{"id":38081,"date":"2021-08-01T19:54:00","date_gmt":"2021-08-01T18:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=38081"},"modified":"2021-08-02T09:30:41","modified_gmt":"2021-08-02T08:30:41","slug":"38081-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/38081-2\/","title":{"rendered":"JANELA SOBRE A CIDADE | Maria Asseiceiro | \u201cF\u00c9RIAS!\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal \u201cO Entroncamento\u201d de seu nome \u201cJanela sobre a cidade\u201d, cujos textos voltamos a publicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cF\u00c9RIAS!\u201d<\/p>\n<p>Um direito, um privil\u00e9gio ou uma necessidade?<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de cinquenta anos, para mim, ir para a praia era um privil\u00e9gio. Dez anos depois, f\u00e9rias al\u00e9m da praia era a alegria do reencontro com amigos habituais, sempre na mesma \u00e9poca do ano: f\u00e9rias escolares, f\u00e9rias grandes! Mais uma d\u00fazia de anos passados, as f\u00e9rias tinham um peso e um significado bem diferentes&#8230;<\/p>\n<p>-Posso ter f\u00e9rias este ano? Tenho mesmo necessidade delas!&#8230; Planeava, fazia c\u00e1lculos, escolhia itiner\u00e1rios e decidia depois de ponderados os pr\u00f3s e os contras. S\u00f3 ent\u00e3o me apercebi que durante muitos anos fui privilegiada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s minhas companheiras de escola, a maior parte delas nunca tinham visto a imensid\u00e3o do mar nem brincado com as areias da praia. At\u00e9 a minha Av\u00f3 curvada pelo esfor\u00e7o do trabalho e pelo peso dos anos, nunca teve f\u00e9rias nunca viu o mar\u2026!<\/p>\n<p>Estas situa\u00e7\u00f5es levaram-me a observar os v\u00e1rios crit\u00e9rios de justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>No campo o trabalho era de sol a sol e a f\u00e9ria era o resultado desse trabalho. F\u00e9rias sin\u00f3nimo de descanso, sabia-se l\u00e1 o que era!<\/p>\n<p>No Entroncamento a C.P. dava f\u00e9rias aos seus empregados, mas como o ordenado auferido era curto e o m\u00eas comprido, este per\u00edodo de descanso tinha u- perguntava desolado, o meu filho\u2026m destino certo: &#8220;Vou para a Terra&#8221;, diziam.<\/p>\n<p>Era um \u00eaxodo! Aqui apenas ficavam os que aqui nasciam e de c\u00e1 eram naturais. Todos os anos eu via o ar desolado dos meus filhos, sem amigos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e3e, porque \u00e9 que a gente n\u00e3o tem terra?! &#8211; perguntava desolado, o meu filho\u2026m destino certo: &#8220;Vou para a Terra&#8221;, diziam.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas de 50, 60 falava-se em subs\u00eddio de f\u00e9rias&#8230; Muitos riam, alguns acreditavam, quase todos duvidavam. De facto, este benef\u00edcio foi consignado na lei: empresas privadas primeiro e na C.P. depois.<\/p>\n<p>Do Acordo Colectivo de Trabalho entre a Companhia dos Caminhos de Ferro e os Sindicatos dos Ferrovi\u00e1rios do ano de 1969, Capitulo II, Cl\u00e1usula 107\u00aa, pode ler-se: &#8220;&#8230; Ser\u00e1 concedido aos agentes com mais de um ano de servi\u00e7o no in\u00edcio das f\u00e9rias, um subs\u00eddio igual a cinquenta por cento da retribui\u00e7\u00e3o correspondente ao total dos dias de f\u00e9rias a que nesse ano tinham direito&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>S\u00f3 em 1975 no Acordo Colectivo de Trabalho da Empresa, na Cl\u00e1usula 102\u00aa &#8220;&#8230; Os trabalhadores receber\u00e3o um subs\u00eddio n\u00e3o inferior \u00e0 retribui\u00e7\u00e3o mensal a que t\u00eam direito&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Independentemente da ajuda que este subs\u00eddio trouxe \u00e0s fam\u00edlias portuguesas e ao direito que a todos assiste de fazerem uma pausa para recuperarem for\u00e7as, para olharem a fam\u00edlia com tranquilidade, ainda assim subsiste muita injusti\u00e7a social!<\/p>\n<p>O subsidio de f\u00e9rias \u00e9, como acab\u00e1mos de ver, um direito, mas se analisarmos em profundidade deparamo-nos muito simplesmente com isto: muitas dezenas de milhares de desempregados; alguns milhares metidos em pris\u00f5es e hospitais&#8230; e se calhar um n\u00famero ainda maior de pessoas que n\u00e3o estando num lado nem noutro, n\u00e3o fazem parte da popula\u00e7\u00e3o activa. Ent\u00e3o, temos de, muito honestamente, reconhecer que, F\u00e9rias s\u00e3o um privil\u00e9gio do qual s\u00f3 alguns podem usufruir.<\/p>\n<p>Porque vivemos num tempo sem tempo para coisa nenhuma, porque se corre os 365 dias do ano sem reparar que os grilos ainda grilam e as cigarras ainda cantam, porque os meninos v\u00e3o para os Jardins de Inf\u00e2ncia e os idosos se arrumam nos Lares, \u00e9 imperioso e urgente ter f\u00e9rias para repensar tudo isto.<\/p>\n<p>\u00c9 a correr que se come, \u00e9 a correr que se cumprimenta um amigo, \u00e9 assim que se responde \u00e0s muitas interroga\u00e7\u00f5es das nossas crian\u00e7as&#8230; \u00c9 assim que se passeia ou se reza.<\/p>\n<p>Em f\u00e9rias \u00e9 poss\u00edvel descansar, conviver calma e serenamente; h\u00e1 a possibilidade de, ao darmos um passeio, admirar o desabrochar de uma flor e contemplar o azul do c\u00e9u.<\/p>\n<p>F\u00e9rias \u00e9 dar tr\u00e9guas \u00e0 vida.<\/p>\n<p>F\u00e9rias s\u00e3o, al\u00e9m dum direito, uma necessidade de todo o ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Maria da Guia Asseiceiro<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">(1994)<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/38081-2\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal \u201cO Entroncamento\u201d de seu nome \u201cJanela sobre a cidade\u201d, cujos textos voltamos a publicar. \u201cF\u00c9RIAS!\u201d Um direito, um privil\u00e9gio ou uma necessidade? 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