{"id":35671,"date":"2021-06-11T10:45:42","date_gmt":"2021-06-11T09:45:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=35671"},"modified":"2021-06-11T17:59:39","modified_gmt":"2021-06-11T16:59:39","slug":"manuel-fernandes-vicente-o-caso-dos-musicos-do-entroncamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-o-caso-dos-musicos-do-entroncamento\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | O caso dos m\u00fasicos do Entroncamento"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Tem sido patente e \u00f3bvio, no Entroncamento, e \u00e9-o j\u00e1 h\u00e1 bastantes anos, o not\u00e1vel desempenho de muitos m\u00fasicos da cidade, ou da sua \u00e1rea de influ\u00eancia, que em diversas circunst\u00e2ncias se destacaram a um alt\u00edssimo n\u00edvel e brilharam mesmo no panorama nacional\u00a0 \u0336\u00a0 e que procuram, no dif\u00edcil contexto atual, prosseguir uma carreira profissional ou semiprofissional na \u00e1rea (dif\u00edcil) que escolheram para viver. Numa altura em que nos aproximamos dos dias em que o Entroncamento costumava celebrar as festas da cidade, palco onde estes artistas sempre recebiam o carinho e o reconhecimento do burgo e dos seus f\u00e3s, \u00e9 pertinente reconhecer o seu importante papel na constru\u00e7\u00e3o de uma certa identidade local, sem esquecer as dificuldades que porventura alguns estejam a passar com o \u201cfecho da torneira\u201d dos concertos, dos eventos musicais, dos bares e das muitas festas populares um pouco por todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ao longo dos \u00faltimos anos, e mesmo j\u00e1 em 2021, em distintos programas e concursos de grande impacto dos principais canais de TV do pa\u00eds, muitos de n\u00f3s habitu\u00e1mo-nos a admirar as <em>performances<\/em> e o talento revelados por cantores locais, como Ricardo Oliveira, Filipe Santos, Pedro Dion\u00edsio, Gon\u00e7alo Serras, Ricardo Monteiro e Mariana Tavares, entre outros. E a eles associaram-se, com projetos comuns ou paralelos, outros m\u00fasicos e grupos com trajetos j\u00e1 vindos mais de tr\u00e1s, uns veteranos, outros consagrados, e alguns emergentes, como Walter Alexandre, Ricardo Esteves, Ricardo Costa, Dominique Ventura, Rui Almeida, Jo\u00e3o Pedro Vieira, Lu\u00eds Santos, Jos\u00e9 Lu\u00eds Borga, Fun2Rock (de Fernando Espanhol e Jo\u00e3o Tom\u00e9), Jorge Gerardo, Jos\u00e9 Maia, Jorge Esperan\u00e7a (e o seu quarteto), Jo\u00e3o Almeida (Carocho), Banda Klassikus, Amarelo, Dulce F\u00e9lix e Nuno Gon\u00e7alves, tendo eu consci\u00eancia da inevit\u00e1vel omiss\u00e3o de cantores e m\u00fasicos que mereceriam que a n\u00e3o fizesse.<\/p>\n<p>Estes m\u00fasicos, pela coopera\u00e7\u00e3o estreita que souberam gerar entre si, e em projetos coletivos ou identit\u00e1rios (por exemplo, em torno dos Fen\u00f3menos do Entroncamento, nas Festas da Cidade ou no Projeto Remember, a inspira\u00e7\u00e3o de Joaquim Raimundo \u2212 Quit\u00f3, que apostou em m\u00fasicos da cidade, e tamb\u00e9m aguarda pelo fim do desconfinamento, ou pelas atua\u00e7\u00f5es em bares e esplanadas no Entroncamento e na regi\u00e3o), sempre deram a imagem de uma <em>movida <\/em>pr\u00f3pria, com os seus adeptos e uma din\u00e2mica entusiasmada.<\/p>\n<p>Mostraram-se, assim, sinais da ocorr\u00eancia de um novo <em>fen\u00f3meno<\/em>, embora em moldes diferentes. Uma singularidade com que os \u00faltimos anos brindaram a cidade. Mas ser\u00e1, assim mesmo, um Fen\u00f3meno do Entroncamento, com o seu rosto aleat\u00f3rio e surpreendente?<\/p>\n<p>Pelos primeiros anos da d\u00e9cada de 1970, os EUA debatiam-se com a praga de uma criminalidade descontrolada e que n\u00e3o parava de ultrapassar os palpites que se faziam sobre a sua evolu\u00e7\u00e3o, por mais pessimistas e sombrios que estes fossem. Os criminologistas, as pol\u00edcias, os soci\u00f3logos e todos os peritos com interesses no caso n\u00e3o paravam de \u201cexplicar\u201d o fen\u00f3meno e sugerir estrat\u00e9gias alternativas para o combate ao crime. Que devia haver um maior controlo no uso das armas e pagar pela sua recolha, que se devia aumentar o n\u00famero de pol\u00edcias nas ruas, que estes deviam usar estrat\u00e9gias mais inovadoras, que se devia aplicar a pena de morte e outras de grande severidade, que a economia fr\u00e1gil e o desemprego que gerava \u00e9 que eram culpados, e mais isto e mais aquilo.<\/p>\n<p>Mas a raz\u00e3o mais s\u00f3lida desta criminalidade n\u00e3o era nenhum dos mil motivos invocados nas ruas, nos tribunais, nas esquadras e nos jornais\u00a0 \u00a0\u0336 \u00a0que tamb\u00e9m inclu\u00edam alus\u00f5es \u00e9tnicas, sexuais, pol\u00edticas e at\u00e9 religiosas. A raz\u00e3o mais consistente nem era ent\u00e3o pass\u00edvel de se imaginar, ou prever sequer as suas implica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sucede que em 22 de janeiro de 1973, na sequ\u00eancia de uma senten\u00e7a do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) dos EUA, o recurso ao aborto foi abruptamente alargado a todo o pa\u00eds, e as mulheres que n\u00e3o desejavam ter filhos (que h\u00e3o de ter motivos razo\u00e1veis para isso) podiam evit\u00e1-los, recorrendo legalmente aos hospitais. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, as estat\u00edsticas federais come\u00e7am, entretanto, a dar consistentemente not\u00edcias de uma evid\u00eancia surpreendente: a criminalidade nos EUA estava a baixar de uma forma dr\u00e1stica \u2013 e n\u00e3o era consequ\u00eancia de nenhuma medida avulsa mais recente. O que estava a suceder estava ligado a uma raz\u00e3o nascida 17 anos antes e com a paternalidade do STJ norte-americano. O crime estava a baixar pela simples raz\u00e3o de que os seus presum\u00edveis autores n\u00e3o tinham nascido 17 (ou mais) anos antes. O que sucedia nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980 \u00e9 que, n\u00e3o podendo abortar antes, centenas de milhares de mulheres tinham filhos que ou n\u00e3o desejavam ou n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es para os criar. Muitas eram m\u00e3es ainda adolescentes, sem estudos, pobres e sem condi\u00e7\u00f5es de proporcionar um lar est\u00e1vel aos filhos. Nos anos 70, estes mi\u00fados cresciam desamados e abandonados, tornavam-se adolescentes revoltados, antitudo e rapidamente abra\u00e7avam os trilhos do crime. Mas nos anos 90, estes mi\u00fados j\u00e1 n\u00e3o cometiam crimes \u00a0\u0336\u00a0\u00a0 simplesmente porque n\u00e3o tinham nascido em 1974 e nos anos seguintes. Sem eles, os delitos n\u00e3o tinham o seu grande pasto para arder. Acontece que foi gra\u00e7as aos autores Steven Levitt e a John Donohue que se p\u00f4de estabelecer esta rela\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o faz deles supostos defensores do aborto, mas apenas investigadores que foram capazes de ligar elos de causa-efeito com 17 anos a separ\u00e1-los. E, como gostava de dizer Jos\u00e9 Saramago, factos s\u00e3o factos. \u00c9 f\u00e1cil atribuir uma causalidade entre uma queda infeliz e a fratura da bacia que ocorre de imediato. Mas, descobrir que uma causa produziu efeitos consequentes 17 anos depois, exigiu uma forma diferente de pensar, a que o influente psic\u00f3logo Daniel Kahneman se referia quando distinguia o pensamento r\u00e1pido e intuitivo, do pensamento lento e refletido.<\/p>\n<p>No Entroncamento, na \u00faltima dezena de anos (talvez at\u00e9 um pouco mais) houve uma notoriedade enorme de m\u00fasicos nativos, alguns com interessantes hist\u00f3rias para contar e pr\u00e9mios merit\u00f3rios, mas ter-se-\u00e1 devido isso a alguma chispa de sorte ou a algum cometa que deixou magia semeada pela cidade? A resposta para esta quest\u00e3o, uma vez mais, t\u00eam que se procurar algumas d\u00e9cadas antes, nos anos 1980 e 1990, e m\u00fasicos como Gon\u00e7alo Serras, reconhecem-no sem hesita\u00e7\u00e3o. A resposta vem distante, dos Festivais da Can\u00e7\u00e3o do Entroncamento, organizados pelo Clube Amador de Desportos do Entroncamento (CADE), apresentados no velho e esgotado \u201cCine-Teatro S\u00e3o Jo\u00e3o\u201d e vividos intensamente pelos jovens cantores da cidade e pelas suas fam\u00edlias\u00a0 \u0336 \u00a0e que os tempos modernos empurraram j\u00e1 para o limbo do esquecimento. Cada festival teve a sua hist\u00f3ria, era o acontecimento anual, muitos lembram-se ainda da Fernanda Oliveira e do saudoso Toni Oliveira, e nele tamb\u00e9m pontificavam Jo\u00e3o Saruga e a log\u00edstica do clube e da autarquia como suportes de toda a engrenagem. Foram certames atr\u00e1s de certames que geraram muita motiva\u00e7\u00e3o, e exigiam esfor\u00e7o, dedica\u00e7\u00e3o, estudo e muita forma\u00e7\u00e3o \u2013 os m\u00fasicos davam o melhor de si, e procuravam sempre superar-se e surpreender.<\/p>\n<p>Alguns anos mais tarde surpreenderam o pa\u00eds, sim, mas n\u00e3o nos deviam surpreender a n\u00f3s. Os Festivais da Can\u00e7\u00e3o do CADE tiveram a sua \u00e9poca, possivelmente n\u00e3o repet\u00edvel, mas quem quiser compreender o sucesso de hoje ter\u00e1 de recorrer ao trabalho ativo, motivado e distante dessas d\u00e9cadas encantadas. E ilustram mais uma vez, pelo exemplo, que \u201csucesso\u201d antes de \u201ctrabalho\u201d s\u00f3 nos dicion\u00e1rios\u2026<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-o-caso-dos-musicos-do-entroncamento\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem sido patente e \u00f3bvio, no Entroncamento, e \u00e9-o j\u00e1 h\u00e1 bastantes anos, o not\u00e1vel desempenho de muitos m\u00fasicos da cidade, ou da sua \u00e1rea de influ\u00eancia, que em diversas circunst\u00e2ncias se destacaram a um alt\u00edssimo n\u00edvel e brilharam mesmo no panorama nacional\u00a0 \u0336\u00a0 e que procuram, no dif\u00edcil contexto atual, prosseguir uma carreira profissional [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-35671","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35671","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35671"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35671\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35671"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35671"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35671"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}