{"id":35294,"date":"2021-06-02T21:42:21","date_gmt":"2021-06-02T20:42:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=35294"},"modified":"2021-06-02T21:42:21","modified_gmt":"2021-06-02T20:42:21","slug":"a-vidinha-de-um-professor-resignado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-vidinha-de-um-professor-resignado\/","title":{"rendered":"A vidinha de um professor resignado"},"content":{"rendered":"<p>Tudo corria, normalmente, no reino do professorado.<\/p>\n<p>As carreiras estavam congeladas e, por conseguinte, n\u00e3o havia grandes constrangimentos na progress\u00e3o da dita carreira, dado que, por raz\u00f5es do tal congelamento, ela simplesmente n\u00e3o existia.<\/p>\n<p>Toda a classe se indignou com a proposta da ministra da educa\u00e7\u00e3o, Maria de Lurdes Rodrigues, quando, em 2007, tentou criar o, ent\u00e3o designado, professor titular. Basicamente, um professor evoluiria, normalmente, at\u00e9 ao oitavo escal\u00e3o. Uma vez atingido o oitavo escal\u00e3o, o professor para progredir, deveria reunir um conjunto de requisitos. Que n\u00e3o!, gemeu a classe. Deu-se a tal manifesta\u00e7\u00e3o, em Lisboa, e at\u00e9 pareceu que existia uni\u00e3o na classe.<\/p>\n<p>O que se seguiu foi bem pior: em vez do funil, no oitavo escal\u00e3o, foram criadas duas barreiras, a montante, no quarto e no sexto escal\u00e3o. O que os sindicatos disseram, em rela\u00e7\u00e3o a esta aberra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei. Mas sei que o tal obst\u00e1culo \u00e0 progress\u00e3o na carreira n\u00e3o foi banido, mas, antes, colocado a montante, nos quarto e sexto escal\u00f5es.<\/p>\n<p>Desde o descongelamento da carreira, os professores t\u00eam experimentado uma diversidade de estados de alma que, no limite, leva ao desespero dos pr\u00f3prios e de quem, com eles, vive o drama de n\u00e3o lhes ver reconhecido o m\u00e9rito que o investimento de tempo, a dedica\u00e7\u00e3o e o altru\u00edsmo pela profiss\u00e3o recomendariam.<\/p>\n<p>Naturalmente que a opacidade verificada no sistema de avalia\u00e7\u00e3o do desempenho dos docentes serve, magistralmente, o clientelismo, o protecionismo e corrompe quem tem a possibilidade de decidir. O mais grave, no entanto, \u00e9 que divide a classe.<\/p>\n<p>N\u00e3o existem d\u00favidas de que h\u00e1 professores que mereceram, em abund\u00e2ncia, as men\u00e7\u00f5es de m\u00e9rito que lhes foram atribu\u00eddas. Contudo, tamb\u00e9m n\u00e3o existem d\u00favidas de que h\u00e1 professores que, quando comparados com outros professores a exercer no mesmo Agrupamento, foram beneficiados, na obten\u00e7\u00e3o das tais men\u00e7\u00f5es de m\u00e9rito, de uma forma injusta e, muitas vezes, absurda. Tal s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pela n\u00e3o publica\u00e7\u00e3o nominativa da lista das men\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas.<\/p>\n<p>Se um professor reclama e, posteriormente, recorre daquilo que julga ser uma tremenda injusti\u00e7a, emerge, entre os pares, o pior que a sociedade, dita de pensamento livre e mentalmente aut\u00f3noma, pode apresentar: o medo de serem conotados com quem teve a valentia de pugnar pelos seus direitos.<\/p>\n<p>Aos injusti\u00e7ados assiste o direito de, dentro dos limites que a Lei contempla, percorrer todos os caminhos que lhe permitam manifestar o seu descontentamento.<\/p>\n<p>Aos seus pares exige-se que, no m\u00ednimo, respeitem o destemor de quem foi mais al\u00e9m do que eles pr\u00f3prios iriam.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o. Os seus pares t\u00eam a sua vidinha. Aquela vidinha que recomenda que n\u00e3o agitem as \u00e1guas. E porque raz\u00e3o\u00a0 n\u00e3o agitam as \u00e1guas? Ser\u00e1 que \u00e9 porque foram alvo do tal favorecimento? Ou ser\u00e1\u00a0 porque a resigna\u00e7\u00e3o toma conta do \u00e2nimo de quem n\u00e3o sente temeridade para tentar tomar posse do que \u00e9 seu? Dizia Conf\u00facio que \u201cSaber o que \u00e9 correto e n\u00e3o o fazer \u00e9 falta de coragem\u201d. Por for\u00e7a de uma heran\u00e7a que, desgra\u00e7adamente, teima em permanecer no car\u00e1ter de uma grande franja dos portugueses, parece que o respeitinho prevalece, em detrimento do car\u00e1ter, da exig\u00eancia, da revolta de quem se julga com direito ao que n\u00e3o lhe \u00e9 reconhecido.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 muito agrad\u00e1vel, mas n\u00e3o h\u00e1 outra forma de concluir: existem professores que gostam de manter a sua vidinha. Gostam de n\u00e3o agitar as \u00e1guas. Gostam de agradar ao chefe, mesmo que isso ponha em causa\u00a0 o conceito de Justi\u00e7a. Preferem o anonimato de qualquer ovelha de um rebanho do que o hombridade de reconhecer, nos corajosos,\u00a0 a firmeza que nunca os caracterizou. S\u00f3 falta que gostem de colocar, a montante da sua assinatura, \u201ca Bem da Na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo que, \u00e0 \u00e9poca, Portugal vivesse em plena ditadura, os meus professores foram uma prova de car\u00e1ter e de coragem e, na sua esmagdora maioria, n\u00e3o se inibiram de transmiti-la aos seus alunos.<\/p>\n<p>Um bem-haja a esses.<\/p>\n<p>Francisco Jos\u00e9 Pereira Gon\u00e7alves<\/p>\n<p>Entroncamento<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-vidinha-de-um-professor-resignado\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo corria, normalmente, no reino do professorado. 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