{"id":34992,"date":"2021-03-11T14:35:11","date_gmt":"2021-03-11T14:35:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=34992"},"modified":"2021-06-11T10:34:42","modified_gmt":"2021-06-11T09:34:42","slug":"manuel-fernandes-vicente-os-rankings-as-escolas-e-o-principio-de-pareto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-os-rankings-as-escolas-e-o-principio-de-pareto\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Os rankings, as escolas e o Princ\u00edpio de Pareto"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nos \u00faltimos dias a opini\u00e3o publicada, lida, vista e escutada no pa\u00eds foi cilindrada com mais uma das pandemias de disparates, lugares comuns e insanidades de uma imagina\u00e7\u00e3o voraz sobre os <em>rankings<\/em> das escolas em 2020, como se de uma feira anual de vaidades se tratasse. S\u00e3o ideias que me fazem suspeitar que os quistos provocados pelo v\u00edrus est\u00e3o a produzir les\u00f5es mentais que v\u00e3o muito para al\u00e9m do que inicialmente se sup\u00f4s. E \u00e9 claro que, para al\u00e9m dos novos disparates emitidos, outros voltaram a replicar opini\u00f5es antigas, fosse por in\u00e9rcia mental ou, pior, por m\u00e1-f\u00e9. \u00c9 que mais parecem seguir um gui\u00e3o ideol\u00f3gico, com a agravante de permanecerem cegas \u00e0s raz\u00f5es e fundamentos que, ano ap\u00f3s ano, refutam o gui\u00e3o e explicam porqu\u00ea.<\/p>\n<p>Um exemplo do que pretendo dizer \u00e9 o de se querer comparar o desempenho revelado por col\u00e9gios e escolas privadas (que revelam mundos de muito poder, fausto, privil\u00e9gios econ\u00f3micos, sociais e culturais, e com toda a espiritualidade do capitalismo) com as escolas p\u00fablicas. E, mesmo nestas, comparar as que se situam em meios urbanos est\u00e1veis e estimulantes, que resistem como podem ao desgaste da classe m\u00e9dia, com outras, que acolhem os jovens problem\u00e1ticos provenientes das muitas minorias proscritas (embora oficialmente isso n\u00e3o seja verdade) e deserdadas dos arredores empobrecidos e decadentes \u00e0 volta dos polos econ\u00f3micos de Lisboa e do Porto. E, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s escolas dos meios rurais e interiores do pa\u00eds, isso hoje \u00e9 mais um exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o. J\u00e1 s\u00e3o muito poucas, e as que resistem, n\u00e3o v\u00e3o aguentar por muito tempo o plano inclinado instalado, que continua a levar tudo das serras do interior para o litoral.<\/p>\n<p>O problema da Educa\u00e7\u00e3o em Portugal n\u00e3o se pode revelar nos <em>rankings<\/em>, que s\u00f3 evidenciam as assimetrias econ\u00f3micas e sociais crescentes em Portugal, e que a globaliza\u00e7\u00e3o tem vindo a acentuar. O grande caso da Educa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 em colocar umas escolas em confronto com outras para, por puro <em>voyeurismo<\/em>, ficar a contemplar quais as que ficaram umas d\u00e9cimas de unidade acima ou umas cent\u00e9simas abaixo. No fundo, a sua autonomia \u00e9 muito limitada (apesar de nunca se ter falado tanto de autonomia escolar, que s\u00f3 serve para resolver as situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis e que o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o preferia que n\u00e3o existissem, delegando a sua resolu\u00e7\u00e3o \u00e0s escolas), o grande problema da Educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 relacionado com a hiperatividade legislativa dos \u00faltimos Governos da na\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pelos desmandos da pseudopedagogia democr\u00e1tica de Jos\u00e9 S\u00f3crates e associados. A verborreia discursiva e a incontin\u00eancia verbal pl\u00e1cida que nestes \u00faltimos t\u00eam sido produzidos, e que tiveram em Lurdes Rodrigues, Nuno Crato e Tiago Brand\u00e3o rouxin\u00f3is condignos e exaltantes, podiam ter como ep\u00edlogo o c\u00e9u azul de um mundo novo e admir\u00e1vel. Mas tiveram, no m\u00ednimo, um problema: confundiram ideias destemperadas e complicadotas com a realidade, que normalmente \u00e9 pouco dada a preocupar-se com utopias de catecismo.<\/p>\n<p>A voluntariedade legislativa e a abnega\u00e7\u00e3o criativa das governan\u00e7as que t\u00eam conduzido o leme da Educa\u00e7\u00e3o neste mil\u00e9nio s\u00e3o emocionantes. Ali, naquele mundo que ergueu a bandeira de vontades igualit\u00e1rias \u00e0 for\u00e7a, ningu\u00e9m se poupou a esfor\u00e7os para legislar, decretar, despachar, regulamentar, projetar, planificar, modular e revolucionar de alto a baixo todo o sistema educativo e a lei de bases existente. At\u00e9 aceito que as inten\u00e7\u00f5es tenham sido generosas, mas os resultados foram deplor\u00e1veis. O que os gurus da Educa\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o raro andaram a navegar em Z, consoante as modas das novas correntes pedag\u00f3gicas americanas, do caso de estudo finland\u00eas ou do ensino dual da Alemanha, criaram em Portugal foi um labirinto legislativo inaceit\u00e1vel e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma teia de despachos, normativos e circulares t\u00e3o sinistra, confusa e inintelig\u00edvel, que acabaram por imobilizar ou anestesiar quem nela se viu envolvido.<\/p>\n<p>\u00c9 incr\u00edvel o ritmo e a vertigem alucinante em que esses gurus, que tiveram um dia uma vis\u00e3o, se deixaram viciar, com as leis a terem o tempo de vida de uma nuvem, e as convic\u00e7\u00f5es a durarem o per\u00edodo de tempo entre dois caf\u00e9s que dois s\u00e1bios diferentes lhes ofereceram ao balc\u00e3o de um <em>snack-bar<\/em>. E assim fizeram leis de ideias t\u00e3o ben\u00e9volas como a flexibilidade curricular, a igualdade de oportunidades para todos, as medidas de integra\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o, os desafios do futuro, a adapta\u00e7\u00e3o da escola ao s\u00e9culo XXI, a cria\u00e7\u00e3o de modelos de ensino mais apelativos e a cria\u00e7\u00e3o de bons ambientes de aprendizagem com um ensino focado nos alunos. Mas, como \u00e9 poss\u00edvel este ensino focado em cada aluno, com 30 alunos numa turma e 45 minutos pela frente, que os mesmos s\u00e1bios criaram. Estas ideias, generosas, se antes n\u00e3o fossem absurdas, bizarras e irrespons\u00e1veis, tiveram quatro efeitos reais. N\u00e3o resolveram os problemas concretos e profundos do insucesso educativo, deram ares e transmitiram para a sociedade que <em>\u00e7a va bien, <\/em>mas s\u00f3 o ia por decreto, aumentaram o sofrimento dos professores, que deixaram de ver o ensino como uma miss\u00e3o para ser um hor\u00e1rio a cumprir de reuni\u00f5es e de preenchimento de um incont\u00e1vel n\u00famero de atas, matrizes, relat\u00f3rios, grelhas em papel e plataformas e servidores da <em>Internet<\/em> e, por fim, transformaram as escolas e as aprendizagens em lugares sombrios, deprimentes e adoentados. \u00c0 profiss\u00e3o de docente, com toda a nobreza, sentido de vida e de voca\u00e7\u00e3o, e pilar de qualquer sociedade que se preza, retiraram quase tudo, a come\u00e7ar pela autoridade natural, humana e cient\u00edfica que a sociedade tamb\u00e9m naturalmente lhe outorga, mas os vision\u00e1rios t\u00eam alienado e desprezado. E os professores carregaram esse vazio com um fardo de \u00a0burocracias esgotantes e numa coreografia de procedimentos completamente bizarra e <em>kafkiana<\/em>.<\/p>\n<p>O que estes fan\u00e1ticos do eduqu\u00eas geraram nas escolas foi um ambiente de inacredit\u00e1vel irresponsabilidade, de facilitismo e de tontarias fora de qualquer sentido da realidade. Com eles a ditar, os alunos nunca ir\u00e3o experimentar o prazer de superar dificuldades, de cultivar o prazer do esfor\u00e7o e de enfrentar desafios s\u00e9rios ou persistir perante problemas mais complexos, ou de irem mais al\u00e9m\u2026 A quest\u00e3o \u00e9 que a sociedade \u00e9 complicada (e cada vez mais), e a escola n\u00e3o os est\u00e1 a preparar para isso, colocando escadas rolantes e passadeiras de veludo onde devia haver esfor\u00e7o e tenacidade. Mas, como eles, os devotos do eduqu\u00eas, est\u00e3o instalados e almofadados em gabinetes distantes das detona\u00e7\u00f5es dos seus dislates insanos, nunca se v\u00e3o aperceber disso, nem sequer v\u00e3o procurar saber, porque antes da hecatombe v\u00eam as suas ideias e os seus dogmas.<\/p>\n<p>A verdade de tudo isto passa tamb\u00e9m pelo Princ\u00edpio de Pareto, igualmente conhecida por lei dos 80\/20, baseada em observa\u00e7\u00f5es realizadas pelo soci\u00f3logo italiano Vilfredo Pareto e que \u00e9 aplic\u00e1vel a muitos mundos, e que tem algo de incompreens\u00edvel, mas verdadeiro, em muitas situa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o tem um enunciado formal, mas ele entende-se logo com a reuni\u00e3o de alguns exemplos: 80 por cento da riqueza de um pa\u00eds est\u00e1 nas m\u00e3os de 20 por cento dos seus cidad\u00e3os; 80 por cento da polui\u00e7\u00e3o mundial \u00e9 causada por 20 por cento dos pa\u00edses; ou\u00a0 20 por cento das pessoas de um pa\u00eds possuem 80 por cento das suas terras\u2026<\/p>\n<p>Na educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m haver\u00e1 as suas implica\u00e7\u00f5es: 80 por cento das notas mais altas s\u00e3o obtidas por 20 por cento dos alunos; ou 80 por cento dos lugares mais altos dos <em>rankings<\/em> s\u00e3o obtidos por 20 por cento de certos tipos de escolas. Irei acrescentar outro exemplo numa vers\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 testada, nem nunca estar\u00e1, e por isso nada tem de cient\u00edfico, apesar de eu acreditar que \u00e9 verdade: \u00e9 que 80 por cento dos trabalhos dos professores nas escolas e em casa s\u00e3o consumidos em burocracias in\u00fateis, e s\u00f3 20 por cento aproveitam verdadeiramente aos alunos. Mas a culpa n\u00e3o \u00e9 deles, antes pelo contr\u00e1rio. Foi nisto que deu tanta legisla\u00e7\u00e3o e tontaria\u2026<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-os-rankings-as-escolas-e-o-principio-de-pareto\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos dias a opini\u00e3o publicada, lida, vista e escutada no pa\u00eds foi cilindrada com mais uma das pandemias de disparates, lugares comuns e insanidades de uma imagina\u00e7\u00e3o voraz sobre os rankings das escolas em 2020, como se de uma feira anual de vaidades se tratasse. 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