viviam-se tempos do Estado Novo e era crime &#8220;deitar cartas&#8221;. A pol\u00edcia n\u00e3o esteve para meias medidas e p\u00f4s-se ao caminho. Entrou pela charneca adentro e logo surpreendeu a dita &#8220;bruxa&#8221; com vasta clientela \u00e0 porta. Muitos, vinham do outro lado do Tejo. Era um corrupio de gente. O neg\u00f3cio prosperava e a fama aumentava de dia para dia.\u00a0 Surpreendida em flagrante, a cartomante foi logo metida numa carrinha.\u00a0 &#8220;Levaram-na logo de seguida&#8221;, conta uma das minhas testemunhas, octogen\u00e1ria. Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o acaba aqui. N\u00e3o senhor. Mais acima, havia concorr\u00eancia. Junto ao lavadouro da Fonte do Ti Lu\u00eds, uma outra cartomante,\u00a0 lavava a roupa, quando viu chegar dois sujeitos bem vestidos e engravatados. Pediram-lhe os seus servi\u00e7os. Ao ver os &#8220;executivos&#8221; logo pensou para com os seus bot\u00f5es&#8221; vou fazer aqui umas notas&#8221;. Deitadas as cartas pediu-lhes que as dividissem em tr\u00eas. Por tr\u00eas vezes o disse mas eles insistiam em dividir o baralho em dois&#8230; &#8220;Assim n\u00e3o pode ser, assim n\u00e3o funciona&#8221;, ter\u00e1 afirmado. Como resposta os homens sacaram do cart\u00e3o da judici\u00e1ria e a pobre lavadeira l\u00e1 foi enviada na carrinha mais a concorr\u00eancia. Diz quem sabe que a primeira &#8220;bruxa&#8221; tinha muito mais clientela. Andam por aqui invejas, de certeza.<\/p>\n<p>Essas coisas n\u00e3o s\u00e3o inocentes. Em terras pequenas funciona muitas vezes n\u00e3o s\u00f3 a inveja, como a\u00a0 intriga. Palavra puxa palavra e j\u00e1 andavam a denunciar uma terceira cartomante moradora na pr\u00f3pria vila. Sabedora das den\u00fancias &#8211; n\u00e3o sabemos o que as cartas lhe diziam&#8230;-\u00a0 correu a se esconder. E escapou \u00e0 saga persecut\u00f3ria.<\/p>\n<p>A mente humana tem insond\u00e1veis interesses.<\/p>\n<p>No\u00a0 final do s\u00e9culo XVII deu-se a c\u00e9lebre persegui\u00e7\u00e3o conhecida pelas &#8220;Bruxas de Sal\u00e9m&#8217; em que as v\u00edtimas acabavam quase sempre enforcadas (dois ter\u00e7os das condenadas). Destino igual\u00a0 \u00e0s &#8220;bruxas&#8221; daquela antiga col\u00f3nia inglesa estaria por certo reservado para as nossas cartomantes, se os s\u00e9culos fossem outros. O pecado de Caim persegue o homem desde os come\u00e7os do mundo e veio para durar segundo as escrituras&#8230;<\/p>\n<p>Quanto aos m\u00e9todos da inquiri\u00e7\u00e3o ( tortura, pois), temos aqui um caso para os investigadores.<\/p>\n<p>Quis o acaso que tivesse podido &#8220;entrevistar&#8221; um dia uma das cartomantes\u00a0 j\u00e1 centen\u00e1ria. Tamb\u00e9m conheci e trabalhei com um dos filhos do famoso m\u00e9dico que tinha por\u00a0 chauffeur um tio-av\u00f4 meu. E sou amigo h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo de uma das visitas da pris\u00e3o das ditas e pobres &#8220;bruxas&#8221;. Sempre ouvi falar deste caso desde muito cedo. S\u00e3o hist\u00f3rias assim que nist falam da sociedade da \u00e9poca. O seu valor ultrapassar em muito as cita\u00e7\u00f5es das actas e dos relat\u00f3rios oficiais. S\u00e3o outros olhos.<\/p>\n<p>Qualquer coincid\u00eancia com a realidade \u00e9 pura fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luz (Const\u00e2ncia)<\/p>\n<p>PS- n\u00e3o uso o dito AOLP<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/caca-as-bruxas-numa-vila-ribatejana-ha-setenta-anos-atras\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez, h\u00e1 73 anos. 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