{"id":41947,"date":"2021-10-28T12:03:59","date_gmt":"2021-10-28T11:03:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=41947"},"modified":"2021-10-28T12:11:16","modified_gmt":"2021-10-28T11:11:16","slug":"apontamentos-sobre-o-peditorio-dos-santinhos-em-constancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/apontamentos-sobre-o-peditorio-dos-santinhos-em-constancia\/","title":{"rendered":"Apontamentos sobre o pedit\u00f3rio dos &#8220;Santinhos&#8221; em Const\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Bolinhos, bolinhos, \u00e0 porta destes santinhos&#8221;.\u00a0 Com estes versos se cantava pelas ruas da nossa vila. Com a aproxima\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o de &#8220;pedir os bolinhos&#8221; (e do seu retomar), \u00e9 tempo e oportunidade para algumas notas de registo local, em Const\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Na vila, era assim:<\/p>\n<p>Nos anos 30 do s\u00e9culo passado as crian\u00e7as iam &#8220;pedir os bolinhos&#8221; da parte da tarde. Por volta das 16h00 a crian\u00e7ada acorria \u00e0 Casa da Dona Ana Godinho (vi\u00fava do republicano Jos\u00e9 Eug\u00e9nio de Nunes Godinho) e recebiam marmelos e passas &#8220;nada de relevante&#8221;, conta-nos uma idosa\u00a0 nonagen\u00e1ria. J\u00e1 na &#8220;Vivenda Carolina&#8221; eram aguardados pela Dona Maria do C\u00e9u Pir\u00e3o &#8220;para receber alguns damascos&#8221;. Tamb\u00e9m havia na vila quem desse dinheiro. Havia crian\u00e7as que pediam os bolinhos, separadas umas das outras. As crian\u00e7as participavam na solenidade religiosa: &#8221; \u00cdamos \u00e0 missa, sim senhor&#8221;.<\/p>\n<p>Na casa paroquial, no final dos anos 70 e seguintes, o padre Vermelho dava dois tost\u00f5es a cada crian\u00e7a, as quais iam comprar rebu\u00e7ados \u00e0 loja do primo Raimundo, na Rua dos Ferreiros.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, havia jovens misturados com as crian\u00e7as mais pequenas, cada um com o seu saco. Levavam passas de figos e br\u00f4as e, com sorte, alguma moeda.\u00a0 Recordo-me bem da minha m\u00e3e distribuir br\u00f4as e bolinhos secos, receitas locais. Vem ao caso recordar as tradicionais br\u00f4as da nossa vila, em particular da saudosa Dona Rosinda e tamb\u00e9m da Mari Dona. L\u00e1 em casa eram del\u00edcias obrigat\u00f3rias nesta \u00e9poca, das quais guardamos as receitas, bem como dos bolos secos.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 de descartar a hip\u00f3tese do pedit\u00f3rio passar pela Casa do Tejo, da Dona Adelaide Sommer, porquanto era pessoa abastada que garantia a Casa da Sopa dos pobres.<\/p>\n<p>A C\u00e2mara de Const\u00e2ncia divulgou esta semana uma nota de imprensa sobre esta tradi\u00e7\u00e3o onde a dado passo se pode ler, a crer nas not\u00edcias: &#8220;Recorda a autarquia constanciense que a tradi\u00e7\u00e3o de pedir os bolinhos ter\u00e1 come\u00e7ado em Lisboa, em 1756, um ano depois do terramoto que destruiu a cidade e que provocou milhares de mortos(&#8230;)&#8221;.<\/p>\n<p>Para assinalar esta tradi\u00e7\u00e3o o Museu dos Rios e Artes Mar\u00edtimas de Const\u00e2ncia (isto \u00e9, a c\u00e2mara!) vai ter as portas abertas das 09h30 \u00e0s 12h30, leia-se &#8220;para entregar as tradicionais guloseimas da \u00e9poca \u00e0s crian\u00e7as&#8221;. A explica\u00e7\u00e3o camar\u00e1ria adianta ainda que &#8220;esta tradi\u00e7\u00e3o espalhou-se por todas as regi\u00f5es de Portugal e foi-se convertendo numa festa para os mais pequenos&#8221;.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que est\u00e1 explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 totalmente correcta?\u00a0 Salvo melhor opini\u00e3o, n\u00e3o me parece, de todo&#8230;Passando ao lado da bondade pol\u00edtica, fa\u00e7amos algum esfor\u00e7o de pesquisa.<\/p>\n<p>No Elucid\u00e1rio de Viterbo, por exemplo, refere-se que o dia dos fi\u00e9is defuntos aparece registado no s\u00e9culo XV como o dia em que tamb\u00e9m se pagava um determinado foro:&#8221;Pagardes o dito foro em cada um ano em dia de p\u00e3o por Deus&#8221;.\u00a0\u00a0 Te\u00f3filo Braga na sua obra sobre costumes, cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es do povo portugu\u00eas, afirma que o dia primeiro ou da festa de Todos-os-Santos &#8220;era denominado nos documentos jur\u00eddicos do s\u00e9culo XV &#8220;Dia de p\u00e3o por Deus&#8221;.<\/p>\n<p>O pedit\u00f3rio do &#8220;p\u00e3o-por-Deus&#8221; (a designa\u00e7\u00e3o varia consoante as regi\u00f5es) estar\u00e1 associado ao antigo costume de oferendas de p\u00e3o, bolos e outros alimentos aos defuntos. Estas pr\u00e1ticas do chamado &#8220;banquete funer\u00e1rio&#8221; mereceram a censura do\u00a0c\u00e2none LXIX do II Conc\u00edlio de Braga do ano 572, onde se proibia que se levassem alimentos \u00e0 tumba, segundo consta no livro de Jaime Fune sobre a presen\u00e7a bizantina em &#8220;Hisp\u00e2nia&#8221; nos s\u00e9culos VI-VII. No s\u00e9culo VI, com o III Conc\u00edlio de Toledo assistimos tamb\u00e9m \u00e0 regula\u00e7\u00e3o dos ritos funer\u00e1rios.<\/p>\n<p>Com a introdu\u00e7\u00e3o progressiva do Halloween em Portugal nas \u00faltimas d\u00e9cadas, avan\u00e7a a amea\u00e7a ou risco \u00e0 continuidade do \u201cP\u00e3o-por-Deus\u201d como manifesta\u00e7\u00e3o do Patrim\u00f3nio Imaterial portugu\u00eas, por v\u00e1rios motivos: h\u00e1 uma elimina\u00e7\u00e3o dos elementos religiosos, do ritual e da oralidade subjacentes \u00e0 nossa tradi\u00e7\u00e3o&#8230; \u00c9 mais do que pura polui\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>Termino com as palavras do Padre Paulo Ricardo, sobre este tema, as quais repesquei num interessante artigo em &#8220;O Observador&#8221;: &#8220;podemos at\u00e9 admitir, como j\u00e1 explicado, que a origem do Halloween seja cat\u00f3lica; festej\u00e1-lo da forma mundana como ele \u00e9 festejado hoje, todavia, constitui muito mais um mal que propriamente um bem&#8221;.<\/p>\n<p>Apela-se, pois, ao discernimento crist\u00e3o na aprecia\u00e7\u00e3o destas mat\u00e9rias. Antes que seja tarde demais&#8230;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luz (Const\u00e2ncia).<\/p>\n<p>PS- n\u00e3o uso o dito AOLP.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/apontamentos-sobre-o-peditorio-dos-santinhos-em-constancia\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Bolinhos, bolinhos, \u00e0 porta destes santinhos&#8221;.\u00a0 Com estes versos se cantava pelas ruas da nossa vila. 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