{"id":41375,"date":"2021-10-16T15:03:02","date_gmt":"2021-10-16T14:03:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=41375"},"modified":"2021-10-16T15:03:02","modified_gmt":"2021-10-16T14:03:02","slug":"a-cantina-de-constancia-e-a-mistica-do-local","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cantina-de-constancia-e-a-mistica-do-local\/","title":{"rendered":"A cantina de Const\u00e2ncia e a &#8220;m\u00edstica&#8221; do local"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-41376 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/47440242_395049321233589_3650282903755030528_n.jpg\" alt=\"\" width=\"591\" height=\"443\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/47440242_395049321233589_3650282903755030528_n.jpg 591w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/47440242_395049321233589_3650282903755030528_n-560x420.jpg 560w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/47440242_395049321233589_3650282903755030528_n-80x60.jpg 80w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/47440242_395049321233589_3650282903755030528_n-265x198.jpg 265w\" sizes=\"auto, (max-width: 591px) 100vw, 591px\" \/>Junto \u00e0 ponte Eiffel em Const\u00e2ncia existia a taberna da Concei\u00e7\u00e3o Coimbra, a &#8220;Passinhas&#8221;. Mesmo \u00e0 entrada da ponte sobre o &#8220;rio&#8221;, o Z\u00eazere. Em bom rigor, a alcunha &#8220;Passinhas&#8221;\u00a0 advinha da madrinha da\u00a0 D. Concei\u00e7\u00e3o, ao que parece, de origem da vila de Ma\u00e7\u00e3o.\u00a0 Com dez tost\u00f5es, comprava ali vinte rebu\u00e7ados.\u00a0 Retenho na mem\u00f3ria aquela velhinha com o boi\u00e3o na m\u00e3o, a abrir a tampa, despejando ao longo do velho balc\u00e3o, os meus rebu\u00e7ados, acastanhados. Eram vinte. \u00c9ramos dois a fazer a contagem. A D. Concei\u00e7\u00e3o, de poucas palavras, cumpria o ritual,\u00a0 com o seu andar e gestos vagarosos.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as tinham o h\u00e1bito de organizar naquela altura, corridas desde a escola prim\u00e1ria at\u00e9 \u00e0 &#8220;Cantina&#8221;. A mem\u00f3ria dos homens guardava o top\u00f3nimo:&#8221; vamos ver quem \u00e9 o primeiro a chegar \u00e0 cantina!&#8221;<\/p>\n<p>Debaixo do bra\u00e7o eu levava o jornal &#8220;O S\u00e9culo&#8221; acabado de comprar no &#8220;Caf\u00e9 da ponte&#8217;.<\/p>\n<p>Chegado a casa, o meu saudoso pai recortava para mim a banda desenhada do &#8220;Fantasma&#8221;.\u00a0 E era uma alegria esperar pela pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o, para poder acompanhar a hist\u00f3ria. Eram tempos revolucion\u00e1rios. Comprava tamb\u00e9m os jornais &#8220;O &#8220;Di\u00e1rio&#8221;, &#8220;Di\u00e1rio Popular&#8221;, &#8220;A Capital&#8221; (vespertino).\u00a0 O meu &#8220;ordenado&#8221;\u00a0 eram vinte escudos mensais. Tinha aquela rotina de ir \u00e0 &#8220;cantina&#8221;, local do &#8220;Caf\u00e9 da Ponte&#8221;, da Dona Verg\u00ednia Tavares e do Sr Manuel Br\u00e1s. Depois de lermos os jornais ia oferec\u00ea-los\u00a0 ao velho Paveia, no segundo andar, defronte da farm\u00e1cia do Sr Vieira e do Godinho.<\/p>\n<p>Em tempos mais recuados tinha existido de facto naquele s\u00edtio da ponte, a &#8220;Cantina&#8221; das velhas Burguetes, tias da Elvira (dos c\u00e9lebres queijinhos do c\u00e9u) e\u00a0 da Maria do Carmo Burguete,\u00a0 onde havia uma esp\u00e9cie de &#8220;albergue&#8221; para acolher os peregrinos. A ponte foi sempre local de encontro e de cruzamentos, de passagem de forasteiros. Mais tarde, j\u00e1 nos anos 80, passava por ali\u00a0 quase todos os dias, menos \u00e0 ter\u00e7a-feira, dia de encerramento. Os propriet\u00e1rios, a Dona Verg\u00ednia e o\u00a0 sr Manuel, organizavam excurs\u00f5es e tinham o neg\u00f3cio de &#8220;letras&#8221; uma esp\u00e9cie de cr\u00e9dito. O Sr Manuel Br\u00e1s ajudou muitas fam\u00edlias de Const\u00e2ncia a ultrapassar dificuldades. Foi ele quem ofereceu a primeira ambul\u00e2ncia para a Corpora\u00e7\u00e3o dos\u00a0 bombeiros. As nossas conversas eram sempre sobre pol\u00edtica e assuntos sociais. Com sentido acentuadamente cr\u00edtico da esquerda irrespons\u00e1vel, portanto, virado \u00e0 direita&#8230; Tamb\u00e9m fal\u00e1vamos de hist\u00f3rias do contrabando na fronteira com Espanha, pois as conversas s\u00e3o como as cerejas e os segredos de algumas personalidades n\u00e3o eram de todo desconhecidos&#8230;<\/p>\n<p>Naquele local da ponte existiu no in\u00edcio do s\u00e9culo XX a ferraria do Alfredo Burguete,\u00a0 homem temido na vila, de quem se contavam hist\u00f3rias de verdadeiro terror. Alfredo Burguete acabou deportado para \u00c1frica na sequ\u00eancia da trag\u00e9dia da fonte de S\u00e3o Vicente, crime hediondo e macabro que me foi relatado pelos velhos da vila. As coisas que eu sei do Alfredo&#8230;<\/p>\n<p>O &#8220;Caf\u00e9 da Ponte&#8221; servia refei\u00e7\u00f5es e tinha uma cliente da vila, a Dona Maria Jos\u00e9 Falc\u00e3o, a qual n\u00e3o dispensava um bom bitoque da Dona Verg\u00ednia. No m\u00eas de Agosto o caf\u00e9 era local de encontro dos meus amigos emigrantes em Paris.Os &#8220;flipers&#8221; faziam a novidade e eram motivo atractivo dos jovens. Mesmo ao lado havia uma arrecada\u00e7\u00e3o onde chegou a ser constru\u00eddo um barco.<\/p>\n<p>A ponte \u00e9 sempre um encontro\u00a0 inevit\u00e1vel dos viajantes,\u00a0 caixeiros, peregrinos, ou mesmo clientes de rotina de passagem, os quais\u00a0 &#8220;faziam a casa&#8221;. N\u00e3o se pode dizer que a popula\u00e7\u00e3o da vila fosse grande frequentadora do estabelecimento.<\/p>\n<p>J\u00e1 mais recentemente, em 2013,\u00a0 aquando da minha candidatura a presidente da C\u00e2mara, escolhi o local deste antigo caf\u00e9, para sede da minha campanha. Por raz\u00f5es sentimentais.<\/p>\n<p>Sei que o edif\u00edcio era ent\u00e3o armaz\u00e9m de canoas.<\/p>\n<p>Quando and\u00e1vamos a lavar o espa\u00e7o, para preparar a nossa sede, vinham-me \u00e0 mem\u00f3ria as recorda\u00e7\u00f5es da minha inf\u00e2ncia e juventude.<\/p>\n<p>Aquelas conversas com adultos deram-me uma vis\u00e3o do mundo,,\u00a0 mais avisada. Coment\u00e1vamos os jornais e o telejornal. Sempre tive uma natural propens\u00e3o para conversar com pessoas muito mais idosas do que eu. Da Dona Verg\u00ednia e do Sr Manuel Br\u00e1s, retenho a mem\u00f3ria de dois amigos, respeitadores, preocupados\u00a0 com a qualidade de vida dos portugueses mas implac\u00e1veis com a esquerda irrespons\u00e1vel que n\u00e3o se coibiam de\u00a0 criticar.<\/p>\n<p>Eram pessoas com car\u00e1cter.<\/p>\n<p>Da velha taberna da Concei\u00e7\u00e3o Coimbra sei que era local de petiscos antigamente, na sua varanda. Nos anos 50 a minha m\u00e3e comprava ali sopa di\u00e1ria, quando regressava do Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores P\u00e1ra-quedistas onde cosia e dobrava p\u00e1ra-quedas (foi a primeira mulher em Portugal a ser admitida neste batalh\u00e3o para tal servi\u00e7o, unidade militar que foi implementada atrav\u00e9s dos espanh\u00f3is&#8230;).<\/p>\n<p>A ponte tinha uma certa m\u00edstica.<\/p>\n<p>At\u00e9 aos anos 80 havia o costume de irmos receber ali os f\u00e9retros os quais seguiam depois em cortejo sil\u00eancioso para a matriz ou directamente para o cemit\u00e9rio, consoante o veredicto do\u00a0 \u00a0prior&#8230;<\/p>\n<p>Chegou a haver cad\u00e1veres que seguiam em padiola, tal era a mis\u00e9ria humana. Mesmo em crian\u00e7a n\u00e3o deixava de espreitar todos os funerais&#8230;<\/p>\n<p>A volta a Portugal em bicicleta era mais uma oportunidade para encontros na ponte.<\/p>\n<p>No outro extremo da ponte existia a casa da m\u00e3e da &#8220;Mari\u00a0 da Ponte&#8221; onde se faziam bailes \u00e0 moda do tempo.<\/p>\n<p>Segundo o cronista Joaquim dos M\u00e1rtires Neto Coimbra, meu saudoso amigo, aquando da constru\u00e7\u00e3o da ponte no final do s\u00e9culo XIX, ainda existia a fonte do Vig\u00e1rio, ent\u00e3o destru\u00edda.<\/p>\n<p>Era ponto de encontro de namorados. Na antiga estrada perto do rio, l\u00e1 est\u00e3o ainda os bancos acolhedores&#8230;<\/p>\n<p>Por volta de 1937\/8\u00a0 quando o meu av\u00f4 materno passava a ponte a p\u00e9 mais a sua prole, estava l\u00e1 por acaso do destino o meu pai, e esse facto foi-me relatado por ele.<\/p>\n<p>A ponte \u00e9 sinal de uni\u00e3o de margens e de homens. A ponte \u00e9 um reposit\u00f3rio imag\u00e9tico.<\/p>\n<p>Hoje&#8230; \u00e9 um local abandonado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luz (Const\u00e2ncia)<\/p>\n<p>PS- n\u00e3o uso o dito AOLP.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cantina-de-constancia-e-a-mistica-do-local\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Junto \u00e0 ponte Eiffel em Const\u00e2ncia existia a taberna da Concei\u00e7\u00e3o Coimbra, a &#8220;Passinhas&#8221;. 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