{"id":34142,"date":"2021-04-24T15:42:01","date_gmt":"2021-04-24T14:42:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=34142"},"modified":"2021-06-02T13:27:48","modified_gmt":"2021-06-02T12:27:48","slug":"conheci-te-pela-voz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/conheci-te-pela-voz\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Conheci-te pela voz\u2026"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>O lugar tem esp\u00edrito e \u00e9 o s\u00edtio das coisas simples, singulares e apraz\u00edveis. \u00c9 a\u00ed que encontramos, no outonal tempo delas, as castanhas assadas a crepitar do fogo dos assadores a enviar mensagens em aromas sugestivos e sedutores para o atmosfera h\u00famida e fumarenta, e depois serem vendidas \u00e0 d\u00fazia e possivelmente embrulhadas ainda em folhas das velhas p\u00e1ginas amarelas ou de jornais que ainda anunciam a \u00faltima vit\u00f3ria do Sporting no campeonato de futebol. Ou, j\u00e1 com o ver\u00e3o adiantado, todos a\u00ed regalar-se com um gelado para acalmar a calina, e retomar o destino mais refrescados e com sentimentos mais positivos e po\u00e9ticos. A\u00ed podemos encontrar tamb\u00e9m o pouso de uma das suas esplanadas, a pausa do caf\u00e9 a meio da manh\u00e3, a vis\u00e3o apraz\u00edvel e os aromas dos amores-perfeitos, as buc\u00f3licas ilumina\u00e7\u00f5es de Natal e Ano Novo, a sombra que \u00e9 um abrigo regenerador dos fins de tarde, nem mesmo a melancolia lhe falta, quando das caminhadas a s\u00f3s ao in\u00edcio da noite. Ou ent\u00e3o as barraquinhas das festas da cidade, quando as havia, porque agora os tempos as desaconselham, e este ano voltamos a penitenciar-nos da anima\u00e7\u00e3o daqueles dias diferentes, da m\u00fasica, das jantaradas em mesa corrida e a c\u00e9u aberto, e da convivialidade bem untada com sardinhas e regada a vinho ou cervejas que sempre traziam. E, <em>last but not least<\/em>, a Rua Lu\u00edz Falc\u00e3o de Sommer, mais conhecida pela rua calcetada ou rua pedonal, e \u00e9 sobre ela que come\u00e7\u00e1mos a divagar desde o in\u00edcio, \u00e9 o lugar dos encontros improv\u00e1veis e imprevistos na cidade, o s\u00edtio do avistamento de um amigo, de algu\u00e9m conhecido ou de pessoas que outrora v\u00edamos todos os dias e, entretanto, a vida afastou de n\u00f3s durante anos, tantos que j\u00e1 n\u00e3o sabemos quantos.<\/p>\n<p>Esta rua tem a sua magia, ou ganhou o direito a pensarmos que a tem, tal o n\u00famero destes encontros motivados pela sorte, pelo acaso, ou por uma daquelas simples coincid\u00eancias com que a vida, felizmente, gosta de nos presentear, embora na maior parte das vezes, muitos de n\u00f3s n\u00e3o damos por isso, nem estamos sequer dispostos a aceitar como d\u00e1divas, para continuarmos a dizer mal dela.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a Lu\u00edz Falc\u00e3o de Sommer n\u00e3o \u00e9 nenhum modelo urbano, e muito menos um prod\u00edgio urban\u00edstico, nem sequer a cal\u00e7ada \u00e0 portuguesa com que foi pavimentada \u00e9 um primor. Poderiam ser usados padr\u00f5es para os desenhos com os seus pequenos cubos brancos e pretos motivos mais identit\u00e1rios, mais em conformidade com aspetos que nos d\u00e3o car\u00e1cter e alma, e n\u00e3o motivos destitu\u00eddos de significado e sem qualquer sugest\u00e3o de beleza. Como muitas outras coisas realizadas na cidade, a cal\u00e7ada que a\u00ed despejaram sem gosto, nem sensibilidade, nem intelig\u00eancia, foi ali feita sem esplendor e apenas para despachar\u2026 Mas n\u00e3o \u00e9 isso que, mesmo sendo um sinal de algum defeito, lhe retira o seu <em>\u00e9lan<\/em>, o seu esp\u00edrito e aquela aptid\u00e3o rar\u00edssima para proporcionar o improv\u00e1vel, sobretudo nesta \u00e9poca de \u201ctransi\u00e7\u00e3o digital\u201d (mais uma daquelas express\u00f5es que j\u00e1 pegaram de estaca, obrigado Ant\u00f3nio Costa!), compras <em>online<\/em> e entregas em casa, e fazer-nos encontrar amigos e pessoas que estiveram nas nossas vidas, e agora reencontramos muitos anos depois\u00a0 \u0336\u00a0\u00a0 amigos de adolesc\u00eancia e dos jogos de futebol de rua, colegas de liceu e dos jogos de matraquilhos, de bilhar e de <em>ping-pong<\/em>, atletas dos treinos e das corridas de estrada pelo CLAC do Entroncamento (muitos deles campe\u00f5es, e medalhas de ouro, sobretudo como seres humanos), antigos alunos e alunas, com grandes hist\u00f3rias de vida e aventuras para contar, os meus inigual\u00e1veis colegas da escola, e grandes professores, que ficaram amigos depois dela, e outros <em>compagnons de route<\/em>, nas formas mais singulares que se possa imaginar. Parece que o grande des\u00edgnio daquela via de andar a p\u00e9 \u00e9 mesmo o de gerar estes encontros, impedindo que empatias antigas morressem no desconsolo da dist\u00e2ncia dos tempos modernos\u2026<\/p>\n<p>E \u00e9 a estes tempos modernos, de muito confinamento, pouca liberdade para circular e nenhuma para conviver ou reunir, sem ser pelo Zoom, com que um misterioso v\u00edrus nos encafuou dentro das paredes de casa, e com os olhos j\u00e1 envidrados de tanto recurso ao computador, aos telem\u00f3veis e aos <em>\u00e9crans<\/em> dos televisores, que cheg\u00e1mos. Sa\u00edmos de casa, sinistramente embioucados com umas m\u00e1scaras preventivas puxadas at\u00e9 aos olhos, e com que agora percorremos as ruas e avenidas em anonimatos rec\u00edprocos\u00a0 \u0336\u00a0 necess\u00e1rios como medida preventiva para evitar a contamina\u00e7\u00e3o pelas virulentas estirpes, mas de efeitos psicol\u00f3gicos e at\u00e9 sociol\u00f3gicos dif\u00edceis ainda de prevenir e avaliar. E \u00e9 neste ponto, sem poesia nem transcend\u00eancia, que nos encontramos.<\/p>\n<p>Ultimamente, tem-me acontecido um fen\u00f3meno curioso, e j\u00e1 com alguns epis\u00f3dios ilustrativos que t\u00eam ocorrido na rua calcetada, e que n\u00e3o tem diminu\u00eddo a sua magia, at\u00e9 talvez bem pelo contr\u00e1rio. Embioucados, como faziam as mulheres do Algarve no final do s\u00e9culo XIX para passarem despercebidas nas suas terras, cruzamo-nos nas ruas sem nos reconhecermos. E enquanto conversamos com algu\u00e9m no meio da via pedonal sobre o tempo, o milagre do Sporting ganhar este ano o campeonato ou, inevitavelmente, a pandemia e o processo de vacina\u00e7\u00e3o em curso, ou, simplesmente, para p\u00f4r a conversa em dia, outro algu\u00e9m, muda subitamente de dire\u00e7\u00e3o e dirige-se a n\u00f3s, baixa a m\u00e1scara, eleva a voz, e desfere:<\/p>\n<p>\u0336\u00a0 Ol\u00e1, Vicente! Conheci-te pela voz.<\/p>\n<p>J\u00e1 me sucedeu ali algumas vezes, e tamb\u00e9m j\u00e1 noutras aconteceu o mesmo, mas ao contr\u00e1rio:<\/p>\n<p>\u0336 Ol\u00e1, Francisco! Conheci-te pela voz.<\/p>\n<p>\u00c9 este o insuspeito poder do timbre da nossa voz que a pandemia veio evidenciar mais, e agora com exuber\u00e2ncia, estamos a reconhecer-nos uns aos outros por uma caracter\u00edstica secreta de cada um de n\u00f3s, que \u00e9 \u00fanica, como uma impress\u00e3o digital, e uma maravilha que agora nos permite sermos reconhecidos por quem nos estima, e que, de outro modo, passaria fazendo com que parec\u00eassemos dois estranhos.<\/p>\n<p>\u0336\u00a0 Ol\u00e1, Segismundo! Conheci-te pela voz\u2026<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/conheci-te-pela-voz\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O lugar tem esp\u00edrito e \u00e9 o s\u00edtio das coisas simples, singulares e apraz\u00edveis. \u00c9 a\u00ed que encontramos, no outonal tempo delas, as castanhas assadas a crepitar do fogo dos assadores a enviar mensagens em aromas sugestivos e sedutores para o atmosfera h\u00famida e fumarenta, e depois serem vendidas \u00e0 d\u00fazia e possivelmente embrulhadas ainda [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-34142","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34142","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34142"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34142\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34142"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34142"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34142"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}