{"id":30682,"date":"2021-02-25T11:22:36","date_gmt":"2021-02-25T11:22:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=30682"},"modified":"2021-02-25T11:22:36","modified_gmt":"2021-02-25T11:22:36","slug":"historia-de-vida-de-uma-mulher-que-acartava-os-barrotes-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/historia-de-vida-de-uma-mulher-que-acartava-os-barrotes-do-rio\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria de vida de uma\u00a0 mulher que acartava os barrotes do rio"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Hist\u00f3rias de vida no feminino\u201d \u00e9 o t\u00edtulo da iniciativa com a qual o Museu dos Rios e das Artes Mar\u00edtimas de Const\u00e2ncia. vai assinalar o Dia Internacional da Mulher. A actividade \u00e9 dinamizada online. De acordo com o noticiado \u00abNa hist\u00f3ria da nossa vida todos temos, pelo menos, uma mulher que pela sua atitude corajosa, generosa e resiliente ou pela sua criatividade ou habilidade, foi not\u00e1vel aos nossos olhos\u2026\u00bb.. Com o intuito de perpetuar a hist\u00f3ria dessas mulheres que nos marcaram ou marcam, o Museu lan\u00e7a o repto aos participantes que queiram enviar textos e fotos para defesa das mem\u00f3rias colectivas os quais depois divulgar\u00e1. Quando na edi\u00e7\u00e3o anterior do grupo das redes sociais \u00abAmigos de Const\u00e2ncia\u00bb, creio que em 2011 ou 2012, referi um caso de uma mulher de Const\u00e2ncia que come\u00e7ou a trabalhar desde muito cedo, a acartar barrotes do &#8220;rio&#8221; e que fazia as redes de pesca , o ent\u00e3o presidente quis logo saber quem era para se fazer uma esp\u00e9cie de retrato sobre essas mem\u00f3rias. At\u00e9 hoje a mulher do \u00abrio\u00bb que nos anos 40 fazia trabalho de homem, ainda n\u00e3o foi contactada. Por acaso a pessoa que atr\u00e1s refiro \u00e9 uma das mulheres que chegou a integrar o N\u00facleo de Const\u00e2ncia do MDM no in\u00edcio dos anos 90. E, j\u00e1 agora, era uma simpatizante activa do MDP\/CDE. mesmo antes da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril e sempre se manteve fiel a esse ide\u00e1rio, at\u00e9 \u00e0 sua dissolu\u00e7\u00e3o. Com ela assisti \u00e0s sess\u00f5es pol\u00edticas durante a Revolu\u00e7\u00e3o e no PREC no antigo cine-teatro, quando no calor dessas assembleias se faziam acusa\u00e7\u00f5es de \u00abvira-casacas\u00bb.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-30683 alignright\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/madeira_.jpg\" alt=\"\" width=\"384\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/madeira_.jpg 384w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/madeira_-248x420.jpg 248w\" sizes=\"auto, (max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/>Com ela cheguei a ir ao posto antigo da GNR v\u00e1rias vezes, por causa dos PIDES que em 1974 andavam fugidos por aqui e eram objecto de mandado. Recordo-me pelo menos de dois casos em que esses agentes se refugiaram na zona norte da EN n\u00ba3 da vila,, pela calada da noite. Sabia-se dessas movimenta\u00e7\u00f5es na zona e o perfil dos ditos n\u00e3o enganava. Com o meu pai muitas vezes de preven\u00e7\u00e3o nos quart\u00e9is, chegado da guerra de \u00c1frica, viv\u00edamos as conting\u00eancias duma iminente guerra civil. Como isso marca uma crian\u00e7a! Est\u00e1vamos colados ao antigo r\u00e1dio, procurando os postos que mais ousadamente furavam o regime ou, depois, a \u00absitua\u00e7\u00e3o\u00bb. Com ela assisti no cimo da encosta do Z\u00eazere, aos v\u00f4os rasantes nos P\u00e1ra-quedistas em 1975 quando pouca gente ousava sair de casa. Uma hist\u00f3ria de vida que passa pelo \u00abrio\u00bb a acartar barrotes que vinham a flutuar nas \u00e1guas e que depois eram transportados para as camionetas. Ganhava 12 escudos por dia e trabalhava para os empreiteiros dos Vieiras e dos Cruzes. Ganhava como as mulheres maiores de idade.<\/p>\n<p>O peso e a viol\u00eancia da tarefa, que os homens ali exerciam, era tamb\u00e9m o seu carma. Andou pelo campo na apanha da azeitona, esteve em servi\u00e7o de casas no Algarve, de parentes da fam\u00edlia Duarte Ferreira, em Alpiar\u00e7a, numa Quinta famosa, Dom Jo\u00e3o, que recebia o Presidente da Rep\u00fablica ao fim de semana, na Goleg\u00e3, na casa de um m\u00e9dico conhecido, eu sei l\u00e1. Uma hist\u00f3ria de vida que come\u00e7ou em Abrantes e em Lisboa, em casa da tia e da av\u00f3 que a criou, e que passou por Viseu, depois, j\u00e1 com os pais e irm\u00e3os, v\u00e1rias vezes, at\u00e9 chegar a Const\u00e2ncia em 1937. O pai era militar e foi mobilizado v\u00e1rias vezes o que implicava levar a fam\u00edlia \u00e0s costas. Uma hist\u00f3ria de vida que passou depois por Tancos militar onde foi a primeira funcion\u00e1ria a coser p\u00e1ra-quedas em Portugal. O machismo de Kaulza de Arriaga viria a reservar aos homens o monop\u00f3lio dos p\u00e1ra-quedas. E os empregos na \u00e1rea foram extintos para as mulheres. Anos de servi\u00e7o perdidos. Mem\u00f3rias de quem ainda tem a mem\u00f3ria de ter sido v\u00edtima de um crime atroz em Viseu, de uma tentativa de rapto, a caminho da Quinta do Viriato. E tantas viv\u00eancias que fazem da vida desta mulher uma pel\u00edcula agridoce que s\u00f3 me orgulha do ventre de onde sa\u00ed. O ent\u00e3o presidente da CMC que desistiu r\u00e1pido de perseguir o seu retrato, perdeu a oportunidade de um retrato de vida. Outros haver\u00e1 e que agora esta iniciativa da edilidade de procurar retratos de vida de mulheres an\u00f3nimas, os ajude a recuperar para mem\u00f3ria de todos aquilo que ontem rejeitaram.<\/p>\n<p>Desde a participa\u00e7\u00e3o nos teatros, nas revistas, nas operetas, no rancho, nos cortejos de oferendas, quer como membro quer como filha de um dos principais organizadores, trabalhava no duro para a comunidade constanciense e era ainda em casa o bra\u00e7o forte duma fam\u00edlia numerosa. Sempre lutou e labutou pelo amor da sua vida, \u00abcontra tudo e contra todos\u00bb como se fiz na g\u00edria.. E fugia de bicicleta para ir ao seu encontro nesses tempos autorit\u00e1rios de namoro \u00e0 janela a lembrar os tempos medievais. Mas n\u00e3o! Esta mulher n\u00e3o aceitava a tradi\u00e7\u00e3o pouco consent\u00e2nea com a dignidade das mulheres. \u00c9 uma hist\u00f3ria linda de amor A dessa mulher e do seu marido o qual dentro de dias, faria 90 anos. \u00c9 a hist\u00f3ria da mulher que a c\u00e2mara chegou a querer retratar antes de saber o nome. Sabia parte da hist\u00f3ria. Mas n\u00e3o sabia o nome. E quando o soube, j\u00e1 n\u00e3o queria saber&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria de sofrimento e de luta her\u00f3ica contra a maldita doen\u00e7a, h\u00e1 duas d\u00e9cadas. \u00c9 um testemunho de resist\u00eancia como nunca vi. Fa\u00e7o parte dessa hist\u00f3ria. Estou dentro da hist\u00f3ria. \u00c9 a hist\u00f3ria da menina que um dia destravou o carro de pra\u00e7a do tio, o \u00abFonaca\u00bb de Abrantes, o padrinho, Chauffeur, fazendo-o entrar pelo Chave d&#8217;Ouro adentro na Bar\u00e3o da Batalha, ali, paredes meias na rua onde nasceu, das Flores. A menina que nos anos 30 calcorreava as ruas de Lisboa, descendo pela Luciano Cordeiro at\u00e9 perder de vista a sua tia artista que tocava piano e era corista. A menina que espreitava da varanda no Largo da Anunciada e que viu no Coliseu a estreia de \u00abJesus Cristo\u00bb. Meu Deus, h\u00e1 quantos anos foi isso. A menina que ia de comboio de Abrantes para Lisboa com a av\u00f3 a quem o regime sequestrou o marido para as col\u00f3nias. A av\u00f3, a peixeira de Abrantes com quem percorria a Rua da sardinha. Esta tamb\u00e9m era uma hero\u00edna que ficou com uma data de filhos para criar. Hist\u00f3rias de vida de uma mulher an\u00f3nima no feminino. Para celebrar o dia internacional das mulheres..<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luz (Const\u00e2ncia)<\/p>\n<p>PS &#8211; n\u00e3o uso o dito AOLP<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/historia-de-vida-de-uma-mulher-que-acartava-os-barrotes-do-rio\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Hist\u00f3rias de vida no feminino\u201d \u00e9 o t\u00edtulo da iniciativa com a qual o Museu dos Rios e das Artes Mar\u00edtimas de Const\u00e2ncia. vai assinalar o Dia Internacional da Mulher. 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