{"id":39486,"date":"2021-09-05T12:20:31","date_gmt":"2021-09-05T11:20:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=39486"},"modified":"2021-09-05T12:22:14","modified_gmt":"2021-09-05T11:22:14","slug":"denuncia-do-colonialismo-e-da-escravatura-pelo-poeta-constanciense-tomaz-vieira-da-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/denuncia-do-colonialismo-e-da-escravatura-pelo-poeta-constanciense-tomaz-vieira-da-cruz\/","title":{"rendered":"Den\u00fancia do colonialismo e da escravatura pelo poeta constanciense Tomaz Vieira da Cruz"},"content":{"rendered":"<p>Tomaz Vieira da Cruz, poeta da vila de Const\u00e2ncia, destacou-se por ter sido o primeiro poeta a abordar os temas da escravatura, da mesti\u00e7agem e da \u00abra\u00e7a\u00bb negra. Foi tamb\u00e9m pioneiro no tratamento de temas sobre a descaracteriza\u00e7\u00e3o da tradicional paisagem urbana de Angola. Um conterr\u00e2neo a figurar num futuro mural dos poetas de Const\u00e2ncia, com obra reconhecida nacional e internacionalmente.<\/p>\n<p>Quando se fala do poeta constanciense e da lusofonia, Tomaz Vieira da Cruz, incide-se muito sobre a quest\u00e3o da literatura colonial. Com a presente cr\u00f3nica pretendo despoletar a aten\u00e7\u00e3o dos cr\u00edticos para o nacionalismo integro do nosso poeta, a despeito de algumas ideias feitas que lhe t\u00eam sido coladas por alguns, sem qualquer justifica\u00e7\u00e3o, a meu ver.<\/p>\n<p>Para Francisco Soares \u00e9 urgente que compreendamos o processo liter\u00e1rio perseguido e constru\u00eddo pelo \u00abpr\u00edncipe dos poetas coloniais\u00bb para assim o situarmos com exactid\u00e3o na cronologia liter\u00e1ria do territ\u00f3rio que ent\u00e3o o recebeu, Angola, hoje, pa\u00eds da lusofonia de pleno direito.<\/p>\n<p>Sabemos que escritores nacionalistas como Agostinho Neto e Viriato da Cruz, glosaram motivos e temas que Tomaz manejara com mestria.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria liter\u00e1ria que Angola gravou de Tomaz durante d\u00e9cadas parece contrastar com uma maioria de escritores do segmento colonial e aut\u00f3ctones, de \u00abincipiente pregui\u00e7a\u00bb.<\/p>\n<p>Em 1966 o jornal ABC dedicou ao ilustre filho da vila de Const\u00e2ncia um suplemento (1) on de se pode ler, por exemplo: \u00abDa estada na capital do Imp\u00e9rio ficou-lhe a conviv\u00eancia com o meio liter\u00e1rio e art\u00edstico lisboeta, muito em especial com Ant\u00f3nio Botto\u00bb. \u00a0Este poeta elogiou-lhe a poesia e entre a l\u00edrica de ambos encontrou M\u00e1rio Ant\u00f3nio v\u00e1rias afinidades, como descreve o dito suplemento: uma coloquialidade \u00abentre popular e requintada\u00bb, \u00aba nota\u00e7\u00e3o de tempo como factor de um ritmo mentalizado dos poemas\u00bb [\u2026] uma vis\u00e3o pl\u00e1stica em que o poeta se compraz [\u2026] o requinte de certas imagens [\u2026} o descritivo vivo de certos poemas [\u2026] uma certa tend\u00eancia para o aforismo\u00bb.<\/p>\n<p>Francisco Soares, prefaciando o livro \u00abQuissanje\u00bb de Tomaz, fonte privilegiada da presente cr\u00f3nica, d\u00e1-nos uma vis\u00e3o cr\u00edtica, informada, e quase completa da evolu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria do poeta.<\/p>\n<p>O leque de influ\u00eancias do poeta Tomaz \u00e9, por\u00e9m, muito mais alargado do que se poderia antever \u00e0 partida, numa an\u00e1lise, sum\u00e1ria, passando pelo saudosismo, integralismo e decantismo, antes de mais. O modernismo de Orfeu t\u00ea-lo-\u00e1 influenciado menos. Nos seus primeiros poemas iniciais a refer\u00eancia africana \u00e9 escassa. Segue geralmente estruturas tradicionais portuguesas. O versilibrismo ter\u00e1 sido influenciado por Pascoaes e Ant\u00f3nio Botto.<\/p>\n<p>No dizer informado de Francisco Gomes \u00abquando algu\u00e9m que se diga nacionalista promove a destrui\u00e7\u00e3o de outras na\u00e7\u00f5es torna-se imperialista e colonialista\u00bb. Tomaz Vieira da Cruz, pelo contr\u00e1rio, \u00abdenunciando as injusti\u00e7as, a escravatura, a imoralidade de certos colonos e de certas situa\u00e7\u00f5es coloniais, tal como irmanando-se com os Bailundos e outros povos colonizados, demonstra ter sido um nacionalista \u00edntegro mais do que integralista\u00bb. (2)<\/p>\n<p>O poema in\u00e9dito que o poeta Tom\u00e1s Jorge, filho de Tomaz Vieira da Cruz deu \u00e0 luz atrav\u00e9s das publica\u00e7\u00f5es Imbondeiro (3), intitulado \u00ab\u00c1frica\u00bb, segundo o citado autor do pro\u00e9mio de \u00abQuissanje\u00bb, \u00abtira de vez aos mais c\u00e9pticos qualquer d\u00favida sobre este homem visceralmente portugu\u00eas e humanamente africanizado:<\/p>\n<h6>Quando os homens compreenderem na voz do mar<br \/>\na tr\u00e1gica sinfonia<br \/>\ndas ondas pedindo ao C\u00e9u<br \/>\njusti\u00e7a do seu perd\u00e3o,<br \/>\nent\u00e3o podeis olhar de Deus o olhar clemente<br \/>\nque nos est\u00e1 olhando em cada estrela<br \/>\ne nos est\u00e1 julgando eternamente!<\/h6>\n<p>Ent\u00e3o podeis ouvir todo o Sert\u00e3o<br \/>\nGritando por seus filhos naufragados<br \/>\nnos temporais de cada escravid\u00e3o,<br \/>\nou exilados, longe, como r\u00e9us<br \/>\nda civiliza\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Ent\u00e3o podeis ouvir a voz da \u00c1frica<br \/>\nNo cora\u00e7\u00e3o de Deus!\u00bb<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia art\u00edstica na metr\u00f3pole permitiu a Tomaz ficar informado sobre os grandes actores de teatro e, depois, do cinema, dessa \u00e9poca.\u00a0 O poeta inclui-se agora no grupo dos que mais entusiasmadamente pugnaram pela vinda de grandes companhias e de actores conhecidos a Angola. Francisco Gomes refere mesmo um belo poema que Tomaz dedicou a Alves da Costa, aquando da sua passagem por Luanda. \u00c9 com esta forma\u00e7\u00e3o cultural que Tomaz Vieira da Cruz avan\u00e7a para Angola, instalando-se em Novo Redondo (hoje Sumbe), em 1924.<\/p>\n<p>J\u00e1 no \u00abex\u00edlio amoroso\u00bb, as aspira\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e culturais levam-no a promover recitais e pe\u00e7as de teatro. Criou o jornal \u00abMocidade\u00bb, publica\u00e7\u00e3o mensal liter\u00e1ria, art\u00edstica e de not\u00edcias.<\/p>\n<p>A integra\u00e7\u00e3o de Tomaz no meio rural de Novo Redondo, ter\u00e1 tido influ\u00eancias decisivas sobre o poeta, levando a uma \u00abreviravolta\u00bb o seu nacionalismo. Para Francisco\u00a0 Soares, o nosso conterr\u00e2neo tornou-se \u00abum caso raro de criouliza\u00e7\u00e3o e de entrega ao outro, com paralelo na cultura portuguesa s\u00f3 em Wenceslau de Morais\u00bb.<\/p>\n<p>A sua integra\u00e7\u00e3o na pequena vila, hoje,\u00a0 Sumbe,\u00a0 deu-lhe de \u00c1frica uma viv\u00eancia muito mais\u00a0 completa e peculiar do que a que teria em Luanda, defende. Da\u00ed a africanidade dos seus versos, remata.<\/p>\n<p>Em \u00abBailundos\u00bb Tomaz retrata, com superioridade, o drama da \u00abgente negra\u00bb.\u00a0 Neste e noutros\u00a0 poemas,\u00a0 o poeta faz a denuncia das mulheres enganadas e trocadas de \u00abimporta\u00e7\u00e3o\u00bb, bem como das sequelas da escravatura.<\/p>\n<p>Amou e respeitou o \u00abselvagem\u00bb chamando-se a si \u00abprimitivo\u00bb. Para Francisco Soares o soneto mais vibrante escrito por Tomaz define-o de tal forma que a partir dele, explica,\u00a0 \u00abse deve compreender a sua poesia e a sua personalidade\u00bb. Chama-se\u00a0 \u00abA \u00faltima batalha\u00bb. O amor a\u00ed define-se quer como o \u00abtr\u00f3pico\u00bb mas tamb\u00e9m como a \u00abautobiografia\u00bb.<\/p>\n<p>Mas o amor em Tomaz \u00e9 tamb\u00e9m, sensual e concupiscente. \u00c9 tamb\u00e9m,\u00a0 \u00aba entrega absoluta e tra\u00edda, ou desesperada, das mulheres aos colonos que depois as abandonaram, aos homens que o mar levou na escravatura do Brasil e das Am\u00e9ricas, etc\u00bb. \u00c9, ainda, uma soma an\u00edmica. Esta componente permite perceber passagens como aquela em que se diz que as duas \u00abra\u00e7as\u00bb se encontraram \u00abno mato, em nostalgia, \/ num ex\u00edlio carinhoso\u00bb (no poema \u00abMulata\u00bb).<\/p>\n<p>A palavra \u00absaudade\u00bb atravessa e perpassa muitas das p\u00e1ginas dos seus livros, emergindo desde logo no subt\u00edtulo do primeiro, \u00abSaudade negra\u00bb. A palavra \u00absaudade\u00bb em Tomaz n\u00e3o se reduz\u00a0 ao saudosismo, ali\u00e1s, aliado ao sebastianismo. Parece haver no soneto \u00abP\u00e1tria minha\u00bb uma saudade pr\u00f3pria, individual, criativa, conquanto dolente, do imp\u00e9rio de sonho e de maravilha da verde mocidade\u2026 ao mesmo tempo, uma saudade do pa\u00eds dos negros. Comos se houvesse, duas saudades\u2026<\/p>\n<p>Saudade, pois, da \u00abNeta de escravos\u00bb: \u00abNa praia de Quicombo olhando o mar,\/ como quem espera algu\u00e9m que anda perdido\u00bb, \/ a triste e linda \u00c9bo, a olhar, a olhar, \/ tem l\u00e1grimas no rosto humedecido\u00bb\u2026 e at\u00e9 hoje \u00abainda espera\u00a0 quem n\u00e3o volta mais\u00bb.<\/p>\n<p>Em Tomaz o sentimento saudoso tamb\u00e9m aparece ligado ao fatalismo. No \u00abDrama em Kaungula\u00bb, express\u00e3o superior da dignidade da mulher enganada e trocada pela \u00abbranca\u00bb, a personagem central \u00e9 definida como \u00abaquela que morria de saudades\u00bb. A saudade \u00e9 a\u00ed o veio\u00a0 de liga\u00e7\u00e3o entre o amor e a morte.<\/p>\n<p>Obrigado Francisco Soares.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luz (Const\u00e2ncia)<\/p>\n<p>PS \u2013 n\u00e3o uso o dito AOLP. Tomaz Vieira da Cruz,\u00a0 poeta portugu\u00eas nascido em 22 de Abril de 1900, na vila de Const\u00e2ncia,\u00a0 falecido em 7 de Junho de 1960, em Lisboa. Em 1924, partiu para Angola e a\u00ed continuou quase at\u00e9 ao final da sua vida. Foi o fundador e director do jornal liter\u00e1rio Mocidade. Publicou Vit\u00f3ria de Espanha (1939), Cinco Poesias de \u00c1frica (1950), Quissange &#8211; Saudade Negra (1932), Tatuagem (1941) e Cazumbi (1950).\u00a0 Segundo a\u00a0 Infop\u00e9dia, \u00absalientou-se por ter sido o primeiro poeta a abordar os temas da escravatura, a mesti\u00e7agem e a ra\u00e7a negra, assim como a descaracteriza\u00e7\u00e3o da tradicional paisagem urbana de Angola\u00bb.\u00a0 N\u00e3o foi inclu\u00eddo pelo munic\u00edpio da sua terra natal nos dois murais dos poetas.<\/p>\n<p>(1) Notas biobibliogr\u00e1ficas\u00bb do supl. \u00abArtes e Letras\u00bb, Jornal ABC \u2013 Di\u00e1rio de Angola, 10 de Junho de 1966.<\/p>\n<p>(2) Quissange, Tomaz Vieira da Cruz, Imprensa Nacional da moeda, 2004. Com pref\u00e1cio not\u00e1vel de Francisco Soares, que sigo de bem perto no presente artigo, indispens\u00e1vel para o estudo da obra do poeta.<\/p>\n<p>(3) Antologia Po\u00e9tica Angolana, I, S\u00e1 da Bandeira, col. Imbondeiro, 1963.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/denuncia-do-colonialismo-e-da-escravatura-pelo-poeta-constanciense-tomaz-vieira-da-cruz\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tomaz Vieira da Cruz, poeta da vila de Const\u00e2ncia, destacou-se por ter sido o primeiro poeta a abordar os temas da escravatura, da mesti\u00e7agem e da \u00abra\u00e7a\u00bb negra. 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