{"id":35443,"date":"2021-06-06T10:11:47","date_gmt":"2021-06-06T09:11:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=35443"},"modified":"2021-06-06T10:11:47","modified_gmt":"2021-06-06T09:11:47","slug":"subsidios-para-a-historia-da-origem-dos-arcos-da-casa-de-camoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/subsidios-para-a-historia-da-origem-dos-arcos-da-casa-de-camoes\/","title":{"rendered":"Subs\u00eddios para a hist\u00f3ria da origem\u00a0dos arcos da Casa de Cam\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Existem em Const\u00e2ncia duas tradi\u00e7\u00f5es sobre o degredo de Cam\u00f5es que se perdem na mem\u00f3ria dos tempos e das quais o ilustre camonista, Dr Adriano Burguete, nos deixou registo nos seus estudos publicados nos anos 40. Uma das tradi\u00e7\u00f5es coloca o poeta no Pal\u00e1cio da Torre e, a outra, na conhecida \u00abCasa dos Arcos\u00bb. \u00c9 mais propriamente sobre a quest\u00e3o dos \u00abarcos\u00bb da \u00abCasa de Cam\u00f5es\u00bb que versa o presente artigo pois creio poder trazer algo de in\u00e9dito(?). O assunto da origem dos \u00abarcos\u00bb divide as opini\u00f5es e, parece, ainda far\u00e1 correr alguma tinta. Vem-me \u00e0 mem\u00f3ria a pol\u00e9mica do in\u00edcio dos anos 90 sobre o projecto da sede da Associa\u00e7\u00e3o da Casa Mem\u00f3ria, de Victor Consiglieri. Na altura promovi um abaixo-assinado que recolheu\u00a0 mais de trezentas assinaturas para que a obra avan\u00e7asse \u2013 em resposta a um abaixo-assinado que pretendia embargar a obra. Em causa estavam, alegadamente, as linhas revolucion\u00e1rias da sede da associa\u00e7\u00e3o (os arcos j\u00e1 estavam estilizados no projecto, tal como no monumento de Lagoa Henriques). Alguns queriam que houvesse uma reconstru\u00e7\u00e3o da \u00abCasa dos Arcos\u00bb como a conheciam de algumas fotos. Com arcos, tal qual.\u00a0 N\u00e3o perceberam (ou queriam confundir\u2026) na altura que a obra n\u00e3o poderia parar, sob pena de n\u00e3o vir a ser mais apoiada pelo parlamento. A <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-35444 alignleft\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Foto__2Constancia.jpg\" alt=\"\" width=\"398\" height=\"272\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Foto__2Constancia.jpg 634w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Foto__2Constancia-218x150.jpg 218w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Foto__2Constancia-615x420.jpg 615w\" sizes=\"auto, (max-width: 398px) 100vw, 398px\" \/>Dona Manuela de Azevedo, eterna fundadora e presidente da associa\u00e7\u00e3o, explicou aos contestat\u00e1rios que as ru\u00ednas quinhentistas seriam preservadas. O que aconteceu.\u00a0 E que, de futuro, n\u00e3o ficaria fora de hip\u00f3tese, uma reconstru\u00e7\u00e3o dos \u00abarcos\u00bb.\u00a0 Uma casa como a do s\u00e9culo XIX, na verdade, nunca serviria os fins da associa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 por si. Prevaleceu o bom senso e o abaixo-assinado que promovi de apoio \u00e0 obra e \u00e0 est\u00e9tica do projecto fez vingar o projecto. O assunto percorreu os di\u00e1rios nacionais. E nunca me saiu da mem\u00f3ria. Porque foi uma luta dura na defesa da associa\u00e7\u00e3o. O projecto esteve para discuss\u00e3o p\u00fablica e muitos dos contestat\u00e1rios (cerca de 90 pessoas, muitos deles nem eram do Concelho) esperaram que o prazo terminasse para virem tentar embargar a obra pela qual tanto almej\u00e1vamos desde sempre. Estavam do lado errado da hist\u00f3ria. Assim como est\u00e3o errados os que pretendem retirar \u00e0 associa\u00e7\u00e3o a sua genu\u00edna liberdade e autonomia, com o falso pretexto de que \u00e9 imposs\u00edvel subsidiar as suas actividades sem ser com contratos-programa e com a chamada influ\u00eancia dominante da c\u00e2mara. Nada de mais falso. Os munic\u00edpios podem financiar as actividades das associa\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da lei das autarquias locais. A n\u00e3o ser que as queiram controlar politicamente\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o sendo versado em hist\u00f3ria ou sequer em arquitectura mais n\u00e3o poderei do que emitir a minha vis\u00e3o pessoal, face aos elementos de que disponho sobre a quest\u00e3o dos \u00abarcos\u00bb. Nestas mat\u00e9rias em que n\u00e3o h\u00e1 provas irrefut\u00e1veis, nunca podemos dar como definitivas quaisquer conclus\u00f5es a que possamos chegar.<\/p>\n<p>\u00c9 comum ler-se que os arcos da \u00abCasa de Cam\u00f5es\u00bb teriam sido acrescentados \u00e0 casa pelo Bacharel Jo\u00e3o Ant\u00f3nio de Moraes, no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, aquando da sua reconstru\u00e7\u00e3o, dada a ru\u00edna a que havia chegado (refira-se que o edif\u00edcio tinha acolhido anteriormente os servi\u00e7os da C\u00e2mara e da verea\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Leith Hay, oficial ingl\u00eas das campanhas da guerra peninsular deixou-nos uma gravura datada de 1810 (1), em que na vista parcial da vila surgem na \u00abCasa de Cam\u00f5es\u00bb precisamente tr\u00eas janelas rasgadas em forma de arco.\u00a0 Este pormenor nunca foi explorado (?). N\u00e3o conhe\u00e7o nenhuma recens\u00e3o sobre o assunto. Os tr\u00eas arcos est\u00e3o l\u00e1.\u00a0 Em 1810!<\/p>\n<p>Duas quest\u00f5es pr\u00e9vias se colocam desde j\u00e1: saber se a reconstru\u00e7\u00e3o da casa \u00e9 posterior \u00e0 gravura de 1810 e se h\u00e1 registos das tr\u00eas janelas rasgadas em forma de arco?<\/p>\n<p>A posse da \u00abCasa de Cam\u00f5es\u00bb por parte do Bacharel Jo\u00e3o Ant\u00f3nio de Moraes, depois, Desembargador do Porto, foi algo atribulada fazendo lembrar os \u00abarranjos\u00bb de usucapi\u00e3o t\u00e3o conhecidos do Portugal real. Em 1813 veio o dito requerer \u00e0 c\u00e2mara constitucional da vila de Punhete, de que era juiz presidente Ant\u00f3nio Feio Montalvo,\u00a0<em>\u00abpara haver de o introduzir na posse dos antigos Pa\u00e7os do Concelho(\u2026)\u00bb. (2) \u00a0<\/em>Parece que o requerente\u00a0<em>\u00abcom certos pretextos\u00bb<\/em>, passa-se a citar,\u00a0<em>\u00abfora pouco a pouco demolindo as paredes interm\u00e9dias e entulhando clandestinamente as lojas do dito Pa\u00e7o pela porta de um quintal que junto tem e logo que o achou suficientemente entulhado mandara tapar a porta do seu quintal e se introduziu a servir-se pela porta do dito Pa\u00e7o\u00bb.\u00a0<\/em>Por aqui se v\u00ea que \u00e9 ju\u00edzo apressado escrever-se que o homem era \u00abpropriet\u00e1rio da casa\u00bb como j\u00e1 li recentemente na imprensa. Mas adiante\u2026 A c\u00e2mara, por sua vez, descontente com o\u00a0\u00a0<em>\u00abatentado contr\u00e1rio \u00a0ao Alvar\u00e1 de Lei de vinte e tr\u00eas de Julho de mil e setecentos e sessenta e seis\u00bb,<\/em>\u00a0denunciou os factos a Sua Majestade, corria isto o ano de 1817. O suplicado, entretanto, veio requerer \u00e0 nova c\u00e2mara, sendo presidente o mesmo Feio,\u00a0<em>\u00abpara haverem de lhe fazerem uma reforma de t\u00edtulos que nunca teve do solo que diz ser seu\u00bb.<\/em>\u00a0Via-se assim o Bacharel,\u00a0<em>\u00abperplexo e sem t\u00edtulos\u00bb<\/em>, levando para este fim v\u00e1rias testemunhas. \u00a0\u00a0O usucapi\u00e3o e as suas testemunhas\u2026<\/p>\n<p>A c\u00e2mara, dado o estado de ru\u00edna em que se achavam algumas paredes de v\u00e1rios edif\u00edcios da vila, determinou em verea\u00e7\u00e3o de 22 de Fevereiro de 1823, que fossem convocados\u00a0 Amaro Ribeiro e Sebasti\u00e3o Jos\u00e9 \u00aboficiais pedreiros e inteligentes\u00bb para, na companhia da mesma \u00a0c\u00e2mara, irem pelas ruas publicas da vila e declararem\u00a0 sob juramento quais os edif\u00edcios que amea\u00e7avam maior ru\u00edna. Tudo isto vem no agravo c\u00edvel (2).<\/p>\n<p>Num auto de vistoria de 1818 (3) conta-se que vieram o Provedor e Contador da Comarca de Tomar e mais os mestre carpinteiro Pedro Paulo de Azevedo (do Concelho) e Sebasti\u00e3o Ribeiro e Miguel Ribeiro (pedreiros chamados na aus\u00eancia dos do concelho) para<em>\u00a0\u00abque vissem e examinassem as casas que serviram em outro tempo de Passos do Concelho averiguando qual a sua extens\u00e3o, qual era o seu estado antes de fazer obras nelas o Doutor Jo\u00e3o Ant\u00f3nio de Moraes\u00bb. Ali se cita um \u00a0<\/em>ac\u00f3rd\u00e3o de 30 de Outubro de 1813 dos camaristas , a respeito da nova obra feita pelo \u00a0dito Bacharel.<\/p>\n<p>A documenta\u00e7\u00e3o trazida \u00e0 li\u00e7a parece provar assim que as obras de reconstru\u00e7\u00e3o s\u00e3o posteriores \u00e0 gravura de 1810 de Leith Hay.<\/p>\n<p>Neste auto de vistoria, os\u00a0 ajuramentados, passa-se a reproduzir,\u00a0<em>\u00abdeclararam mais que a dita nova obra feita por aquele doutor Ant\u00f3nio segundo o que ent\u00e3o viram e agora acham fora demolir parte dos dois arcos de tijolo que serviam de apoio aos emadeiramentos(\u2026)\u00bb.<\/em>\u00a0Estes arcos serviriam de comunica\u00e7\u00e3o com as lojas l\u00ea-se ali.<\/p>\n<p>Mais se l\u00ea que o dito Doutor Jo\u00e3o Ant\u00f3nio tivera vantagem nesta obra\u00a0<em>\u00abde se aproveitar de algum tijolo os arcos cuja quantidade n\u00e3o podem arbitrar segundo o tamanho que segundo a sua lembran\u00e7a tinham os arcos que estes seriam constru\u00eddos com mil tijolos pouco mais ou menos que d\u00e3o o valor de dois mil e quatrocentos reis a raz\u00e3o de duzentos e quarenta reis cada cento\u00bb. E prosseguem: \u00abpassara tamb\u00e9m a tirar o partido de se aproveitar da maior parte da pedra das paredes arruinadas e demolidas cuja quantidade arbitram em trinta carradas (\u2026) por ser pedra ordin\u00e1ria e nenhuma cantaria pois n\u00e3o havia no edif\u00edcio sen\u00e3o as ditas tr\u00eas janelas rasgadas (\u2026)\u00bb.\u00a0<\/em>Mais adiante surge nova refer\u00eancia \u00a0\u00e0s\u00a0<em>\u00abtr\u00eas janelas para o Tejo\u00bb.<\/em><\/p>\n<p>O \u00a0facto da gravura de 1810 apresentar tr\u00eas janelas rasgadas em arco coincide com os documentos que referem tr\u00eas janelas rasgadas para o Tejo. Teriam sido aproveitados os tijolos dos arcos demolidos para a constru\u00e7\u00e3o dos cinco arcos da varanda que o ciclone de 1941 derrubou? Fica a pergunta.<\/p>\n<p>O conhecido e conceituado arquitecto Raul Lino chegou a emitir parecer sobre a famosa casa::\u00a0<em>\u00abPelo todo desta constru\u00e7\u00e3o arruinada com seus arcos de alvenaria, seu ressalto de parede, e ainda pelo car\u00e1cter da \u00a0respectiva cachorrada esparsa, n\u00e3o tenho d\u00favidas em afirmar que se trata verosimilmente de uma constru\u00e7\u00e3o anterior \u00e0 \u00e9poca do Renascimento, com poss\u00edvel influ\u00eancia mud\u00e9jar. Os restos de cantaria que se divisam na parede posterior parece terem fei\u00e7\u00e3o nitidamente manuelina. Se tudo pertenceu \u00e0 mesma constru\u00e7\u00e3o, ter\u00edamos portanto restos de uma casa \u00e0 volta de 1500\u00bb.<\/em>\u00a0(4)<\/p>\n<p>Sabemos que foi o 2\u00ba Conde de Abrantes, Dom Jo\u00e3o de Almeida,\u00a0 que em 1515 assinou o alvar\u00e1 sobre a Casa que hoje conhecemos como \u00abCasa de Cam\u00f5es\u00bb ou \u00abCasa dos Arcos\u00bb. Essa descoberta deve-se ainda \u00e0 saudosa Dra M\u00aa Clara Pereira da Costa.<\/p>\n<p>Quanto aos \u00abarcos\u00bb temos uma certeza: a gravura de 1810 cont\u00e9m tr\u00eas arcos e os documentos dessa \u00e9poca referem a exist\u00eancia de \u00abtr\u00eas janelas rasgadas\u00bb\u2026 em arco (?).<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luz (Const\u00e2ncia)<\/p>\n<p>PS -n\u00e3o uso o dito AOLP<\/p>\n<p>(1)\u00a0Sob o t\u00edtulo\u00a0<em>\u00abPunhete from de opposite bank of the Tagus\u00bb<\/em>, de Leith Hay, com data de 1810, \u00a0biblioteca nacional digital.<\/p>\n<p>(2)Agravo C\u00edvel, de 27 de Abril de\u00a0 1823, A.N.T.T. Documento citado por Maria Clara Costa (1977), \u00a0em \u00abCasa de Cam\u00f5es\u00bb, edi\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o para a reconstru\u00e7\u00e3o da Casa de Cam\u00f5es em Const\u00e2ncia, subsidiada pelo Fundo de fomento Cultural da Secretaria de Estado da Cultura.<\/p>\n<p>(3)Auto de vistoria, 1818, A.N.T.T.\u00a0 Documento\u00a0 citado na mesma obra referida em (2) atr\u00e1s.<\/p>\n<p>(4)Raul Lino, in \u00abLu\u00eds de Cam\u00f5es em Const\u00e2ncia, pelo Dr Adriano Burguete, Lisboa, 1942.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/subsidios-para-a-historia-da-origem-dos-arcos-da-casa-de-camoes\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem em Const\u00e2ncia duas tradi\u00e7\u00f5es sobre o degredo de Cam\u00f5es que se perdem na mem\u00f3ria dos tempos e das quais o ilustre camonista, Dr Adriano Burguete, nos deixou registo nos seus estudos publicados nos anos 40. 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